azul
e percebo
o céu azul
só é azul
porque o olho
o céu azul
só é azul porque
o escrevo
azul
é esta a diferença
entre ver e
acreditar



que se fodam
do princípio ao fim de trás
de frente pelo meio
com mais ou menos
de pé de joelhos
aos cantos
na boca dormente
que se fodam
párias protocolos
papagaios de sala
gente mal aprendida
putas fáceis de convencer
bogas mal amanhadas
pedantes penteadinhos
que se fodam
com o que houver de limpo
entre a santa mãe religião
e o enxovalho de ser livre
nas grandes leis do mercado
que se fodam
ordinários de merda
escravizados do cimento
bonecos sem perspectiva
balsas sem salvamento
pessoas muito branquinhas
tão puras tão geniais
que se fodam
onde a cruz lhes for mais fundo
no apreciável remorso
do Império ardido
do melancólico mesquinho
derramando de sal
fodam-se nas lágrimas
condescendentes presunçosos
ministros da ordem do dia
porcelanas escaldadas
mimos d’engraxa o sapato
românticos rebarbados
filhos da grande cornuda
puta mãe de todas
fodam-se nas algibeiras
arrependam-se evangelizem-se
nas estrelas da União
que derruba as fronteiras
para a igualdade
fodam-se todos em geral
os animais da savana
os pinguins do antárctico
a floresta amazónia
o programa espacial
até à terceira geração
fodam-se todos na consciência
casta política
económico – canalha
Democratos cabeçudus
fodam-se na urna
atem-se à bandeira
enforquem-se nela
lambam tudo o que conseguirem
chupem chupem chupem
engulam até rebentar
e no fim peçam a reforma
como cidadãos de boa raça


O principal objectivo da Onda Culta é informar sobre o que se passa no Algarve em matéria de cultura, abordando as diferentes expressões artísticas, as tradições, o património cultural e arquitectónico, bem como assuntos transversais à área.

Na biblioteca um livro assinado e dedicado, com a sua amizade, a alguém pelo seu autor. Que terá acontecido ao dono do livro para este ter ido parar à biblioteca? Terá morrido? Terá o Estado penhorado o livro entre um montão de coisas da sua bela moradia e depois doado à biblioteca? Se o Estado penhorou o livro, e sublinho o que já disse – um livro assinado e dedicado a alguém – então o Estado já penhora sentimentos e já se imiscui na Poesia enquanto algo mais do que o mero livro penhorável entre uma série de objectos pessoais.
O autor chama-se Abelardo Rodríguez. Resolvo não procurar informação acerca da sua pessoa, não sabendo questões básicas como, por exemplo, se vive, morre ou está morto. Olho para ele através da foto que consta de uma das páginas iniciais, com uma barba escura e séria. “Abelardo Rodríguez”, repito a mim mesmo. Enquanto escrevo isto resulta que se me afigura possível que o Abelardo (ou os seus filhos ou netos, legítimos ou bastardos) , procure no google pelo seu próprio nome e encontre estas considerações de alguém que não conhece, seu equidistante a muita ou pouca distância.
O Abelardo ficará triste. A biblioteca é detentora de parte da sua amizade. E hoje apeteceu-me requisitá-la.




A progressão aquática da vírgula descalça o
náufrago - olhos de dezembro
na miopia das areias rastejantes, é assim
o recomeço de todas as linguagens.
A árvore o barco a quilha da vicissitude
aquática
o mimetismo da espuma no núcleo
da sombra
quem espreita pela fechadura de deus?
eis um resultado nómada.
40 braços do que pensas enquanto
o sonho levanta uma heresia?
A progressão aquática da vírgula
descalça o náufrago.
rui dias simão
in hipantropias
Poderia dizer-te dos tendões e das mãos onde eles percorrem
o seu destino. Poderia dizer-te dos olhos se quisesse ser fácil
este verso, dizer-te do mar e ser evidente, ou das órbitas onde
gravito em cada sorriso teu e construir metáforas. Do fascínio
que as sobrancelhas me impõem nos dedos, dizer-te das nossas
conversas na faculdade, entre as teóricas e a foz, entre os
livros de ecologia dois e a tua ternura enquanto dissecavas,
tão gentilmente, o polvo. Dizer-te da lula, não do polvo, quis
mentir para esbracejar versos como tentáculos, manter viva
a tinta, a inteligência mais reconhecida. Ou dizer-te do choco
– era, isso sim, um choco de carapaça dura com que percorrias
o bisturi e onde mantinha o meu dedo segurando-lhe a pele e
entregando, desde cedo, o meu corpo ao teu cuidado. Poderia
dizer-te do sangue no corte profundo dos meus tendões, mas
quero saber o leitor focado antes nos teus, nas mãos com que
disse o primeiro verso. Vou dizer-te: os lábios. Como quem
diz nariz mas não pode, os poemas em que se dizem faces não
permitem outra pele que não a dos lábios, outro cheiro que não
o teu, outra boca que não a tua, próxima, interrompendo frases
e subindo colinas como só estes versos longos sobem. Poderia
dizer-te tudo mas tudo ficaria inaudito. Não há poema, em cinco
séculos de literatura, que te compare a elegância nos versos.
Nem Camões, nem Florbela, nem a nossa Rosário sussurrando-nos
a voz que conhecemos nos ouvidos quando a lemos, ninguém.
Pretensão enorme a minha, portanto, ultrapassar o feito e
inaugurar linguagem – aquela que te descreva como deve.
Poderia dizer-te se o soubesse como; ou o pudesse, pelo menos,
trazer dos versos do Ruy Belo como empréstimo, elaborar o meu
Elogio de Maria Teresa mudando-lhe o destinatário e em muito
as suas palavras. Poderia dizer-te se essas mesmas palavras
permitissem impor uma mulher no centro de uma vida, uma
menina inglesa, trazida também de Cambridge, quem sabe, uma
elegância alta e vertical e desejada, um cabelo e os óculos escuros,
poderia dizer-te. Mas não. Que a minha memória desafia o
leitor a imaginar os versos que não escrevo, dizer-te poema
final e definitivo, da completude dizer-te amor.
Ao correr do tempo
Ao correr da pena
Ao correr atrás da vida que tenho e que não queria ter
Por momentos
Por uns estranhos
Estranhíssimos
Momentos
E num inútil absurdo inconsequente esforço de resistência
Pensei parar um pouco o tempo, o tal de tempo que outrora julguei meu
(Talvez sonhar, querer outra vida...)
Mas
Apanhei o autocarro a correr
Entrei no emprego a correr
Esqueci a vida que queria ter
Estranhamente e apesar de tudo
Depois
Num inútil absurdo inconsequente esforço de resistência
Não corri
Parei
Por isso a máquina determinou eloquentemente o meu destino
Morri
Apesar disso no dia seguinte voltei de novo ao emprego e ninguém deu por isso passaram todos a correr atrás das vidas que não queriam ter e que nem essas tiveram tempo para viver ou sequer notar que eu estava morto continuaram a correr só quando morressem se aperceberiam que estavam parados continuaram a correr eu apesar de morto no exacto fim do expediente voltei para casa no dia seguinte no exacto início do expediente voltei para o emprego ninguém deu pela diferença pelo que aqui continuo morto e mais uns dias e até eu próprio julgo que estou vivo de novo tanto mais que nesta puta desta vida que eu não escolhi entre a vida e a morte não há nada nem um momento de diferença e vivendo nesta indiferença nem alguém nos empresta sequer uma vírgula caramba
- Não tenho uma vírgula mas toma lá um ponto dás-me o troco depois – disse o Zé da contabilidade
- Obrigado - respondi
Ponto
(- Para Ágrafo! – ordenei eu ao motorista da minha nave enquanto acenava ao mundo pela escotilha do meu quarto privativo com uma suprema vista para as 53 luas que orbitam os meus desejos inconsequentes)

Devo ser o último tempo
A chuva definitiva sobre o último animal nos pastos
O cadáver onde a aranha decide o círculo.
Devo ser o último degrau na escada de Jacob
E o último sonho nele
Devo ser-lhe a última dor no quadril.
Devo ser o mendigo à minha porta
E a casa posta à venda.
Devo ser o chão que me recebe
E a árvore que me planta.
Em silêncio e devagar no escuro
Devo ser a véspera. Devo ser o sal
Voltado para trás.
Ou a pergunta na hora de partir.
Daniel Faria
em A Explicação das Árvores e dos Outros Animais
evaporam as palavras dos teus olhos
apenas um silêncio
uma folha dolorida levada pelo rio.

Colaboradores deste número da big ode:
Ana Marques da Silva (POR)
Ângelo Mazzuchelli (BRA)
Angelo Ricciardi (ITA)
António Carvalho (POR)
António Orihuela (ESP)
Arturo Accio (MEX)
Ausias Millet (POR/ESP)
Constança Lucas (BRA)
Cristovão Crespo (POR)
Fernando Aguiar (POR)
Fernando Dinis (POR)
Fernando Esteves Pinto (POR)
Francisco Carrola (POR)
Helen White (GB/BEL)
Henrique Fialho (POR)
Hilda Paz (ARG)
João Concha (POR)
João Ferreira (POR)
João Meirinhos (POR)
João Pereira de Matos (POR)
João Samões (POR)
luci n da lourenço (POR)
Luís Ene & Margarida Delgado (POR)
Margem d’Arte (Frederico Fonseca, Mário Lisboa Duarte) (POR)
Maria João Lopes Fernandes (POR)
Mário Calado Pedro (POR)
Miguel Jimenez (ESP)
Rafael Neira (MEX)
Raquel Coelho & Sara Franco (POR)
Renaat Ramon (BEL)
Ricardo Riancho (MEX)
Rita Grácio (POR)
Rodrigo Miragaia (POR)
Rute Mota (POR)
Rui Carlos Souto (POR)
Rui Costa (POR)
Rui Effe (POR)
Sal & Ana (POR)
Sandra G.D. (POR)
Sara Monteiro & Margarida Parente (POR)
Serse Luigetti (ITA)
Sílvia Effe (POR)
Tiago A. da Veiga
Tiago Nené (POR)
Tim Gaze (AUT)
Virgílio Vieira Tebas (POR)