ao telefone
- estou
- está lá?
- sim?
- é do escritório do sotôr?
- é sim.
- e ele está?
- está sim
- e pode chamá-lo?
- é o próprio.
- como?
- é ele
- ele quem?
- o advogado
- qual advogado?
- o sotôr, com quem deseja falar
- como sabe com quem desejo falar?
- o senhor deseja falar comigo, perguntou por mim.
- e a secretária?
- não existe secretária neste escritório, só secretário.
- e onde está o secretário?
- o secretário hoje não pôde vir.
- e o advogado é que atende o telefone?
- sim, por que não haveria de atender?
- é estranho não haver quem me passe ao advogado, desconfio de advogados que atendem o telefone. Provavelmente têm pouco trabalho. Se têm pouco trabalho são incompetentes. Se são incompetentes não servem.
[a chamada foi interrompida]
[tn]
[...]
[...]
outra história de amor
Um dia o senhor A e o senhor B separaram-se, indo cada um para o seu lado. Do senhor B nunca mais ninguém soube, desapareceu, sumiu, mas o senhor A nunca deixou de falar dele e, porque falava sempre mal, todos pensavam que ele o odiava.
A verdade, no entanto, era outra.
História de Amor
O senhor A acreditava ser melhor escritor que JP, no entanto invejava a sua juventude e beleza.
Um dia o senhor A cansado de imaginar conversas de circunstância com JP aproveitou a sua presença na sala e ignorando toda a plateia sussurrou-lhe: - Dançamos?
Joaquim Maria
café com leite
- O açúcar ainda não está derretido.
Para mo provar, bateu com a colher várias vezes no fundo do copo. Recomeçou a mexer metodicamente a beberagem, com uma energia redobrada. Voltas e mais voltas, sem parar, eternamente. Voltas e mais voltas e mais voltas. E continuava a olhar para mim, sorrindo. Então puxei da pistola e disparei.
Max Aub
in Crimes Exemplares
novo reforço
[tn]
kafkas e jovens poetas da ria formosa
esta situação fez-me pensar e, para além de estar indignado, também estou preocupado.
para evitar que mexam nas minhas coisas depois de morto, resolvi apagar certos ficheiros do pc.
{tiago nené}
ainda o acordo ortográfico
A cada página que leio mais espantado fico. Não só pela história, que é interessantíssima, mas porque constato que o acordo ortográfico está em vigor por aquelas bandas há muito tempo.
[Tiago Nené]
Estão a ver?
Ele olhava mas não a via, nunca a via.
E ela chegou mesmo a pensar que era invisível, ou que ele era cego, mas a verdade é que ele via, via até muito bem, só que via para além dela, muito para além dela, via a mulher ideal que ela não era, a mulher ideal de quem ela estava a anos-luz de distância, ou vice-versa, se preferirem, como quiserem, estejam à vontade, que estas quatro ou cinco linhas servem apenas para de novo se voltar afinal ao princípio, que por esta altura já quase se esqueceram dele e vai surgir-lhes renovado, completamente renovado.
Ele olhava mas não a via, nunca a via.
l'amour
a impaciência dos peugeuts
[uma crónica daquele que um dia foi apelidado de jovem poeta de faro, mas que entretanto deixou de escrever - a evitar]
Hoje ia a conduzir e eram cinco da tarde. Ou melhor, hoje eram cinco da tarde, é justo o tempo vir antes pois se não conduzisse seriam na mesma cinco da tarde, e resolvi fazer a experiência de conduzir entre os 5 e os 10 kms/h, naquelas ruas com uma só via e sentido, e em que é imperioso seguir o carro da frente , não havendo pois espaço para a manobra de ultrapassagem. Comecei então a contar os minutos que o automóvel de trás levaria até começar a buzinar perante a marcha lenta que eu impunha. Registei que os condutores de carrros de alta cilindrada, tais como os Mercedes e os Bmws aguentam 40 segundos e logo apitam (tempo médio, como todos os tempos que indicarei), os fiats, designadamente os puntos, levam dois minutos, o citroen C3 aguenta três minutos se for uma rapariga a conduzir, dois minutos e meio se for rapaz. Registei também que os pequenos carros comerciais (renault clios, opeis corsa e companhia lda) apitam volvidos trinta segundos e os seus condutores fazem gestos obscenos dentro do veículo. Os peugeuts, 206 e afins, carros da mesma marca que o meu, não toleravam a minha lentidão e depressa, em cerca de 10 segundos, a buzina soava. O que é verdadeiramente importante dizer é que, se odiamos ver os nossos defeitos nos outros, muito menos queremos ficar com os defeitos dos outros, principalmente se as condições são as mesmas e tudo o resto é propício. Creio que só isso explica a impaciência dos peugeuts.
[tn]
o voo da ave

perde-se a vida se demoramos muito tempo à procura de uma
micro-ensaio sobre a amizade

Na biblioteca um livro assinado e dedicado, com a sua amizade, a alguém pelo seu autor. Que terá acontecido ao dono do livro para este ter ido parar à biblioteca? Terá morrido? Terá o Estado penhorado o livro entre um montão de coisas da sua bela moradia e depois doado à biblioteca? Se o Estado penhorou o livro, e sublinho o que já disse – um livro assinado e dedicado a alguém – então o Estado já penhora sentimentos e já se imiscui na Poesia enquanto algo mais do que o mero livro penhorável entre uma série de objectos pessoais.
O autor chama-se Abelardo Rodríguez. Resolvo não procurar informação acerca da sua pessoa, não sabendo questões básicas como, por exemplo, se vive, morre ou está morto. Olho para ele através da foto que consta de uma das páginas iniciais, com uma barba escura e séria. “Abelardo Rodríguez”, repito a mim mesmo. Enquanto escrevo isto resulta que se me afigura possível que o Abelardo (ou os seus filhos ou netos, legítimos ou bastardos) , procure no google pelo seu próprio nome e encontre estas considerações de alguém que não conhece, seu equidistante a muita ou pouca distância.
O Abelardo ficará triste. A biblioteca é detentora de parte da sua amizade. E hoje apeteceu-me requisitá-la.
Texto de Tiago Nené
foto de manuel a. domingos
livros
aquele livro era dele, embora nos registos constasse que fosse da biblioteca municipal. requisitou-o desde os dezasseis anos até ao fim da sua vida, ainda que por intermédio de outros. em setenta anos o livro conheceu apenas um leitor. quando este foi a enterrar, alguém se esqueceu do livro no casaco do fato do defunto
perspectivas
2. a muitos quilómetros de distância uma senhora de idade dá o nome de chantilly a uma gatinha recém-nascida
puzzle de sílabas
fazia sempre isso. dentro de cada palavra deixava imperceptível uma
[tn]
VELOVELOVELO
há mulheres que se amam bem; outras nem por isso
Segunda-feira

a segunda-feira vê-se ao espelho do domingo.
ninguém trabalha hoje
até porque o domingo se vê ao espelho do sábado
e o sábado vê-se ao espelho da sexta-feira
ao fim da tarde.
na mesa carradas de papéis por analisar, processos
cujo valor é incalculável, arguidos que vão pagar indemnizações cíveis brutais, sim, porque este é o Portugal do futuro...ou qualquer merda parecida.
até que o patrão, de bigode português, chega, bate com a mão no peito da mesa e diz "porra, pá! por vezes há que fazer sacrifícios, nem que trabalhemos ao fim-de-semana!"
[tn]



