Um poema de Celia Léon


















Nos últimos dias, e para além da tradução que estou a ultimar de Agencia del miedo, obra de Santiago Aguaded Landero, vencedora do Prémio Internacional Palavra Ibérica '09, e da preparação das apresentações na livraria Trama, onde vou estar no dia 30 com Vítor Cardeira e Luís Filipe Cristóvão, tenho-me deixado fascinar pela excelentíssima poeta Celia Léon. Deixo uma tradução de um dos seus poemas.


Ontem à noite sonhei que paria cachorros


Ontem à noite sonhei que paria cachorros,
Cachorros teus que vendia em auto-estradas desertas.
Paria sem ventre sem estômago cheio de caprichos benzidos.
Sem maçãs vomitadas à meia-noite.
Paria cães húmidos que limpava com os teus panos sujos,
Toalhas rotas de hotéis onde nunca estivemos.
Despertei com a tua ausência tão mal sintonizada como sempre,
Como sempre repleta de café morno queimando os meus sonhos.
E fria a noite, húmida a almofada.
Não descias a mim para me abraçar,
Caminhavas com pedras nas botas,
Com a gravata atada pela cintura.
Com pulsações prenhes de areia molhada
destruías o nosso rasto.
Ladra a tua voz de novo nos espelhos, hoje.

Celia Léon
(tradução do minúsculo poeta Tiago Nené)

U2 - Get on your boots

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Future needs a big kiss winds blow with a twist never seen a move like this can you see it too night is falling everywhere rockets hit the funfair satan loves a bomb scare but it won't scare you hey sexy boots get on your boots yeah...

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Myspace e a banda The Mystery Artist

Desde que aderi ao Myspace, tenho encontrado coisas incríveis. Neste momento oiço os The Mistery Artist banda do Porto, liderada por Miguel Lopo. Achei que seria boa ideia partilhar.

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Da Raiva

Uma coisa que me irrita é entrar num site, qualquer que ele seja, e de imediato começar a ouvir música. Viajando um pouco pela blogosfera e por alguns perfis de redes sociais tive algumas experiências destas. Será uma questão de tacto? Uma questão de educação? Uma questão de mero desconhecimento? Tenho a certeza que alguém me chamará mesquinho quando ler isto. Ou então dirá que sou o único a quem isto irrita. Mas serei mesmo?


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The Killers - Human



cut the cord are we human or are we dancer my sign is vital my hands are cold and I'm on my knees looking for the answer are we human or are we dancer

[tn]

[há pessoas assim]

há pessoas assim

acreditam no trabalho assalariado e no consumo
desenfreado
exercem a democracia da mesma forma
que jogam na lotaria
desprezam os outros tanto quanto
se amam a si próprias
defendem a guerra mas
apenas a favor da paz
citam amiúde livros
que nunca leram
sabem tudo sobre todas
as coisas

há pessoas assim
muitas pessoas assim

mas nunca uma vez que fosse
uma pessoa assim

e isso deve ter
algum significado

escreveu um bom poema

Sexta-feira de Lua



















sexta-feira de lua

13 ou não, tanto faz.

acertaram um tórax

a ferro e fogo e completa falta de yin-yang

com um golpe turn off super man marlon brando

certeiro.

o que estava em volta do tórax

caiu como gelatina no meio da rua, basicamente osso e carne de quinta-feira ainda vivo.

uma gargalhada iluminava o beco distante

fazendo com que os ouvidos do assassino se voltassem para o eco,

seu rosto virava tal qual coruja precisa.

180 graus de fúria na cabeça, culpa nas costas e aquelas botas invocaram passos firmes na direção do voyeur que se atreveu.

a arma brilhava entre os dedos, mas o medo pingava da barba, escorria pelo pescoço.

na entrada do beco os passos cessaram, a tensão acumulada murchava. coração sem sangue.

maxilar travado, alívio, angústia...não havia ninguém.

primeiro caiu a arma, depois o assassino.

ele levava as mãos trêmulas à nuca, proximidade entre cabeça e chão.

após o ato criminoso não percebeu o som inconsciente do triunfo. não percebeu o quanto era mau, por só carregar sorrisos depois de mortes. a gargalhada era dele.

loucura e salvação nas lágrimas que molham a camisa.

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Camila Vardarac

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imagem: Alberto Vázquez

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Um Bom Natal



Aurora Goddess sparkle A mountain shade Suggests your shape I tumbled down
On my knees Fill the mouth With snow The way it melts I wish To melt Into you
Aurora Utter mundane Spark the sun off Spark the sun off Spark the sun off
Spark the sun off me

Bjork

The Last Shadow Puppets - My Mistakes Were Made For You




and it's the fame that put words in her mouth, she couldn't help but spit them out, around your guilty conscience she will wind, and it's a lot to ask her not to sting, and give her less than everything, innocence and arrogance intwined.

[tn]

Cocktail Bukowski - um poema de Tiago Nené

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Naquele dia

Vestira o meu corpo

Sem a alma,

Vestira o meu corpo

Sem a alegria,

Lavei os dentes

E esqueci do sorriso no lavatório,

Lavei as mãos

E deixei o tacto na toalha;

Nesse dia

Após o trabalho fui dormir,

Deitei o corpo

E reecontrei a alma.

No dia seguinte

Vesti a alma

E deixei metade do corpo esquecido

E a memória no secador de cabelo...

E algo inesquecível de que não me lembro aconteceu:

Porque hoje tenho a alma mutilada

E nem o corpo tenho.

.

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Tiago Nené

in Revista Big Ode #5

Os amantes inadequados - um poema de Eva Vaz




















Os meus amantes nunca

foram belos,

magros, de veias grossas,

esculpidos em osso,

dramáticos, ternamente trágicos

até ao sorriso.

Os meus amantes eram difíceis,

resistiam de modo selvagem

para logo se entregarem,

resignados e impossíveis,

com a altivez domesticada,

a cabeça em baixo

olhando o meu sexo,

destruídos pelo desejo

mais poderoso que o espírito.

Tristes.

Nenhum conquistou

os meus demónios,

abriu as minha folhagem débil

e entrou

para não sair.

Nenhum me fez fanática

do seu sexo,

me desviou a luxúria

para o centro da sua boca,

concentrou a surpresa

nos seus passos arrastados,

o prazer, no som

da sua voz categórica,

na gravidez dos seus olhos.

Nenhum me fez habituar-me aos seus costumes,

me criou a necessidade de o necessitar,

e por fim se ofereceu a ministrar-me

a dose de si mesmo que

me faria depender-lhe, nem

tampouco me instalou

um tumor benigno

no útero.

E agora tudo é diferente,

tudo é diferente.

E já não estou

Só.

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Eva Vaz

(a tradução/versão é de Tiago Nené)