Lição Primeira

Não tenho nada para vos ensinar, dizia o escritor consagrado, mas podem sempre aprender com os meus erros. É o que eu faço.

sul

Um fio de azeite
Uma parede de cal
O peixe a vibrar de vida na rede
O mar lúcido em movimento sob o rumo transparente
de uma embarcação
A brancura do sal
O sol inteiro, intenso e constante

E tudo tão demorado que até a vida
parece arder, monótona,
na lentidão dormente de uma certa ideia de sul

de memória

[entrada]
esqueço-me
lembro-me
volto a
esquecer-me
volto a
lembrar-me
e já não sei
se me esqueço
se me lembro

a verdade é que
há tanto para
lembrar
há tanto para
esquecer
e por isso
me lembro
e por isso
me esqueço
[voltar]

Manhã

além disso nós nunca
conseguiremos puxar o fio
da manhã. poderemos habitar
um segredo sem pressa
e fazer dele um convite para
o futuro. são quinze horas,
ainda haverá manhã hoje?
os meus braços estão idosos de
tentar encontrar o fio, de
tentar encontrar uma visão
serena. chove. o sol filtra
a chuva da manhã que já passou.


[Berta Stingl]

Texto-al com "special guest"

O escritor Pedro Afonso, membro do Sulscrito, foi a grande surpresa na última tertúlia do Texto-Al no Club Farense. O encontro, e porque a conversa pedia algum álcool, continuou n'Os Artistas, onde foram abordados alguns temas da literatura nacional, bem como projectos dos vários autores pertencentes a estes dois grupos literários algarvios.

TN

Ar

Hoje dei comigo a reparar em mim...
Hoje vi que tinha muitas janelas abertas...

Demasiado ar saía
Demasiado ar entrava...

Estranhamente pouco ar se respirava...


tiago nené, in versos nus, magna, 2007

CORES

1.
Um sorriso amarelo encontrou um sorriso azul e os dois sorriram um lindo sorriso verde.

2.
Misturou sumo de tomate com sumo de limão e estranhamente obteve o que parecia ser sumo de laranja.

3.

Estava debruçada a pintar um céu azul quando começou a deitar sangue do nariz, e as gotas que caíram transformaram-se em violetas.

[Luís Ene]

Perfeição

Sou várias vezes reconhecido como sendo o homem perfeito, o que me irrita. Para contrariar isto, resolvi inscrever-me num curso de baixo nível, o primeiro criado em Portugal, para pessoas perfeitas.

Dei uma olhadela rápida ao plano de curso e constatei que era mesmo aquilo de que precisava. Vou ter cadeiras como Introdução à má educação, Etimologia do calão, Palavrões no Latim, Teoria geral da irritação, etc.. Tudo isto no primeiro ano.


TN


Vícios


Será que um dia alguém vai proibir a leitura nos cafés?
Daqui.

[van]

Amizade

Um amigo durante a vida é muito; dois é demais; três quase impossível. A amizade exige um certo paralelismo de vida, uma comunhão de ideias, uma rivalidade de objectivos

Henry Adams

Borbulhas

Tenho problemas com borbulhas. Não são muitas, mas preferia não as ter.
Uma amiga, que estuda medicina, disse-me que a melhor coisa para isso é mesmo a pílula.
Marquei uma consulta num ginecologista. Cheguei lá e ele riu na minha cara.

Falta de profissionalismo....

DOIS ENSAIOS SOBRE O FUTURO DA LITERATURA


1. Ensaio pessimista sobre o futuro da literatura

Chegou a casa, cansado, e apeteceu-lhe ler um conto, divertido mas profundo, que não ultrapassasse as sete páginas. Sentou-se em frente à máquina de escrever, decidido, e escreveu rapidamente, conto divertido profundo inferior sete páginas. Depois ficou à espera que a máquina acabasse o seu trabalho. Demorou pouco mais de cinco minutos.


2. Ensaio optimista sobre o futuro da literatura

Chegou a casa, cansado, e apeteceu-lhe ler um conto, divertido mas profundo, que não ultrapassasse as sete páginas. Sentou-se em frente à máquina de escrever, decidido, e escreveu rapidamente, conto divertido profundo inferior sete páginas. Depois ficou à espera que a máquina acabasse o seu trabalho. Demorou exactamente cinco minutos.

Genialidade e loucura

A opção de se ser louco para se ser génio é triste, apesar de compreender que a loucura e a criatividade conduzam à genialidade, não compreendo a obrigação de ser louco para ser génio.

Maria Ana, em Segundo Impacto

Enfim...

Tenho tanta coisa para dizer, que não me apetece dizer.

Por isso, deixo aqui uma sugestão para um autêntico mundo de poesia.

Da Poética. (Aqui)

matemática e poesia

"Um matemático que não tenha algo de poeta, nunca será um matemático completo"


Karl Weierstrass

Equação

Escrevia como um matemático mas, não me admiraria nada que, se lhe tivesse acontecido ser um matemático, pensasse então como um escritor. É que a matemática e a literatura são praticamente iguais, pelo menos quando se debruçam sobre o mistério do mundo, explorando, uma e outra, todos os ses, todas as possibilidades; como esta que aqui se apresenta de serem iguais a matemática e a literatura, e iguais os matemáticos e os escritores. E se não estão convencidos interroguem-se por breves instantes se a matemática e a literatura não partilham, uma e outra, a mesma exactidão e a mesma poesia.

Eclipse

O mundo chorou, e chorou muito, quando deixou de ver o sol. Depois um meteorito caiu, matando milhares de pessoas, só para avisar o mundo que apenas tinha ocorrido um eclipse solar.

O mundo voltou a sorrir, e sorriu muito, muito mais luminosamente, quando vislumbrou as cortinas do céu se abrirem para deixar passar um raio de sol.


BOM ESCRITOR, MAU ESCRITOR: UM EXERCÍCIO DE RETÓRICA NARRATIVA

[ao Carlos Campaniço, com sincera admiração]

1
Uns dizem que ele foi um mau escritor que escreveu bons livros, outros dizem exactamente o contrário, que foi um bom escritor que escreveu maus livros. Eu acho, muito sinceramente, que uns e outros têm razão.

2
Não há bons e maus escritores, há bons e maus livros, porque, verdade seja dita, um bom escritor pode escrever um mau livro e um mau escritor pode escrever um bom livro.

3
Um bom e um mau escritor escreveram um livro a meias, um livro mais ou menos, como não podia deixar de ser, se pensarmos bem nisso.

4
Um bom escritor descobriu um dia que era mau escritor; foi então que caiu em si e se tornou finalmente um bom escritor. Não deixou no entanto de escrever maus livros, que uma coisa são os livros e outra coisa os escritores.

5
Um bom escritor deu com um mau livro na cabeça de um mau escritor, fazendo-o gritar de dor e de espanto. Tivesse-lhe dado com um bom livro na cabeça e o resultado não teria sido diferente.

6
Um bom escritor só lia maus livros ao passo que um mau escritor só lia bons livros, o que era estranho, mas depois que morreram percebeu-se tudo: o bom escritor era um afinal um mau escritor e o mau escritor era afinal um bom escritor.

7
Um escritor era mau e outro era bom, mas enquanto o primeiro era um bom escritor, ainda que mau, o segundo era um mau escritor, ainda que bom.

Encontro com a Palavra de Rogério Silva


Decorreu ontem à noite, no Clube Farense, o 1º Encontro com a Palavra, evento informal organizado pelo Texto-Al, onde todos eram convidados e onde alguns nos deram a honra da sua presença.
O convidado, Dr. Rogério Silva, falou-nos da sua mais recente obra Fonte Salgada: do processo de escrita, do mote de alguns dos textos, do uso de regionalismos, entre outros aspectos. A conversa fluiu levemente e, como diz a canção, "soube a pouco". Quiçá não a podemos estender numa outra oportunidade?
O nosso Muito Obrigado ao convidado, aos moderadores - Carlos Campaniço e Luís Ene, e a todos os presentes.

ELOGIO DA TÉCNICA

Não se pode deixar
de pensar mas pode-se, sim
deixar de pensar nisso

É isso que eu faço
levou-me anos
a aperfeiçoar a técnica
mas finalmente consegui

Não deixei de pensar
é verdade
mas raramente
penso nisso

[luís ene]

as palavras dos outros

Projecto de Sucessão

Para o Mário Henrique


Continuar aos saltos até ultrapassar a Lua
continuar deitado até se destruir a cama
permanecer de pé até a polícia vir
permanecer sentado até que o pai morra
 
Arrancar os cabelos e não morrer numa rua solitária
amar continuamente a posição vertical
e continuamente fazer ângulos rectos
 
Gritar da janela até que a vizinha ponha as mamas de fora
pôr-se nu em casa até a escultora dar o sexo
fazer gestos no café até espantar a clientela
pregar sustos nas esquinas até que uma velhinha caia
contar histórias obscenas uma noite em família
narrar um crime perfeito a um adolescente loiro
beber um copo de leite e misturar-lhe nitro-glicerina
deixar fumar um cigarro só até meio
Abrirem-se covas e esquecerem-se os dias
beber-se por um copo de oiro e sonharem-se Índias.
 
António Maria Lisboa
poesia
Assírio & Alvim
1995

Arte poética

tapa
o meu
coração
com o teu
amor


Bárbara Corgas
6 anos
Membro Texto-Al

Frustração

O inventor dos clichés é sempre o mais frustrado dos poetas.
É o mais citado, mas o menos apreciado.

O armário onde guardo os botões cor-de-rosa


O armário onde guardo os botões cor-de-rosa
fica neste lado da casa, coloquei-os
dentro de um boião azul e sempre que os vou procurar
encontro coisas de outra cor, quer dizer,
encontro botões com outras tonalidades
que nada têm a ver com o azul ou com a cor
rosa, mas antes com a cor que tem um prado
meia hora antes de amanhecer, ou com um rio
que se esqueceu de adormecer depois da hora combinada,
exactamente dois minutos antes da meia-noite.
Por esta razão a minha mãe desistiu de me ensinar os tons
do arco-íris e diz que sempre que eu quiser aprender as cores
devo ir procurar no relógio de pulso do meu pai
que, como toda a gente sabe,
nunca se atrasa nem nunca se adianta.


(Amadeu Baptista)

A história de um macaco - baseada em factos reais

Ela fazia tudo pelo macaco. Levava-o ao oftalmologista, ao dentista para colocar um aparelho. Entre eles havia uma natural cumplicidade. Naturalmente ela ensinou-o a ler e a escrever, o que fora um processo moroso. Em três anos o macaco já lia Paulo Coelho e parecia gostar muito. Daí até escrever bem não foi um passo muito grande. Um certo dia, encheu-se de coragem e escreveu num papel "sinto-me atraído por ti". Perante isso, a rapariga tirou a roupa. Contrariamente ao esperado, o macaco virou-lhe as costas. Mais tarde escreveu no seu diário que ela era mais macaca do que ele.













Na imagem: o "macaco"

SEM COMENTÁRIOS

O poema chega, faminto, urgente,
e apanha-me sem palavras,
vazio de palavras. Encaro-o
pouco à vontade, envergonhado,
e as únicas palavras que consigo
dizer são, Desculpa, Lamento,
Espera só dois minutos,
mas já o poema torce o nariz,
cospe no chão, solta dois sonoros
PORRA, PORRA, volta-me
as costas e vai-se embora,
deixando-me de mãos a abanar.

hoje

A AMENDOEIRA MAGNÍFICA

Um homem tinha no seu quintal uma amendoeira que o enchia de alegria. Um dia, um viajante falou-lhe de uma amendoeira magnífica que tinha visto muito para lá das montanhas que se erguiam a norte. A partir daí, quando o homem olhava a sua amendoeira, sentia-se triste, cada vez mais triste até que não aguentou mais e…

…cortou-a pela raiz. Depois disso sentiu-se ainda mais triste e acabou por morrer pouco tempo depois.

…partiu para lá das montanhas e por aí vagueou até morrer. Encontrou muitas amendoeiras, mas nenhuma tão magnífica quanto a sua.

[Luís Ene]

Eterno Retorno

No campo, são as mesmas árvores; no
céu, são as mesmas nuvens. Outras árvores
caíram, outras nuvens passaram; mas
o campo é o mesmo, e o céu não
mudou. A sua natureza é esta: permanecer
dentro da própria mudança.
O homem que aqui esteve, porém, já
não é o mesmo. Quando olha para as árvores
que mudaram a folha, e para o céu onde
as nuvens sucedem às nuvens, não se
reconhece. O tempo do homem não se
renova, nem a natureza lhe ensina
como ser o mesmo quando tudo muda.
Por isso, o homem deita as árvores
abaixo, não olha para o céu, e anda em
frente como se o campo lhe pertencesse,
e não às aves que se abrigam entre
as folhas. O tempo do homem é não saber
do tempo, nem ouvir o canto das aves que
pertence a este céu que já não existe.


(Nuno Júdice)

O lugar de ti

Se eu soubesse o lugar de ti
Onde há poemas e luz etérea
Faria de mim caminhante até ali
Na fome de desfolhar crepúsculos,
Por cima das pedras certas
Encadernadas nos opúsculos
Que criaram teu corpo de mares,
Sem saber se na lonjura existes
Ou te repartes por estes lugares.
Se eu soubesse a dimensão do lar
E o ventre prenhe que há em ti
Subiria as escadas do luar
E plantaria uma flor folhada
Para que o menino do ventre
Crescesse canção “Desfolhada”
E se perdesse no útero da terra
Ou nas estrelas que somam céu,
Envolto nos limos de Finisterra.
Mas esse lugar mítico de aventura
Onde só os do Olimpo vão
Repassa desejos de ternura;
Lugar para erguer destinos
E versos na resina dos pinheiros
Que enfunaram velas latinas.
Por isso não sei se num beijo teu
Está o cumprimento da diáspora
Ou de regresso o que o amor deu

(poema gentilmente cedido por [a balsas] )