da dualidade, funâmbulos, e considerações de carácter luminoso

na rua, como se houvesse sempre
uma linha imaginária: braços abertos
nós íamos os dois, tu à frente e eu
à frente, na outra vez. e claro, nós
desequilibrávamo-nos ou caíamos. às
vezes, tu para um e eu para outro
lado; outras vezes era os dois juntos
para o mesmo. se havia sol? acho
que sim, havia: dos dois lados
da linha. e também quando chovia
era giro pois íamos no mesmo
guarda-chuva, tu chegada para trás e
eu muito chegado para a frente.
(e quando caíamos, ainda havia sol
dos dois lados)


Bruno Beu

naquele tempo


Naquele tempo era eu adolescente

Tinha apenas dezasseis anos e já não me lembrava da minha infância

Estava a 16 000 léguas do lugar onde nasci

Estava em Moscovo, na cidade dos mil e três campanários e das sete gares

Mas não estava farto das sete gares e das mil e três torres

Porque a minha adolescência era então tão ardente e tão louca

Que o meu coração ardia, como o templo de Éfeso ou a Praça

Vermelha de Moscovo

Ao pôr do sol.

E os meus olhos iluminavam caminhos antigos.

E era já tão mau poeta

Que não sabia ir ao fundo das coisas.



Blaise Cendrars

tradução: Liberto Cruz

em Poesia em Viagem, Assírio & Alvim, 2005





um tesouro

espectacular este dicionário informal

Soneto


tens o vício
de não fumar
não andas envolta
num poético

halo de fumo
não deixas
marcas de bâton
nas beatas

dos cinzeiros
lá de casa
esse teu hábito

anda a custar-
me alguns
versos

manuel a. domingos
in Mapa, livrododia, 2008

sugestões livros

















MAPA, de Manuel A. Domingos (livrododia)























Efeito borboleta e outras histórias, de José Mário Silva (oficina do livro)






















Ainda aqui este lugar, de Pedro Afonso (4 águas)


[tn]

agenda de julho da biblioteca ramos rosa

pode ser consultada aqui.

destaque para o evento que envolve três membros do texto-al, maria corgas, luís ene e tiago nené, que estarão no estabelecimento prisional de faro, dia 22, para uma conferência e debate sobre literatura.

lagartos

Estou apaixonado pela Rosario Perez Cabaña

Traduzi um pequeno poema seu:


Eu: assim começa o poema
Eu vi ontem, sem ir muito longe, um lagarto feliz.
Claro, afirmar que vi um lagarto
e que esse lagarto é feliz são afirmações que,
apesar da sua coerência, parecem
impróprias de mim.
Tudo pode explicar-se razoavelmente
se tomarmos por indubitável a primeira
afirmação, a primeira certeza:
certamente, ontem vi um lagarto.
Com alguma indulgência, ante mim,
ante o lagarto,
alguém podia crer sem qualquer ciência
na existência de lagartos felizes,
e quanto a isso, não custa nada convencer-se
de que um de nós é o lagarto feliz que vi ontem
dentro da relva,
desde a margem,
sobre o telhado.
Pena que ontem não tive tempo
de sair desta casa sem janelas.


(tradução: Tiago Nené)

algarve

este rapaz diz que o texto-al lhe dá vontade de ir ao algarve.

creio que estão reunidas as condições para pedirmos um subsídio à Região de Turismo do Algarve pela promoção da região.

Miguel Morgado




















Um génio à solta.

Para ver Aqui

Oficina de Escrita: 28 Junho (Loulé)


Para ampliar clique na imagem.
Mais informação na Casa da Cultura de Loulé.
Inscrições neste formulário.

Realpolitik

I

Este poema é uma introdução à teoria geral dos sonhos numa cama
de casal onde dormem duas pessoas. É um ringue de hóquei em patins,
uma casa de praia onde se esqueceu um casaco que tanta falta nos faz
no início do Inverno. É um bilhete postal, uma encomenda esquecida.
É o aquecimento central do centro de saúde do concelho de Torres Vedras,
um livro que ficou perdido entre o pedido de uma criança ao Pai Natal
e a memória de um homem que tem muito em que pensar. A data deste
poema não existe –
é um poema de todos os dias a passar no calendário automático do nosso
computador pessoal, a ranhura onde deitamos moedas de cinquenta cêntimos
no parque de estacionamento municipal, o dia em que nos pediram para
nos apresentarmos no Quartel da Ajuda para servir, militarmente, o país.
O poema é daí, desse mesmo lugar onde talvez já nos tenhamos esquecido
de que a vida é mesmo assim, feita de torrentes de palavras a povoarem-nos
o cérebro e a boca, com pequenos intervalos em que nos deixamos adormecer
em frente a uma página de publicidade publicada num jornal nacional.


II

Estava capaz de escrever uma carta aos Coríntios esta manhã, ainda não
tinha saído da cama e a rádio estava ligada na Antena Um, as notícias do dia
anunciavam um ministro a fazer contas aos cêntimos que cada pensionista
pode receber por mês a somar à sua pensão, de maneira a que não se descontrole
na posse exagerada de umas moedas pretas levantadas na última semana
do mês numa estação de correios sobrelotada com livros e conjuntos de canecas
com design made in bairro alto. Estava capaz de comprar, e logo em seguida
comer, uma dúzia de gelados Olá e depois ir correr durante uma hora em volta
do relvado do jardim onde anunciam, para breve, a construcção de um
aglomerado habitacional com preocupações ambientais e última geração
no que à tecnologia pode dizer respeito a forma como cada um gosta de estender
as pernas sobre a mesa de apoio na sala da televisão ou sobre o gozo que me dá
sentir o chão frio da casa-de-banho quando acordo a meio da noite e vou urinar
o que parece ter restado de impurezas no interior indigesto do meu corpo.
Estava capaz de diversas coisas no preciso momento em que, à saída da pastelaria,
um homem deitou uma ponta de cigarro ao chão e este poema começou a nascer.


III

Naquele tempo eu costumava passar várias horas na biblioteca municipal e entre
as prateleiras encontrei muitas vezes pequenos recados escritos por outros frequentadores
em que estes pretendiam ter lido determinado livro enquanto algum familiar anotava,
nos limites das páginas, as compras a efectuar no hipermercado que fica nos limites
da cidade ou o horário da ida ao oftalmologista que dá consultas numa clínica privada
substancialmente subvencionada ora pela ausência de oferta da parte do estado ora
por manifesta impossibilidade de atender um cliente em tempo útil de vida (significando
aqui “tempo útil de vida” aquele momento na vida de alguém em que esse alguém está
doente até ao retomar daquele outro estado em que esse mesmo alguém deixa de estar
doente). Naquele tempo eu já era capaz de identificar as várias cores das etiquetas
identificativas das temáticas, bem como percorrer mentalmente, desde a porta de entrada
até à prateleira certa, o caminho que alguém deveria fazer para encontrar o livro ou
tipo de livro que procurava e irritava-me muitas vezes por haver outros frequentadores
dessa biblioteca que pareciam ser mais rápidos do que eu a terminar o seu almoço e assim
se exibiam em algumas das mesas de leitura, usurpando o jornal desportivo por muito mais
tempo do que aquele que parece ser o tempo regulamentar de leitura do mesmo.


IV

Procurei sempre estar à parte naquilo que diziam ser os encontros amigáveis
entre os consumidores de produtos culturais, principalmente nas horas em que procuravam
eleger, de entre os participantes, alguns nomes que pudessem compôr a Comissão
Administrativa dessa sociedade para o biénio seguinte -
sentia-me pouco sociável e preferia passar a maior parte dos meus dias recostado
a um cadeirão velho em frente ao computador onde tentava estabelecer alguns contactos
com as regiões do mundo mais inacessíveis, de modo a ser possível ter uma vida cheia
sem correr o risco de alguém nos vir bater à porta para pedir um raminho de salsa ou
a convidar-nos para um jantar de aniversário no restaurante chinês em conjunto com mais de
uma dezena de pessoas, usando para o efeito mesas redondas com prateleira giratória ao meio
e uma sensação de náusea crescente perante as conversas inócuas que as pessoas mais
mesquinhas costumam transportar consigo para festejos como este. Procurei estar à parte
e o que posso concluir é que falhei, falhei de uma forma que só aqueles que insistem
na repetição de actos idiotas podem falhar. Desde que me foi possível ver ao espelho, sei
de fonte segura o exacto tamanho do meu falhanço. E então verificou-se um surpreendente
aumento de peso, durante uma noite, de tal forma que quando nasceu o sol, nada me servia.


V

Na estrada para a Babilónia havia um ramal onde, todos os dias, centenas de operários
pareciam descansar de todas as maleitas do mundo, como dores de costas provocadas pelo
transporte de pesos sobre-humanos, ossos partidos por colchões sem molas, dentes
cariados devido a greves de cozinheiros de cantinas de fábricas, bolhas nos pés por
causa dos infindáveis jogos de futebol e outras competições internas da organização
de trabalhadores afectados pelos males do mundo. Ao passar por lá, senti-me de certa
forma atraído pelas suas queixas e lamentos e sentei-me a descascar uma maçã que alguém
me disse ter sido colhida do jardim onde Eva conversou sobre a novela das sete com uma
serpente. Deus deve odiar telenovelas – pensava para com os seus botões um operário de
óculos graduados. Na estrada para a Babilónia havia um outro ramal onde aprendizes de
bibliotecários aprendiam a tabuada em jeito de fórmula de codificação bibliográfica e
habituavam-se a conhecer conceitos por intermédio de conjugações numéricas cruzadas
com cores de uma paleta desprezada por vários aspirantes a pintores oficiais do regime.
Esses aprendizes de bibliotecários viriam, mais tarde, a tomar as rédeas da cidade e a tentar,
por intermédio das mais hediondas práticas, transformar toda a população em caracteres
organizados por números e cores. Perante isto, a intervenção dos Estados Unidos era inevitável.


VI

Até que chegou a hora de alguns dos nossos partirem Europa fora a fazer figura de gente
já que por cá não faziam melhor que figura de parvo, e as populações desceram às ruas
e começaram a aplaudir a caravana, que enquanto não chegou a Elvas era composta por
todo o tipo de gente, presidentes de junta de freguesia, membros suplentes das listas
de candidatos às assembleias municipais, jovens militantes empunhando bandeiras, amigos
e familiares nada próximos dessa gentalha, criados de servir e funcionários do estado, vários
tipos de representantes de empresas multinacionais com interesses em pequenas parcelas
de terrenos que, por artes de mágica imprevistas, acabam por originar grandes urbanizações
ao serviço dos vários eleitos pelo povo. À passagem por Badajoz, já o cortejo se fazia de taxi
com um elemento da Guardia Civil à frente, por mero acaso de cruzamento de destinos
entre o almoço desse senhor e a fuga dos nossos. Até que chegou a hora em que aqueles que
ficaram, não já na ocidental praia lusitana, mas naquela terra de ninguém com vista para
Espanha, voltassem para trás e às costas carregassem inúmeros cestos de fruta normalizada,
jornais emprestados para embrulhar relógios contrafaccionados em Marrocos, uma fotografia
a cores do Rei de Espanha em pose de estado, um memorandum da secreta americana sobre
o comportamento dos nossos aquando da Conferência das Lajes e um treinador para o Benfica.


VII

Não sei, nem nunca saberei, contar sílabas pelos dedos ou perceber os sons do ritmo que
um verso clássico esconde. Tenho dúvidas na distinção de um verso com um fado alexandrino.
Recorro demasiadas vezes a repetições de ideias, talvez da mesma forma como no meu país
tudo é sempre da mesma maneira. Revelo dificuldades na dicção de palavras acentuadas
e quase nunca intervenho em sessões onde não me possa inscrever previamente. Não sigo
os canones. Não sigo a banda. Não fico na ponte a atirar pedras para aqueles que aceleram
na auto-estrada. Tenho algum gozo no descobrir de estradas secundárias. Vejo mal de noite.
Vejo mal de dia. Sem óculos, não vejo nada. Não sei, nem nunca saberei, muita coisa acerca
daquilo que não me interessa. Não sou curioso, não tenho a pretensão de mandar em ninguém.
Fujo o quanto posso de quem me queira colar etiquetas. De quem me queira rotular a existência,
a palavra, o poema, a preferência por determinado café na hora em que saio de casa depois
de jantar. Este poema é uma maneira de o dizer em jeito de metáfora, em jeito de poema.
Em jeito de palavra que não sei como controlar. Em jeito de conjugação de frases em forma
de versos e versos em forma de caminhos que parecem querer chegar a algum lugar. Em jeito
de algo que não se pode calar. Este poema é uma introdução à teoria do nunca teorizar sobre
aquilo em que se está demasiado afundado. Como eu, aqui. Eu, eu próprio. Nesta vida.



Luís Filipe Cristóvão
poema vencedor do Concurso Arte Jovem 2008


[tn]

tratado de botânica

Tratado de Botânica, nome do livro de Joana Serrado, foi apresentado na Biblioteca de S. João da Madeira e no Teatro Municipal Baltazar Dias no Funchal nos passados dias 14 de Setembro e 11 de Janeiro respectivamente.

Vídeo Aqui.

documentário texto-al

O fato novo do imperador



Tenho 31 anos e estou cansado.
Todos os sítios me vão parecendo, finalmente,
igualmente maus.
Todas as pessoas, incluindo as que gostam de mim,
insuportáveis.
Não encontro sentido nem para o que faço
nem para as coisas que deixo por fazer.
Olho para os outros
com a absoluta certeza de quem vê
não semelhantes,
serenos, resignados, envilecidos extraterrestres.
Olho para mim
e sinto-me como se não tivesse outros com quem partilhar.
Para onde quer que eu olhe,
a insuportável mentira que faz ninho, germina, destila
este tempo, este país, este modo de viver
a que chamam
progressista, tolerante, solidário, democrático,
avançado, europeu, e melhor e melhor
que todos os existidos,
que todos os possíveis.
Este modo de viver
onde falta tudo o que foi nomeado.
Que desfez a classe trabalhadora sem uma única bala,
que encarcerou as consciências sem uma única grade,
que me afasta sem um único cassetete,
que me exclui sem um ferro candente,
sem sequer uma estrela amarela na lapela.

Este tempo
de fatos novos,
de Imperadores.




antonio orihuela

poesia espanhola anos 90
trad. joaquim manuel magalhães
relógio d´água
2000

frustração

a questão é que, por muito
que ele se esconda, nós
encontramo-lo sempre.
nada acontece de repente.



[tn]
Aida Monteiro é uma excelente poeta. É uma viagem interessante conhecer o seu espaço.

Um aperitivo infra, com desenho da própria:


















és tu o incêndio e a rosa
nos meus olhos. sei que ainda moras
nas ruas e lembro mesmo algumas

mulheres que apontavam ao longe
a cidade e a noite. não se vê daqui
a ponte e não tenho como saber
a hora exacta em que tocaste os meus
cabelos e o vento subiu a beijar-te
os olhos.

bloggers presos

segundo a bbc brasil tem aumentado a punição severa de bloggers em alguns países

notícia aqui

teste

faça este teste e depois falamos

jamais o sol


Belo é o sol quando sorri
em plena glória.
Bela é a lua e o seu sorriso
na noite serena.
Mais belo porém, o riso suave
do meu amor.

Bela é a lua vogando nas ondas.
Belas as estrelas no brilho da noite.
Mas nunca as estrelas, jamais a lua,
terão a beleza, um pouco sequer,
da cor e da luz que moram nos olhos
do meu amor.


Tradição Oral
, Galês (Século XVII)

O Imenso Adeus (Poemas Celtas do Amor), tradução de José Domingos Morais, edição Assírio & Alvim, colecção Gato Maltês, Lisboa, 2004.

o estado líquido

porque as mulheres fazem bem


por que não te chamas questão para te responderes
ou noutro dia mármore para te partires,
ou décimo andar por onde caíres

por que não te chamas questão
por que não te enches de questão para encerrares
assim um capítulo

por que tens medo de não saber nada e concentrares
isso tudo no simbolismo de uma pinta
oh je t'aime bien, mon amour

porque me pões na lista de cacos a recolher


Tiago Nené

Não há motivo para te importunar a meio da noite

a partir de um poema de José Luís Peixoto, um vídeo de Daniela Gigante:



Primeiro levaram os negros

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.


Bertold Brecht

Hoje

da paciência

A pedra, enorme, austera, interpelou-me, mas eu não a percebi. Para a escutar precisei abrandar o meu ritmo vital, até quase desfalecer. A pedra falou-me então da importância de ser paciente e de aguentar, aguentar sempre, e eu escutei-a, até não suportar mais aquela conversa.

Então gritei-lhe. E perguntei-lhe como podia falar-me de paciência, a mim, que, como todos os humanos, era, acima de tudo, acção e desejo de acção. Gritei-lhe ainda várias vezes e terminei desferindo-lhe um forte pontapé.

Depois, finalmente, sentei-me nela e tentei ignorar a dor. Tinha que concordar com ela: às vezes é preciso ser paciente.

o ainda do ainda dos 120 anos de pessoa

o documento oficial:
























outras sugestões de transcrição no nosso amigo abnoxio

Ainda os 120 anos de Pessoa





















O público traz hoje um inédito de Alberto Caeiro fantástico. Descoberto há pouquíssimo tempo. A ler:


Gosto do céu porque não creio que ele seja infinito.
Que pode ter comigo o que não começa nem acaba?
Não creio no infinito, não creio na eternidade.
Creio que o espaço começa algures e algures acaba
E que longe e atrás disso há absolutamente nada.
Creio que o tempo tem um princípio e terá um fim,
E que antes e depois disso não havia tempo.
Porque há-de ser isto falso? Falso é falar de infinitos
Como se soubessemos o que são de os podermos entender.
Não: tudo é uma quantidade de cousas.
Tudo é definido, tudo é limitado, tudo é cousas.



(transcrição de Richard Zenith,
jornal "Público", de 13 de Junho de 2008)

Para ser grande, sê inteiro


Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui
.
todo em cada coisa
. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive


Ricardo Reis

Em homenagem a Fernando Pessoa no dia em que se comemora 120 anos do seu nascimento.

livros


aquele livro era dele, embora nos registos constasse que fosse da biblioteca municipal. requisitou-o desde os dezasseis anos até ao fim da sua vida, ainda que por intermédio de outros. em setenta anos o livro conheceu apenas um leitor. quando este foi a enterrar, alguém se esqueceu do livro no casaco do fato do defunto