
Nos teus dedos nasceram horizontes
e aves verdes vieram desvairadas
beber neles julgando fontes.
(Eugénio de Andrade)
Os nossos amigos do Sulscrito convidam o Texto-Al para os seus eventos na 32.ª feira do livro de Faro. É com o maior prazer que o divulgo e estendo aos nossos leitores. O programa, infra:
A 32ª Feira do Livro de Faro vai abrir já 5ª feira.
Decorrerá de 31 de Julho a 12 de Agosto.
O Sulscrito estará presente, como já vem sendo habitual, com um pavilhão onde poderão encontrar várias publicações alternativas, revistas de artes e literatura e pequenas e médias editoras de todo o Portugal e Espanha.
(ARCA, Livrododia, Criatura, Mandágora, Palavra Ibérica, Sulscrito, Utopia, Deriva, Canto Escuro, Gente Singular, Bigode, 4águas).
Estará disponível o nº 2 da revista Sulscrito.
Haverá um LerAlto,
leituras de textos pelos autores, para o qual ficam convidados a participar.
Apresentaremos uma programação vasta, com a presença de vários autores e livros recentes a serem apresentados.
Estaremos sempre disponíveis para conversar, apresentar os nossos projectos e dar a conhecer outros projectos culturais emergentes.
Programa Sulscrito
32ª Feira do Livro de Faro
os eventos realizam-se sempre a partir das 21h (em ponto)
Data:2 de Agosto
Autor: Paulo Kellerman
Livro: Silêncios entre Nós
Editora: Deriva
Data: 3 de Agosto
Autor: Pedro Afonso
Livro: ainda aqui este lugar
Editora: 4águas
Data: 4 de Agosto
Autor: Fernando Cabrita
Livro: O amor é um claro mês
Editora: Gente Singular
Data: 6 de Agosto
Ler Alto (leituras públicas)
Data: 7 de Agosto
Aproximando Margens/Acercando Orillas
Escritores Algarve – Andaluzia – Canárias
(António Manuel Venda, Fernando Esteves Pinto, Gabriel Cruz, Pedro Afonso, Quintin Cabrera e Uberto Stabile)
Data: 10 de Agosto
Apresentação do nº 2 da revista de literatura Sulscrito
Data: 11 de Agosto
Autor: Manuel A. Domingos
Livro: Mapa
Editora: Livrododia
[tn]

tal como tu, jorge luis borges,
graças quero dar ao insondável
labirinto dos efeitos e das causas,
pelo cosmos infinito, espaço
vazio onde brilham galáxias,
pela luz, que é ao mesmo tempo
onda, partícula e sete cores
através de um prisma,
pela vida, esse acaso fabuloso,
pela evolução das espécies, trama
subtil que une bactérias, leopardos,
acácias, fungos e homens,
pelas noites antigas em que as estrelas
pareciam grandes fogueiras acesas no céu,
por atenas, em cujas ruas nasceu a
democracia e o pensamento,
por eratóstenes, que calculou a dimensão
da terra, medindo sombras,
pela inteligência, a mais eficaz de todas
as armas e também a mais traiçoeira,
por heraclito, frente ao rio eterno
que nunca se repete,
pelo negro basalto e a brancura da neve,
pela beleza de um corpo nu,
pelo trigo, o alabastro e a cidra,
pelos gestos heróicos que mudam o
frágil rumo da história,
por galileu,
de luneta apontada aos astros,
lendo a matemática com que se
escreve o livro do universo,
pela utopia, esse lugar impossível
mas absolutamente necessário,
por certa noite de 1993,
pela melancolia, doce forma de tristeza,
por tudo o que foi dito mas ficou por escrever,
pela torre de babel, esse prodígio que Deus não permitiu,
pela música de bach,
precisa, perene, perfeita como um cristal,
pelas madrugadas em paris, à beira do sena,
pelo amor, luminosa e indizível
união entre dois seres,
pelos albatrozes que pairam sobre falésias,
pelo mediterrâneo, o vinho e o mel,
pela alegria de estar entre amigos
ouvindo schubert e lendo poesia,
pelo cinema, lugar escuro onde o
mundo pode ser reinventado,
pelos poentes de turner e os gelos de friedrich,
por james joyce, hábil construtor de
uma dublin feita de palavras,
por signac e a sua auxerre pontilhista,
pelo génio de alekhine,
sacrificando dama e torre num jogo às cegas,
pelo sonho de marx, que acreditou num
homem novo e melhor,
pelo sabor dos alperces no verão,
por hector hugh munro, que escrevia com
elegância e era subtil como um gato persa,
pelos 4 minutos e 33 segundos
de john cage,
pela liberdade, último reduto do indivíduo,
pelo grand canyon, que nos reduz
a quase nada,
pelas iluminuras medievais,
com anjos dentro das letras góticas,
pela paciência que esmorece com o
passar dos anos,
pelos jornais, o cheiro da tinta e
o estrépito das rotativas,
pela geometria de riemann,
com que einstein imaginou o espaço-tempo,
pela inocência das crianças e a imagem
serena de um bebé dormindo,
pela noite em que vi uma lua vermelha
sobre o báltico,
pela escrita, caminho árduo mas exaltante,
pelo poema de que este é espelho,
por todos os dons que também calaste,
por ti, borges, poeta cego como milton e homero,
minotauro perdido num labirinto de versos.


Gostei muito do novíssimo número 5 da revista big ode. Dividida em cinco desdobráveis torna a leitura mais difícil apesar de, e este aspecto é subtil mas importante, relevar o carácter de descoberta. Foi o que fiz, aventurando-me por autores que desconhecia tais como Mário Calado Pedro, com as suas médio-narrativas, os três actos de Tiago A. da Veiga, os textos inovadores do Rodrigo Miragaia, os quatro pesadelos de Rui Carlos Souto, o “pequeno-grande” texto de Vítor Vicente, os “interesses” de Ausias Millet, o existencialismo de João Meirinhos, e a linda “dança” de Sandra G.D.
O verdadeiro conto desconcertante desta edição traz-nos João Ferreira, seguido de perto por Virgílio Vieira Tebas e Ana Marques da Dilva, e na mesma folha João Pereira de Matos dá-nos algumas “notas” estreitando a fronteira entre a prosa e a poesia. Andando para a frente nas minhas buscas, encontrei o meu amigo Fernando Dinis com um poderoso poema, e depois voltei aos desconhecidos: Rita Grácio inventou um pesadelo, explicando-nos como, e Sílvia Effe oferece-nos um belo poema. Já sentindo calafrios ainda li a bela poesia de Rute Mota, bem como a expressividade e sugestibilidade (este termo existe?) de Arturo Accio e Henrique Fialho.
Acabei com os mais conhecidos como aqueles que comem deixando para o fim a cereja cristalizada para que esse gosto último se conserve na boca: Fernando Esteves Pinto, na órbita da sua temática de eleição, Rui Costa, Sara Monteiro, e as grandes revoluções de António Orihuela. Acabei com o grande conto de Luís Ene em homenagem ao enorme pintor e nosso amigo Paulo Serra.
Não me li a mim mesmo. Tenham santa paciência.
O pátio é agora um quadrado
de luz. Sem gatos nem sombras;
apenas o silêncio das paredes, intacto.
Rente ao chão, um exercício de entropia:
tabuletas gastas, loiça em cacos, o balde
cheio de pregos tortos, aguarelas refeitas
pela chuva, baús que guardam segredos,
estantes rendidas à poeira, um par de asas
falsas, a túnica com rasgões e duas malas
de couro manchadas pelo tempo, vazias.
Ao canto, o relógio partido e os
ponteiros soltos. Um deles
aponta para as nuvens, lá
muito ao alto. O outro aponta para
nós, para aqui, para estes inumeráveis labirintos.
(JOSÉ MÁRIO SILVA, in Nuvens & Labirintos, 2001)
Escritor e crítico literário português, José Mário Silva nasceu em Paris, a 2 de Março de 1972.
Poucas semanas após o 25 de Abril de 1974, num Citröen 2 CV cheio até ao tejadilho de lona, chegou a Portugal com os progenitores, ainda eufóricos com os eflúvios da liberdade e o cheiro a cravos vermelhos. Os dois primeiros anos de vida deixaram-lhe, porém, nos ouvidos e nas circunvoluções do cérebro, como que incrustados, o gosto pela música da língua francesa e pelas coisas que essa língua diz, organiza, constrói. Não foi outra a origem da sua francofonia e francofilia. Da infância, feliz, basta dizer que foi isso mesmo: feliz.
(onde começara a escrever regularmente, a partir dos 16 anos, no suplemento Na vida adulta, fez várias coisas que constam do curriculum vitae. Curso de Biologia na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Jornalismo, a partir de Fevereiro de 1993, primeiro na extinta revista Pais, depois no Diário de NotíciasDN Jovem), depois em programas da RTP-2 (Portugalmente e Juízo Final, 1998/99), depois novamente no DN, onde foi editor adjunto do suplemento DNA (entre Janeiro de 2000 e Dezembro de 2005) e editor adjunto da secção de Artes do mesmo jornal (entre Janeiro de 2006 e Outubro de 2007). Na revista Time Out Lisboa, desempenhou as funções de editor convidado da secção Livros (entre Outubro de 2007 e Janeiro de 2008). Actualmente, é jornalista freelancer e colaborador do suplemento Actual, do semanário Expresso, onde assina recensões literárias (desde Fevereiro de 2008).
Em 2001, publicou o livro de poemas Nuvens & Labirintos (Gótica), ao qual foi atribuído o Prémio Literário Cidade de Almada. Do francês, traduziu dois livros de Jean-Baptiste Botul – A Vida Sexual de Immanuel Kant e Landru, Precursor do Feminismo –, além do volume Conversas entre Georges Raillard e Joan Miró.
Começou o seu primeiro blogue, Blog de Esquerda, a 1 de Janeiro de 2003, em resposta ao que os seus amigos Pedro Mexia e Pedro Lomba escreviam na Coluna Infame. Mais tarde, o BdE mudou de plataforma para aqui. Chegou a alimentar um blogue minimalista mas um dia esqueceu-se da password e nunca mais conseguiu lá entrar. Além do Bibliotecário de Babel, que tem um foco (os livros), mantém A Invenção de Morel, que é generalista, irregular e caótico.
A sua lista de interesses é quase infinita mas inclui, muito cá para cima: os livros em desordem nas estantes abauladas; as nuvens («les merveilleux nuages», como dizia Baudelaire); o xadrez e o futebol; a arquitectura das catedrais; certos ângulos de certas fotografias; o voo imóvel do falcão peneireiro (Falco tinnunculus); estradas ladeadas por ciprestes; o cinema clássico e Godard (se isto não for uma redundância); as sombras muito esticadas ao fim do dia; os últimos quartetos de Beethoven (e a outra música: Bach, Schubert, Monteverdi, Bruckner); jardins geométricos; a arte de viajar sem mapas; os poemas que se fazem dentro da cabeça como origami; folhas amarelas de Gingko biloba; estaleiros com navios apodrecidos e ferrugem; romances de W. G. Sebald; o mar a desfazer-se em espuma longe da costa; noitadas com amigos, queijo, vinho e Os Descobridores de Catan; deambulações por cidades estrangeiras à procura daquela livraria onde talvez encontre, numa estante meio escondida, o seu Aleph. (baseado no texto publicado em http://bibliotecariodebabel.
Obras:

Sem palavras minhas e sem os sonhos,
Fáceis, e sem as outras falsidades.
Numa espécie de morte mais terrível
Ser de mim todo despojado, ser
Abandonado aos pés como um vestido.
Sem pressa atravessar a asfixia.
Não vergar. Suster o peso da hora
Até soltar sua canção intacta.
Cristovam Pavia



que se fodam
do princípio ao fim de trás
de frente pelo meio
com mais ou menos
de pé de joelhos
aos cantos
na boca dormente
que se fodam
párias protocolos
papagaios de sala
gente mal aprendida
putas fáceis de convencer
bogas mal amanhadas
pedantes penteadinhos
que se fodam
com o que houver de limpo
entre a santa mãe religião
e o enxovalho de ser livre
nas grandes leis do mercado
que se fodam
ordinários de merda
escravizados do cimento
bonecos sem perspectiva
balsas sem salvamento
pessoas muito branquinhas
tão puras tão geniais
que se fodam
onde a cruz lhes for mais fundo
no apreciável remorso
do Império ardido
do melancólico mesquinho
derramando de sal
fodam-se nas lágrimas
condescendentes presunçosos
ministros da ordem do dia
porcelanas escaldadas
mimos d’engraxa o sapato
românticos rebarbados
filhos da grande cornuda
puta mãe de todas
fodam-se nas algibeiras
arrependam-se evangelizem-se
nas estrelas da União
que derruba as fronteiras
para a igualdade
fodam-se todos em geral
os animais da savana
os pinguins do antárctico
a floresta amazónia
o programa espacial
até à terceira geração
fodam-se todos na consciência
casta política
económico – canalha
Democratos cabeçudus
fodam-se na urna
atem-se à bandeira
enforquem-se nela
lambam tudo o que conseguirem
chupem chupem chupem
engulam até rebentar
e no fim peçam a reforma
como cidadãos de boa raça

