um poema de casimiro de brito

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Não cabemos na música
nem
nas palavras

Somos o incesto
infinito
das águas


Casimiro de Brito

O ofício de escritor

É uma mulher pequena, lembra uma criança, e o seu sorriso, bem como a sua energia, não destoam dessa imagem que surge sem esforço a quem, ainda que por breves instantes, repouse nela o olhar. E também fala alto, muito alto, mesmo quando não está zangada, mesmo quando não se quer fazer ouvir, tal e qual uma criança. Não a via há anos, mas pareceu-me igual, e no entanto percebi com facilidade que estava muito diferente, estava ainda mais igual a si própria. Não lhe perguntei nada, não é da minha natureza perguntar, prefiro imaginar, e ela nada me contou, não é da sua natureza falar sobre si, prefere perguntar e ouvir. Por isso respondi às suas perguntas, ao mesmo tempo que me interrogava sobre o que teria mudado na sua vida, observando-a discretamente e levantando possibilidades. A primeira é que a mera passagem do tempo lhe tinha trazido mais solidez, mais confiança em si própria, solidez e confiança que se revelavam a cada um dos seus gestos, no seu sorriso solto, até no seu penteado que se apresentava agora mais natural, aceitando os caracóis originais. A segunda, de um modo geral, é que a solidez e a confiança que facilmente lhe descobri teriam sido ganhas à custa de muito esforço para superar grandes adversidades que vivera em todos aqueles anos que eu não a vira nem soubera dela. Olhei-a de novo, mas quando o fiz, percebi que ela estava a fazer o mesmo que eu, que estava a tentar ver para além do que eu dizia, estava a tentar ler em mim o que eu nunca lhe diria, por mais verdadeiro que eu fosse nas respostas às suas perguntas. Então calei-me e ela calou-se também, mas não deixou de me sorrir, não deixou de me olhar, e lembrou-me mais do que nunca uma criança. Queria ter-lhe dito isso, e mais, mas limitei-me a beijá-la e a ir-me embora sem olhar para trás. Muito mais do que falar, continuo a gostar de imaginar. É a minha maior virtude e o meu maior defeito.
[Faro, 21 de Outubro de 2008]

I am the Nation, do poeta americano Otto Whittaker



I am the Nation (Eu sou a Nação), poema de Otto Whittaker, lido por Johnny Cash.
Para ler uma tradução minha do poema original (escrito em 1955) entre na Casa dos Poetas.

[Tiago Nené]

caras de poucos amigos

Diziam-lhe frequentemente que tinha cara de poucos amigos. Nada de mais errado. Na realidade, o seu rosto era uma mistura de todos os seus amigos, porque sempre pensara neles. A questão é que estes nem se podiam ver.


[tn]

Olhos castanhos (um exercício de escrita)

[Para a Heloísa, com carinho]



Os seus olhos eram castanhos, de um castanho-escuro, muito escuro, quase negro, e o seu olhar assustava-me, ao mesmo tempo que me maravilhava, nem sei muito bem porquê. Talvez porque os seus olhos pareciam, ao mesmo tempo, tudo e nada ver.

Era uma daquelas pessoas que ninguém duvidava que podiam ser quem quisessem, tantas eram as suas qualidades e, sobretudo, tão forte era a sua vontade. Excelente profissional, excelente mãe, excelente amante, era também uma amiga e uma inimiga excelente, e parecia realmente ser quem queria ser, mas o olhar, aquele olhar estranho que tudo e nada via, denunciava-a.

Eu estava convencido que escondia um segredo e, uma tarde em que tomávamos café na baixa, surpreendi-a com uma pergunta súbita:
- Você é mesmo tudo o que quer ser?

Ela sorriu e olhou-me com os seus olhos castanhos, baços, quase negros. Devolvi-lhe o olhar, aparentando calma, mas a verdade é que precisei pedir-lhe que repetisse o que me dissera.

- Acredite que sou muito mais do que quero.
Foi isso que ela disse, e o sorriso que acompanhou a afirmação era tão dúbio como o seu olhar, ao mesmo tempo cheio de felicidade e de tristeza. Não insisti, mas, ainda que ela não o tivesse revelado, foi então que tive a certeza que descobrira o seu segredo, e não foram as suas palavras ou o seu sorriso que o denunciou, mas o seu olhar cego, que tudo e nada via.

Eu sabia, finalmente sabia. Aquela mulher que podia ser quem quisesse e que todos, menos eu, acreditavam que era quem queria ser, tinha afinal um desejo profundo que há muito tardava em satisfazer. Ela queria apenas não ser, era isso que ela mais queria. O seu olhar cego denunciava-a.

É claro que ela negaria tudo, mas eu sei que não me engano, ainda que não saiba muito bem explicar porque é assim, tal como me acontecia com o seu olhar, que ao mesmo tempo me maravilhava e me assustava.


[Faro, 20 de Outubro de 2008]

Maria do Sameiro Barroso vence Prémio Palavra Ibérica 2009

Maria do Sameiro Barroso é a grande vencedora do Prémio Internacional Palavra Ibérica 2009 com a obra Uma Ânfora no Horizonte. O júri, constituído por Casimiro de Brito, Fernando J.B. Martinho e Manuel Frias Martins, aconselhou ainda a publicação da obra Labirintos Cruciais, de Paulo Renato Cardoso.

Conhecendo a autora como conhecemos, consideramos este prémio muito bem entregue. Eis um poema de Maria do Sameiro Barroso:



Assim trabalharei a mão, o linho, o cristal paralelo,
os violinos de Dvorák.
Pelos gumes da linguagem, um tecido frágil do lado
da pobreza
dizendo o caminho nómada, a candeia de cinza.

Algures, um coração ardente, um homem que escreve,
um rosto imóvel, apesar,
no silêncio abnegado, denso e radical.

E mergulho nesse dizer aparente, amplo e subjectivo,
erguendo lírios, teias rarefeitas,
loucos interstícios, pelo magma luminoso,
onde o ouro inacessível se propaga,
pelos pórticos de melancolia,

o tempo desconexo percorrendo o caminho das esfinges,
a terra febril,
dizendo as aves, o orvalho e as feridas inteiras,
como violinos,
na extensão dos seus arcos, das suas células secretas,
erguendo o cristal prospectivo,
a chuva, o turbilhão,
caminhos de mel, meteoros de água.


Poema Os violinos de Dvorák, do livro inédito Idades Sonâmbulas


Update: outros poemas da autora [aqui]


[tn]

Quem quer ser editor?



Ouvi dizer que há uns e outros que ambicionam ser editores, e resolvi dar um empurrãozinho ao publicar aqui este flyer que apanhei numa livraria no Chiado. Antes de se mergulhar em aventuras editoriais pode dar jeito um curso de como fazê-lo, depois convém ter uma estratégia de sobrevivência, e já que dá tanto trabalho, seria bom fazer chegar os livros aos consumidores.

[É só uma ideia! ;) ]

Regresso a Ítaca

Nem sequer tinha um abre-latas de vinte e cinco cêntimos

Raymond Chandler


Não é como anunciam nos folhetos,
As traves dificilmente se apoiam no muro,
As janelas estão de rastos.
No mar, com uns copos, não é tão tola.
Caminhas como um vazio pelas ruas
E o sol que te segue desde o céu
Já não é mais que a pupila de uma pomba
Brilhando no telhado.

Mas dobras as últimas esquinas.
Parece esta a tua casa,
O lugar onde ancoras e governas
A hemorragia que é viver
Com um morto colado ao passaporte.
Passas a porta e já as traves
Te assinalam um ponto além do céu.
O sol morreu. Na cama
Aguarda-te o corpo falso de outro corpo
Que outrora desejaste.


Manuel Moya

(tradução de Rui Costa in Quarto com Ilhas)

os poetas fazem-me confusão

Os poetas fazem-me confusão. Sempre me fizeram confusão. Porque não dizem o que sentem de uma forma escorreita que todos possam compreender?

Se escrever é comunicar, porque escolhem uma escrita que torna tão difícil a comunicação? Porque escondem os seus sentimentos atrás de uma parede translúcida de palavras com sentidos que fogem pelo texto fora, sentidos que se escondem quando os procuramos, que escorregam das mãos quando os agarramos, que se tornam fluidos quando por fim os capturamos, ficando nas mãos com coisa nenhuma e na boca, com o travo de quem não chegou a saborear, mas apenas a adivinhar o sabor pelo aroma suave que fugazmente aflorou as narinas.

Ocorre-me pensar que os poetas não comunicam histórias ou enredos, factos ou realidades palpáveis, razões ou argumentos. Não, eles comunicam sensações, emoções, frémitos fugazes, olhares etéreos que só eles registam. Eles renunciaram à deusa Razão e à sua inseparável comadre Lógica. Eles tentam transmitir o intransmissível, eles tentam fazer sentir aos outros o que nem eles próprios têm a certeza de sentir. Não, não fingem: transformam a alusão de uma emoção na emoção que gostavam que tivesse existido, prendem no tempo um olhar demasiado breve sobre uma realidade que não teve tempo de se definir antes de deixar de existir. É o reino do indefinido, do que não chegou a ser, do que não se pode identificar, é a dimensão mais que humana, a dimensão que nem todos conhecem e que menos ainda querem conhecer. É um mundo irreal e inseguro, onde não nos conseguimos mover mas apenas assistir, não com os sentidos alerta, mas com a alma aberta à sedução, com a emoção desperta e pronta a reagir em instantes, sem seguir o antes e sem esperar o depois.

O poeta também cultiva as emoções em excesso: a dor a que ninguém resistiria ou a paixão que impediria qualquer um de dormir, comer ou sequer respirar. O poeta usa cores tão intensas que não foram inventadas. O poeta escreve melodias que o ouvido humano não capta. Mas é sempre o mesmo poeta que assiste imóvel, deixando a alma seduzir-se pelas emoções. Não é a outra face da mesma moeda. As moedas do poeta só têm uma face que pode ganhar muitas formas: difusas, suaves, intensas, marcadas.

Os poetas serão retratistas da alma? Antes da fotografia, havia o retrato. Saber que um retrato pode ser melhor que uma fotografia, teve que esperar pela invenção da fotografia. Teremos que esperar pela invenção da almografia para louvar os poetas? Tarefa ciclópica a deles, sem garantias de ser compreendida e sempre na dúvida quanto ao resultado. Como posso explicar a um cego a cor? Como posso transmitir a um surdo o prazer da música? Como pode um poeta despertar a alma que não sabemos que temos, evocar emoções que não sentimos, fazer-nos ver o que não chega a existir?


Zé do Teclado (texto encontrado [aqui])

criatividade

A mente criativa é, pela sua própria natureza, um pouco indisciplinada. Há uma tensão natural entre o autocontrolo ordeiro e o impulso criativo. Não quer isso dizer que as pessoas criativas sejam emocionalmente descontroladas, mas sim que estão abertas a um leque mais vasto de impulsos e de acção do que os espíritos menos aventureiros.


In Artes e Prática do Autêntico Management.

Os olhos cheios de vazio (exercício de escrita)

[Para o Tiago Nené, com simpatia]


Terminara já, mas continuava de pé, os olhos muito abertos, cheios de vazio, numa expressão que lhe era muito característica e que lhe dava, segundo alguns, ar de poeta. O juiz tossiu pela segunda vez e ele pareceu despertar, sentando-se bruscamente, não sem antes ter feito uma ligeira vénia na direcção daquele.

Poetas, exclamou para si mesmo o juiz, que era dado a filosofar. Razão tinha o Platão em não os querer na sua cidade, e lançou ao jovem advogado um olhar inquisidor. Como se chamava mesmo o livro que ele lhe vendera? Lá descaramento não lhe faltava. Mostrou-lhe o livro, passou-o para as suas mãos como se fosse oferecê-lo, e quando ele lhe pegou, eis que anunciou peremptoriamente o preço, como se a compra fosse um facto consumado.

Estava o jovem advogado absorto, os olhos muito abertos por detrás das lentes grossas e dos óculos pesados, cheios de vazio, como já se disse e se repete, com o seu ar de poeta; estava o juiz alheado, divagando; estava o réu, que só agora é referido, quase adormecido, bocejando de tédio.

Mas a narrativa tem de continuar, e a justiça, ainda que lenta, ainda que cega, há-de fazer-se, há-de ser feita, mas depois, que o juiz dá a audiência por encerrada, remetendo a justiça para a leitura da sentença, perante o silêncio do réu, que tanto queria dizer que nada conseguiu dizer afinal.

Como é que correu senhor doutor? Tenho hipóteses?

Já no corredor do tribunal, o jovem advogado, ainda absorto, olha para o réu mas não o vê, não o ouve, ou pelo menos é o que parece, e o réu insiste.

Senhor doutor, como é, tenho hipóteses?

Sim… Claro… Agora é preciso esperar pela sentença…

E calou-se.

O réu ainda abriu a boca para falar, mas o jovem advogado olhou-o de forma tão intensa que ele se calou, intimidado.

A verdade é que o jovem advogado não estava ali e o jovem poeta continuava cego, continuava à procura do poema que o surpreendera durante as alegações. Ainda não o conseguira ver com clareza, talvez nunca viesse mesmo a capturá-lo, mas qualquer distracção e de certeza que o perderia para sempre.

Era assim que sempre fazia. Primeiro, surpreendia o poema e era surpreendido por ele, só depois o escrevia e era escrito por ele. E nesses momentos o mundo exterior dificilmente chegava até ele, tão imerso estava no seu mundo interior. Isto pelo menos era o que ele dizia, que muitos achavam que ele era apenas distraído e se desculpava assim.

Mas por que é que alguém quer ser poeta?

Ninguém quer ser o que quer que seja, poeta ou outra coisa, simplesmente não se pode deixar de o ser.

O amigo riu-se.

Não te ponhas com esse teu ar sério de poeta que não me enganas. És poeta, não o duvido, mas não é por isso que a tua vontade de ser poeta diminuiu. Sempre quiseste muito ser poeta e ainda continua a ser assim. É esse teu desejo de ser poeta que te mantém poeta.

E olhou o amigo nos olhos, mas ele parecia ausente, os olhos muito abertos, cheios de vazio.

Na verdade, por que é que alguém quer ser poeta? Porque é que alguém escreve poemas e quer ser reconhecido como poeta? Estas perguntas faz o jovem poeta, mas não a si mesmo, são meras perguntas de retórica. Ele bem sabe que quer escrever poemas, que quer ser reconhecido como poeta. Que importam as razões, ainda que as pudesse facilmente encontrar?

Levantou-se e iniciou as suas alegações, os olhos muito abertos, cheios de vazio.

[Faro, 15 de Outubro de 2008]

isso não é nada

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Se tivéssemos força suficiente
para apertar correctamente um pedaço de madeira,
só nos ficaria entre as mãos
um pouco de terra.
E se tivéssemos ainda mais força
para pressionar com toda a dureza
essa terra, somente nos ficaria
entre as mãos um pouco de água.
E se fosse ainda possível
oprimir a água,
já nada mais nos ficaria nas mãos.


Ángel González

(tradução de Tiago Nené)

fado

Quando o homem-bomba encontrou a mulher-relógio, soube que tinha chegado a hora.

o misticismo à volta da figura de herberto helder





















Muito se tem falado de Herberto Helder nos últimos dias, pelo lançamento do seu último livro. Amado pelos críticos, olhado com desconfiança por outros...

Nem de propósito.
Acabo de receber este mail da Assírio:

Informa-se que o novo livro de Herberto Helder, A Faca Não Corta o Fogo – súmula e inédita, esgotou no armazém da editora e não será reeditado. Estão disponíveis, portanto, apenas os exemplares colocados nas livrarias.

Com os melhores cumprimentos,


[tn]

2ª Oficina de Escrita Texto-Al




















Casa da Cultura de Loulé - Junho de 2008

crime perfeito

Matou a mulher com uma martelada certeira na cabeça mas nunca foi condenado. Explicou no inquérito que falhara o prego que a mulher segurava para o ajudar.

[pois é, não existem crimes perfeitos, mas sim investigações imperfeitas]

anosa

Durante o cerco foram lançadas centenas de ratos em chamas. Felizmente, os dez gatos mijões da cidade primaram pela eficácia.

o coração que ri

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A tua vida é a tua vida
Não a deixes ser dividida em submissão fria.
Está atento
Há outros caminhos,
Há uma luz algures.
Pode não ser muita luz mas
vence a escuridão.
Está atento.
Os deuses oferecer-te-ão hipóteses.
Conhece-las.
Agarra-las.
Não podes vencer a morte mas
podes vencer a morte em vida, às vezes.
E quanto mais o aprendes a fazê-lo,
mais luz haverá.
A tua vida é a tua vida.
Memoriza-o enquanto a tens.
És magnífico.
Os deuses esperam por se deliciarem
em ti.


Charles Bukowski

(Tradução de Tiago Nené)

sugestão

da validação de um golo que não existiu













A bola bateu no poste, percorreu toda a linha de baliza, creio ter entrado um bocadinho.

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O guarda-redes ainda está a meio do seu voo, mal sabe ele que esta bola não vai entrar, como exigem as regras, totalmente na baliza que há cinco anos protege.

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Mas ainda é cedo, ainda é muito cedo, ainda a bola não bateu no poste e já o árbitro olha para o árbitro auxiliar.

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E repito: ainda é cedo para os árbitros se olharem mutuamente. Se o árbitro olha para o árbitro auxiliar não vê o lance, e mais: corre o risco de distrair, com o seu olhar, o árbitro auxiliar mais próximo do acontecimento.

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O guarda-redes enfim se lança. Tsubasamente está no ar, e os olhares dos dois árbitros - o auxiliar e o principal, o juiz da partida, lamentavelmente se cruzam. Nenhnum deles vê correctamente o lance, nenhum deles sabe se a bola transpôs, ou não, na totalidade a linha de golo.

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Perante os festejos/protestos da equipa que ataca, olham os dois para o árbitro-auxiliar-mais -distante, que os ignora e deixa sozinhos. Já o quarto árbitro, ocupado com uma substituição da equipa que naquele momento atacava e que agora reclama o golo, qual último cartucho de um técnico psicologicamente em vias de ser chicoteado, não se mete ou meteria num assunto tão delicado quanto este, nem para formar quórum em sede de deliberação entre todos.

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O árbitro e o árbitro-auxiliar-mais-próximo-do-lance vão ter de decidir e, de preferência, em segundos. Pedem aos jogadores de ambas as equipas para que se afastem. Passa mais tempo do que o previsto – um minuto, dois minutos (sem contar com as interrupções dos dois capitães). É tempo a mais. O público exaspera, e assim milhares de telespectadores que pela TV acompanham o jogo (escuso de revelar o que vi da repetição repetida ao extremo).

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O juiz da partida aponta para o centro do terreno. Nada mais importa. É golo.



Tiago Nené, inédito