Sexta-feira de Lua



















sexta-feira de lua

13 ou não, tanto faz.

acertaram um tórax

a ferro e fogo e completa falta de yin-yang

com um golpe turn off super man marlon brando

certeiro.

o que estava em volta do tórax

caiu como gelatina no meio da rua, basicamente osso e carne de quinta-feira ainda vivo.

uma gargalhada iluminava o beco distante

fazendo com que os ouvidos do assassino se voltassem para o eco,

seu rosto virava tal qual coruja precisa.

180 graus de fúria na cabeça, culpa nas costas e aquelas botas invocaram passos firmes na direção do voyeur que se atreveu.

a arma brilhava entre os dedos, mas o medo pingava da barba, escorria pelo pescoço.

na entrada do beco os passos cessaram, a tensão acumulada murchava. coração sem sangue.

maxilar travado, alívio, angústia...não havia ninguém.

primeiro caiu a arma, depois o assassino.

ele levava as mãos trêmulas à nuca, proximidade entre cabeça e chão.

após o ato criminoso não percebeu o som inconsciente do triunfo. não percebeu o quanto era mau, por só carregar sorrisos depois de mortes. a gargalhada era dele.

loucura e salvação nas lágrimas que molham a camisa.

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Camila Vardarac

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imagem: Alberto Vázquez

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[tn]


Um Bom Natal



Aurora Goddess sparkle A mountain shade Suggests your shape I tumbled down
On my knees Fill the mouth With snow The way it melts I wish To melt Into you
Aurora Utter mundane Spark the sun off Spark the sun off Spark the sun off
Spark the sun off me

Bjork

The Last Shadow Puppets - My Mistakes Were Made For You




and it's the fame that put words in her mouth, she couldn't help but spit them out, around your guilty conscience she will wind, and it's a lot to ask her not to sting, and give her less than everything, innocence and arrogance intwined.

[tn]

Cocktail Bukowski - um poema de Tiago Nené

.

Naquele dia

Vestira o meu corpo

Sem a alma,

Vestira o meu corpo

Sem a alegria,

Lavei os dentes

E esqueci do sorriso no lavatório,

Lavei as mãos

E deixei o tacto na toalha;

Nesse dia

Após o trabalho fui dormir,

Deitei o corpo

E reecontrei a alma.

No dia seguinte

Vesti a alma

E deixei metade do corpo esquecido

E a memória no secador de cabelo...

E algo inesquecível de que não me lembro aconteceu:

Porque hoje tenho a alma mutilada

E nem o corpo tenho.

.

.

Tiago Nené

in Revista Big Ode #5

Os amantes inadequados - um poema de Eva Vaz




















Os meus amantes nunca

foram belos,

magros, de veias grossas,

esculpidos em osso,

dramáticos, ternamente trágicos

até ao sorriso.

Os meus amantes eram difíceis,

resistiam de modo selvagem

para logo se entregarem,

resignados e impossíveis,

com a altivez domesticada,

a cabeça em baixo

olhando o meu sexo,

destruídos pelo desejo

mais poderoso que o espírito.

Tristes.

Nenhum conquistou

os meus demónios,

abriu as minha folhagem débil

e entrou

para não sair.

Nenhum me fez fanática

do seu sexo,

me desviou a luxúria

para o centro da sua boca,

concentrou a surpresa

nos seus passos arrastados,

o prazer, no som

da sua voz categórica,

na gravidez dos seus olhos.

Nenhum me fez habituar-me aos seus costumes,

me criou a necessidade de o necessitar,

e por fim se ofereceu a ministrar-me

a dose de si mesmo que

me faria depender-lhe, nem

tampouco me instalou

um tumor benigno

no útero.

E agora tudo é diferente,

tudo é diferente.

E já não estou

Só.

.

Eva Vaz

(a tradução/versão é de Tiago Nené)

Polarkreis 18 - Allein Allein




he's living in a universe a heart away inside of him
there's no one else just a heart away
the time will come to be blessed
a heart away to celebrate his loneliness
wir sind allein allein allein
allein allein allein allein allein allein


[tn]

Filipa,




bem-vinda ao mundo e ao texto-al!
toma conta do teu pai e porta-te bem à terça-feira ;)

Recomenda-se

Weltliteratur. Madrid, Paris, Berlim, São Petersburgo, o Mundo!



Com o comissariado de António M. Feijó e a concepção dos arquitectos Francisco e Manuel Aires Mateus, esta exposição aglomera textos literários, documentos e obras de arte apresentados em 11 salas autónomas que mostram a literatura e os autores da geração de Fernando Pessoa.

Até 04 Jan. 2009
Das 10h00 às 18h00, de Terça a Domingo
Galeria de Exposições Temporárias da Fundação Calouste Gulbenkian

Sugerimos as visitas guiadas e as conferências.

últimas palavras



Não escreverei nem mais uma linha, desta vez é mesmo a sério, não voltarei atrás, escreveu ele, mas já ia na segunda linha, a caminho da terceira.

uma tarde no campo



Olho as galinhas
depenicando
presas ao chão
ignorantes do céu
e da beleza do mundo

Como são estúpidas!
digo para mim mesmo
Têm asas mas não querem voar

E só então vejo
como se parecem
connosco.

Talvez eu pudesse escrever um poema (um poema de Tiago Nené)














À Ana Salomé, com uma pergunta: haverá um coração neste poema?


Talvez eu pudesse escrever um poema
se este rio não fosse efémero
e a humidade não fosse tão conivente com a água
e o seu curso com o tempo
e a sua temperatura não estivesse exilada
na ceia de um urso polar
lá longe onde a imaginação não chega.
Sim talvez eu escrevesse um poema
mas não este
este é um poema de água doce
e de peixes cor-de-laranja
serpeando para entrarem no umbigo
de uma saudade do tamanho
de todo o espaço – o aquário ou o oceano –
disponível para viver.
O poema que talvez escrevesse
não pode ser a água dos peixes
nem o ar entre quatro paredes
que me fazem prisioneiro.

Tiago Nené

[nunca sei que título dar aos poemas]


Cada poeta é ele próprio e por isso

tão iguais e tão diferentes

são os poetas.

Uns amam de longe os poemas,

como se os temessem;

outros beijam-nos na boca,

mas não os amam;

e outros ainda, nos poemas

apenas se amam a si mesmos.

Os poemas, por outro lado,

são como os espíritos:

existem no mundo,

mas não lhe pertencem;

e muito menos aos poetas

que os dizem seus.

Em vez de dizer

este poema é meu,

melhor seria dizer

este poema sou eu.