Não tenho nada para vos ensinar, dizia o escritor consagrado, mas podem sempre aprender com os meus erros. É o que eu faço.
sul
Uma parede de cal
O peixe a vibrar de vida na rede
O mar lúcido em movimento sob o rumo transparente
de uma embarcação
A brancura do sal
O sol inteiro, intenso e constante
E tudo tão demorado que até a vida
parece arder, monótona,
na lentidão dormente de uma certa ideia de sul
de memória
[entrada]
esqueço-me
lembro-me
volto a
esquecer-me
volto a
lembrar-me
e já não sei
se me esqueço
se me lembro
há tanto para
lembrar
há tanto para
esquecer
e por isso
me lembro
e por isso
me esqueço
[voltar]
Manhã
conseguiremos puxar o fio
da manhã. poderemos habitar
um segredo sem pressa
e fazer dele um convite para
o futuro. são quinze horas,
ainda haverá manhã hoje?
os meus braços estão idosos de
tentar encontrar o fio, de
tentar encontrar uma visão
serena. chove. o sol filtra
a chuva da manhã que já passou.
[Berta Stingl]
Texto-al com "special guest"
TN
Ar
Hoje vi que tinha muitas janelas abertas...
Demasiado ar saía
Demasiado ar entrava...
Estranhamente pouco ar se respirava...
tiago nené, in versos nus, magna, 2007
CORES
Um sorriso amarelo encontrou um sorriso azul e os dois sorriram um lindo sorriso verde.
2.
Misturou sumo de tomate com sumo de limão e estranhamente obteve o que parecia ser sumo de laranja.
3.
Estava debruçada a pintar um céu azul quando começou a deitar sangue do nariz, e as gotas que caíram transformaram-se em violetas.
[Luís Ene]
Perfeição
TN
Amizade
Borbulhas
Uma amiga, que estuda medicina, disse-me que a melhor coisa para isso é mesmo a pílula.
Marquei uma consulta num ginecologista. Cheguei lá e ele riu na minha cara.
Falta de profissionalismo....
DOIS ENSAIOS SOBRE O FUTURO DA LITERATURA
Chegou a casa, cansado, e apeteceu-lhe ler um conto, divertido mas profundo, que não ultrapassasse as sete páginas. Sentou-se em frente à máquina de escrever, decidido, e escreveu rapidamente, conto divertido profundo inferior sete páginas. Depois ficou à espera que a máquina acabasse o seu trabalho. Demorou pouco mais de cinco minutos.
2. Ensaio optimista sobre o futuro da literatura
Chegou a casa, cansado, e apeteceu-lhe ler um conto, divertido mas profundo, que não ultrapassasse as sete páginas. Sentou-se em frente à máquina de escrever, decidido, e escreveu rapidamente, conto divertido profundo inferior sete páginas. Depois ficou à espera que a máquina acabasse o seu trabalho. Demorou exactamente cinco minutos.
Genialidade e loucura
Equação
Escrevia como um matemático mas, não me admiraria nada que, se lhe tivesse acontecido ser um matemático, pensasse então como um escritor. É que a matemática e a literatura são praticamente iguais, pelo menos quando se debruçam sobre o mistério do mundo, explorando, uma e outra, todos os ses, todas as possibilidades; como esta que aqui se apresenta de serem iguais a matemática e a literatura, e iguais os matemáticos e os escritores. E se não estão convencidos interroguem-se por breves instantes se a matemática e a literatura não partilham, uma e outra, a mesma exactidão e a mesma poesia.
Eclipse
O mundo voltou a sorrir, e sorriu muito, muito mais luminosamente, quando vislumbrou as cortinas do céu se abrirem para deixar passar um raio de sol.
BOM ESCRITOR, MAU ESCRITOR: UM EXERCÍCIO DE RETÓRICA NARRATIVA
1
Uns dizem que ele foi um mau escritor que escreveu bons livros, outros dizem exactamente o contrário, que foi um bom escritor que escreveu maus livros. Eu acho, muito sinceramente, que uns e outros têm razão.
2
Não há bons e maus escritores, há bons e maus livros, porque, verdade seja dita, um bom escritor pode escrever um mau livro e um mau escritor pode escrever um bom livro.
3
Um bom e um mau escritor escreveram um livro a meias, um livro mais ou menos, como não podia deixar de ser, se pensarmos bem nisso.
4
Um bom escritor descobriu um dia que era mau escritor; foi então que caiu em si e se tornou finalmente um bom escritor. Não deixou no entanto de escrever maus livros, que uma coisa são os livros e outra coisa os escritores.
5
Um bom escritor deu com um mau livro na cabeça de um mau escritor, fazendo-o gritar de dor e de espanto. Tivesse-lhe dado com um bom livro na cabeça e o resultado não teria sido diferente.
6
Um bom escritor só lia maus livros ao passo que um mau escritor só lia bons livros, o que era estranho, mas depois que morreram percebeu-se tudo: o bom escritor era um afinal um mau escritor e o mau escritor era afinal um bom escritor.
7
Um escritor era mau e outro era bom, mas enquanto o primeiro era um bom escritor, ainda que mau, o segundo era um mau escritor, ainda que bom.
Encontro com a Palavra de Rogério Silva
Decorreu ontem à noite, no Clube Farense, o 1º Encontro com a Palavra, evento informal organizado pelo Texto-Al, onde todos eram convidados e onde alguns nos deram a honra da sua presença.
ELOGIO DA TÉCNICA
Não se pode deixar
de pensar mas pode-se, sim
deixar de pensar nisso
É isso que eu faço
levou-me anos
a aperfeiçoar a técnica
mas finalmente consegui
Não deixei de pensar
é verdade
mas raramente
penso nisso
as palavras dos outros
Projecto de Sucessão
Para o Mário Henrique
Continuar aos saltos até ultrapassar a Luacontinuar deitado até se destruir a camapermanecer de pé até a polícia virpermanecer sentado até que o pai morra Arrancar os cabelos e não morrer numa rua solitáriaamar continuamente a posição verticale continuamente fazer ângulos rectos Gritar da janela até que a vizinha ponha as mamas de forapôr-se nu em casa até a escultora dar o sexofazer gestos no café até espantar a clientelapregar sustos nas esquinas até que uma velhinha caiacontar histórias obscenas uma noite em famílianarrar um crime perfeito a um adolescente loirobeber um copo de leite e misturar-lhe nitro-glicerinadeixar fumar um cigarro só até meioAbrirem-se covas e esquecerem-se os diasbeber-se por um copo de oiro e sonharem-se Índias. António Maria LisboapoesiaAssírio & Alvim1995
Frustração
É o mais citado, mas o menos apreciado.
O armário onde guardo os botões cor-de-rosa
O armário onde guardo os botões cor-de-rosa
fica neste lado da casa, coloquei-os
dentro de um boião azul e sempre que os vou procurar
encontro coisas de outra cor, quer dizer,
encontro botões com outras tonalidades
que nada têm a ver com o azul ou com a cor
rosa, mas antes com a cor que tem um prado
meia hora antes de amanhecer, ou com um rio
que se esqueceu de adormecer depois da hora combinada,
exactamente dois minutos antes da meia-noite.
Por esta razão a minha mãe desistiu de me ensinar os tons
do arco-íris e diz que sempre que eu quiser aprender as cores
devo ir procurar no relógio de pulso do meu pai
que, como toda a gente sabe,
nunca se atrasa nem nunca se adianta.
(Amadeu Baptista)
A história de um macaco - baseada em factos reais

Na imagem: o "macaco"
SEM COMENTÁRIOS
O poema chega, faminto, urgente,
e apanha-me sem palavras,
vazio de palavras. Encaro-o
pouco à vontade, envergonhado,
e as únicas palavras que consigo
dizer são, Desculpa, Lamento,
Espera só dois minutos,
mas já o poema torce o nariz,
cospe no chão, solta dois sonoros
PORRA, PORRA, volta-me
as costas e vai-se embora,
deixando-me de mãos a abanar.
A AMENDOEIRA MAGNÍFICA
Um homem tinha no seu quintal uma amendoeira que o enchia de alegria. Um dia, um viajante falou-lhe de uma amendoeira magnífica que tinha visto muito para lá das montanhas que se erguiam a norte. A partir daí, quando o homem olhava a sua amendoeira, sentia-se triste, cada vez mais triste até que não aguentou mais e…
[Luís Ene]
Eterno Retorno
(Nuno Júdice)
O lugar de ti
Onde há poemas e luz etérea
Faria de mim caminhante até ali
Na fome de desfolhar crepúsculos,
Por cima das pedras certas
Encadernadas nos opúsculos
Que criaram teu corpo de mares,
Sem saber se na lonjura existes
Ou te repartes por estes lugares.
Se eu soubesse a dimensão do lar
E o ventre prenhe que há em ti
Subiria as escadas do luar
E plantaria uma flor folhada
Para que o menino do ventre
Crescesse canção “Desfolhada”
E se perdesse no útero da terra
Ou nas estrelas que somam céu,
Envolto nos limos de Finisterra.
Mas esse lugar mítico de aventura
Onde só os do Olimpo vão
Repassa desejos de ternura;
Lugar para erguer destinos
E versos na resina dos pinheiros
Que enfunaram velas latinas.
Por isso não sei se num beijo teu
Está o cumprimento da diáspora
Ou de regresso o que o amor deu
(poema gentilmente cedido por [a balsas] )


