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Acto II - um poema de Sylvia Beirute














ACTO II 

{ao Adriano Narciso porque} 
Quando morrem pessoas / as ervas crepusculares nascem
da sua memória, / descem até nós,
roubam-nos água dos olhos

só depois do corpo todos os actos são livres}
alguns eternamente livres}
outros sempre o foram} alguns não inteiramente}
outros, nascituros, nascem}
alguns, concepturos, regressam}

talvez um outro corpo nasça através
da prisão-corpórea do acto}
talvez um acto iniciado e não consumado {e depois exaurido}
ajude à continuação de um início paralelo.

mas talvez só o último acto seja livre e ainda caminhe magro
num caminho infinito e itinerante} depois da
respiração mordida } da hélice do coração -
{depois do corpo
como todos os actos intensamente livres.}

inédito

fotografia de Paulo César

Salmo 32 - um poema de Sylvia Beirute




















SALMO 32


na perspectiva do poema
o poeta não é mais
do que uma barriga de aluguer.

Sylvia Beirute

imagem de José Ferreira

Monarquia Interina - um poema de Sylvia Beirute




















MONARQUIA INTERINA

/ lembrei-me de lembrar-te às quatro / lembrei-me que haverá todo o material humano para que o resto / suplante o todo, /
para que não haja palavras fora de erros, para que me saiba escrever.

/ autenticamente as coisas acontecem, lembrei-me de lembrar-te às quatro,
e a minha apólice não o cobre - { o silêncio das ruas dói no ouvido}.

{/ as coincidências são abrigos de cansaço, uma confissão inadvertida rompe o fio condutor,
as perguntas custam dinheiro}

/ lembrei-me de lembrar-te às quatro, fugi e, nas saudades irreconciliadas com o corpo,
ficou todo o rasto do esquecimento.

/ e dentro do medo as mão suam, / e hoje às quatro / lembrei-me de lembrar-te.

Sylvia Beirute
inédito

Salmo 33 - um poema de Sylvia Beirute




















SALMO 33


morrer, principalmente de amor, é
uma compendiosa tarefa doméstica
Miguel-Manso

{mo/
rrerei com o parentesco em falta,
com um poema de virgílio marinando
na orla das pupilas, no sol estendido na memória. mo/
rrerei com uma pálpebra convulsiva no descansar
vivo de uma distância entrelaçada
sob o incêndio de uma continuação que estica.}
{há sempre um bouvard e um pécuchet
nas nossas vidas, porque há sempre
um flaubert pronto a criá-los / para odiá-los.}
{morrerei no lugar de outros porque
a sua morte rica me enriquece a amnésia
que se recorda do pânico exausto de
uma distribuição aleatória de ossos após o facto.}
{mo/rrerei com a tristeza contente, as repetições
erectas e frias, a beleza tingida pelas notas
do piano.}

Sylvia Beirute
inédito

Nouvelle Cuisine - um poema de Sylvia Beirute




















NOUVELLE CUISINE


{nada tenho a oferecer-te. /
permanecer hoje intacta
é a unidade de medida
do meu braço cortando a cebola. /
a vida real é darwiniana, sabes,
e é impossível regressar-se
à mesma felicidade.

por outro lado, os alimentos parecem
também eles regressar:
a carne ao javali, o arroz - oryza glaberrima -
aos campos de áfrica,
o molho desfez-se, /e o seu vazio e cheiro
inundaram os músculos
que certificavam a distância.

restou uma cebola / e estas palavras.
por favor, pôe a mesa.}

Sylvia Beirute

inédito

Um poema de Sylvia Beirute - é só um filtro o amor ou rápidas cancelas




















É SÓ UM FILTRO O AMOR OU RÁPIDAS CANCELAS


é só um filtro o amor ou rápidas cancelas
é só a sede ou incapacidade de unir pingos de chuva
é só um rosto ou uma face que derrama rostos
é só um sonho ou resistência à realidade
é só uma relação ou mútua obediência
é só um jantar ou um tempo que coze ao lume
é só uma distância ou chopin ao fundo
é só um azul escuro ou um inverno verde
é só um abraço ou um braço à volta do maple
é só uma ideia ou consciência livre
é só um amigo ou um bicho de estimação
é só o suor ou precipício de um nervo andrógino
é só uma variável ou um tempo inoportuno
é só a morte ou algo que mata para fora
é só um eco ou já não caibo no meu nascimento
é só uma estrada ou o resto de uma vida.

Sylvia Beirute

Um poema de Sylvia Beirute - Sophia Loren, Beleza de Ferro




















SOPHIA LOREN, BELEZA DE FERRO

afinal isto é um clássico / eu sou a sophia loren
de vestido branco, alta mas ténue ao espaço.
hoje, sinto-me rude face ao tempo,
o tempo é uma casa de horas
que, com os inquilinos no interior, ainda se constrói.

- e faz barulho / muito barulho,
há pedreiros e carpinteiros dentro da minha beleza de ferro,
pessoas suando - ninguém poderia imaginar.
{e o tempo rápido é o único que homenageia}.

ocorre-me que se não acreditar no meu passado,
o meu futuro não acreditará neste momento.

e decido deixar todos os filmes paralelos à vida,
africa sotto i mari, la ciociara, etc etc.
retiro camadas de infinito do corpo,
o ferro funde-se, e sou humana de novo.

Sylvia Beirute
inédito

Um poema de Sylvia Beirute - Sinédoque
















SINÉDOQUE


é sempre a pequena parte que ama /ama um todo.
nesse todo é a sua pequena parte
que ama / ama um todo.
dois todos não se amam mutuamente,
excepto com as suas pequenas partes.
contudo, as pequenas partes
amam sem se amarem,
cada uma ama um todo, sem distinguir
quaisquer pequenas partes.
a parte que ama nunca é
expressamente amada.
amar um todo é amar / nada.

Sylvia Beirute
inédito


imagem de Sérgio Guerra

Onze Palavras - um poema de Sylvia Beirute




















ONZE PALAVRAS


quisera
crer o amor escondido no porta-malas do cérebro, uma res-
posta que ainda pergunta /diminuem as sombras com as palavras/ e lá uma re-
tribuição para além do recebido:
os sentidos são o correio do corpo.

quisera crer que ligaria, claro, mais tarde, às onze e meia,
às onze e meia em ponto, com onze,
onze palavras mornas e a síntese do não - convergências,
e a antítese do sim - divergências,
frias como um cartão de crédito
entre os dedos de um homem que procura um útero
onde possa derrotar-se.

Sylvia Beirute

Sylvia Beirute nasceu em Faro, no ano de 1984, e nunca publicou. Este poema é um exclusivo do Texto-al, que aqui publicamos com a devida autorização.