
Ainda pensámos que seria um dos autores do texto-al a ganhar, mas a academia sueca optou pelo escritor francês. Também não está mal. Parabéns ao autor e, já agora, às livrarias deste país.

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NOVEMBRO
Quando o beleguim se aborrece, torna-se perigoso.
Em chamas, o céu encolhe-se.
Sinais sonoros ouvem-se de cela para cela
E o espaço emerge da terra gelada.
Algumas pedras brilham como luas cheias.
NEVE
Os funerais aproximam-se
Cada vez mais cerrados
Como sinais de trânsito
Quando nos aproximamos de alguma cidade
A vista de mil pessoas
Na terra das longas sombras
Uma ponte constrói-se
Vagarosamente
Sempre em frente no espaço
ASSINATURAS
Sou obrigado a atravessar
a soleira escura.
Uma sala.
O documento branco brilha
Com muitas Sombras que se mexem.
Todas o querem assinar
Até que a luz me conseguiu apanhar
E dobrou o tempo
O PENHASCO DA ÁGUIA
Por detrás do vidro do terrário
répteis
Estranhamente imóveis.
Uma mulher estende roupa
Em silêncio.
A morte é uma calmaria.
Pelo fundo da terra
A minha alma desliza
Silente como um cometa.
Tomas Tranströmer
(tradução de Luís Costa)
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No seu leito de moribundo o meu pai lê
As memórias de Casanova.
Eu vejo a noite cair,
Algumas janelas que se iluminam na rua.
Numa delas uma jovem lê
Junto ao vidro.
Há muito tempo que não ergue os olhos,
Mesmo com a escuridão a chegar.
Enquanto ainda há um resto de luz,
Desejo que ela levante a cabeça,
E eu consiga ver-lhe a cara
Que já consigo imaginar,
Mas o livro deve ser intrigante.
Além disso, que silêncio,
Cada vez que volta uma página,
Consigo ouvir o meu pai, que também volta uma,
Como se eles lessem o mesmo livro.
Charles Simic
PREVISÃO DE TEMPO
PARA UTOPIA E ARREDORES
selecção e tradução de
José Alberto Oliveira
Assírio & Alvim
Azul. E nesse azul uma sensação
de verde, as cinzentas calotas de nuvens
amparadas contra o ar, como se
na ideia da chuva
o olhar
pudesse domar a fala
de um dado momento
na terra. Chamem-lhe o céu. E assim
descrever
o que quer
que vemos, como se nada mais fosse
que a ideia
de algo que tínhamos perdido
cá dentro. Podemos começar, pois,
a recordar
a terra dura, as estrelas
dardejantes de sílex, os undíferos
carvalhos, soltos
pelo resfolegar do vento, e assim até
à mais ínfima semente, descobrindo
o que sobre nós cresce, como se
por causa deste azul pudesse haver
este verde
que alastra, nisto inumerável
e milagroso, o mais silente
momento do verão. Sementes
falam deste ciclo, definem
o lugar onde o ar e a terra irrompem
nesta profusão de acaso, as aleatórias
forças da nossa falta de conhecimento
acerca daquilo
que vemos, e meramente falar disso
é ver
como as palavras nos falham, como nada sai bem
no dizer disso, nem sequer estas palavras
que sou levado a dizer
em nome deste azul
e deste verde
que se dissipam
no ar do verão.
Impossível
Continuar a ouvi-lo por mais tempo. A língua
para sempre nos aparta
de onde estamos, e em parte alguma
podemos repousar
nas coisas que nos são dadas
a ver, pois cada palavra
é outra parte qualquer, algo que se move
mais depressa que o olhar, mesmo
enquanto se desloca este pardal,
voluteando rumo ao ar
onde não tem lar algum. Não acredito, então,
em nada
do que te possam dar estas palavras,
e contudo ainda posso senti-las
a falar através de mim, como seja
isto somente
o que desejo, este azul
e este verde, e dizer
como este azul
se tornou para mim na essência
deste verde, e mais do que a pura
visão disso, quero que sintas
esta palavra
que o dia inteiro viveu
dentro de mim, este
desejo de nada
que não o dia em si mesmo, e o modo como cresceu
dentro dos meus olhos, mais forte
do que a palavra de que é feito,
como se jamais
outra palavra
me pudesse amparar
sem se quebrar.
Paul Auster
(in Poemas Escolhidos . tradução de Rui Lage - Quasi)
I.
Na cidade não se falava de amor
mas eu amava
e resistia à cidade
porque falava de amor.
II.
Uns viviam em ruas com nome
de escultor,
outros viviam em ruas com nome
de pintor,
muito poucos viviam em ruas com nome
de gente.
III.
Na cidade tudo era circular:
terminava no mesmo ponto
em que começava.
Redondos, inúteis,
sobrevivíamos
como as montanha lá ao fundo.
Filipa Leal, in A cidade líquida e outras texturas (deriva)