Encontro Internacional Palavra Ibérica
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Encontro de Escritores Palavra Ibérica

A 1ª fase do Encontro de Escritores Hispano-luso Palavra Ibérica 2009 arrancará no dia 27 de Março em Punta Umbría, às 18h (hora espanhola) com as apresentações dos 3 últimos livros publicados na colecção de poesia Palavra Ibérica. O evento segue no dia 28 para Vila Real de Sto. António, para as respectivas apresentações no Centro Cultural António Aleixo, às 17h, prolongando-se pela noite.
Autores presentes:
.
Golgona Anghel
Rui Costa
Santiago Aguaded Landero (Prémio Internacional de Poesia Palavra Ibérica 2009)
Tiago Nené (tradutor)
Adão Contreiras (reportagem vídeo)
.
Coordenadores:
Fernando Esteves Pinto
Uberto Stabile
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Fonte: Porosidade Etérea
Polishop - um poema de Tiago Nené

Polishop
click,
dormem em simultâneo sobre as escarpas
e sobre a sua beleza suja,
interior ao sono, interior à chuva,
colocam as mãos nos bolsos como se lá estivesse
parte de uma incompletude que os completasse,
consolidam a solidão inacessível,
sentem o vento processar o seu rigor irregular
nos pulsos rasgados,
ouvem música petrificada, julgam que o ritmo
e o movimento da cabeça os podem apartar,
e por isso se intitulam apenas
de ouvintes de música,
click,
nunca saberiam assinalar, por exemplo, nos negativos
da presente sessão, os lugares íngremes
das suas infâncias que se auto-consolam
e auto-flagelam entre si.
sobre eles disparo como se atirasse a matar
sobre as suas ideias transumantes
em direcção à trovoada oca
dos meus olhos brancos.
click
o crepúsculo carrega-nos, a confusão inicia-nos as fugas,
todas as fugas, todas as horas que a bem ou a mal
singram e quebram.
quem me dera poder embriagar-lhes a sombra,
desatar-lhes os nós da vida,
poder vê-los andar de novo,
e ficar aqui para sempre, neste fim de tarde,
compensando a minha completa falta de rosto
com a tripulação dos meus dedos
fingindo sobre a máquina fotográfica.
Tiago Nené
in Polishop - livro digital
Eyes Wide Shut - um poema de Tiago Nené

EYES WIDE SHUT
[àqueles que fecham os olhos]
uma coisa é falar, outra
completamente diferente
é esculpir palavras
a partir da fala.
e não fosse o meu acaso vigilante
continuaria
a partilhar poemas maus,
e noites furtivas,
beijos com a densidade das nuvens,
e dúvidas
sobre questões não essenciais.
não sabendo hoje se falo
ou se esculpo palavras, digo-te
sou felize contigo, sou muito felize contigo,
aqui no meu sono sem fala,
sobre as asas de borboletas filiformes,
partilha do lume galopante
sobre uma fotografia que nos reproduz
de olhos bem fechados.
Tiago Nené
in Os Poemas Maus (antologia)
(a publicar em 2074)
Protocolo - um poema de Tiago Nené

PROTOCOLO
kyoto, pulmões de ferro,
picar o ponto a:
delírios minúsculos,
seguir a linha dos pássaros,
feridas dissemelhantes,
ruas emparedadas no interior
dos teus canais,
aproximações da inocência,
distância entre sangues marítimos,
respiração húmida do beijo frondoso,
óculos de um gandhi-flipper
ficcionado num olhar
que ainda caminha,
cintila numa cor oca
de clarividência irresponsável,
evidencia a árvore íntegra
por cima do teu lábio
fazendo o mar ciciar
nos pulmões de ferro,
na tua cabeça livre,
no teu suave azul solúvel
gotejando isenção,
libertando substância subtil e dúctil
das coisas meramente ténues,
essas coisas, esse hábito volúvel,
esse protocolo
fragilmente feroz, fictício, nu,
flora no interior
do teu corpo ausente e frio.
Tiago Nené
(inédito - talvez apareça em Instalação, a publicar em 2009)
Facetas
Agradecendo os comentários e e-mails recebidos relativos ao poema que coloquei no post infra, deixo a pergunta: e se tivesse sido futebolista?
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Microscópio (um poema de Tiago Nené)

[aos cientistas da poesia]
há um problema. este poema não começou assim,
assim desta forma,
não, não. o poema começou antes,
minutos antes de o escrever,
e o primeiro verso está muito longe
daquele que agora expendi.
também a cor do poema era outra, uma
cor difusa, definida por olhos azulões,
que o expiavam e viam através,
que suspiravam no seu sangue castanho,
que sondavam o seu insignificante-aos-olhos-de-muitos
significado mais arterial,
uma cor fundida e por outro lado fundente,
oblíqua, verticalizante, material.
quando aqui cheguei, um ou dois sonhos depois,
tudo era diferente e diferenciado,
e nem uma palavra se manteve quieta e justa.
e este exemplo, creio,
negro e incerto, inundado de um transparente opaco,
talvez possamos reter e demorar na sombra patológica das sílabas,
tal bastando para concluirmos:
1. que hoje não podemos decretar a liberdade
da lágrima no rosto preso
(concebemo-nos, recordo, dentro de um animal adolescente)
2. que a poesia não poderia ser, nunca,
como alegam esses homens de palavra de veios pulsados
e microscopizada, uma ciência exacta.
Tiago Nené
inédito
Um poema da poeta argentina Fanny Jaretón
Rebelião
.
Não vou usar a palavra estertor
nem insónia, nem labirinto
como fazem todos os poetas
quando procuram explicar o limite das coisas.
Preciso encontrar uma palavra
que como o verijero nos abra dos dois lados,
uma palavra, somente uma palavra
que crave e sepulte
toda a solidão do mundo.
.
Fanny Jaretón
tradução de Tiago Nené
Dia da Mulher - um poema de Tiago Nené
QUARENTA DE FEBRE
.
TALVEZ QUARENTA DE FEBRE
NOS POROS SUICIDAS
O QUE MOVEU LEILA DEEN,
E SÃO AINDA DESCONHECIDAS
AS RAZÕES
NOS OLHOS AZUIS-METÁLICOS
DE AMANDA KNOX.
TALVEZ UM MAL COM ESTÉTICA
ATRAIA O MUNDO
E OS ARTISTAS.
E QUE DIZER DA CORAGEM VOLÁTIL
DE SAHAR VARDI
QUE PORÉM NÃO ENCLAUSURA DESEJOS,
APESAR DOS OLHOS BEM ILUMINADOS
COM IRREPREENSÃO?
.
Tiago Nené
Dois poemas do poeta catalão Joan Brossa
A B C D
A. Se queres conhecer um homem,
dá-lhe poder.
B. Se me queres bem, as tuas obras
me lo dirão.
C. Tampouco existe o amor,
somente poderás dar provas dele.
D. Gritar é digno.
.
FIM DE CICLO
As folhas caídas obstruem o caminho.
Imagino que sou aquilo que não sou.
Aqui estou muito quieto.
Procuro não me mexer
Ocupando assim o mínimo espaço.
Como se já não estivesse ali.
O silêncio é o original,
as palavras são a cópia.
.
Joan Brossa
tradução de Tiago Nené
O que pode ser feito para melhorar esse panorama? [artístico]
valter hugo mãe
in Correio da Manhã de hoje
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A genialidade
Uberto Stabile
(Excerto deste texto. Tradução minha)
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