
quando tornar a vir a primavera

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Já a luz se apagou do chão do mundo,
António Franco Alexandre
coloca uma palavra
Coloca uma palavra
no vale da minha nudez
e planta florestas de ambos os lados,
para que a minha boca
fique toda à sombra.
Ingeborg Bachmann
HOJE: SOM COM TOM
O EcoFest é...
Um novo Festival nasce este ano na costa Vicentina, um festival que alia as características naturais e paisagísticas da zona, à música tradicional. Chama-se EcoFest - Festival de Música e Ambiente de Odeceixe, e vai celebrar o património musical, cultural, ambiental, natural e paisagístico, com duas vertentes que se cruzam permanentemente, Música e Ambiente.
Programa musical para hoje:
Sex 15
14h00 (Largo da Vila)
Pelivento
19h00 (Largo da Vila)
Pelivento
21h00 (Espaço EcoFest)
Som Com Tom
22h30 (Espaço EcoFest)
Dazkarieh (na foto)
00h00 (Espaço EcoFest)
DJ António Pires (Raízes e Antenas)
ainda o acordo ortográfico
A cada página que leio mais espantado fico. Não só pela história, que é interessantíssima, mas porque constato que o acordo ortográfico está em vigor por aquelas bandas há muito tempo.
[Tiago Nené]
repórter estrábico
eu, tiago nené, ontem, na barraca do sulscrito, na feira do livro de faro, com mapa de manuel a. domingos debaixo do braço.
dentro de momentos toda a verdade
brise de solitude
a sua excelente performance para conferir [aqui]
conselho aos inexperientes
Tal como os bifes,
é sempre bom fraccionar o grande Tudo
em pequenos, nutritivos nadas:
cabem melhor na boca,
digerem-se melhor, dão melhores fezes.
a.m.pires cabral
in As Têmporas da Cinza, Cotovia, Lisboa, 2008.
surrealismo
afinal de contas é a única real tradição viva, não é?

Estão a ver?
Ele olhava mas não a via, nunca a via.
E ela chegou mesmo a pensar que era invisível, ou que ele era cego, mas a verdade é que ele via, via até muito bem, só que via para além dela, muito para além dela, via a mulher ideal que ela não era, a mulher ideal de quem ela estava a anos-luz de distância, ou vice-versa, se preferirem, como quiserem, estejam à vontade, que estas quatro ou cinco linhas servem apenas para de novo se voltar afinal ao princípio, que por esta altura já quase se esqueceram dele e vai surgir-lhes renovado, completamente renovado.
Ele olhava mas não a via, nunca a via.
pequenas memórias
[tn]
update: Afinal ainda não vou ser pai. Falso alarme.
À Palo Seco
No tempo em que você sonhava
De olhos abertos lhe direi
Amigo, eu me desesperava
Sei que assim falando pensas
Que esse desespero é moda em 73
Mas ando mesmo descontente
Desesperadamente eu grito em português
Tenho 25 anos de sonho e de sangue
E de América do Sul
Por força desse destino
O tango argentino me vai bem melhor que o blues
Sei que assim falando pensas
Que esse desespero é moda em 73
Eu quero que esse canto torto
Feito faca corte a carne de vocês
Belchior
(los hermanos a tocar à palo seco)
l'amour
parabéns minguante!

o último número é subordinado ao sugestivo tema do desejo...
é que, afinal... é verão.
[tn]
sons para passar a noite
partilho convosco.
verdadeiramente especial, não é?
como diz o João Blake, "é que tamanha beleza chega a ser uma violência".
[tiago nené]
a impaciência dos peugeuts
[uma crónica daquele que um dia foi apelidado de jovem poeta de faro, mas que entretanto deixou de escrever - a evitar]
Hoje ia a conduzir e eram cinco da tarde. Ou melhor, hoje eram cinco da tarde, é justo o tempo vir antes pois se não conduzisse seriam na mesma cinco da tarde, e resolvi fazer a experiência de conduzir entre os 5 e os 10 kms/h, naquelas ruas com uma só via e sentido, e em que é imperioso seguir o carro da frente , não havendo pois espaço para a manobra de ultrapassagem. Comecei então a contar os minutos que o automóvel de trás levaria até começar a buzinar perante a marcha lenta que eu impunha. Registei que os condutores de carrros de alta cilindrada, tais como os Mercedes e os Bmws aguentam 40 segundos e logo apitam (tempo médio, como todos os tempos que indicarei), os fiats, designadamente os puntos, levam dois minutos, o citroen C3 aguenta três minutos se for uma rapariga a conduzir, dois minutos e meio se for rapaz. Registei também que os pequenos carros comerciais (renault clios, opeis corsa e companhia lda) apitam volvidos trinta segundos e os seus condutores fazem gestos obscenos dentro do veículo. Os peugeuts, 206 e afins, carros da mesma marca que o meu, não toleravam a minha lentidão e depressa, em cerca de 10 segundos, a buzina soava. O que é verdadeiramente importante dizer é que, se odiamos ver os nossos defeitos nos outros, muito menos queremos ficar com os defeitos dos outros, principalmente se as condições são as mesmas e tudo o resto é propício. Creio que só isso explica a impaciência dos peugeuts.
[tn]
a cidade esquecida

Ela disse: Sou uma cidade esquecida.
Ele disse: Sou um rio.
Ficaram em silêncio à janela
cada um à sua janela
olhando a sua cidade, o seu rio.
Ela disse: Não sou exactamente uma cidade.
Uma cidade é diferente de uma cidade
esquecida.
Ele disse: Sou um rio exacto.
Agora na varanda
cada um na sua varanda
pedindo: Um pouco de ar entre nós.
Ela disse: Escrevo palavras nos muros que pensam em ti.
Ele disse: Eu corro.
De telefone preso entre o rosto e o ombro
para que ao menos se libertassem as mãos
cada um com as suas mãos libertas.
Ela temeu o adeus, disse: Sou uma cidade esquecida.
Ele riu.
Filipa Leal, nasceu no Porto em 1979. Formou-se em Jornalismo na Universidade de Westminster, em Londres, e concluiu o Mestrado em Estudos Portugueses e Brasileiros pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto (onde apresentou a dissertação sobre os «Aspectos do cómico na poesia de Alexandre O’Neill, Adília Lopes e Jorge de Sousa Braga»).
Jornalista cultural, é de salientar a sua colaboração no suplemento «das Artes, das Letras» de O Primeiro de Janeiro, para o qual já entrevistou diversas figuras de destaque da literatura portuguesa e estrangeira.
Recitadora e locutora, colabora regularmente com o Teatro do Campo Alegre, no ciclo «Quintas de Leitura», e integra o colectivo poético «Caixa Geral de Despojos».
Participa nos Seminários de Tradução Colectiva de Poesia da Fundação da Casa de Mateus.
Publicou LUA-POLAROID (ficção), 2003, Corpos Editora, TALVEZ OS LÍRIOS COMPREENDAM (poesia), 2004, Cadernos do Campo Alegre, CIDADE LÍQUIDA (poesia), 2006, Deriva Editores.
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A diferença entre um editor e um revisor (receita para futuros escritores)
O revisor questiona-nos.
O editor sabe que temos um estilo, que odiamos advérbios de modo, pontos de exclamação e aspas.
O revisor acha que os textos devem levar advérbios de modo, pontos de exclamação em excesso e aspas ou itálico a propósito de tudo.
O editor acarinha-nos, mima-nos e orienta-nos. Faz sugestões com bondade, mesmo quando escreve: tira isto, não precisas.
O revisor usa caneta vermelha.
O editor usa um lápis de carvão ou, no limite, uma caneta azul de ponta fina que se confunde com o texto.
O revisor sabe coisas.
O editor filosofa connosco e aceita a metafísica com generosidade.
O revisor gostaria de ser escritor.
O editor já é uma forma de se ser escritor.
O revisor encara o nosso original como mais um documento.
O editor vive a nossa história, adopta os nossas personagens, sofre connosco.
Dito isto: viva aos editores, abaixo os revisores.
Patrícia Reis
agosto!
é agosto.
eis a minha sugestão:
Beirut - Elephant Gun
[tn]






