voar

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O texto-al, representado por luís ene, maria corgas e tiago nené, no estabelecimento prisional de Faro.


a reportagem no Observatório do Algarve



Asas.
Pássaro. Céu.
Vento.
Voar,
voar em círculos,
em tangente.
Sou um pássaro,
abro as asas

Maria Corgas


livre arbítrio

  1. puxar da pistola e disparar
  2. empurrar o sujeito varanda abaixo
  3. deitar-lhe no copo uma cápsula de cianeto


as opções eram claras, só precisava decidir

acontecer de tudo











o amor

estraga tudo;

estraga o sexo

cansa o entendimento

e deixa pálida a pele

faz dos olhos um móvel

e da cama outro móvel

- uma coisa de cada vez –

o amor mata o flirt

mata o sarampo

e mata o olhar caprichoso

e dirige a moral

até inclinações desconhecidas;

o amor

estraga tudo;

enrouquece a voz

desfaz os planos e as vistas panorâmicas

e enche o café de tropeções

e de nervos desbocados as veias

o amor acalma o mar e as paisagens mais dóceis

deixa planas as planícies

e derruba a mais feroz verga;

o amor

estraga tudo

cobre-te os olhos

e entre cortinas e persianas

esqueço de mim mesmo,

os rios são ainda os rios,

e eu já não sei o que fazer.


Eduard Escoffet

(tradução de Tiago Nené)

café com leite



Começou a mexer o café com leite com a colherzinha. O líquido quase transbordava da chávena empurrado pelo movimento do utensílio de alumínio (o recipiente era vulgar, o sítio era ordinário e a colher estava arredondada pelo uso). Ouvia-se o barulho do metal contra o vidro. Tim, tim, tim, tim. E o café com leite girava, girava com uma cova no meio. Um maelstrom. E eu encontrava-me sentado mesmo à frente. O café estava à pinha. O homem continuava a mexer, a mexer, imóvel, e sorria ao olhar-me. Senti uma coisa subir por mim acima. Fitei-o de tal maneira que se viu na obrigação de se explicar:

- O açúcar ainda não está derretido.

Para mo provar, bateu com a colher várias vezes no fundo do copo. Recomeçou a mexer metodicamente a beberagem, com uma energia redobrada. Voltas e mais voltas, sem parar, eternamente. Voltas e mais voltas e mais voltas. E continuava a olhar para mim, sorrindo. Então puxei da pistola e disparei.

Max Aub
in Crimes Exemplares

Quando envelhece o diabo se torna eremita
















Luís Filipe é alto para a sua idade
Dá-lhe alguns cêntimos
O seu chapéu será demasiado pequeno
Dá-lhe duas gravatas
Mentirá todos os dias
Dá-lhe outro cachimbo
A sua mãe chorará
Dá-lhe um par de luvas
Perderá os seus sapatos
Dá-lhe café
Terá lâmpadas
Dá-lhe um corpete
Levará um colar
Dá-lhe suspensórios
Tratará de ratos
Dá-lhe uma pá
Subirá ao avião
Dá-lhe sopa
Fará uma estátua
Dá-lhe uns cordões
Comerá groselha

O senhor Luís Filipe
Que vive de pílulas e de pastas
Come a sua mãe
E perde o tempo caminhando.


Benjamin Péret
(tradução de Tiago Nené)

oceano


















Conheço o oceano de há muito
antes de os deuses e os demónios o tornarem simples.

Encadeado pelo mítico fogo, vi as águas.
O fogo e a humidade não podem ser separados.
Estar molhado e ir queimando é a mesma coisa.

Quando saio do chão do oceano
não terei a mão cheia de pérolas.

Não sou um mergulhador.
Sou um poeta.
Tudo o que tenho está apenas nos meus olhos.


Sitanshu Yashaschandra
(tradução de Tiago Nené)

saber

  1. que o diabo acredita em deus
  2. que os escritores sentem sempre saudades da literatura
  3. que os que mais duvidam do amor são os amantes
  4. que as contradições são certezas cheias de dúvidas

sim, eu sei, eu sei

oh sim

há coisas piores do que
estar só
mas costuma levar décadas
até que o percebamos
e frequentemente
quando o conseguimos
é demasiado tarde
e nada pior
do que
ser demasiado tarde.


Charles Bukowski

(tradução de Tiago Nené)

Rentrée

Foi ontem que o Texto-Al reiniciou as actividades! À data marcada (em Julho) e no local do costume compareceu quem sentiu vontade de arregaçar as mangas e por mãos à obra!

Embora só me tivesse juntado à meia-noite, por motivos profissionais, posso dizer que foi bastante reconfortante o reencontro com caras tão familiares!

O próximo será dia 16 de Setembro, pelas 21h30, no Club Farense.

a calma acesa















Cegos de saliva e chuva, sudorosos,
sois vós a manhã esse fio amarelado,
essa costura alinhavada com pressa, malograda,
sobre um céu para sempre rasgado?

Entre as plantas ainda é de noite
para os lábios
húmidos
de orvalho.



Alberto Szpunberg

(tradução de Tiago Nené)

melancolia




















a melancolia pode às vezes ser isto,

um modo de sobreviver ao vazio, o comovido

jeito de pôr a mão sobre o mármore da mesa
e pedir outro martini fresco
se faz favor


Manuel de Freitas

Cinco Anos

A cidade é a mesma. A cidade sempre fora a mesma. Mas a seus olhos, a perdição era cortante. Só quando estavas prestes a desmaiar novamente, é que entendeu que podia voar, sendo esta a única forma do meu encontro. Percorreu sete céus assim como eu raptei sete mulheres, em busca de um cheiro.

Percorreu-os como se fosse a última coisa que fizesse enquanto vivia, até que se sentiu exausta. Desceu e voltou ao seu quarto. Quis vomitar o que bebera. Pressionou o vómito e fui obrigado a sair. Só então entendera que eu era a própria estrela e que todo este tempo estava dentro dela.

«Porque nunca me sentiste dentro de ti? Não notaste a tua pele macia como veludo e os teus cabelos com um brilho incandescente? Em que outros dias da tua vida tiveste a liberdade de voar?» Rita debruçou-se no chão e sorveu novamente o que expelira. Entrei nela. Fechou os olhos para ver melhor e abriu os braços preparando o voo. Antes de saltar pela janela ainda disse «Pois agora estarás comigo no mergulho pelos céus, e na eternidade embarcaremos. Não levarei objectos nem jóias. Ferve-me o ventre e será este fogo a minha herança, que agora também te pertence. Voarás comigo, e quando me sentir exausta, desceremos ao cume de todas as cinzas, e iremos adormecer suavemente.»

(...)

de passagem

  1. uma cama desfeita
  2. uma página marcada do novo testamento
  3. uma caneta sem tampa
  4. uma noite dormida de insónia

muitas são as histórias que nos contam os quartos de passagem

a avó e o lobo


Sozinha no bosque,

sobras de um conto de fadas,

A avó prepara a refeição para um lobo.

Porém ele não comerá a sua comida

nada pessoal

Somente ela não percebe a sua natureza,

não percebe as suas necessidades.

E enquanto a avó se debruça

sobre a cozinha quente,

o lobo caminha pelos arredores,

apreende o seu cheiro,

localiza-a,

lança-se sobre ela e come-a viva.

Esta é a sua natureza.

nada pessoal.


Howard Camner

(tradução de Tiago Nené)