quando tornar a vir a primavera












Quando tornar a vir a Primavera
Talvez já não me encontre vivo no mundo.
Gostava agora de poder julgar que a Primavera é gente
Para poder supor que ela choraria,
Vendo que perdera o seu único amigo.
Mas a Primavera nem sequer é uma coisa:
É uma maneira de dizer.
Nem mesmo as flores tornam, ou as folhas verdes.
Há novas flores, novas folhas verdes.
Há outros dias suaves.
Nada torna, nada se repete, porque tudo é real.

Alberto Caeiro

30


Já a luz se apagou do chão do mundo,
deixei de ser mortal a noite inteira;
ofensa grave a minha, que tentei
misturar-me aos duendes na floresta.
De máscara perfeita, e corpo ausente,
a todos enganei, e ninguém nunca
saberia que ainda permaneço
deste lado do tempo onde sou gente.
Não fora o gesto humano de querer-te
como quem, tendo sede, vê na água
o reflexo da mão que a oferece,
seria folha de árvore ou sério gnomo
absorto no silêncio de uma rima
onde a morte cessasse para sempre.


António Franco Alexandre

coloca uma palavra


Coloca uma palavra
no vale da minha nudez
e planta florestas de ambos os lados,
para que a minha boca
fique toda à sombra.


Ingeborg Bachmann

HOJE: SOM COM TOM

Esta noite, pelas 21h, a apresentação "Som Com Tom" anima o festival EcoFest em Odeceixe. Mais uma vez Carlos Norton e Zé Matos dão som aos textos de Luís Ene, num ambiente descontraído, como naquele encontro no Club Farense.

O EcoFest é...
Um novo Festival nasce este ano na costa Vicentina, um festival que alia as características naturais e paisagísticas da zona, à música tradicional. Chama-se EcoFest - Festival de Música e Ambiente de Odeceixe, e vai celebrar o património musical, cultural, ambiental, natural e paisagístico, com duas vertentes que se cruzam permanentemente, Música e Ambiente.

Programa musical para hoje:

Sex 15

14h00 (Largo da Vila)
Pelivento

19h00 (Largo da Vila)
Pelivento

21h00 (Espaço EcoFest)
Som Com Tom

22h30 (Espaço EcoFest)
Dazkarieh (na foto)

00h00 (Espaço EcoFest)

DJ António Pires (Raízes e Antenas)

ainda o acordo ortográfico

Ando a ler um livro em português do Brasil, um excelente livro por sinal, um tal de A Hora dos Náufragos, de Pedro Maciel.

A cada página que leio mais espantado fico. Não só pela história, que é interessantíssima, mas porque constato que o acordo ortográfico está em vigor por aquelas bandas há muito tempo.


[Tiago Nené]

repórter estrábico

"na literatura interessa-me apenas ler e escrever"


eu, tiago nené, ontem, na barraca do sulscrito, na feira do livro de faro, com mapa de manuel a. domingos debaixo do braço.

dentro de momentos toda a verdade














um dia o mundo
será governado por crianças
prontas a cortar
orelhas

cabeças

a cuspir
nos olhos dos pais

a decretar
o suicídio obrigatório
aos 40.



in
mapa, de manuel a. domingos, livrododia editores

brise de solitude

o nosso membro miguel murta foi apanhado no meio de uns tais de "surrealistas".

a sua excelente performance para conferir [aqui]

conselho aos inexperientes


Tal como os bifes,
é sempre bom fraccionar o grande Tudo
em pequenos, nutritivos nadas:

cabem melhor na boca,
digerem-se melhor, dão melhores fezes.



a.m.pires cabral

in As Têmporas da Cinza, Cotovia, Lisboa, 2008.

(...)

surrealismo

para quem é fã do movimento surrealista o nosso querido amigo ricardo pulido valente oferece-nos um bom espaço.

afinal de contas é a única real tradição viva, não é?


sobre o medo de falhar...

FALHAR, FALHAR SEMPRE, FALHAR CADA VEZ MELHOR.

Samuel Beckett

Estão a ver?

Ele olhava mas não a via, nunca a via.


E ela chegou mesmo a pensar que era invisível, ou que ele era cego, mas a verdade é que ele via, via até muito bem, só que via para além dela, muito para além dela, via a mulher ideal que ela não era, a mulher ideal de quem ela estava a anos-luz de distância, ou vice-versa, se preferirem, como quiserem, estejam à vontade, que estas quatro ou cinco linhas servem apenas para de novo se voltar afinal ao princípio, que por esta altura já quase se esqueceram dele e vai surgir-lhes renovado, completamente renovado.


Ele olhava mas não a via, nunca a via.

pequenas memórias

Em 2004/2005 vivi a experiência privilegiada de ser estudante de direito, ao abrigo do programa erasmus, em Paris. Uma das memórias que ficou prende-se com o conhecimento que travei, do ponto de vista musical e também pessoal, com a banda parisiense ben's symphonic orchestra. Hoje, depois de ter recebido uma boa notícia, a que vou ser pai de gémeos, recordei esses grandes tempos e apeteceu-me colocar o cd a tocar. Depois, claro, pensei que os leitores do texto-al mereciam que ripasse a música, fizesse um vídeo e colocasse aqui. Trata-se de uma das minhas bandas preferidas. Espero que gostem deste from hull to hawaï, que dedico, especialmente, ao Murta.







[tn]

update: Afinal ainda não vou ser pai. Falso alarme.

À Palo Seco

Se você vier me perguntar por onde andei
No tempo em que você sonhava
De olhos abertos lhe direi
Amigo, eu me desesperava

Sei que assim falando pensas
Que esse desespero é moda em 73
Mas ando mesmo descontente
Desesperadamente eu grito em português

Tenho 25 anos de sonho e de sangue
E de América do Sul
Por força desse destino
O tango argentino me vai bem melhor que o blues

Sei que assim falando pensas
Que esse desespero é moda em 73
Eu quero que esse canto torto
Feito faca corte a carne de vocês

Belchior
(los hermanos a tocar à palo seco)

l'amour
















ela disse-me que não gostava de mim e que era algo irracional.
então eu propus que nos amássemos racionalmente, e ela não soube como contra-argumentar.


[tn]

o japonês

quais as dez coisas que precisamos de saber acerca de haruki murakami?

parabéns minguante!















a revista minguante, dirigida pelo "nosso" luís ene, e principal referência da micro-ficção em portugal, faz dois anos. Claro está que não podemos, de forma alguma, deixar passar tal marca sem uma referência àquele que é um dos melhores projectos literários no nosso país.
o último número é subordinado ao sugestivo tema do desejo...
é que, afinal... é verão.

[tn]

sons para passar a noite

a minha amiga Índia sugeriu-me Nitin Sawhney para passar a noite.

partilho convosco.

verdadeiramente especial, não é?

como diz o João Blake, "é que tamanha beleza chega a ser uma violência".


[tiago nené]

a impaciência dos peugeuts

[uma crónica daquele que um dia foi apelidado de jovem poeta de faro, mas que entretanto deixou de escrever - a evitar]











Hoje ia a conduzir e eram cinco da tarde. Ou melhor, hoje eram cinco da tarde, é justo o tempo vir antes pois se não conduzisse seriam na mesma cinco da tarde, e resolvi fazer a experiência de conduzir entre os 5 e os 10 kms/h, naquelas ruas com uma só via e sentido, e em que é imperioso seguir o carro da frente , não havendo pois espaço para a manobra de ultrapassagem. Comecei então a contar os minutos que o automóvel de trás levaria até começar a buzinar perante a marcha lenta que eu impunha. Registei que os condutores de carrros de alta cilindrada, tais como os Mercedes e os Bmws aguentam 40 segundos e logo apitam (tempo médio, como todos os tempos que indicarei), os fiats, designadamente os puntos, levam dois minutos, o citroen C3 aguenta três minutos se for uma rapariga a conduzir, dois minutos e meio se for rapaz. Registei também que os pequenos carros comerciais (renault clios, opeis corsa e companhia lda) apitam volvidos trinta segundos e os seus condutores fazem gestos obscenos dentro do veículo. Os peugeuts, 206 e afins, carros da mesma marca que o meu, não toleravam a minha lentidão e depressa, em cerca de 10 segundos, a buzina soava. O que é verdadeiramente importante dizer é que, se odiamos ver os nossos defeitos nos outros, muito menos queremos ficar com os defeitos dos outros, principalmente se as condições são as mesmas e tudo o resto é propício. Creio que só isso explica a impaciência dos peugeuts.



[tn]

a história do editor e do crítico


Belas são as "questões coimbrãs" que a blogosfera vai gerando, principalmente no verão.
Desta vez a querela opõe um crítico a um editor.
É sempre uma bela história de amor, não é?



a cidade esquecida

Filipa Leal é das melhores poetas contemporâneas portuguesas. Deixo-vos com a sua cidade esquecida...

















Ela disse: Sou uma cidade esquecida.
Ele disse: Sou um rio.

Ficaram em silêncio à janela
cada um à sua janela
olhando a sua cidade, o seu rio.

Ela disse: Não sou exactamente uma cidade.
Uma cidade é diferente de uma cidade
esquecida.

Ele disse: Sou um rio exacto.

Agora na varanda
cada um na sua varanda
pedindo: Um pouco de ar entre nós.

Ela disse: Escrevo palavras nos muros que pensam em ti.
Ele disse: Eu corro.

De telefone preso entre o rosto e o ombro
para que ao menos se libertassem as mãos
cada um com as suas mãos libertas.
Ela temeu o adeus, disse: Sou uma cidade esquecida.
Ele riu.



Filipa Leal, nasceu no Porto em 1979. Formou-se em Jornalismo na Universidade de Westminster, em Londres, e concluiu o Mestrado em Estudos Portugueses e Brasileiros pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto (onde apresentou a dissertação sobre os «Aspectos do cómico na poesia de Alexandre O’Neill, Adília Lopes e Jorge de Sousa Braga»).
Jornalista cultural, é de salientar a sua colaboração no suplemento «das Artes, das Letras» de O Primeiro de Janeiro, para o qual já entrevistou diversas figuras de destaque da literatura portuguesa e estrangeira.
Recitadora e locutora, colabora regularmente com o Teatro do Campo Alegre, no ciclo «Quintas de Leitura», e integra o colectivo poético «Caixa Geral de Despojos».
Participa nos Seminários de Tradução Colectiva de Poesia da Fundação da Casa de Mateus.
Publicou LUA-POLAROID (ficção), 2003, Corpos Editora, TALVEZ OS LÍRIOS COMPREENDAM (poesia), 2004, Cadernos do Campo Alegre, CIDADE LÍQUIDA (poesia), 2006, Deriva Editores.

[tn]

na casa do poeta rui dias simão

imperdível

[aqui]

o e



o e
ai e ie o e
o o é
o ai é
ou u eu
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o a a a é
e ou e e
ui e e e i
e eu ou i
é ai é eu
eu a e e
e e ai u
ou e e u
au i ie e
o o e e
a e e à




Ana Hatherly
um calculador de improbabilidades
Quimera

entrevista

Valter Hugo Mãe numa entrevista interessante.

[aqui]

sem palavras


















cláudia santos silva

A diferença entre um editor e um revisor (receita para futuros escritores)

O editor compreende-nos.
O revisor questiona-nos.
O editor sabe que temos um estilo, que odiamos advérbios de modo, pontos de exclamação e aspas.
O revisor acha que os textos devem levar advérbios de modo, pontos de exclamação em excesso e aspas ou itálico a propósito de tudo.
O editor acarinha-nos, mima-nos e orienta-nos. Faz sugestões com bondade, mesmo quando escreve: tira isto, não precisas.
O revisor usa caneta vermelha.
O editor usa um lápis de carvão ou, no limite, uma caneta azul de ponta fina que se confunde com o texto.
O revisor sabe coisas.
O editor filosofa connosco e aceita a metafísica com generosidade.
O revisor gostaria de ser escritor.
O editor já é uma forma de se ser escritor.
O revisor encara o nosso original como mais um documento.
O editor vive a nossa história, adopta os nossas personagens, sofre connosco.
Dito isto: viva aos editores, abaixo os revisores.


Patrícia Reis

agosto!

não me apetece ler nada, nem escrever, apenas ouvir música à sombra

é agosto.

eis a minha sugestão:

Beirut - Elephant Gun





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sugestão




















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