O que pode ser feito para melhorar esse panorama? [artístico]

Arranjar uma mão cheia de críticos. Gente apaixonada mas séria, que não escreva por interesses pessoais e valorize o que tem de facto valor.

valter hugo mãe
in Correio da Manhã de hoje

[tn]

A genialidade

Agora, trinta anos depois de escrever aqueles primeiros poemas torpes e pretensiosos, continuo a acreditar que a literatura, e particularmente a poesia, são um excelente antídoto contra a genialidade.

Uberto Stabile

(Excerto deste texto. Tradução minha)

[tn]


A felicidade dos meus amigos

Este mundo é pequeno. E a net extinguiu distâncias. Perguntam-me quando sai o meu livro Instalação, a que fiz referência aqui. Eu respondo que não tem data de lançamento prevista mas que gostava que saísse em 2009. Mas se não sair, creio que não haverá problema algum. Afinal, para quê lançar livros? Será que o meu fará realmente alguma diferença no panorama literário português? Não creio, mas sei que alguns amigos meus (poucos) ficariam felizes. Agora que falo nisso, talvez fosse boa ideia mandar fazer apenas oito exemplares da obra: um para cada amigo (sendo que tenho sete amigos) e um extra para o depósito legal.

PS: nunca mais soube nada de F.

[tn]

e porque ontem foi dia dos namorados...





















AMAR, Carlos Drummond de Andrade

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.


fotografia de: miguel murta

Ondjaki, Correntes d'Escritas, Pátio de Letras, Os Dias do Amor, ontem, eu

Ontem: ontem comecei por ter a certeza que nunca seria convidado para as Correntes d'Escritas, pois segundo o Ondjaki esse é um espaço "de reencontro de amigos". Ora, eu, sem amigos na literatura (e ainda com uma pessoa que se arroga de ter uma inimizade comigo, apesar de não me conhecer) como posso esperar ser convidado?

Quando cheguei ao Pátio de Letras esqueci-me do choque da definição de Correntes d'Escritas do Ondjaki e desfrutei de boas leituras de poemas na apresentação da antologia de poesia Os Dias do Amor. Fiquei um pouco vaidoso por terem lido o meu poema "antologia", é verdade, mas também envergonhado quando os muitos presentes olharam para mim. No final, alguém que não conhecia, depois de me ter felicitado pelo poema, pediu-me para escrever algo na página onde ele se encontra. Então escrevi assim "para a Filipa, que a sua vida também seja uma antologia e, de preferência, com muitos poemas".

Fui para Tavira, logo de seguida para uma festa de família, e a declaração do Ondjaki reapareceu na minha cabeça: "As Correntes d'Escritas são um espaço para o reencontro de amigos". Como diria alguém: e esta, hein?

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O amor está em Faro



















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Hoje, pelas 17 Horas, realizar-se-á a apresentação da antologia de poesia Os Dias do Amor no Pátio de Letras, em Faro. Tanto quanto julgamos saber, a sessão terá o seu enfoque nos poetas algarvios que nela estão representados em elevado número, prova da grande tradição de poetas que desde sempre têm passado pela nossa região.

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São poetas do Algarve no livro:

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Al-Mu'tamid (Silves),

João de Deus (São Bartolomeu de Messines),

Bernardo de Passos (São Brás de Alportel)

João Lúcio (Olhão),

António Ramos Rosa (Faro),

Casimiro de Brito (Loulé),

Gastão Cruz (Faro),

Leonilda Cavaco Alfarrobinha (Paderne),

Torquato da Luz (Alcantarilha),

Myriam Jubilot de Carvalho (Tavira),

Gabriela Rocha Martins (Faro),

Nuno Júdice (Mexilhoeira Grande),

Fernando Cabrita (Olhão),

Manuel Neto dos Santos (Alcantarilha),

Fernando Esteves Pinto (Olhão),

José Carlos Barros (Vila Nova de Cacela),

Miguel Godinho (Vila Real de Santo António),

Pedro Afonso (Faro),

Tiago Nené (Tavira).


Feliz Dia dos Namorados


















Neste dia dos namorados escolhi algo especial para colocar aqui. O poeta chama-se Antonio Rigo e, neste singelo poema, fala-nos subtilmente da vida das palavras e, em suma, da importância da comunicação entre duas pessoas.

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Onde vivem as palavras por dizer?

Em que jardim?

Debaixo de que pedra ou árvore?

Em que momento da sua vida

atravessam a luz e

saem ao nosso encontro

para nos sarar?

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Antonio Rigo,

poeta espanhol,

natural de

Palma de Maiorca

(tradução de Tiago Nené)

Instante, um poema de Samuel Beckett



















Instante

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Que faria eu sem este mundo sem rosto sem questões

Quando o ser só dura um instante onde cada instante

Se deita sobre o vazio dentro do esquecimento de ter sido

Sem esta onda onde por fim

Corpo e sombra juntos se dissipam

Que faria eu sem este silêncio abismo de murmúrios

Arquejando furiosos em direcção ao socorro em direcção ao amor

Sem este céu que se eleva

Sobre o pó dos seus lastros

Que faria eu eu faria como ontem como hoje

Olhando para a minha janela vendo se não serei o único

A errar e a mudar distante de toda a vida

preso num espaço-marioneta

Sem voz entre as vozes

Que se fecham comigo.

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Samuel Beckett

(tradução de Tiago Nené)