Amar é
à superfície da manhã
à subida dos impostos
ao daltonismo dos hábitos implantados
à união europeia
ao trabalho sujo nas minas
à corrupção
à febre das ilhas isoladas tremendo
às flores bicolores envaidecidas
aos sonhos dos peixes grandes
ao silêncio da janela perdendo a paciência
às pessoas que vivem dentro das paredes
às gargalhadas dos caracóis
aos vizinhos submersos em demência.
Amar é resistir a nós mesmos,
Amar é resistir a tudo.
Feridas
UMA HISTÓRIA AOS CARACÓIS
Ela tinha o cabelo liso, longo e liso, completamente liso, mas, quando finalmente se encontraram, perdeu toda a compostura e encaracolou-se irremediavelmente. Verdade seja dita, ele não soube de nada, o que não o impediu de se apaixonar por ela, que o amor é sempre tão inevitável como a queda do cabelo que, deixem-me que vos diga, ele usava curto, muito curto, não sei se para prevenir ou para disfarçar a queda, do cabelo, claro está, e não a outra, menos óbvia mas nem por isso menos importante, que era a queda que ele tinha por raparigas de cabelo encaracolado.
O QUE DIZEM OS CARACÓIS
Os caracóis, tal como os homens, também dizem a verdade, o que não é de espantar, ainda que seja raro, mas quando um caracol mente, o que diga-se de passagem acontece com muita frequência, mente sempre lentamente, até porque, como dizem os caracóis, se a verdade deixa rasto, muito mais rasto deixa a mentira.
II
III
Caracóis
Tese de mestrado em micronarrativa sobre a relatividade e subjectividade da profundidade
CEGUEIRA
[ o Tiago dizia a propósito de outro poema que era "como aquelas ecrãs gigantes com pixels enormes e afastados. só com uma certa distância podemos ver o todo." Este é semelhante.Há essa mesma procura de quase não sujar o branco da folha, de o fazer entrar também no poema.]
o que só assim
posso ver
os olhos e
continuo
a ver o que
só assim pode
ser visto
o que já antes
sabia
ver é sempre
uma forma de
cegueira
[N]
Cabeças
escrita corrente
ao Tiago Nené
porque toda a escrita é um exercício
escrevo sem maiúsculas sem pontos finais sem virgulas sem indicação do início ou do fim da frase do seu ritmo das suas pausas das suas hesitações desafio a sintaxe desafio a semântica contrario a gramática e percebo afinal que é assim que sempre escrevo que é assim que sempre se escreve porque a escrita é um constante desafio uma afirmação de liberdade um ir contra mesmo quando se vai a favor um contínuo fluir que ignora a pontuação ignora o autor e oferece-se apenas ao leitor que ao ler e reler o texto lhe descobrirá um sentido o seu sentido
[luís ene]
pequena reflexão sobre o estado do tempo para amanhã
ao luís ene por causa da prosa
perdi o pulso ao som e depois ao silêncio quando se calou o meu tempo. esforcei a minha naturalidade com a indiferença imposta pelo sol que reflectia. tanto esforcei que depois estagnei e depois parti. partir, partir-se, é apenas ser suposto. ser suposto é ser uma probabilidade, que é uma sensação, que pode ser ironia, que pode ser tudo. hoje, apesar de ter saudades minhas, sei que não se reanima o som e muito menos o silêncio. porque não existe um tempo para nada, nem para ninguém.
pequenas histórias viciadas
Quase não falava mas adorava sexo oral.
[Luís Ene]
O Genoma Poético
o meu poema. o meu poema.
nada mais levaram.
ao menos levassem também os meus sessenta e cinco, quase sessenta e seis, anos de idade.
ao menos varressem, com todo aquele material técnico, a minha infância
e a sombra das minhas casotas.
Podiam até furtar-me o nascimento.
Que se fodesse.
Eles sabiam muito bem ao que vinham.
Quiçá tal acto tenha sido precedido de denúncia anónima
depois difundida, tímida ou amplamente - desconheço - , nos órgãos de comunicação social.
o meu poema. o meu poema continha o genoma poético,
era o poema dos poemas o meu poema!
continha os códigos e os caminhos secretos das palavras cruas,
e representava anos e anos
da mais completa solidão, do mais completo estudo
sobre o tempo que espera demais.
Pouco sabia o que fazer, cancelei o meu voo.
nos dias seguintes tentei sem sucesso
reproduzir aquela artilharia poética,
tentei refazer mentalmente os testes que conduziram àquelas palavras.
nada fazia sentido.
nada mais fazia sentido.
depois voltei a ligar o meu telefone
e a responder a algumas mensagens
e fiz até alguns telefonemas a familiares que viviam longe
e fiz dois amigos num minimercado perto de minha casa
e que hoje passarão cá um belo serão.
deixei de querer acumular todo o conhecimento
para viver em segurança
até porque, vistas bem as coisas, não disponho de outra vida.
Tiago Nené
Chuva Feliz
mesmo naquele sentimento que se deu
ao dobrar da esquina,
naquele ponto de vista fechado com lacre
de conteúdo comum.
Não falaste.
deixaste então a chuva expressar a sua nostalgia
deixaste que se despisse lá fora,
enquanto tu e eu
apanhámos o primeiro jacto para essa
tua ideia
e morremos - por que não -
sorrindo que as pessoas
querem ser encontradas
para um dia, no fundo, serem como
a chuva
que lá fora mostrava aos mortais
como ser feliz para sempre.
Tiago Nené
O QUE SEMPRE ENTRA NO POEMA
pairando sobre
a árvore
a árvore
suspensa do voo
da ave
ave
e
árvore
árvore
e
ave
uma e outra
presas num
olhar
uma e outra
soltas no
poema
[Luís Ene]
pelas 21h30
Club Farense (R. de Stº. António, nº30, Faro)
[van]
FOTOGRAFIA ou O QUE FICA FORA DO POEMA ou NA PRAIA DE FARO COM A MINHA FILHA NUM DIA DE INVERNO CHEIO DE SOL
entre céu e mar
azul azul
a cidade
apequenada
pelas nuvens
enormes
que crescem
em branco e cinza
sobre ela
prolonga a serra
gasta e quase
desaparece
à minha frente
envergonhada
miragem
[Luís Ene]
primeiro passo
[Luís Ene]




