alguns poemas de Tomas Tranströmer

.

NOVEMBRO


Quando o beleguim se aborrece, torna-se perigoso.

Em chamas, o céu encolhe-se.

Sinais sonoros ouvem-se de cela para cela

E o espaço emerge da terra gelada.

Algumas pedras brilham como luas cheias.


NEVE


Os funerais aproximam-se

Cada vez mais cerrados

Como sinais de trânsito

Quando nos aproximamos de alguma cidade

A vista de mil pessoas

Na terra das longas sombras

Uma ponte constrói-se

Vagarosamente

Sempre em frente no espaço


ASSINATURAS


Sou obrigado a atravessar

a soleira escura.

Uma sala.

O documento branco brilha

Com muitas Sombras que se mexem.

Todas o querem assinar

Até que a luz me conseguiu apanhar

E dobrou o tempo


O PENHASCO DA ÁGUIA


Por detrás do vidro do terrário

répteis

Estranhamente imóveis.

Uma mulher estende roupa

Em silêncio.

A morte é uma calmaria.

Pelo fundo da terra

A minha alma desliza

Silente como um cometa.



Tomas Tranströmer

(tradução de Luís Costa)




ao telefone

.
- estou
- está lá?
- sim?
- é do escritório do sotôr?
- é sim.
- e ele está?
- está sim
- e pode chamá-lo?
- é o próprio.
- como?
- é ele
- ele quem?
- o advogado
- qual advogado?
- o sotôr, com quem deseja falar
- como sabe com quem desejo falar?
- o senhor deseja falar comigo, perguntou por mim.
- e a secretária?
- não existe secretária neste escritório, só secretário.
- e onde está o secretário?
- o secretário hoje não pôde vir.
- e o advogado é que atende o telefone?
- sim, por que não haveria de atender?
- é estranho não haver quem me passe ao advogado, desconfio de advogados que atendem o telefone. Provavelmente têm pouco trabalho. Se têm pouco trabalho são incompetentes. Se são incompetentes não servem.

[a chamada foi interrompida]




[tn]

Hoje há reunião!


hoje há

texto-al!

21.30

no Club Farense

os prazeres da leitura

.

No seu leito de moribundo o meu pai lê

As memórias de Casanova.

Eu vejo a noite cair,

Algumas janelas que se iluminam na rua.

Numa delas uma jovem lê

Junto ao vidro.

Há muito tempo que não ergue os olhos,

Mesmo com a escuridão a chegar.

Enquanto ainda há um resto de luz,

Desejo que ela levante a cabeça,

E eu consiga ver-lhe a cara

Que já consigo imaginar,

Mas o livro deve ser intrigante.

Além disso, que silêncio,

Cada vez que volta uma página,

Consigo ouvir o meu pai, que também volta uma,

Como se eles lessem o mesmo livro.



Charles Simic

PREVISÃO DE TEMPO

PARA UTOPIA E ARREDORES

selecção e tradução de

José Alberto Oliveira

Assírio & Alvim

enfrentando a música

.

















Azul. E nesse azul uma sensação

de verde, as cinzentas calotas de nuvens

amparadas contra o ar, como se

na ideia da chuva

o olhar

pudesse domar a fala

de um dado momento


na terra. Chamem-lhe o céu. E assim

descrever

o que quer

que vemos, como se nada mais fosse

que a ideia

de algo que tínhamos perdido

cá dentro. Podemos começar, pois,

a recordar


a terra dura, as estrelas

dardejantes de sílex, os undíferos

carvalhos, soltos

pelo resfolegar do vento, e assim até

à mais ínfima semente, descobrindo

o que sobre nós cresce, como se

por causa deste azul pudesse haver

este verde


que alastra, nisto inumerável

e milagroso, o mais silente

momento do verão. Sementes

falam deste ciclo, definem

o lugar onde o ar e a terra irrompem

nesta profusão de acaso, as aleatórias

forças da nossa falta de conhecimento

acerca daquilo

que vemos, e meramente falar disso

é ver

como as palavras nos falham, como nada sai bem

no dizer disso, nem sequer estas palavras

que sou levado a dizer

em nome deste azul

e deste verde

que se dissipam

no ar do verão.


Impossível

Continuar a ouvi-lo por mais tempo. A língua

para sempre nos aparta

de onde estamos, e em parte alguma

podemos repousar

nas coisas que nos são dadas

a ver, pois cada palavra

é outra parte qualquer, algo que se move

mais depressa que o olhar, mesmo

enquanto se desloca este pardal,

voluteando rumo ao ar

onde não tem lar algum. Não acredito, então,

em nada


do que te possam dar estas palavras,

e contudo ainda posso senti-las

a falar através de mim, como seja

isto somente

o que desejo, este azul

e este verde, e dizer

como este azul

se tornou para mim na essência

deste verde, e mais do que a pura

visão disso, quero que sintas

esta palavra

que o dia inteiro viveu

dentro de mim, este

desejo de nada


que não o dia em si mesmo, e o modo como cresceu

dentro dos meus olhos, mais forte

do que a palavra de que é feito,

como se jamais

outra palavra


me pudesse amparar

sem se quebrar.


Paul Auster

(in Poemas Escolhidos . tradução de Rui Lage - Quasi)

o círculo temporário


















I.

Na cidade não se falava de amor

mas eu amava

e resistia à cidade

porque falava de amor.


II.

Uns viviam em ruas com nome

de escultor,

outros viviam em ruas com nome

de pintor,

muito poucos viviam em ruas com nome

de gente.


III.

Na cidade tudo era circular:

terminava no mesmo ponto

em que começava.

Redondos, inúteis,

sobrevivíamos

como as montanha lá ao fundo.


Filipa Leal, in A cidade líquida e outras texturas (deriva)

contra a manhã burra

.




















Por pouco não conseguia o meu exemplar do brilhante livro de estreia de Miguel-Manso (edição de autor) Contra a Manhã Burra, visto ter esgotado pouco depois (a primeira edição, claro está). Agradeço à minha amiga Marta da Assírio, o especial favor de mo ter enviado.


Eis um dos poemas:


BOTÂNICA


Backster decidiu utilizar um detector
de mentiras para medir a velocidade com que
a água sobe da raiz de um filodendro
até às folhas

apercebeu-se então que
o desenho era em tudo semelhante
ao que acontece quando se submete o mesmo
aparelho a uma pessoa

e
mais espantoso ainda
verificou serem as plantas capazes de
adivinhar o pensamento humano
pois só assim se explica a dramática
subida do nível gráfico

apenas por ter passado pela cabeça
de Backster a hipótese de queimar
uma das folhas

entende-se melhor agora a insistência
de alguns botânicos na necessidade de se dar
mais atenção aos letreiros

«É favor não pisar a relva»



Miguel-Manso

in Contra a Manhã Burra
Edição do Autor
Maio de 2008


[tn]