
bem-vinda ao mundo e ao texto-al!
toma conta do teu pai e porta-te bem à terça-feira ;)

Cada poeta é ele próprio e por isso
tão iguais e tão diferentes
são os poetas.
Uns amam de longe os poemas,
como se os temessem;
outros beijam-nos na boca,
mas não os amam;
e outros ainda, nos poemas
apenas se amam a si mesmos.
Os poemas, por outro lado,
são como os espíritos:
existem no mundo,
mas não lhe pertencem;
e muito menos aos poetas
que os dizem seus.
Em vez de dizer
este poema é meu,
melhor seria dizer
A mana e eu:
Olha, olha!
O quê?
O Rafael Camarasa lançou um novo livro!
Onde?
Em Espanha!
Sim...mas onde viste isso?
No blogue dele!
E de facto era verdade, um dos nossos autores preferidos, o valenciano Rafael Camarasa voltou a editar um livro, desta feita Feos, uma compilação de micronarrativas.
Armado em editor cibernético, traduzi um dos microrelatos que compõem o livro. Dedico ao Luís Ene, aquele que é, para mim, o melhor da especialidade em Portugal.
A MEIO
O meu tio tinha um olho de vidro. Pelo final do ano, aquando das celebrações, eu me questionava se apenas veria a família pela metade, uma parte do peru, meia televisão e uma das mamas de sua mulher, grandes como globos terrestres. No seu velório, e apesar dos meus dez anos, a minha mãe obrigou-me a beijar o cadáver. Tinha o olho de vidro fechado, e o outro, em consonância com o que havia sido a sua vida, levemente aberto.
Durante muito tempo, quando no silêncio da noite ouvia um barulho, sempre imaginara o meu tio deambulando semi-vivo pela casa. Porque no momento da morte, de acordo com a minha lógica irretorquível, não vi mais do que a sua metade.
Rafael Camarasa
(A tradução é minha, e eu sou o Tiago Nené, ok?)
PS: para mais material de Rafael Camarasa pernoitar na Casa dos Poetas.
Algures, um coração ardente, um homem que escreve,
um rosto imóvel, apesar,
no silêncio abnegado, denso e radical.
E mergulho nesse dizer aparente, amplo e subjectivo,
erguendo lírios, teias rarefeitas,
loucos interstícios, pelo magma luminoso,
onde o ouro inacessível se propaga,
pelos pórticos de melancolia,
o tempo desconexo percorrendo o caminho das esfinges,
a terra febril,
dizendo as aves, o orvalho e as feridas inteiras,
como violinos,
na extensão dos seus arcos, das suas células secretas,
erguendo o cristal prospectivo,
a chuva, o turbilhão,
caminhos de mel, meteoros de água.
Poema Os violinos de Dvorák, do livro inédito Idades Sonâmbulas
Nem sequer tinha um abre-latas de vinte e cinco cêntimos
Raymond Chandler
Não é como anunciam nos folhetos,
As traves dificilmente se apoiam no muro,
As janelas estão de rastos.
No mar, com uns copos, não é tão tola.
Caminhas como um vazio pelas ruas
E o sol que te segue desde o céu
Já não é mais que a pupila de uma pomba
Brilhando no telhado.
Mas dobras as últimas esquinas.
Parece esta a tua casa,
O lugar onde ancoras e governas
A hemorragia que é viver
Com um morto colado ao passaporte.
Passas a porta e já as traves
Te assinalam um ponto além do céu.
O sol morreu. Na cama
Aguarda-te o corpo falso de outro corpo
Que outrora desejaste.
Manuel Moya
(tradução de Rui Costa in Quarto com Ilhas)
Os poetas fazem-me confusão. Sempre me fizeram confusão. Porque não dizem o que sentem de uma forma escorreita que todos possam compreender?
Se escrever é comunicar, porque escolhem uma escrita que torna tão difícil a comunicação? Porque escondem os seus sentimentos atrás de uma parede translúcida de palavras com sentidos que fogem pelo texto fora, sentidos que se escondem quando os procuramos, que escorregam das mãos quando os agarramos, que se tornam fluidos quando por fim os capturamos, ficando nas mãos com coisa nenhuma e na boca, com o travo de quem não chegou a saborear, mas apenas a adivinhar o sabor pelo aroma suave que fugazmente aflorou as narinas.
Ocorre-me pensar que os poetas não comunicam histórias ou enredos, factos ou realidades palpáveis, razões ou argumentos. Não, eles comunicam sensações, emoções, frémitos fugazes, olhares etéreos que só eles registam. Eles renunciaram à deusa Razão e à sua inseparável comadre Lógica. Eles tentam transmitir o intransmissível, eles tentam fazer sentir aos outros o que nem eles próprios têm a certeza de sentir. Não, não fingem: transformam a alusão de uma emoção na emoção que gostavam que tivesse existido, prendem no tempo um olhar demasiado breve sobre uma realidade que não teve tempo de se definir antes de deixar de existir. É o reino do indefinido, do que não chegou a ser, do que não se pode identificar, é a dimensão mais que humana, a dimensão que nem todos conhecem e que menos ainda querem conhecer. É um mundo irreal e inseguro, onde não nos conseguimos mover mas apenas assistir, não com os sentidos alerta, mas com a alma aberta à sedução, com a emoção desperta e pronta a reagir em instantes, sem seguir o antes e sem esperar o depois.
O poeta também cultiva as emoções em excesso: a dor a que ninguém resistiria ou a paixão que impediria qualquer um de dormir, comer ou sequer respirar. O poeta usa cores tão intensas que não foram inventadas. O poeta escreve melodias que o ouvido humano não capta. Mas é sempre o mesmo poeta que assiste imóvel, deixando a alma seduzir-se pelas emoções. Não é a outra face da mesma moeda. As moedas do poeta só têm uma face que pode ganhar muitas formas: difusas, suaves, intensas, marcadas.
Os poetas serão retratistas da alma? Antes da fotografia, havia o retrato. Saber que um retrato pode ser melhor que uma fotografia, teve que esperar pela invenção da fotografia. Teremos que esperar pela invenção da almografia para louvar os poetas? Tarefa ciclópica a deles, sem garantias de ser compreendida e sempre na dúvida quanto ao resultado. Como posso explicar a um cego a cor? Como posso transmitir a um surdo o prazer da música? Como pode um poeta despertar a alma que não sabemos que temos, evocar emoções que não sentimos, fazer-nos ver o que não chega a existir?
Zé do Teclado (texto encontrado [aqui])
A mente criativa é, pela sua própria natureza, um pouco indisciplinada. Há uma
In Artes e Prática do Autêntico Management.
[Para o Tiago Nené, com simpatia]
Terminara já, mas continuava de pé, os olhos muito abertos, cheios de vazio, numa expressão que lhe era muito característica e que lhe dava, segundo alguns, ar de poeta. O juiz tossiu pela segunda vez e ele pareceu despertar, sentando-se bruscamente, não sem antes ter feito uma ligeira vénia na direcção daquele.
Poetas, exclamou para si mesmo o juiz, que era dado a filosofar. Razão tinha o Platão em não os querer na sua cidade, e lançou ao jovem advogado um olhar inquisidor. Como se chamava mesmo o livro que ele lhe vendera? Lá descaramento não lhe faltava. Mostrou-lhe o livro, passou-o para as suas mãos como se fosse oferecê-lo, e quando ele lhe pegou, eis que anunciou peremptoriamente o preço, como se a compra fosse um facto consumado.
Estava o jovem advogado absorto, os olhos muito abertos por detrás das lentes grossas e dos óculos pesados, cheios de vazio, como já se disse e se repete, com o seu ar de poeta; estava o juiz alheado, divagando; estava o réu, que só agora é referido, quase adormecido, bocejando de tédio.
Mas a narrativa tem de continuar, e a justiça, ainda que lenta, ainda que cega, há-de fazer-se, há-de ser feita, mas depois, que o juiz dá a audiência por encerrada, remetendo a justiça para a leitura da sentença, perante o silêncio do réu, que tanto queria dizer que nada conseguiu dizer afinal.
Como é que correu senhor doutor? Tenho hipóteses?
Já no corredor do tribunal, o jovem advogado, ainda absorto, olha para o réu mas não o vê, não o ouve, ou pelo menos é o que parece, e o réu insiste.
Senhor doutor, como é, tenho hipóteses?
Sim… Claro… Agora é preciso esperar pela sentença…
E calou-se.
O réu ainda abriu a boca para falar, mas o jovem advogado olhou-o de forma tão intensa que ele se calou, intimidado.
A verdade é que o jovem advogado não estava ali e o jovem poeta continuava cego, continuava à procura do poema que o surpreendera durante as alegações. Ainda não o conseguira ver com clareza, talvez nunca viesse mesmo a capturá-lo, mas qualquer distracção e de certeza que o perderia para sempre.
Era assim que sempre fazia. Primeiro, surpreendia o poema e era surpreendido por ele, só depois o escrevia e era escrito por ele. E nesses momentos o mundo exterior dificilmente chegava até ele, tão imerso estava no seu mundo interior. Isto pelo menos era o que ele dizia, que muitos achavam que ele era apenas distraído e se desculpava assim.
Mas por que é que alguém quer ser poeta?
Ninguém quer ser o que quer que seja, poeta ou outra coisa, simplesmente não se pode deixar de o ser.
O amigo riu-se.
Não te ponhas com esse teu ar sério de poeta que não me enganas. És poeta, não o duvido, mas não é por isso que a tua vontade de ser poeta diminuiu. Sempre quiseste muito ser poeta e ainda continua a ser assim. É esse teu desejo de ser poeta que te mantém poeta.
E olhou o amigo nos olhos, mas ele parecia ausente, os olhos muito abertos, cheios de vazio.
Na verdade, por que é que alguém quer ser poeta? Porque é que alguém escreve poemas e quer ser reconhecido como poeta? Estas perguntas faz o jovem poeta, mas não a si mesmo, são meras perguntas de retórica. Ele bem sabe que quer escrever poemas, que quer ser reconhecido como poeta. Que importam as razões, ainda que as pudesse facilmente encontrar?
Levantou-se e iniciou as suas alegações, os olhos muito abertos, cheios de vazio.
[Faro, 15 de Outubro de 2008]