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Saídas nocturnas














Saio de casa e são sempre noites que
encontro.
tocam-me na fronte,
disparam morcegos e almofadas.
são ovelhas na tosquia, secas,
(sem o romantismo inglês da
lã.)
almofadas sem lã disparadas sobre mim.

Ruas graves, pintadas de crime,
e os candeeiros são testemunhas:
apontam com os dedos
luminosos para lá.
Os meus pés presenciam um genocídio de
formigas, de sémen que é dispensado
sempre que piso o chão.

E a rua enche-se de breu.
caem os candeeiros
e as estrelas presas aos candeeiros,
e as mãos
e as roldanas que as movem caem também.
Os pés, esses, continuam.
São breu,
sou eu.

Adriano Narciso

O degrau

A pele entra em ebulição, os olhos gelam, o corpo é um completo paradoxo.

- Sento-me numa escada e vejo outros subirem, descerem. Os objectivos de vida sobem e descem com eles. Eu, estático, fico-me naquele mesmo degrau. Os objectivos desistiram de mim e desceram. Saíram porta fora e comprimiram-se no vento gelado da rua.

Adriano Narciso

Religião


















Prendo-te as mãos ao p
eito,
Elas caíam de outra forma.

Há muito tempo deixou de fluir sangue,
divino vinho do corpo,
por esse corpo árido, sem uvas.

Prendo-as e elas insistem em cair.
rebolarem pelo teu corpo
(passarem pelo ventre originário, precursor: éden)
e caírem num chão que,
de tão fecundo as destrua,
tornando-as úteis, funcionais.

Por enquanto são só crentes,
mãos em concha, juntas.
São ligação Deus – músculo sagrado
(coração, fibra primeira)
só te servem de consolo, não escavam a terra,
inúteis na criação.
Na vivência desmesurada.

Adriano Narciso

O beijo


A bomba caía,
Leve.
[Asas dúbias,
Ícaro de pólvora com asas de metal que derretem no sol
o]

Risca o céu;
enviesa,
cruza pórticos transcendentes que clamam a deus,
pórticos que sopram em vão os rastilhos
acesos como sóis em quartos escuros
que se esmorecem sobre a terra e
atingem a matéria das flores.

os campos aninham-se.
jazem juntos. Amontoam-se corpos nus.
[as explosões são tão eficazes a unir pessoas
que as destroem]

Antes da morte há segundos em que se ama o mundo
como é
ama-se tudo de todas as formas,
formas saudosas,
imagem exangue de
lírios a baterem com as pétalas noutros lírios.

explosões influem e o amor é tanto
que somos todos os dois amantes do desenho de klimt.
no fim
a cegueira é imagens de lírios.

Adriano Narciso

Reflexo psicanalítico de um Édipo




As mulheres correm plenas de ar
por entre vácuos recém-nascidos
que as respiram,
consomem-nas carnalmente
como cigarros durante a guerra

Da cópula sai terra,
fogo,
Rebentam-se as águas
e o lume que saía
escorreito
extingue-se como o sexo pueril
na sociedade pré-freudiana.

Saem bebés das lúgubres mulheres.
Munem-se das facas bronquiais, dos laços umbilicais.
são causa primeira dos rasgos na polpa maternal,
que expele CO2 e H2O com corante vermelho-carmesim.

Há lápides pintadas de consaguinidade no fim

Adriano Narciso

No Café


Chego e entro.
O café e a empregada jazem no mesmo sítio.
Mudos,
Suplicam por mim,
enchem as pupilas nauseabundas de luz
ao verem-me ser cliente.

Sento-me no lugar da cadeira.
não se incomoda e dá-me as boas vindas
de quatro.

Cheiro o ar e sou pulmão
do café, respiro por ele.
depuro

Chega a mulher, arrasta-se, exaspera,
reza pelo pedido com olhos moles
que parecem beatas no chão.
Consumida.
:
-um café e um pastel (s.f.f.)

(traz-me tudo aquilo como se traz uma hóstia,
como quem crê na salvação através da comida)

Bebo, como, leio Dostoievski
e a mulher arrota por mim. Alegra-se por ser miserável.
Se lhe pedisse, vomitava.
:
-A conta se faz favor.
Pago, saio. sou
metástase

Adriano Narciso

A morte de um 'homem-gato' - de Adriano Narciso


A morte de um 'homem-gato'

[os corpos movem-se elipticamente, pintando o crepúsculo de um azul-baço. seguem-me o fio do olhar e queimam-no, sopram-no friamente. são corpos quentes.]

-Nasci outra vez, conheci novamente a morte do gato. Tem duas horas de vida e não sabe. Chego a casa. Está a beber água. os lábios mordem-se, entrelaçando-se. a água mistura-se com os silvos secos do sangue.

Deita-se e dorme, inconsciente do sofrimento que nos move. dez minutos e noite.
sento-me ao lado. durmo e acordo.


Adriano Narciso

O semblante de um homem angustiado - de Adriano Narciso




O semblante de um homem angustiado é uma sala vazia com uma natureza morta no meio, em cima de um cavalete (as tintas ainda escorrem sobre a tela). O tecido dos sofás, de tão puído, cede a sua consistência ao próximo que se sentar. Mesas são tripés; as pernas soltas são lanças enfiadas em frigoríficos que expelem pelos poros improvisados tetrafluoroetano, que inunda a sala e a transforma num Alasca tóxico de emoções.

Adriano Narciso

Um poema de Adriano Narciso - Monólogo de um deus solitário




A carne exala credos:
É todo um rosário de madrepérolas vermelhas,
úteros em ebulição.
Carne que é extensão da libido quando ouve orações a virgens
fecundadas

Sentado na Mesa,
doze lugares vagos. Ecos da minha voz.
Eu, a minha Carne e a Roupa somos Espírito santo;
a Santíssima Trindade pedindo um café!

Não queremos pão!,
gritam.

'Não há fome,
Não há palavra,
não há ressurreição!’
brado a paredes surdas, altares sem hóstias,
vinho, não há batinas,
as velas apagam-se.

riem-se.
São cordeiros que assistem, hereges,
à derradeira missa.
uma paisagem idílica ao fundo:
lírios, magnólias, espinhos cravados em cabeças suadas.
éden sentiria inveja deste horizonte
mas os risos torrentes
violentam pulmões de cordeiros.

Por isso nego anjos, trombetas e anunciações.
Gabriel em decadência!

Adriano Narciso

Um poema de Adriano Narciso



Mães navegantes em luas filiais
são terras, planetas,
orações subordinadas a luas enfermas.

Progenitoras expectantes
pelo eclipse lunar.
Lobas abruptas sem força,
sem luz (sem cio)
lunáticas
alunares

Mães sem etimologia
são mulheres sem género,
são homens, crianças,
sem género,
sem número, sem filhos.

Adriano Narciso