Cocktail Bukowski - um poema de Tiago Nené

.

Naquele dia

Vestira o meu corpo

Sem a alma,

Vestira o meu corpo

Sem a alegria,

Lavei os dentes

E esqueci do sorriso no lavatório,

Lavei as mãos

E deixei o tacto na toalha;

Nesse dia

Após o trabalho fui dormir,

Deitei o corpo

E reecontrei a alma.

No dia seguinte

Vesti a alma

E deixei metade do corpo esquecido

E a memória no secador de cabelo...

E algo inesquecível de que não me lembro aconteceu:

Porque hoje tenho a alma mutilada

E nem o corpo tenho.

.

.

Tiago Nené

in Revista Big Ode #5

Os amantes inadequados - um poema de Eva Vaz




















Os meus amantes nunca

foram belos,

magros, de veias grossas,

esculpidos em osso,

dramáticos, ternamente trágicos

até ao sorriso.

Os meus amantes eram difíceis,

resistiam de modo selvagem

para logo se entregarem,

resignados e impossíveis,

com a altivez domesticada,

a cabeça em baixo

olhando o meu sexo,

destruídos pelo desejo

mais poderoso que o espírito.

Tristes.

Nenhum conquistou

os meus demónios,

abriu as minha folhagem débil

e entrou

para não sair.

Nenhum me fez fanática

do seu sexo,

me desviou a luxúria

para o centro da sua boca,

concentrou a surpresa

nos seus passos arrastados,

o prazer, no som

da sua voz categórica,

na gravidez dos seus olhos.

Nenhum me fez habituar-me aos seus costumes,

me criou a necessidade de o necessitar,

e por fim se ofereceu a ministrar-me

a dose de si mesmo que

me faria depender-lhe, nem

tampouco me instalou

um tumor benigno

no útero.

E agora tudo é diferente,

tudo é diferente.

E já não estou

Só.

.

Eva Vaz

(a tradução/versão é de Tiago Nené)

Polarkreis 18 - Allein Allein




he's living in a universe a heart away inside of him
there's no one else just a heart away
the time will come to be blessed
a heart away to celebrate his loneliness
wir sind allein allein allein
allein allein allein allein allein allein


[tn]

Filipa,




bem-vinda ao mundo e ao texto-al!
toma conta do teu pai e porta-te bem à terça-feira ;)

Recomenda-se

Weltliteratur. Madrid, Paris, Berlim, São Petersburgo, o Mundo!



Com o comissariado de António M. Feijó e a concepção dos arquitectos Francisco e Manuel Aires Mateus, esta exposição aglomera textos literários, documentos e obras de arte apresentados em 11 salas autónomas que mostram a literatura e os autores da geração de Fernando Pessoa.

Até 04 Jan. 2009
Das 10h00 às 18h00, de Terça a Domingo
Galeria de Exposições Temporárias da Fundação Calouste Gulbenkian

Sugerimos as visitas guiadas e as conferências.

últimas palavras



Não escreverei nem mais uma linha, desta vez é mesmo a sério, não voltarei atrás, escreveu ele, mas já ia na segunda linha, a caminho da terceira.

uma tarde no campo



Olho as galinhas
depenicando
presas ao chão
ignorantes do céu
e da beleza do mundo

Como são estúpidas!
digo para mim mesmo
Têm asas mas não querem voar

E só então vejo
como se parecem
connosco.

Talvez eu pudesse escrever um poema (um poema de Tiago Nené)














À Ana Salomé, com uma pergunta: haverá um coração neste poema?


Talvez eu pudesse escrever um poema
se este rio não fosse efémero
e a humidade não fosse tão conivente com a água
e o seu curso com o tempo
e a sua temperatura não estivesse exilada
na ceia de um urso polar
lá longe onde a imaginação não chega.
Sim talvez eu escrevesse um poema
mas não este
este é um poema de água doce
e de peixes cor-de-laranja
serpeando para entrarem no umbigo
de uma saudade do tamanho
de todo o espaço – o aquário ou o oceano –
disponível para viver.
O poema que talvez escrevesse
não pode ser a água dos peixes
nem o ar entre quatro paredes
que me fazem prisioneiro.

Tiago Nené

[nunca sei que título dar aos poemas]


Cada poeta é ele próprio e por isso

tão iguais e tão diferentes

são os poetas.

Uns amam de longe os poemas,

como se os temessem;

outros beijam-nos na boca,

mas não os amam;

e outros ainda, nos poemas

apenas se amam a si mesmos.

Os poemas, por outro lado,

são como os espíritos:

existem no mundo,

mas não lhe pertencem;

e muito menos aos poetas

que os dizem seus.

Em vez de dizer

este poema é meu,

melhor seria dizer

este poema sou eu.

em silêncio



para dizer

que o céu é azul

que os corpos se movem no espaço

que doce é a tua boca

e amargo o teu desprezo


para dizer tudo isto

bastam-me os sentidos


as palavras

não dizem o mundo


dizem o desejo

de dizer o mundo

Uma micronarrativa do espanhol Rafael Camarasa

A mana e eu:


Olha, olha!

O quê?

O Rafael Camarasa lançou um novo livro!

Onde?

Em Espanha!

Sim...mas onde viste isso?

No blogue dele!



E de facto era verdade, um dos nossos autores preferidos, o valenciano Rafael Camarasa voltou a editar um livro, desta feita Feos, uma compilação de micronarrativas.

Armado em editor cibernético, traduzi um dos microrelatos que compõem o livro. Dedico ao Luís Ene, aquele que é, para mim, o melhor da especialidade em Portugal.


A MEIO


O meu tio tinha um olho de vidro. Pelo final do ano, aquando das celebrações, eu me questionava se apenas veria a família pela metade, uma parte do peru, meia televisão e uma das mamas de sua mulher, grandes como globos terrestres. No seu velório, e apesar dos meus dez anos, a minha mãe obrigou-me a beijar o cadáver. Tinha o olho de vidro fechado, e o outro, em consonância com o que havia sido a sua vida, levemente aberto.

Durante muito tempo, quando no silêncio da noite ouvia um barulho, sempre imaginara o meu tio deambulando semi-vivo pela casa. Porque no momento da morte, de acordo com a minha lógica irretorquível, não vi mais do que a sua metade.



Rafael Camarasa

(A tradução é minha, e eu sou o Tiago Nené, ok?)


PS: para mais material de Rafael Camarasa pernoitar na Casa dos Poetas.



O final de uma novela à portuguesa sobre edição de livros

Com alguma tristeza e revolta assisti às trapalhadas (com insultos à mistura) em redor do lançamento do livro da Ana Salomé, envolvendo também a nossa amiga Joana Serrado.

Gostei de ver as palavras da Salomé, tomando posição sobre o assunto, comprovando a excelente ideia que dela tenho.

De certeza que da próxima vez encontrará um canto mais claro.
Ela e, esperamos, todos os outros autores.


[tn]

Rui Almeida vence Prémio Literário Manuel Alegre

O nosso amigo Rui Almeida foi o vencedor da primeira edição do Prémio Manuel Alegre. A notícia completa está no Porosidade Etérea e a entrevista exclusiva com o autor na Casa dos Poetas.

Perfect day


Abriu o frigorífico e, à primeira vista, deu de caras com o que imaginara encontrar: vazio. Mas olhando melhor descobriu na prateleira de cima uma perna de galinha de frescura duvidosa. Pegou nela, olhou-a, cheirou-a e concluiu que podia ser utilizada. Cozida e depois desfiada, pensou.

É claro que podia não fazer nada para comer, mal a conhecia, mas a verdade é que estava com fome, e também se havia algo que gostava de fazer era cozinhar. Abriu as diversas portas do armário da cozinha mas só encontrou uma garrafa de azeite, de primeira qualidade, mas quase vazia.

Azeite e uma perna de galinha, disse para si mesmo, é um bom princípio, e riu, e continuou a rir. Lembrara-se daquela anedota ouvida num filme americano qualquer: O que são 200 advogados (ou seriam mais?) no fundo do mar? Um bom princípio.

Dentro de dez ou quinze minutos, talvez um pouco mais, ela ia chegar. Era só o tempo de encontrar um café aberto, comprar cigarros e voltar.

Em cima da mesa da cozinha, num saco de plástico aberto, descobriu um bom bocado de pão caseiro, duro mas ainda em boas condições para ser escaldado. E um bocado de queijo da ilhas com uns bons cem gramas.

Foi à varanda e trouxe algumas folhas de hortelã, colhidas do que restava da sua horta essencial.
Dispôs todos os ingredientes à sua frente, a perna de galinha, o azeite, o pão, o queijo, as folhas de hortelã, e decidiu-se. Pegou numa panela pequena, encheu-a até metade com água quente e colocou-a no fogão, em lume alto. Deitou dentro da panela um pouco de flor de sal, na verdade tudo o que tinha, e a perna de galinha. Cortou o pão e o queijo às fatias, o pão em fatias grossas e o queijo em fatias o mais finas possíveis e foi até à despensa buscar o vinho.

Tinha sempre uma garrafa, na verdade quase sempre duas, pois se tivesse só uma não a bebia, a não ser que fosse uma emergência, o que era o caso. Não que ele não conseguisse levá-la para a cama, mas não queria saltar aquela etapa, apetecia-lhe ir para a cama com ela, e iria, mas apetecia-lhe também um bom jantar, um bom vinho, uma boa conversa.

Abriu o vinho, despejou um pouco no copo, pousou-o em cima do balcão e ficou a olhá-lo, a desejá-lo. Tudo tinha o seu tempo e se havia algo que ele gostava era de esperar.

Apagou o lume, acendeu o forno, tirou a perna de galinha e passou-a por água fria, desfiando-a de seguida sem deixar de protestar. Estava quente, muito quente, porra! Num recipiente de ir ao forno (como raio se chamava aquilo!), foi alternando fatias de pão com a carne desfiada e algumas folhinhas de hortelã, guardando as mais bonitas para enfeitar no fim. Depois coou o caldo de cozer a perna de galinha, deixou-o começar a ferver de novo, juntou o azeite e deitou por cima de tudo. No fim espalhou o queijo e levou ao forno, bem forte, até que alourasse.

Agarrou o copo de vinho, levantou-a à altura dos seus olhos, desceu-o até perto do seu nariz, cheirou-o e, quando se preparava para o beber, a campainha tocou. Olhou na direcção da porta, deu um pequeno gole, e decidiu-se. Ia chamar-lhe sopa de galinha dos dias de crise. E riu. E continuou a rir.

goldfrapp: clowns


Senti qualquer coisa quando ouvi isto...




[tn]

Fernando Dinis vence prémio literário fnac/teorema

Fernando Dinis, uma espécie de sócio honorário do texto-al, grupo literário do algarve, foi o grande vencedor da edição de 2008 do Prémio Literário Fnac/Teorema com o romance A casa do Esquecimento. O Júri do Prémio foi composto por Carlos da Veiga Ferreira (Editorial Teorema), Rui Zink (Escritor) e Dóris Graça Dias (Crítica Literária). A obra sairá, segundo cremos, em dezembro e é o segundo livro do autor, depois de Dá-me-te (Huguin Editores).

Aproveitamos também para desejar um bom aniversário, que de certeza que está a ser, ao autor.

O texto-al

The Obama Song



Apesar de não votarmos penso que é importante reflectir sobre o assunto.