teoria da reprodução




Para ouvir este teoria da reprodução de Alice Macedo Campos, do seu novíssimo livro O Ciclo Menstrual da Noite.

Obrigado Duarte Temtem pela dica.


[tn]

perspectivas

1. no supermercado um homem e uma mulher olham para o chantilly como um ponto de encontro

2. a muitos quilómetros de distância uma senhora de idade dá o nome de chantilly a uma gatinha recém-nascida




Exclusivo Texto-Al

Quem são estes?


Da tartaruga retirar a tartaruga,

deixá-la ser apenas a não tartaruga.

Chove. As gotas molhariam seu atraso.

Eis o primeiro ciclo, o da falta.

A chuva insiste, toca as telhas de amianto.

A casa está fechada e quem está lá dentro

é a continuação da chuva e do amianto.

Esse o segundo ciclo, o do gesto.

Junto da casa, um quintal. Ainda não.

Quem sabe quando a chuva parar de insistir

eu compreenda as regras da perspectiva.

O que se retirara retorna. Silêncio.

À tartaruga chega-se por paciência.

Terceiro ciclo, o das coisas repetidas.


O coração subentendido do elefante

desce por uma linha que vai dar ao lado

do que se repetiu sem ter sequer e ainda

acontecido uma só vez. Analogia.

Junto do verso acima, novamente a casa.

No quintal dois cachorros latem sem parar;

um deles nada sabe acerca do elefante

e de seu coração localizado às pressas.

Entro na casa até que a casa deixe o texto.

O elefante é do lado de fora. Por isso

o quintal, os cachorros, os ciclos, a linha.

Interrompem-se então tamanho e referência.

Talvez viesse pelas águas. Improvável.

Sobre a copa das árvores a ventania.


A casa está vazia não por mera ausência,

mas para o aprendizado da subtração.

E a chuva, porque cai desde o terceiro verso,

além de chuva é extensão desse elefante.

A casa está vazia para que se saiba

do desapego que há em insistir no mesmo.

Mesa e pausa. A chuva caindo talvez

e apenas como efeito de profundidade.

Depois um dos cachorros. Não, acho que só

seu deslocar-se repetido até a porta.

A metodologia seguida do gesto.

Alguns pássaros seguem para o noroeste.

Tudo começa no elefante. Lentamente

a bala dentro do tambor, as leis da física.


Os pássaros aos poucos pousam no que sobra;

o pouso repetindo-se até haver árvores.

Espécie de equilíbrio natural nos ciclos

que haja ainda e a partir de agora apenas árvores.

E por haver apenas árvores, chego ao

cuidado que se ganha em se perder tais pássaros.

Assim, em cada projeção, seu negativo;

no que algo se levanta, algo também cai.

Compensação e equivalência. Revoada.

Os pássaros e as árvores segundo os peixes

que ausentes marianne moore quis próximos ao jade.

Em outro lugar deixo um jornal sobre a mesa.

As coisas são somente por faltarem todas.

Substituição e excesso. Continua.


Imitação do esquecimento o fato

de a primeira pessoa não ter posto

jornal algum na mesa. Mas espera.

Olha como retorna a tartaruga.

De seus ciclos inúmeros e três,

a segunda pessoa esta terceira.

Alguém, não sei, talvez um homem que

chegasse em casa com o tal jornal.

Me pergunto se já não o conheço.

Ele se olha no espelho e vê o pai,

depois pensa na chuva e na mulher.

Entre os dias então escolhe um dia

– anulação do dia anterior.

Quem sai, sai de onde quando entra na casa?


Ao elefante nada disso importa;

seu coração inchado ainda desce

ao vir por uma linha que vai dar

ao lado das palavras de quem chega.

E toca o chão. E quando o toca está

tocando notas menos simultâneas

que repetidas. Por exemplo, pássaros,

jornal, cachorros, telhas de amianto,

árvores, mesa, peixes e quem sabe

até todo o catálogo das naus.

Depois, lembro, alguém se olha no espelho.

Ainda não. A paciência insiste.

Sete anos de pastor jacob servia.

Introdução. O tempo do elefante.


Pausa e peixes. Mover-se em relação

ao que se move permanece imóvel.

Muda o registro, árvores mais pássaros

igual talvez a casa menos chuva.

Muda outra vez: a mesma marianne moore

– que traduziu até algumas fábulas

de la fontaine – ao ler o verso abaixo:

where there is personal liking we go.

Sim, hoje marianne, amanhã jacob

e assim seguindo, sob a mesma chuva,

de nome em nome até tocar o chão,

i.e., até que cicatriz alguma

possa impedir que homônimos raquel,

lia e filhos estejam entre os seus.


Da tartaruga retirar o não

que antecedia a coisa repetida.

Não para confirmá-la, já que é de

confirmação que a tartaruga inteira é feita.

Mas para contrapô-la ao elefante

e a seu ainda inchado coração.

Por isso que o que fica no lugar

do gesto é seu reverso e também extensão.

Colocar sobre a mesa tanto o pôr

como o não pôr jornal nem coisa alguma.

Anulação seguida de recuo.

Chove. As gotas contra o amianto

das telhas descobertas molhariam

por três vezes o não da tartaruga.


Leonardo Gandolfi


(No entanto d’água, RJ: 7letras, 2006 / Antologia de Poesia Brasileira do início do terceiro milénio, exodus, 2008)


(...)

é Inverno...
caminhamos os dois...
pela praia deserta...
despreocupados...
felizes...

encerrados...
para sempre...
no tempo sem tempo...
deste poema...
hesitante...

Listen to me now












Agradeço à Jornalismo Porto Rádio o convite de entrevista que me fez. Falou-se de mim e do Blogue das Artes.

A ouvir [Aqui]

La Clef de Champs.





















Magritte
La Clef de Champs.

respiração

[ao ene, o deus das sete palavras]



eu comprei uns óculos para não ver

o sol vai apagar-se

o sol vai apagar-se e o
universo implodir. só por isso
hesito em escrever poesia, três
minutos antes de a maré encher

deito o corpo, invento asas,
passei a idade de tudo o que
há-de vir

valter hugo mãe

coisas

temos uma paixão desapaixonada pelas coisas, é a razão do nosso inalcance. porque as coisas dão-nos a distância exacta e o caminho. sem elas não temos o veículo para ir daqui até aí, e daí até aqui



[tn]

Agora





















Agora, já não preciso que gostem de mim.
Agora, tenho mil peças de um puzzle, tenho
uma caixa cheia de molas soltas, duas mãos,
tenho a planta de uma casa, tenho ramos
guardados para o inverno, e tanto silêncio,
tenho tanto silêncio, bolsos vazios e cheios,
pão, fé, céu, chão, mar, sal, sol, cá e lá,
tenho sobretudo lá, uma distância imensa
feita de planícies estendidas e eternidade
porque eu caminho com vagar ao longo das
estradas, o horizonte é demasiado quando
planeio toda a sua distância sem medo de
nada, destemido apenas, a coragem é um
exército ao meu lado, tenho a coragem
necessária, tenho um lago que reflecte a
noite e a lua quando há lua, uma orquestra
inteira tenho, o som e o silêncio, já disse o
silêncio, repito-o a saber quem sou e o que
tenho, tenho uma gaveta de papéis, tenho
montanhas de montanhas, tenho ar, tenho
tempo e tenho uma palavra que corre à
minha frente, mas que consigo apanhar
e que ainda utilizo no poema.


José Luís Peixoto
(Gaveta de Papéis)

A prostituta da Rua da Glória












Tanges a noite sem saber que a noite
é uma cítara com cordas de ferro
onde os insectos ferem as asas.
O teu canto arranha o azul da chama
e a cidade desperta para a dança:
um labirinto de minotauros
sorvendo o odor do primeiro tango –
um ténue resquício de feno escondido na nuca.

Ainda ontem foi lua cheia no teu ventre.
Sobrou um aquário onde os cegos vêm depenicar
a caspa dos pombos.
Hoje não saias, deixa-te ficar.

Pelos corredores as fêmeas largam o pó
das florestas quentes –
ténues resquícios de feno escondidos na nuca.

Hoje não saias, deixa-te ficar.
Deixa dormir o teu sexo cansado de morrer.


(Catarina Nunes de Almeida)

DO POEMA



O problema não é

meter o mundo no poema; alimentá-lo

de luz, planetas, vegetação. Nem

tão-pouco

enriquecê-lo, ornamentá-lo

com palavras delicadas, abertas

ao amor e à morte, ao sol, ao vício,

aos corpos nus dos amantes —


o problema é torná-lo habitável, indispensável

a quem seja mais pobre, a quem esteja

mais só

do que as palavras

acompanhadas

no poema.


(Casimiro de Brito)


Hoje


puzzle de sílabas


fazia sempre isso. dentro de cada palavra deixava imperceptível uma sílaba; às vezes, trocava na mesma frase sílabas de palavras diferentes, e ainda dentro da mesma palavra trocava-lhes a ordem; para saber que me amava tinha de ir para casa montar o puzzle, o que nem sempre conseguia.


[tn]

mundo universitário









nova edição do jornal mundo universitário em pdf aqui.

obrigado Eduardo por me avisares que haviam publicado um texto meu.


[tn]

VELOVELOVELO

depois de andar por aqui escrevi qualquer coisa assim:


há mulheres que se amam bem; outras nem por isso

A palavra final, de Elemér Horváth


à leonor almeida, como não poderia deixar de ser





















clique na imagem para ver em tamanho real


[tn]


Acordo Ortográfico ao rubro!


in ciberduvidas


1. O Parlamento aprovou neste dia, com os votos favoráveis do PS, PSD, Bloco de Esquerda e sete deputados do CDS, o Segundo Protocolo do Acordo Ortográfico.

O ministro da Cultura português reiterou o período máximo de 6 anos de transição completa para a nova ortografia.

Entretanto, continuamos aqui a reportar diferentes tomadas de posição face ao que o Acordo propõe:

João Andrade Peres alerta para insustentabilidade de um acordo que legitima grafias facultativas; Rui Tavares responde a Vasco Graça Moura, relevando uma certa crispação desnecessária relativamente às alterações ortográficas em causa.

2. Decorrerá, nos próximos dias 28 e 29 de Maio, na Universidade Lusófona (Lisboa), o II Congresso Internacional da África Lusófona.

O que é escrever?

I

“O que é escrever?”, perguntou-lhe ela, e ele olhou-a intensamente até que ela se viu reflectida no seu olhar.

II

“O que é escrever?”, perguntou-lhe ela, e ele agarrou numa caneta e escreveu a pergunta na palma da mão esquerda.

III

“O que é escrever?”, perguntou-lhe ela, e ele respondeu que era isso mesmo, e não disse mais nada.



Luís Ene

[quem é que me chamou?]

Dia 20 pelas 21:30 na sala da Biblioteca do Clube Farense

O SOM DAS PALAVRAS
apresenta
Ene Coisas
[leitura de textos com som ao vivo]
voz: Luís Ene
som: Carlos Norton e Zé Matos

Sabemos que as palavras


Sabemos que as palavras

nos protegem do mundo.

Mas quem nos protege

das palavras?


José Mário Silva,
Nuvens & Labirintos

(Gótica)

Segunda-feira

questão prévia: alguém sabe do luís ene, autor deste brilhante conto?




















a segunda-feira vê-se ao espelho do domingo.
ninguém trabalha hoje
até porque o domingo se vê ao espelho do sábado
e o sábado vê-se ao espelho da sexta-feira
ao fim da tarde.

na mesa carradas de papéis por analisar, processos
cujo valor é incalculável, arguidos que vão pagar indemnizações cíveis brutais, sim, porque este é o Portugal do futuro...ou qualquer merda parecida.

até que o patrão, de bigode português, chega, bate com a mão no peito da mesa e diz "porra, pá! por vezes há que fazer sacrifícios, nem que trabalhemos ao fim-de-semana!"


[tn]

Do diário de um super-herói


Foi o meu primeiro erro e, por fim, o único que cometi em toda a minha vida. Depois de resgatar daquele edifício em chamas aquela mulher, escapou-me das mãos e caiu sobre a multidão. Talvez esta afirmação defraude muitos dos meus seguidores, mas ainda que não tenha provocado a tragédia nem gozado com a dor alheia, no meio daquele erro, pela primeira e última vez, senti-me o homem perfeito que todos acreditavam que era.


Rafael Camarasa

in El Sítio Justo

(tradução Tiago Nené)


Bono recita Charles Bukowski



Já agora envio daqui um grande abraço ao Manuel A. Domingos, o grande tradutor de Charles Bukowski na blogosfera.


[tn]

Moleskine


















Para quem é fã da Moleskine - como eu sou - é agradável encontrar um blogue em grande parte dedicado a ela.

[tn]

Minguante



belo, muito belo o novo número da Minguante subordinado à temática dos vícios.... já temos leitura obrigatória para este fim-de-semana....yuppie!


[tn]

Poema

A Primavera
é um jardim
de lápis de cor

É divertido
para brincar
como se fosse
a noite ao luar

Há uma janela
aberta para o azul
no céu a brilhar

Maria C. (10 anos)
Teresa C. (7 anos)

Cromos



Cromos, poemário de Rafael Camarasa, para ouvir

[tn]

Sem Palavras