A nuvem prateada das pessoas graves




Nem sempre se deve desconfiar das pessoas
graves, aquelas que caminham com o pescoço inclinado para baixo,
os olhos delas a tocar pela primeira vez o caminho que os pés confirmarão
depois.
Às vezes elas vêem o céu do outro lado do caminho que é o que lhes fica por baixo
dos pés e por isso do outro lado do mundo.
O outro lado do mundo das pessoas graves parece portanto um sítio longe dos pés
e mais longe ainda das mãos
que também caem nos dias em que o ar pode ser mais pesado e os ossos
se enchem de uma substância morna que não se sabe bem o que é.
Na gravidade dos pés e da cabeça, e também dos olhos, com que nos são alheias
quando as olhamos de frente rumo ao lado útil do caminho que escolhemos, essas
pessoas arrastam uma nuvem prateada que a cada passo larga uma imagem daquilo
que foram ou das pessoas que amaram.
Essas imagens podem desaparecer para sempre se forem pisadas quando caem no
chão. A gravidade dos pés e da cabeça, e também dos olhos, dessas
pessoas, é, por isso, uma subtil forma de cuidado.



Rui Costa
(Prémio Daniel Faria 2005)

Para uma excelente análise aprofundada do livro homónimo, visite aqui.

[tn]

El mundo

Un hombre del pueblo de Neguá, en la costa de Colombia, pudo subir al alto cielo.

A la vuelta, contó. Dijo que había contemplado, desde allá arriba, la vida humana. Y dijo que somos un mar de fueguitos.

- El mundo es eso - reveló -. Un montón de gente, un mar de fueguitos.

Cada persona brilla con luz propria entre todas las demás. No hay dos fuegos iguales. Hay fuegos grandes e fuegos chicos y fuegos de todos los colores. Hay gente de fuego sereno, que ni se entera del viento, y gente de fuego loco, que llena el aire de chispas. Algunos fuegos, fuegos bobos, no alumbran ni queman; pero otros arden la vida con tantas ganas que no se puede mirarlos sin parpadear, y quien se acerca, se enciende.

Eduardo Galeano
in "El Libro de los Abrazos", Sigilo XXI Editores

Encantar-te-ás com os poetas até conheceres um

Encantar-te-ás com os poetas até conheceres um.
Com calças de poeta, camisa de poeta e casaco
de poeta, os poetas dirigem-se ao supermercado.

As pessoas que estão sozinhas telefonam muitas vezes,
por isso, os poetas telefonam muitas vezes. Querem
falar de artigos de jornal, de fotografias ou de postais.

Nunca dês demasiado a um poeta, arrepender-te-ás.
São sempre os últimos a encontrar estacionamento
para o carro, mas quando chove não se molham,

passam entre as gotas de chuva. Não por serem
mágicos, ou serem magros, mas por serem parvos.
A falta de sentido prático dos poetas não tem graça.


José Luís Peixoto
in "Gaveta de Papéis", Edições Quasi, 2008

rua do imaginário

Ligue-se.

eu

não sei se acordei apaixonado ou se foi uma paixão que acordou em mim. a solução é dormir, e sonhar tudo outra vez.

[canels]

Atrás do mosteiro

Atrás do mosteiro, perto do caminho
existe um cemitério de coisas gastas,
onde jaz ferro sarroso, pedaços
de loiça, tubos partidos, arames torcidos,
maços de tabaco vazios, serradura
e zinco, plástico velho, rodas rotas,
esperando, como todos nós, a ressurreição.

Ernesto Cardenal
Trad: Tiago Nené

América





















América dei-te tudo e agora não sou nada.
América dois dólares e vinte e sete cêntimos em 17 de Janeiro de 1956.
Não aguento a minha própria mente.
América quando poremos fim à guerra entre os homens?
Vai-te lixar com a tua bomba atómica
Não me sinto nada satisfeito não me chateies.
Não vou escrever o meu poema enquanto não estiver perfeitamente equilibrado.
América quando serás tu angélica?
Quando é que te despes?
Quando é que olharás para ti através do sepulcro?
Quando é que serás digna do teu milhão de trotzkistas?
América porque estão as tuas bibliotecas cheias de lágrimas?
América quando é que enviarás os teus ovos para a Índia?
Estou farto das tuas exigências loucas.
Quando poderei eu entrar no supermercado e comprar tudo o que preciso com a minha beleza?
América no fim de contas tu e eu é que somos perfeitos não o outro mundo.
As tuas engrenagens são demais para mim.
Tu fizeste-me desejar ser um santo.
Deve haver qualquer outra maneira de resolver esta discussão.
Burroughs está em Tânger não me parece que volte é sinistro.
Estás a ser sinistra ou trata-se de uma partida que me pregas?
Estou a tentar definir as coisas.
Recuso-me a abandonar a minha obsessão.
América não empurres eu sei o que faço.
América as flores de ameixeira estão a cair.
Há meses que não leio os jornais, todos os dias alguém é julgado por assassínio.
América sinto-me sentimental para com os Wobblies*.
América quando era miúdo costumava ser comunista não lamento nada.
Fumei marijuana sempre que tive oportunidade.
Fico sentado em casa dias a fio a olhar para as rosas na retrete.
Quando vou a Chinatown embebedo-me e nunca me fazem amor.
Já decidi vai haver sarilho.
Devias ter-me visto a ler Marx.
O meu psicanalista acha que tenho razão.
Não direi o Padre Nosso.
Tenho visões místicas e vibrações cósmicas.
América ainda não te contei o que fizeste ao Tio Marx quando veio da Rússia.

Dirijo-me a ti.
Irás permitir que a tua vida emocional seja dirigida pelo Time Magazine?
Estou obcecado pelo Tine Magazine.
Leio-o todas as semanas.
A capa do Time Magazine olha para mim todas as vezes que passo pela tabacaria da esquina.
Lei-o na cave da Biblioteca Pública de Berkleey.
Está sempre a falar-me da responsabilidade. Os homens de negócios são sérios. Os produtores de cinema são sérios. Toda a gente é séria excepto eu.
Vem-me agora a ideia de que eu sou a América.
Estou a falar outra vez para mim.
A Ásia está a levantar-se contra mim.
Não tenho a mínima chance.
Talvez seja melhor inventariar os meus recursos nacionais.
Os meus recursos nacionais são dois bocados de marijuana milhões de órgãos genitais uma literatura privada impublicável que anda a 1400 milhas por hora e vinte e cinco mil manicómios.
Sem mencionar as minhas prisões nem os milhões de subprivilegiados que vivem nos meus vasos de flores à luz de quinhentos sóis.
Aboli os prostíbulos de França, os de Tânger são os próximos a ir.
A minha Ambição é ser Presidente apesar de ser Católico.

América como posso eu escrever um litania sagrada com a tua maneira de ser idiota?
Continuarei como Henry Ford as minhas poesias são tão pessoais como os seus automóveis mais ainda pois são de sexos diferentes.
América vou vender-te poemas a 2500 dólares, 500 dólares de sinal para a tua epopeia
América liberta Tom Mooney
América salva os Republicanos Espanhois
América Sacco & Vanzetti não devem morrer
América eu sou a malta de Scottsboro.
América quando eu tinha sete anos a minha mãe levava-me a reuniões de uma Célula Comunista vendiam-nos garbanzos uma mancheia por um bilhete custa uma coroa e os discursos eram de borla toda a gente era angélica e sentimental sobre os operários era tudo tão sincero não fazes ideia como o partido era bom em 1835 Scott Nearing era um velhote bestial um verdadeiro mensch a Mãe Bloor fez-me chorar uma vez vi mesmo Israel Amter. Toda a gente deve ter sido espião.
América tu na realidade não queres a guerra.
América são os malandros dos Russos.
Os Russos os Russos e os Chinas. E os Russos.
A Rússia quer comer-nos vivos. A Rússia está sedenta de poder. Quer as nossas fábricas de automóveis na Sibéria. A sua grande burocracia quer explorar as nossas estações de serviço.
Isto não está certo. Ugh. Ela fazer Índios aprender a ler. Ela precisar grandes negros pretos. Ah. Ela fazer nós todos trabalhar dezasseis horas por dia. Socorro.
América isto é muito grave.
América esta é a impressão com que fico ao olhar para o aparelho de televisão.
América isto está certo?
Era melhor eu deitar já mãos à obra.
É certo que não quero ir para a tropa nem trabalhar com tornos de precisão, mas de qualquer maneira sou míope e psicopata.
América vou ajudar pessoal e loucamente de boa vontade.


Allen Ginsberg, in "Antologia da novíssima poesia norte americana" futura, 1973
trad. Manuel Seabra

a mesma história de sempre

[Há tempos, alguém que me conhecia como autor de micronarrativas perguntou-me, não sem ironia, quando é que eu escrevia um romance. Respondi-lhe, com um sorriso, que não só já tinha escrito um romance, como até o tinha publicado. Na verdade foi o primeiro texto literário que escrevi, e que vi publicado. O que só vem ao caso para dizer que se escrevo contos é porque gosto de o fazer, não porque não consiga escrever romances. E mesmo se não conseguisse... ]


A MESMA HISTÓRIA DE SEMPRE
[O quê, quem, onde, quando e como.]


Olha o que fizeste!

Não tem importância.

Não tem importância?

Deixa, eu trato disso.

Contigo é sempre a mesma história. Por que o fizeste?

Porque me apeteceu.

O problema é esse, fazes sempre o que te apetece.

Tens razão, é sempre a mesma história, não vale a pena falar sobre isso. Olha, vou tomar banho e trocar de roupa.

Saiu da sala e entrou num dos quartos, o único que tinha casa de banho privativa. A mulher seguiu-o, sentou-se na cama e ficou a vê-lo despir-se. O homem foi colocando cada peça que despia numa cadeira, até ficar completamente nu. Depois tirou do armário a roupa que ia vestir e estendeu-a em cima da cama, ao lado da mulher.

Não te compreendo.

Nem eu me compreendo.

És sempre tão metódico, tão organizado, quase fanático, e ao mesmo tempo és tão impulsivo, tão… nem sei.

O homem olhou-a sem responder e dirigiu-se nu para a casa de banho, onde entrou deixando a porta aberta atrás de si. Pôs a água a correr e veio até à porta.

Não me compreendes, não me compreendes, e depois? É sempre a mesma história, para tudo precisas de um porquê. A mim não me interessam os porquês, pensei que já tinhas percebido. Faço o que tenho de fazer e depois não penso mais nisso. O que está feito está feito.

A mulher ficou a olhar para ele, para o seu corpo nu, até que ele lhe voltou as costas e entrou na casa de banho. Agora tinham de ir embora, haviam alugado aquela casa isolada junto ao mar e planeado ficar ali um mês, mas nem sequer tinha passado ainda uma semana.

Levantou-se, foi até à porta da casa de banho e gritou lá para dentro:

Agora vamos ter de ir embora!

E como ele não respondesse, gritou de novo:

Estás a ouvir-me?

Estou a ouvir, disse o homem, fazendo-se ouvir com nitidez por cima do barulho do duche.

Então por que não me respondes?

O homem fechou o duche, correu a cortina, esfregou-se vigorosamente com uma enorme toalha amarela e colocou-se à frente dele, olhando-a nos olhos.

Estou a ouvir.

Ela aguentou o olhar dele e ficaram assim algum tempo, imóveis, silenciosos, um à frente do outro, a olharem-se.

É sempre a mesma história. É sempre a mesma história, repetiu a mulher, e tocou-lhe o peito com as pontas dos dedos e, sem deixar de o olhar nos olhos, cravou-lhe fundo as unhas, sentindo-o contrair-se. O homem enlaçou-a e puxou-a para si, mas a mulher libertou-se e soltou uma gargalhada forte.

Isto não é como tu queres.

O homem olhou-a sem dizer nada e dirigiu-se para cama, começando a vestir-se, primeiro as cuecas, depois as meias e finalmente a camisa e as calças.

Vamos embora daqui?

Podemos ir e podemos ficar.

Tanto faz?

Podemos fazer uma coisa ou outra.

A mulher estava à porta do quarto. Virou a cabeça para ele sem sair do sítio.

O que queres fazer?

Não sei, acho que tanto me faz. O que queres tu fazer?

A mulher riu-se.

É sempre a mesma história. Fazes sempre o que te apetece, mas de vez em quando perguntas-me o que quero.

O homem sorriu pela primeira vez, e a mulher pensou que ele tinha um sorriso bonito.

É muito mais fácil irmos embora. E acho que já não faz sentido ficar aqui.

A mulher sorriu também.

Tens razão. Vou arrumar as minhas coisas. Em meia hora estou despachada. Que dizes?

Sim, vou fazer o mesmo. Encontramo-nos no carro daqui a meia hora.

E ele?

O que tem?

Vamos deixá-lo aqui?

É o mais fácil. A casa foi alugada através de uma agência, com um nome falso. Só daqui a mais de um mês encontrarão o morto. Nada nos liga a ele. Seja como for já estaremos longe.

Olharam-se em silêncio até que a mulher, de forma brusca, beijou o homem de leve nos lábios e saiu do quarto, passando pela sala sem olhar para o lugar onde o morto jazia no chão.

Mais tarde, quando saíram, fizeram os dois o mesmo, pois nem por um momento olharam para trás.

É sempre a mesma história. O que está feito está feito.

Isto não é Paris

Nunca escondi a minha admiração pela poesia do Uberto Stabile. Este poema toca-me particularmente, uma vez que tive o privilégio de ter vivido um ano fantástico da minha vida em Paris.


















Isto não é Paris
nem são cinco da tarde
nem chove
nem há cómicos na rua
e tampouco nesta esquina
desta cidade que não é Paris
há um realejo surpreendido
e um pintor boémio
e uma garrafa de vinho
porque às cinco da tarde
esta cidade não é Paris
e não existe um amor curioso
escondido atrás da cortina
enquanto Edith Piaf canta
Les amants de Paris
Nem a recordação do Sena
me leva as minhas memórias tristes
desta cidade sem noite
nem espelhos de mel
e não minto se disser
que Paul Eluard saiu do meu quarto
com asas de melro branco
pela janela desta cidade
que não tem pombas nem bêbados alegres
porque às cinco da tarde
esta cidade não é Paris.


(Uberto Stabile - Tradução Tiago Nené)

sugestão texto-al para o fim-de-semana prolongado


Fernando Dinis é um escritor que já muito apreciava e de quem já aqui publiquei um texto. Vim a saber, para minha supresa, que é um pianista fantástico.

Para ouvir Aqui


post de [tn]

Ensaio



uma tempestade na euforia, uns versos domésticos no bolso. tenho um bilhete nas veias já picado. não sei onde estou. surge-me na ideia a ideia de que não tenho reflexos na voz, nem compaixão nas suas paredes.

no autocarro as crianças brincam e choram sem ordem dos adultos. estes têm os olhos azuis como quem reflecte uma distância próxima.

ocorre-me que tudo isto pode ser um soneto, e eu, e as pessoas, e as crianças que choram e brincam, seríamos os seus versos. as pessoas reunidas em duas quadras, as crianças num terceto, eu sozinho noutro. sinto que, fazendo parte do mesmo mundo, algo nos divide.

talvez uma expectativa, ou um inverno geometricamente diferente, passado em lugares também diferentes, ou até um rigorismo ímpar na maneira de ocultar a paz.

adormeço e, quando me tocam, o algarve sou eu.


[tn]

Dia Mundial do Livro

Hoje, para celebrar o dia mundial do livro, há actividades por todo o Algarve, destacando-se as promovidas pelas Bibliotecas Municipais. Em Loulé, por exemplo, A Gaveta apresenta "Entre Nós e as Palavras", um espectáculo que percorre textos de Pessoa a Cesariny, apenas com um piano e uma voz. Em Faro temos os Contos de Liberdade, a decorrer até 30 de Abril, organizados pela ARCA; esta noite com Roda de Contos, às 21h30 na Biblioteca António Ramos Rosa.

Na compra do Público recebe-se um livro de oferta!

Pequeno texto tirado das canelas

[obviamente ao Tiago Nené]

Estava a beber um café ao balcão, sorvendo-o avidamente pelo pau de canela, o seu mais recente vício, quando sentiu todos os olhares fixos em si, recriminatórios, e mudou sobressaltado de posição, com tanto azar que pisou um cão que ali estava deitado e que logo lhe mordeu a canela direita em protesto, fazendo-o entornar o café sobre si mesmo. Depois de tudo isto não é de admirar que tenha dado às canelas dali para fora o mais depressa possível. Agora só bebe café em casa. Pelo pau de canela, é claro, que ele é um homem de convicções fortes.

É bom!

No outro dia, na presença das ma/nas, alguém comentava que beber o café através do pau de canela, fazendo deste uma palhinha, era fantástico.

Hoje em dia, sempre que bebo o meu café, certifico-me de que não está ninguém a olhar para mim.


[TN]

a sua melhor obra

[Explicar o que escrevo é algo que evito fazer, pois não sei explicá-lo, por isso é que escrevo, mas posso aqui e ali falar de como surgiu a ideia para escrever ou do que tentei fazer. A ideia deste conto, o seu ponto de partida, é-me facilmente identificável, e penso que o será também para aqueles que estiveram presentes no último encontro do texto-al, com Paulo Serra. Nos últimos dias tenho feito pequenas alterações ao texto, sobretudo cortes, mas a forma é já a final, e pouco falta para o dar por terminado. Como este pretende ser um espaço de partilha e discussão, deixo-o aqui, para quem quiser dizer o que lhe apetecer. Se alguém o quiser escrever de outra forma, que de certeza há muitas outras formas de o escrever, esteja à vontade.]


A SUA MELHOR OBRA

[ao Paulo Serra]



Está excelente. É a tua melhor obra.
Achas?
Nunca fizeste nada assim. É o melhor que já fizeste, e um dos melhores quadros que já vi.
Mas ainda não está acabado.
Para mim está mais que acabado.
Não, falta qualquer coisa.

A tela estava deitada no chão e o pintor ajoelhado a seu lado, como se rezasse, a cabeça baixa. O amigo, o único verdadeiro amigo que tinha, estava em pé à sua frente, e ambos olhavam o quadro.

Estás no pleno domínio da tua arte, este quadro diz isso. Conseguiste finalmente encontrar o equilíbrio que procuravas.
Equilíbrio?
Nota-se também no que dizes, na forma como falas da tua arte. Estás diferente. Estás melhor.
Organizei-me. Precisava fazê-lo.
Sim, e isso nota-se. Há um equilíbrio quase perfeito entre o que és e a tua arte.
Equilíbrio?

O pintor olhou para cima para o amigo e os seus olhares encontraram-se. Conheciam-se há muito tempo. Tinham aprendido a escutar-se um ao outro.

Estou mais sereno mas dificilmente chamaria equilíbrio a este meu novo estado.
Estás mais seguro.
Mais seguro?
Sim, mais seguro.
Talvez.

O pintor levantou-se e recuou dois ou três passos, sempre a olhar para a tela no chão.

É sempre tão difícil acabar um quadro.
Como é que sabes quando está acabado?
Quando está acabado eu sei! O difícil é chegar lá.
Mas não sabes o que queres fazer?
Não exactamente.
Não antecipas o quadro acabado?
Não. Não propriamente.

O amigo colocou-se ao lado do pintor e ficaram os dois durante algum tempo em silêncio, a olhar a tela. O dia estava a terminar e a luz entrava já a custo no atelier. O pintor continuava a olhar a tela.

Vamos beber uma cerveja?
Mais tarde.
Tens a certeza?
Tenho de acabar o quadro.
Pensei que concordavas comigo.
Como?
Pensei que tinhas concordado que estava terminado.
Não.
O quê?
Não está terminado.
Não?
Não, ainda não.

O pintor continuou a olhar o quadro, silencioso, imóvel. A tela no chão oferecia-se ao seu olhar, submissa, mas ele olhava-a como que assustado, desconfiado. O amigo olhou para o pintor, de uma forma não muito diferente daquela que o pintor olhava para a sua obra.

Olha que não te morde.
O quê?
Olhas para o quadro como se fosse um animal perigoso.

E sorriu, soltou mesmo uma pequena risada, mas o pintor manteve o mesmo semblante inquieto e não desviou nem por um instante o olhar do quadro. O amigo foi até à porta, acendeu a luz, e ficou a olhar o pintor.

É a tua melhor obra, disse finalmente, e saiu sem esperar resposta. Sabia que quando ele estava assim o melhor era deixá-lo sozinho. Ou terminaria o quadro ou abandoná-lo-ia, mas ia demorar. Já tinha estado noites inteiras à espera que ele acabasse um quadro. Mas quando ele conseguia acabá-lo, podia ser uma pequena pincelada, uma mancha de cor, ou até uma frase, o quadro ganhava subitamente sentido e brilhava como uma estrela recém-nascida. Mas daquela vez o quadro parecia-lhe acabado, e o mais certo é que o amigo acabasse por desistir.

Dobrou a primeira esquina a seguir ao largo e entrou no café onde iam muitas vezes os dois beber uma cerveja. Numa das mesas estava um amigo que morava ali perto, também escritor, companheiro de copos e de tertúlias.

Vieste visitar o teu amigo pintor?
Sim, saí mesmo agora do atelier.
Como é que ele está?
Está bem, as coisas estão a correr-lhe melhor. Está a começar a ser reconhecido.
Gosto do que ele faz.
Está cada vez mais no domínio da sua arte.
Os quadros dele são bastante obsessivos, não são? E ele então, é melhor nem falar.

Estavam os dois a beber cerveja e davam longos golos pelas garrafas, como que pontuando cada frase com um silêncio líquido.

A ligação entre a vida e a obra é nele muita íntima e intensa. Como em todos os grandes artistas! Não concordas?
Claro. A técnica por si só pode produzir boas obras, mas para uma obra excelente é preciso algo mais.
Havias de ver o quadro que acabou de pintar. Excelente. A sua melhor obra.

E pediram mais duas cervejas, e falaram de literatura, e mudaram de sítio, e continuaram a beber cerveja e a falar de literatura. Só muito mais tarde o escritor voltou a lembrar-se do seu amigo pintor.

Teria acabado o quadro?

No exacto momento em que o amigo se interrogou, que a realidade ultrapassa muitas vezes a ficção, o pintor levantou-se decidido, sacudindo a sua imobilidade, e dirigiu-se a uma bancada perto da janela, de onde retirou uma navalha que usava habitualmente, sempre que era necessário raspar ou cortar qualquer coisa. Trouxe-a fechada na mão até ao pé da tela e voltou a ajoelhar-se.

Olhou ainda mais uma vez a tela e mais uma vez percebeu que sabia como acabá-la. Sabia o que faltava. Seria sem dúvida a sua melhor obra.

Abriu a navalha, cortou os pulsos sem hesitação e suspendeu-os à sua frente, à altura do peito, o sangue a derramar-se sobre a tela.

Ester Ica nunca fora histérica

Eram duas irmãs: Ica Ester e Ester Ica. A primeira fazia amor aos gritos, a segunda, curiosamente, fazia-o calada. Era muda.

[Chaparro Mouro]

rua do imaginário

Também em blog :)

ELOGIO DA BREVIDADE

Escreveu sete palavras num ano. Magníficas. Decisivas.

por que chove em abril?

ao carlos campaniço e ao novo herdeiro,
à miúda do gengibre,

a vós, este meu rascunho


lá fora chove. cá dentro nem por isso, embora oiça o bater da chuva no telhado. se estivesse lá fora, dentro do seu mar, perderia o bater da chuva nas telhas. creio que a diferença substancial em termos poéticos deste meu ponto de vista reside no seguinte: enquanto lá fora se vive intensamente um sonho, cá dentro sonha-se.


[tn]

ENTRETECENDO

Por onde começo? Tem alguma importância?

António escreve. Os dois dedos indicadores procuram as teclas. Diz a si mesmo que escreve palavra a palavra, mas seria mais verdadeiro dizer que escreve letra a letra. Com dificuldade. Mas também com prazer. O prazer da descoberta.

Matei um homem. Sei que o matei. Não tenho quaisquer dúvidas sobre isso. Só não sei porque o fiz.

A mesa, o portátil, a cadeira, o homem. Pouco mais cabe naquele cubículo sem janela. A porta está fechada nas suas costas.

Era um homem irritante, convencido, egoísta, uma perfeita besta, mas era meu amigo e, o mais importante, eu era amigo dele.

Todo o texto fala afinal do que é a escrita; cada texto que se escreve contém a opinião do seu autor sobre a escrita, mesmo que ele não diga nada sobre isso: a própria forma como escreve e o que escreve diz o que ele pensa sobre a escrita.

Escreve toda a manhã, depois levanta-se, espreguiça-se, quase tocando as paredes, volta-se e fica a olhar para a porta fechada.

Um dia disse-me que eu devia esforçar-me mais, que devia ser mais provocador. Era uma perfeita besta, mas isto já eu disse, isto já eu escrevi.

Porque se escreve? Porque se escreve de uma ou de outra forma? Os escritores não sabem, ainda que alguns avancem explicações.

Era um homem, mas era também uma personagem, por assim dizer, pois seria fácil, muito fácil, escrever sobre ele. Era um cromo, como se costumava dizer. Um homem excessivo, fácil de caricaturar. Mas também se mostrava complexo, tantas eram as suas contradições. E um homem é tanto mais personagem quanto mais complexo é. E excessivo. Sim. Mas era um mentiroso, um mentiroso compulsivo, um mentiroso da pior espécie, um mentiroso que acredita nas suas próprias mentiras.

António sabe que o que escreve é verdade, ainda que não o saiba explicar. Sabe algumas coisas sobre escrever mas nunca tenta explicá-las, ainda que às vezes as escreva. Há muito que aprendeu a seguir a sua intuição, a confiar no que não sabe que sabe. Escreve com facilidade. Sabe que escrever é demasiado complicado para que não deva ser feita da forma mais fácil. Por assim pensar é que criou para si uma rotina que segue com docilidade, como o embalar de um berço.

Todo o escritor é um mentiroso, um mentiroso que acredita nas suas próprias mentiras, e esta é, de um forma retorcida, a sua verdade.

Era um homem irritante, uma perfeita besta, um mentiroso compulsivo. Mas estou a repetir-me e, o que é pior, estou a dizer o que ele era, a apresentar conclusões, em vez de mostrar como ele era, sem mais.

António escreve todos os dias, das nove às treze, quatro horas em que se fecha naquele espaço diminuto onde colocou uma cadeira. A prateleira que já lá estava faz as vezes de mesa. É o seu buraco, a sua toca, como ele costuma dizer. A escrita é a sua única religião, e todas as manhãs entra ali para rezar ou para cumprir penitência, nem ele sabe ao certo. Poderia fazê-lo noutro lugar, vive sozinho num apartamento espaçoso, mas fecha-se para escrever, assim poderia ele dizer, naquele pequeno espaço pensado como uma arrecadação e que do qual ele fez o seu lugar de escrita. Fecha-se todos os dias para escrever e escreve durante quatro horas. Acredita que se escreve escrevendo.

Talvez deva começar outra vez. Talvez deva voltar ao princípio. O que pensamos ser o princípio é muitas vezes apenas um recomeço.

Escreve como se não fosse ele que escrevesse, como se fosse outro que escrevesse. Houve um tempo em que se julgava um bom escritor, não esse tempo não durou muito; depois, durante muito mais tempo, teve a certeza que era uma mau escritor; agora, não pensa nisso, limita-se a escrever, da mesma forma que faz outras coisas que lhe são essenciais, de forma desinteressada, como se não lhe dissesse respeito.

Matei-o, sim, matei-o, e no entanto recordo-o tão bem como quando estava vivo. Só que agora não me aborrece, não me maça, não me chateia de morte com os seus intermináveis monólogos. E não é que não gostasse de ouvi-lo, as suas histórias até eram divertidas, mas a intensidade com que pedia atenção e aprovação eram demais para mim. Talvez tudo isto diga muito mais de mim do que dele. Talvez seja em mim e não nele que eu deva procurar a razão porque o matei.

[…]

Falar sobre escrita é perder tempo, tempo que pode ser usado a escrever, ainda que a escrever sobre escrita.

Verde


O homem do povo descreveu as folhas como sendo verde-água. Ao evocá-las no seu romance, o escritor as definiu “verde-esmeralda”. Quando se fez o filme baseado naquela história, o realizador pediu aos actores que apareciam debaixo da árvore para que vestissem roupas a condizer com o verde-Hawai das folhas. Os trabalhadores que retiravam os cenários, mal-humorados e sonolentos, viam-nas verde-escuro. Já ninguém se lembra dela, mas a árvore permanece no seu sítio. Viu engrossar a sua cortiça e cresceu alguns centímetros. Presa sem mérito ao solo recebe agradecida a chuva, balança com o temporal e dá sombra a quem se aproxima. Não sabe que inspirou um livro ou que apareceu num filme. Se fosse um homem diríamos que é dessa espécie de sábios que ignoram os adjectivos que qualificam cada verde que vêem.


Rafael Camarasa, in El Sitio Justo, vencedor do Prémio Palavra Ibérica
(tradução Tiago Nené)



contos de liberdade

Espreitem o programa aqui. E já agora espreitem-me a mim e à Sara, aqui.

contar o conto

Seria fácil dizer que peguei numa faca, retalhei com ela o meu peito até o abrir, extraí o coração e atirei-o fora. Não que eu, como qualquer outra pessoa, não sentisse muitas vezes vontade de fazer isso. Não, tudo aconteceu de uma maneira diferente, contrária ao que eu esperava que viesse a acontecer.

Assim começa o conto de Doris Lessing, Como me livrei finalmente do meu coração, incluído numa antologia publicada pela Ulisseia com o título genérico de Um homem e duas mulheres, título de um dos contos incluídos. Mas o que me leva a escrever não é comentar o livro mas apenas este início, necessário para o desenrolar do conto, mas que não deixa de ser um falso início, e ainda mais necessário por isso mesmo, para despertar, desviar e de novo despertar a atenção do leitor. E lembrei-me de Júlio Cortazar quando dizia que se olhássemos para a primeira página de um conto, de um conto excelente, veríamos que nada aí estaria a mais. É o caso, e não será, penso eu, uma questão de pura técnica literária, mas a melhor forma que a autora encontrou para contar a sua história e nos manter presos a ela, porque, como dizia certo escritor amante do boxe, um romance ganha sempre aos pontos enquanto o conto tem de ganhar por knock out, e até os primeiros golpes, como este início que parece inofensivo, são já o preparar da derrota.

livros

sempre vou à biblioteca e trago três livros, há um que não presta. passei então, com a ajuda de um amigo, uma vez que o máximo, por pessoa, são três livros, a levar quatro de uma assentada. acontece que, levando quatro, havia dois que não prestavam. passei então, com recurso ao mesmo expediente, criticável a todos os títulos, a levar cinco livros e, desta feita, constatei que havia três que não mereciam que lhes apusesse o meu parecer positivo. continuei sucessivamente já por uma questão de mera estatística e garotice, vendo sempre que restavam dois livros bons dentre os que requisitava. quando passei a levar só dois, e fi-lo por uma questão de estudo pessoal destas questões, havia um que não me dizia nada. voltei então a levar três livros de uma só vez, sabendo desde logo, que um não iria prestar.

a moral disto diz-me que a vida tem muito de incontornável. damos voltas e voltas e, não raras vezes, a solução mais justa é a que estava no início de tudo.


[TN]

o autor e a sua criatura

Talvez seja exagerado afirmar que todo o conto breve plenamente conseguido, e em especial os contos fantásticos, sejam produtos neuróticos, pesadelos ou alucinações neutralizadas mediante a objectivação e o transporte para um meio exterior ao terreno neurótico; de todas as maneiras, em qualquer conto breve inesquecível essa polarização é perceptível, como se o autor tivesse querido desprender-se o mais rapidamente possível e do modo mais absoluto da sua criatura, exorcizando-a da única forma que lhe era possível: escrevendo-a.


Julio Cortazar (excerto retirado e traduzido daqui)

auto-retrato



Gosto sempre de ouvir Paulo Serra falar de si e da sua arte, para ele cada vez mais uma e a mesma coisa, como me pareceu ao ouvi-lo, quer na leitura do texto onde se organizou para poder continuar, quer no que a seguir disse respondendo a diversas perguntas, sobretudo da curiosa e incansável Van. Arte e vida, arte como obsessão, arte como exorcismo, o artista como neurótico, a supremacia da emoção sobre a razão, eis alguns dos temas que o encontro com Paulo Serra me suscitou ou reforçou.

[escrevi esta nota num post já existente porque me pareceu ficar aqui bem, com um auto-retrato do autor. Luís Ene]

agora

Agora
E hoje
Vendo-me
Triste
Por não bastar a rua da terra

— Lamacenta extensa larga…

Vejo-me
Abrir
Miserentos e roubados
Estes livros
De ler meninos

Lei te peco
Ninguém que agora é… Sejai-o.


Paulo Serra

crónica de um fim de tarde

[com minúsculas]

passei na biblioteca municipal de faro. requisitei três livros de poesia: afonso de melo's não morrerei em buenos aires (dom quixote's edição), francisco josé viegas's metade da vida (quasi), hélder pacheco's os dias comuns (caminho). de assinalar que do primeiro farei uma releitura. trata-se de um excelente livro que desde já recomendo. depois, o mais importante, comi uma maçã. é que dizem que a fruta faz bem à saúde e, apesar de brincar com tudo o resto, com esta eu não brinco.



tiago nené, aka, in comentários, canel's man

a mesma história de sempre


O quê, quem, quando, como e porquê.