O fato novo do imperador



Tenho 31 anos e estou cansado.
Todos os sítios me vão parecendo, finalmente,
igualmente maus.
Todas as pessoas, incluindo as que gostam de mim,
insuportáveis.
Não encontro sentido nem para o que faço
nem para as coisas que deixo por fazer.
Olho para os outros
com a absoluta certeza de quem vê
não semelhantes,
serenos, resignados, envilecidos extraterrestres.
Olho para mim
e sinto-me como se não tivesse outros com quem partilhar.
Para onde quer que eu olhe,
a insuportável mentira que faz ninho, germina, destila
este tempo, este país, este modo de viver
a que chamam
progressista, tolerante, solidário, democrático,
avançado, europeu, e melhor e melhor
que todos os existidos,
que todos os possíveis.
Este modo de viver
onde falta tudo o que foi nomeado.
Que desfez a classe trabalhadora sem uma única bala,
que encarcerou as consciências sem uma única grade,
que me afasta sem um único cassetete,
que me exclui sem um ferro candente,
sem sequer uma estrela amarela na lapela.

Este tempo
de fatos novos,
de Imperadores.




antonio orihuela

poesia espanhola anos 90
trad. joaquim manuel magalhães
relógio d´água
2000

frustração

a questão é que, por muito
que ele se esconda, nós
encontramo-lo sempre.
nada acontece de repente.



[tn]
Aida Monteiro é uma excelente poeta. É uma viagem interessante conhecer o seu espaço.

Um aperitivo infra, com desenho da própria:


















és tu o incêndio e a rosa
nos meus olhos. sei que ainda moras
nas ruas e lembro mesmo algumas

mulheres que apontavam ao longe
a cidade e a noite. não se vê daqui
a ponte e não tenho como saber
a hora exacta em que tocaste os meus
cabelos e o vento subiu a beijar-te
os olhos.

bloggers presos

segundo a bbc brasil tem aumentado a punição severa de bloggers em alguns países

notícia aqui

teste

faça este teste e depois falamos

jamais o sol


Belo é o sol quando sorri
em plena glória.
Bela é a lua e o seu sorriso
na noite serena.
Mais belo porém, o riso suave
do meu amor.

Bela é a lua vogando nas ondas.
Belas as estrelas no brilho da noite.
Mas nunca as estrelas, jamais a lua,
terão a beleza, um pouco sequer,
da cor e da luz que moram nos olhos
do meu amor.


Tradição Oral
, Galês (Século XVII)

O Imenso Adeus (Poemas Celtas do Amor), tradução de José Domingos Morais, edição Assírio & Alvim, colecção Gato Maltês, Lisboa, 2004.

o estado líquido

porque as mulheres fazem bem


por que não te chamas questão para te responderes
ou noutro dia mármore para te partires,
ou décimo andar por onde caíres

por que não te chamas questão
por que não te enches de questão para encerrares
assim um capítulo

por que tens medo de não saber nada e concentrares
isso tudo no simbolismo de uma pinta
oh je t'aime bien, mon amour

porque me pões na lista de cacos a recolher


Tiago Nené

Não há motivo para te importunar a meio da noite

a partir de um poema de José Luís Peixoto, um vídeo de Daniela Gigante:



Primeiro levaram os negros

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.


Bertold Brecht

Hoje

da paciência

A pedra, enorme, austera, interpelou-me, mas eu não a percebi. Para a escutar precisei abrandar o meu ritmo vital, até quase desfalecer. A pedra falou-me então da importância de ser paciente e de aguentar, aguentar sempre, e eu escutei-a, até não suportar mais aquela conversa.

Então gritei-lhe. E perguntei-lhe como podia falar-me de paciência, a mim, que, como todos os humanos, era, acima de tudo, acção e desejo de acção. Gritei-lhe ainda várias vezes e terminei desferindo-lhe um forte pontapé.

Depois, finalmente, sentei-me nela e tentei ignorar a dor. Tinha que concordar com ela: às vezes é preciso ser paciente.

o ainda do ainda dos 120 anos de pessoa

o documento oficial:
























outras sugestões de transcrição no nosso amigo abnoxio

Ainda os 120 anos de Pessoa





















O público traz hoje um inédito de Alberto Caeiro fantástico. Descoberto há pouquíssimo tempo. A ler:


Gosto do céu porque não creio que ele seja infinito.
Que pode ter comigo o que não começa nem acaba?
Não creio no infinito, não creio na eternidade.
Creio que o espaço começa algures e algures acaba
E que longe e atrás disso há absolutamente nada.
Creio que o tempo tem um princípio e terá um fim,
E que antes e depois disso não havia tempo.
Porque há-de ser isto falso? Falso é falar de infinitos
Como se soubessemos o que são de os podermos entender.
Não: tudo é uma quantidade de cousas.
Tudo é definido, tudo é limitado, tudo é cousas.



(transcrição de Richard Zenith,
jornal "Público", de 13 de Junho de 2008)

Para ser grande, sê inteiro


Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui
.
todo em cada coisa
. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive


Ricardo Reis

Em homenagem a Fernando Pessoa no dia em que se comemora 120 anos do seu nascimento.

livros


aquele livro era dele, embora nos registos constasse que fosse da biblioteca municipal. requisitou-o desde os dezasseis anos até ao fim da sua vida, ainda que por intermédio de outros. em setenta anos o livro conheceu apenas um leitor. quando este foi a enterrar, alguém se esqueceu do livro no casaco do fato do defunto

entre o Tigre e o Eufrates
















Não me chamem senhor
foi o que eu disse
quando cheguei
ao caminho entre os teus seios
não sabiam
que eu possuía a tua língua
e falaram-me com extrema precaução
como se fala a um estrangeiro
não sou senhor de nada
apenas conheço a terra
líquida vegetal colorida quente
que desce dos rios que tu és
até ao meu umbigo
Yaffa
civilizações redondas e macias
antigas e cruéis
reunidas na estranha planície
que nunca me entregaste
estendendo-se entre amoras
até se encontrar
num tempo primeiro e decisivo
fundo único exacto
em colinas ondulantes
onde nascem cantantes vales
de laranjas


Mário-Henrique Leiria

sem palavras

O Descanso e o Sonho ...do Poeta [Fernando Figueiredo]

[vi]

já que sentir é primeiro
quem presta alguma atenção
à sintaxe das coisas
nunca há-de beijar-te por inteiro;

por inteiro ensandecer
enquanto a Primavera está no mundo
o meu sangue aprova,
e beijos são melhor fado
que sabedoria
senhora eu juro por toda a flor. Não chores
-o melhor movimento do meu cérebro vale menos que
o teu palpitar de pálpebras que diz

somos um para o outro: então
ri, reclinada nos meus braços
que a vida não é um parágrafo

E a morte julgo nenhum parêntesis

e. e. cummings
in xix poemas (assírio & alvim)

dançando com a diferença

«Quem disse que o corpo só se faz inteiro?
Que a soma de todas as partes faz o todo
e que só o corpo todo é a expressão física
da alma?

Quem disse que a dança é apenas movimento
desses corpos perfeitos, inteiros de partes?

Quem disse que o belo depende desse corpo,
feito perfeição, ilimitada, sem diferenças?

Quem disse, mentiu.»


Sara Antunes de Oliveira

A literatura gay muda do armário para a prateleira

por Pedro Mexia, Outubro de 2003


Eduardo Pitta antologiou boa parte da sua poesia em Marcas de Água (1999) e recolheu o seu assinalável trabalho crítico em Comenda de Fogo (2002). Pelo meio, estreou-se na ficção, com as três narrativas de Persona (2000). Embora também estivesse presente na obra poética do autor, nessas histórias, o universo homossexual era explicitamente tematizado. Agora, Eduardo Pitta alinha algumas ideias sobre esse domínio em Fractura. A Condição Homossexual na Literatura Portuguesa Contemporânea. Esta é ainda uma área de estudos nova entre nós. No mundo anglo-saxónico, pelo contrário, abundam antologias de gay fiction e gay poetry, ensaios coligidos em gay readers e cursos e seminários de gay studies nas mais prestigiadas universidades. Este breve ensaio _ mesmo por ser breve _ tem a vantagem de levantar alguns problemas,
mas algumas conclusões são provisórias e discutíveis.



A tradição literária homossexual, sobretudo na poesia, é fortíssima, pelo menos desde Homero, e nos últimos cem anos teve nomes como Wilde, Auden, Kavafis, Thom Gunn ou Edmund White. Entre nós, a primeira obra explícita sobre a homossexualidade é de 1891: O Barão de Lavos, de Abel Botelho, ainda com o enfoque naturalista da patologia social. Já no século passado, o canónico dos canónicos Fernando Pessoa apresenta evidentes traços de homoerotismo, muito embora seja um autor em que o corpo e a sexualidade são muitas vezes sublimados ou elididos Eduardo Pitta prefere considerar "A

Confissão de Lúcio" (1914), de Mário de Sá-Carneiro, como o começo do «cânone» homossexual português, ao qual, aliás, não faltam nomes de relevo, sobretudo (uma vez mais) na poesia. De forma mais ou menos explícita, existem notas homoeróticas em poetas desde Nobre e Botto até Joaquim Manuel Magalhães, e bastantes outros que o ensaísta nomeia ou deixa de fora.
Refira-se que Eduardo Pitta também menciona autores hetero que escreveram sobre a homossexualidade, em obras tão centrais como Mau Tempo no Canal e Sinais de Fogo, embora esses exemplos sirvam sobretudo para delinear um universo de hipocrisia, repressão e estereótipos; mas concentra-se, sobretudo, em autores fora do domínio hetero. Desde logo Eugénio de Andrade, «poeta laureado», que omite o género e recorre a metáforas (a «passarada», como diz malevolamente Pitta), sendo por isso totalmente canónico. Já Mário Cesariny, mais radical, está, segundo Pitta, a pagar a sua orientação assumida com uma certa marginalização no cânone (um argumento pouco convincente). Formas de radicalismo pulsional são também visíveis nas obras de Armando Silva Carvalho e Luís Miguel Nava, atingindo um assinalável grau de visceralidade.



Mas nas últimas décadas encontramos dois nomes impossíveis de ignorar: um na ficção, Guilherme de Melo, outro na poesia, Al Berto. No primeiro caso, estamos perante uma convergência de factores: social, sexual e colonial.

Alguns dos romances de Guilherme de Melo são de ambiente moçambicano, e Pitta lembra que a concentração prolongada de homens fora de portas permitiu um momento de interlúdio sexual importante, mesmo para quem assumia identidades hetero. Mas _ como Pitta reconhece _ a escrita de Guilherme de Melo é extremamente naif, por vezes insuportavelmente kitsch, o que, mesmo se caracteriza certas sensibilidades homo, dificilmente merece o resgate literário.

Al Berto, por seu lado, assumiu a feição de «poeta de culto». Genuinamente mas também oportunamente marginal e maldito, representa a faceta «sexo, drogas e rock'n roll», numa visão mais underground que põe em cena rapazinhos, delinquentes, drogados. Segundo Pitta, com esse afastamento da moralidade burguesa Al Berto desenha os contornos de uma espécie _ a raça maldita de Proust _ que se assume como o mais parecido com literatura gay que tivemos. Pese embora essa novidade, a primeira fase da obra de Al Berto parece-me extremamente pouco sofisticada (para ser benévolo), em comparação com a segunda fase, e acusação lançada por Pitta de que o poeta de Salsugem se «integrou» deixa na dúvida se a integração não seria precisamente o horizonte desejável.



É evidente que a perspectiva deste ensaio é explicitamente (homo) sexual, mas isso não justifica que esse enfoque afunile os sentidos de determinada obra literária. Pitta cita passos de certos autores, referindo a «meridiana clareza» desse textos, mas a verdade é que algumas dessas citações não se referem necessariamente à sexualidade, e por vezes Pitta acaba por

reconhecer que a leitura é mais complexa. Em Sá-Carneiro, por exemplo, as noções de máscara e duplo não podem ser univocamente lidas como biombos transparentes para a sexualidade do autor. O mesmo se diga, por maioria de
razão, de António Franco Alexandre, cujo estranhamento, hermetismo e intertextualidade não devem nem devem ser reconduzidos a um mero discurso cifrado sobre a sexualidade. Noutros autores, anulam-se as ambiguidades,
esquecendo identidades bissexuais, ou sexualidades fluidas. Esse é, aliás, uma das limitações da crítica gay (além da eufonia): a de por vezes presumir identidades sexuais fixas.



Fractura é escrito no estilo habitual de Pitta: uma elegantíssima sobriedade, um tom snob e por vezes verrinoso, alguns raciocínios elípticos e justíssimos. Mas ficam por resolver algumas questões centrais: a categoria «gay» como (des)necessária gaveta; a homogeneidade de uma «cultura homossexual»; a linha de demarcação entre emancipação e gueto; as estratégias conflituantes da integração e da transgressão; a diferença entre a literatura homossexual e literatura gay, que não fica bem definida apenas pela existência ou inexistência de uma militância. Aberto o caminho, estas tarefas ficam para próximos trabalhos, do próprio Pitta ou de terceiros.

Entretanto, a bibliografia aponta para obras importantes, do sólido Gregory Woods ao controverso Andrew Sullivan.

o que me vale


O que me vale aos fins de semana

é o teu amor provinciano e bom
para ele compro bombons
para ele compro bananas
para o teu amor teu amon
tu tankamon meu amor
para o teu amor tu te flamas
tu te frutti tu te inflamas
oh o teu amor não tem com
plicações viva aragon
morram as repartições


(Manuel António Pina)

sem palavras

escritores

aqui o David escreveu um texto fantástico sobre os escritores

Passo a reproduzir:


Vá lá, admite-o. Escrever dá-te uma tusa do caralho. Admite-o. Dá-te uma tusa do caralho passares o dia inteiro a pensar no que vais escrever, ansioso que o momento chegue, ficares até um pouco obcecado com isso, como se mais nada importasse, e depois venceres essa ânsia até teres ali à tua frente uma folha em branco, virgem como uma cama acabada de fazer. Dá-te uma tusa do caralho escrever quando escreves bem, quando passas a mão pela página e já lhe conheces a pele, quando sentes as palavras como um corpo e, perante essa presença, todo o teu sangue se amotina. Dá-te tusa quando sentes que a página pronta para ti ao encostares o teu corpo ao corpo dela e também quando ela te obriga lutar por ela e te deixa quase à beira da loucura.

Mas sobretudo amas escrever quando a caneta flui pela página e tu te perdes um bocadinho, quando é a história que te agarra e te puxa mais para dentro dela, quando a vês pedir-te com os olhos que, por favor, a leves até ao fim e tu empenhas tudo o que tens em ti, músculo, coração e alma até que a vês gozar na última frase e gozas tu também. Admite-o. Amas escrever quando consegues diluir-te nas palavras e ser mais do que tu e menos que tu ao mesmo tempo. É isso que te dá tusa e é isso que amas. Tanto, tanto, tanto que o mais normal é que fiques ali abraçado à história que escreveste até que a exaustão te vença ou até que voltes a encontrar em ti forças para mais um ou dois textos, antes que amanheça.

[tn]

coisas

pessoal, queria apenas dizer que não sei se poderei ir mais logo ao texto-al!

mas o motivo deste post prende-se com uma curisiodade fútil e uma experiência científica levada a cabo pelo excelente pianista e escritor Fernando Dinis e que aqui repito: será que se colocarmos aqui o nome da Soraia Chaves, da Marta Leite Castro, da Liliana Queiroz, ou até da Nereida Gallardo ou por que não da Mónica Bellucci e da Lindsay Lohan, aumentaremos as nossas visitas?

(ah desculpem. esqueci-me da Scarlett Johansson!)

e será que essas pessoas ligarão alguma coisa ao que escrevemos? eu tenho a esperança que sim... todavia o meio que usámos não deixa de ser criticável.

Boca de Som







Antes de mais nada não trazer as mãos.

E aproximá-las da boca formando um búzio

Nos confins do tímpano.

Adormecer se houver sangue no rés

Da tua boca ao cérebro do palato.

Sujar lábios de bruços na cascata

Que forja o ar das costas e rente ao

Fosso dos pulmões.

A teta que descai no lado mais aflito é

Agora a tua concobina pobre: será

Ela a elevar os músculos à produção

De marfim (tempera o ar

Não deixes que rase que destape

O prumo a rosa do nariz)

De manhã

A polpa é um musgo a fazer-se de árvore

No chão que dorme.


Rui Costa, in A nuvem prateada das pessoas graves (quasi)

Próxima terça


Venha ouvir e contar histórias. Ou venha apenas escutar. Traga amigos. Traga um objecto que conte uma história.

Terça-feira, 3 de Junho, pelas 21h30 no Club Farense (R. de Sto. António, Faro).

[Solidão]

Era campeão em tudo. Não tinha competidores.

improviso cansado

Sim
há quem prefira as linhas rectas
e a poesia a metro
bem rimada
como a vida
mas eu tenho um problema embrionário
de percepção
perco-me sempre em todas as esquinas
e nunca me encontro com a utilidade
em cidade alguma
sinto-me pois inútil
imprestável
redundante
já não tenho a idade certa
nem os vícios
nem o corpo
e as palavras distraem-me
da missão de salvar o mundo
que me mata
há trabalho a mais
para tão poucas mãos
e eu miseravelmente
só tenho duas.


Ademar Santos


[tn]

Luiz Pacheco Tradutor

prolegómenos ao rigor de uma ciência futura





















de vinte e quatro maneiras morremos,
de quarenta maneiras ressuscitamos em flores



in
tratado de botânica, Joana Serrado, Quasi