Amar é

amar é resistir ao dia seguinte
à superfície da manhã
à subida dos impostos
ao daltonismo dos hábitos implantados
à união europeia
ao trabalho sujo nas minas
à corrupção
à febre das ilhas isoladas tremendo
às flores bicolores envaidecidas
aos sonhos dos peixes grandes
ao silêncio da janela perdendo a paciência
às pessoas que vivem dentro das paredes
às gargalhadas dos caracóis
aos vizinhos submersos em demência.
Amar é resistir a nós mesmos,
Amar é resistir a tudo.

Pontuações à parte

Depois de um texto assim: [...]
Só me resta escrever assim: [!!!]

poema que não escrevi, seguido de poema que escrevi e reescrevi vezes sem conta


[...]

[...]

[...]

Feridas

A minha ferida moveu-se, não está
no mesmo sítio e tentou mudar de roupa.
enquanto isso sucedia
ela viu engrossar o seu cascarrão.
e assim não pôde fazer nada,
presa àquela imenso mar seco.
Um dia caí de novo e o cascarrão cedeu,
a ferida libertou-se,
e eu voltei a sofrer pela mesma pessoa.



UMA HISTÓRIA AOS CARACÓIS

[para a van, encaracolada]

Ela tinha o cabelo liso, longo e liso, completamente liso, mas, quando finalmente se encontraram, perdeu toda a compostura e encaracolou-se irremediavelmente. Verdade seja dita, ele não soube de nada, o que não o impediu de se apaixonar por ela, que o amor é sempre tão inevitável como a queda do cabelo que, deixem-me que vos diga, ele usava curto, muito curto, não sei se para prevenir ou para disfarçar a queda, do cabelo, claro está, e não a outra, menos óbvia mas nem por isso menos importante, que era a queda que ele tinha por raparigas de cabelo encaracolado.

O QUE DIZEM OS CARACÓIS

I

Os caracóis, tal como os homens, também dizem a verdade, o que não é de espantar, ainda que seja raro, mas quando um caracol mente, o que diga-se de passagem acontece com muita frequência, mente sempre lentamente, até porque, como dizem os caracóis, se a verdade deixa rasto, muito mais rasto deixa a mentira.

II

Os caracóis não vivem mais que os homens mas morrem muito mais lentamente, facto que os terá sem dúvida levado a apreciar muito mais a vida, pelo que são muitas vezes acusados de excessivo hedonismo, mas, como dizem os caracóis, e com muita razão, vive a vida o melhor que puderes que a morte é lenta.

III

Os caracóis são muito extrovertidos e raramente se fecham em si mesmos, ao contrário do que muitos pensam, talvez baseados no facto de que, como é habitual dizer-se, levam sempre a casa às costas, sem perceberem que os caracóis, como eles mesmo dizem, se levam sempre a casa às costas é para, afinal, não ficarem presos nela.

Caracóis

O meu apetite deserto fez-me criar amizade com dois caracóis. Disse-lhes que se eles quisessem, e em virtude de me terem ouvido tão pacientemente, poderia possibilitar-lhes, por algum tempo, a vida que os humanos levam. Quando o meu apetite se alagou de novo, chamei-os para a mesa e todos comemos caracóis. Porém, senti-me vexado ao constatar que eles levavam muito tempo a comer, logo suspeitando que não os tinha confeccionado bem. Depois, o Rafael tranquilizou-me, dizendo-me que só se estavam a certificar que não comeriam nenhum familiar.

















Na imagem os verdadeiros protagonistas: os meus amigos Rafael Konstantin e Jonas Tippie

Tese de mestrado em micronarrativa sobre a relatividade e subjectividade da profundidade

Vendo bem as coisas, para quem é profundo por natureza, ser fútil não pode deixar de ser uma forma de profundidade.

CEGUEIRA

[ o Tiago dizia a propósito de outro poema que era "como aquelas ecrãs gigantes com pixels enormes e afastados. só com uma certa distância podemos ver o todo." Este é semelhante.Há essa mesma procura de quase não sujar o branco da folha, de o fazer entrar também no poema.]



olho
com olhos de
não ver

e vejo
o que só assim
posso ver

depois fecho
os olhos e
continuo

a ver o que
só assim pode
ser visto

e sei então
o que já antes
sabia

ver é sempre
uma forma de
cegueira



[N]

Cabeças

hoje pensei que tinha pensado que pensei que pensava em pensar no que pensei quando pensei que pensei que tinha tinha pensado no que uma pessoa me dissera que tinha pensado que pensara mas que afinal não pensou.

moral da história: perdemos muito tempo na cabeça dos outros e muitas vezes não encontramos nada.

notas

Sons somados no papel
palavras dansantes
nas linhas sem pautas.

(Cheguei.
A)

escrita corrente

à Van

ao Tiago Nené

porque toda a escrita é um exercício


escrevo sem maiúsculas sem pontos finais sem virgulas sem indicação do início ou do fim da frase do seu ritmo das suas pausas das suas hesitações desafio a sintaxe desafio a semântica contrario a gramática e percebo afinal que é assim que sempre escrevo que é assim que sempre se escreve porque a escrita é um constante desafio uma afirmação de liberdade um ir contra mesmo quando se vai a favor um contínuo fluir que ignora a pontuação ignora o autor e oferece-se apenas ao leitor que ao ler e reler o texto lhe descobrirá um sentido o seu sentido

[luís ene]

pequena reflexão sobre o estado do tempo para amanhã

à "van" por causa das minúsculas
ao luís ene por causa da prosa


perdi o pulso ao som e depois ao silêncio quando se calou o meu tempo. esforcei a minha naturalidade com a indiferença imposta pelo sol que reflectia. tanto esforcei que depois estagnei e depois parti. partir, partir-se, é apenas ser suposto. ser suposto é ser uma probabilidade, que é uma sensação, que pode ser ironia, que pode ser tudo. hoje, apesar de ter saudades minhas, sei que não se reanima o som e muito menos o silêncio. porque não existe um tempo para nada, nem para ninguém.

pequenas histórias viciadas 2

FALSA PARTIDA
[de ln para mbv]

Ele amava-a. Ou será que amava amá-la?

pequenas histórias viciadas

O PRINCÍPIO DO CONTRADITÓRIO

Quase não falava mas adorava sexo oral.

[Luís Ene]

O Genoma Poético

Apreendido no aeroporto quando me revistaram.
o meu poema. o meu poema.
nada mais levaram.
ao menos levassem também os meus sessenta e cinco, quase sessenta e seis, anos de idade.
ao menos varressem, com todo aquele material técnico, a minha infância
e a sombra das minhas casotas.
Podiam até furtar-me o nascimento.
Que se fodesse.

Eles sabiam muito bem ao que vinham.
Quiçá tal acto tenha sido precedido de denúncia anónima
depois difundida, tímida ou amplamente - desconheço - , nos órgãos de comunicação social.
o meu poema. o meu poema continha o genoma poético,
era o poema dos poemas o meu poema!
continha os códigos e os caminhos secretos das palavras cruas,
e representava anos e anos
da mais completa solidão, do mais completo estudo
sobre o tempo que espera demais.

Pouco sabia o que fazer, cancelei o meu voo.
nos dias seguintes tentei sem sucesso
reproduzir aquela artilharia poética,
tentei refazer mentalmente os testes que conduziram àquelas palavras.
nada fazia sentido.
nada mais fazia sentido.
depois voltei a ligar o meu telefone
e a responder a algumas mensagens
e fiz até alguns telefonemas a familiares que viviam longe
e fiz dois amigos num minimercado perto de minha casa
e que hoje passarão cá um belo serão.

deixei de querer acumular todo o conhecimento
para viver em segurança
até porque, vistas bem as coisas, não disponho de outra vida.



Tiago Nené

eternidade

Ele vivia no passado, ela no futuro. Amavam-se no presente.

[n]

Adiado

Afinal o encontro será no dia 2 de Abril.

Chuva Feliz

Teus olhos encravaram
mesmo naquele sentimento que se deu
ao dobrar da esquina,
naquele ponto de vista fechado com lacre
de conteúdo comum.
Não falaste.
deixaste então a chuva expressar a sua nostalgia
deixaste que se despisse lá fora,
enquanto tu e eu
apanhámos o primeiro jacto para essa
tua ideia
e morremos - por que não -
sorrindo que as pessoas
querem ser encontradas
para um dia, no fundo, serem como
a chuva
que lá fora mostrava aos mortais
como ser feliz para sempre.


Tiago Nené

O QUE SEMPRE ENTRA NO POEMA


a ave

pairando sobre

a árvore


a árvore

suspensa do voo

da ave


ave

e

árvore


árvore

e

ave


uma e outra

presas num

olhar


uma e outra

soltas no

poema



[Luís Ene]



É já na próxima quarta-feira que vai decorrer o primeiro Encontro com a Palavra, desta vez com Rogério Silva, autor do livro FONTE SALGADA, lançado no passado mês de Fevereiro.

26 de Março 2 de Abril
pelas 21h30
Club Farense (R. de Stº. António, nº30, Faro)

[van]

FOTOGRAFIA ou O QUE FICA FORA DO POEMA ou NA PRAIA DE FARO COM A MINHA FILHA NUM DIA DE INVERNO CHEIO DE SOL

entre céu e mar

azul azul

a cidade


apequenada

pelas nuvens

enormes


que crescem

em branco e cinza

sobre ela


prolonga a serra

gasta e quase

desaparece


à minha frente

envergonhada

miragem



[Luís Ene]

primeiro passo

Texto-al é um grupo de pessoas que gosta de ler e de escrever; assim, o que aparecer neste blogue, terá a ver com o que alguém leu ou escreveu, ou com actividades relacionadas com ler e escrever, quer sejam produzida ou não por nós. Tão simples como isto. Para quê complicar?

[Luís Ene]