
Nos últimos dias, e para além da tradução que estou a ultimar de Agencia del miedo, obra de Santiago Aguaded Landero, vencedora do Prémio Internacional Palavra Ibérica '09, e da preparação das apresentações na livraria Trama, onde vou estar no dia 30 com Vítor Cardeira e Luís Filipe Cristóvão, tenho-me deixado fascinar pela excelentíssima poeta Celia Léon. Deixo uma tradução de um dos seus poemas.
Ontem à noite sonhei que paria cachorros,
Cachorros teus que vendia em auto-estradas desertas.
Paria sem ventre sem estômago cheio de caprichos benzidos.
Sem maçãs vomitadas à meia-noite.
Paria cães húmidos que limpava com os teus panos sujos,
Toalhas rotas de hotéis onde nunca estivemos.
Despertei com a tua ausência tão mal sintonizada como sempre,
Como sempre repleta de café morno queimando os meus sonhos.
E fria a noite, húmida a almofada.
Não descias a mim para me abraçar,
Caminhavas com pedras nas botas,
Com a gravata atada pela cintura.
Com pulsações prenhes de areia molhada
destruías o nosso rasto.
Ladra a tua voz de novo nos espelhos, hoje.
Celia Léon
(tradução do minúsculo poeta Tiago Nené)



