Começou a mexer o café com leite com a colherzinha. O líquido quase transbordava da chávena empurrado pelo movimento do utensílio de alumínio (o recipiente era vulgar, o sítio era ordinário e a colher estava arredondada pelo uso). Ouvia-se o barulho do metal contra o vidro. Tim, tim, tim, tim. E o café com leite girava, girava com uma cova no meio. Um maelstrom. E eu encontrava-me sentado mesmo à frente. O café estava à pinha. O homem continuava a mexer, a mexer, imóvel, e sorria ao olhar-me. Senti uma coisa subir por mim acima. Fitei-o de tal maneira que se viu na obrigação de se explicar:
- O açúcar ainda não está derretido.
Para mo provar, bateu com a colher várias vezes no fundo do copo. Recomeçou a mexer metodicamente a beberagem, com uma energia redobrada. Voltas e mais voltas, sem parar, eternamente. Voltas e mais voltas e mais voltas. E continuava a olhar para mim, sorrindo. Então puxei da pistola e disparei.
Luís Filipe é alto para a sua idade Dá-lhe alguns cêntimos O seu chapéu será demasiado pequeno Dá-lhe duas gravatas Mentirá todos os dias Dá-lhe outro cachimbo A sua mãe chorará Dá-lhe um par de luvas Perderá os seus sapatos Dá-lhe café Terá lâmpadas Dá-lhe um corpete Levará um colar Dá-lhe suspensórios Tratará de ratos Dá-lhe uma pá Subirá ao avião Dá-lhe sopa Fará uma estátua Dá-lhe uns cordões Comerá groselha
O senhor Luís Filipe Que vive de pílulas e de pastas Come a sua mãe E perde o tempo caminhando.
há coisas piores do que estar só mas costuma levar décadas até que o percebamos e frequentemente quando o conseguimos é demasiado tarde e nada pior do que ser demasiado tarde.
Foi ontem que o Texto-Al reiniciou as actividades! À data marcada (em Julho) e no local do costume compareceu quem sentiu vontade de arregaçar as mangas e por mãos à obra!
Embora só me tivesse juntado à meia-noite, por motivos profissionais, posso dizer que foi bastante reconfortante o reencontro com caras tão familiares!
O próximo será dia 16 de Setembro, pelas 21h30, no Club Farense.
Cegos de saliva e chuva, sudorosos, sois vós a manhã esse fio amarelado, essa costura alinhavada com pressa, malograda, sobre um céu para sempre rasgado?
Entre as plantas ainda é de noite para os lábios húmidos de orvalho.
a melancolia pode às vezes ser isto, um modo de sobreviver ao vazio, o comovido jeito de pôr a mão sobre o mármore da mesa e pedir outro martini fresco se faz favor
A cidade é a mesma. A cidade sempre fora a mesma. Mas a seus olhos, a perdição era cortante. Só quando estavas prestes a desmaiar novamente, é que entendeu que podia voar, sendo esta a única forma do meu encontro. Percorreu sete céus assim como eu raptei sete mulheres, em busca de um cheiro.
Percorreu-os como se fosse a última coisa que fizesse enquanto vivia, até que se sentiu exausta. Desceu e voltou ao seu quarto. Quis vomitar o que bebera. Pressionou o vómito e fui obrigado a sair. Só então entendera que eu era a própria estrela e que todo este tempo estava dentro dela.
«Porque nunca me sentiste dentro de ti? Não notaste a tua pele macia como veludo e os teus cabelos com um brilho incandescente? Em que outros dias da tua vida tiveste a liberdade de voar?» Rita debruçou-se no chão e sorveu novamente o que expelira. Entrei nela. Fechou os olhos para ver melhor e abriu os braços preparando o voo. Antes de saltar pela janela ainda disse «Pois agora estarás comigo no mergulho pelos céus, e na eternidade embarcaremos. Não levarei objectos nem jóias. Ferve-me o ventre e será este fogo a minha herança, que agora também te pertence. Voarás comigo, e quando me sentir exausta, desceremos ao cume de todas as cinzas, e iremos adormecer suavemente.»