O papel do leitor na construção do poema






















tenho um novo leitor, é alto, moreno, calvo, olhos vermelho-esverdeados, tem os começos de leitura cercados por um amadurecimento pálido, batendo descontrolado sobre os anos mal vividos. vocês deviam vê-lo, os seus primeiros minutos a sós com o poema são semi-estátuas debruçadas sobre ilusão paciente. dizia-me ele, no outro dia, a propósito já não sei do quê, que acreditava em tudo o que escrevia, excepto na definitividade das coisas ambíguas, falsas tentativas de equilíbrio em poemas que muito devem à verdade. efectivamente reconheço que a poesia nada tem, ou melhor, deve ter, de definitivo, e que ainda há leitores que exigem dos versos, e com toda a legitimidade do mundo, alguma poesia verdadeira. são estes leitores que, no fundo, escrevem, condicionando, limitando, exigindo, extirpando os lados montanhosos do caminho certo, deixando o poeta inspirar(-se) (n)o que resta. todo o aspirante a poeta devia conhecer esta figura que hoje me escreve e profundiza só pelo simples acto de me esculpir o silêncio mais viril, ou tê-la dentro de si.

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Tiago Nené

Um poema do poeta espanhol Uberto Stabile















Interroguemos o silêncio
questionemos a linguagem,
neste absurdo código
os actos carecem de moral.
A loucura quer ser religião e espírito
vocação pura do destino.
Mas não há lugar no cenário
onde os actores encontrem o seu descanso,
não prescreve a função
enquanto o público aplaude.
Todo o fim requer um princípio.
E se todo o princípio obedece a uma causa,
que causa é a de aqueles
que carecem de princípios?

Uberto Stabile em El Estado de las Cosas (1981)
Tradução portuguesa de Tiago Nené

Encontro Internacional Palavra Ibérica

Muito interessante o fim-de-semana que passei. Tratou-se da Primeira Fase do Encontro Hispano-luso Palavra Ibérica, reservado a autores e colaboradores do projecto, e que serviu, fundamentalmente, para serem apresentados os últimos livros da colecção. Pude finalmente conhecer o escritor Rui Costa, aquele que é para mim, a uma longuíssima distância de todos os outros, o melhor jovem poeta português. (vide aqui algumas considerações sobre o seu novíssimo O pequeno-almoço de Carla Bruni). O encontro dividiu-se entre Punta Umbría e Vila Real de Santo António. Por sermos poucos, houve tempo para conhecer melhor as pessoas em causa e falar bastante tempo com cada uma delas. Assim aconteceu com Golgona Anghel, que me confidenciou não ter super-ego, Liliana Pereira, Santiago Aguaded Landero, cuja apresentação fiz do seu Agencia del Miedo (bilingue, com tradução minha), Uberto Stabile, os responsáveis pelo poder político na região de Punta Umbría, e até, e este apareceu da audiência, manuel a. domingos. Enfim, que venha a segunda fase do encontro. Estarei lá com todo o gosto.






















Comparações

Mais ninguém escreve poesia na minha rua. Desse modo, nunca poderei dizer que sou o melhor.

[tn]

Encontro de Escritores Palavra Ibérica






















A 1ª fase do Encontro de Escritores Hispano-luso Palavra Ibérica 2009 arrancará no dia 27 de Março em Punta Umbría, às 18h (hora espanhola) com as apresentações dos 3 últimos livros publicados na colecção de poesia Palavra Ibérica. O evento segue no dia 28 para Vila Real de Sto. António, para as respectivas apresentações no Centro Cultural António Aleixo, às 17h, prolongando-se pela noite.
Autores presentes:
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Golgona Anghel

Rui Costa
Santiago Aguaded Landero (Prémio Internacional de Poesia Palavra Ibérica 2009)
Tiago Nené (tradutor)
Adão Contreiras (reportagem vídeo)
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Coordenadores:
Fernando Esteves Pinto
Uberto Stabile
.


Fonte: Porosidade Etérea

Pensamento

Partiram aqueles que precisam de regressar.

[tn]

Polishop - um poema de Tiago Nené


















Polishop


click
,
dormem em simultâneo sobre as escarpas
e sobre a sua beleza suja,
interior ao sono, interior à chuva,
colocam as mãos nos bolsos como se lá estivesse
parte de uma incompletude que os completasse,
consolidam a solidão inacessível,
sentem o vento processar o seu rigor irregular
nos pulsos rasgados,
ouvem música petrificada, julgam que o ritmo
e o movimento da cabeça os podem apartar,
e por isso se intitulam apenas
de ouvintes de música,
click,
nunca saberiam assinalar, por exemplo, nos negativos
da presente sessão, os lugares íngremes
das suas infâncias que se auto-consolam
e auto-flagelam entre si.
sobre eles disparo como se atirasse a matar
sobre as suas ideias transumantes
em direcção à trovoada oca
dos meus olhos brancos.
click
o crepúsculo carrega-nos, a confusão inicia-nos as fugas,
todas as fugas, todas as horas que a bem ou a mal
singram e quebram.
quem me dera poder embriagar-lhes a sombra,
desatar-lhes os nós da vida,
poder vê-los andar de novo,
e ficar aqui para sempre, neste fim de tarde,
compensando a minha completa falta de rosto
com a tripulação dos meus dedos
fingindo sobre a máquina fotográfica.

Tiago Nené
in
Polishop - livro digital

Eyes Wide Shut - um poema de Tiago Nené













EYES WIDE SHUT


[àqueles que fecham os olhos]


uma coisa é falar, outra
completamente diferente
é esculpir palavras
a partir da fala.
e não fosse o meu acaso vigilante
continuaria
a partilhar poemas maus,
e noites furtivas,
beijos com a densidade das nuvens,
e dúvidas
sobre questões não essenciais.
não sabendo hoje se falo
ou se esculpo palavras, digo-te
sou felize contigo, sou muito felize contigo,
aqui no meu sono sem fala,
sobre as asas de borboletas filiformes,
partilha do lume galopante
sobre uma fotografia que nos reproduz
de olhos bem fechados.

Tiago Nené
in Os Poemas Maus (antologia)
(a publicar em 2074)

Um número bonito

Sem palavras
























imagem de Ana Cecílio

Protocolo - um poema de Tiago Nené
















PROTOCOLO

kyoto, pulmões de ferro,
picar o ponto a:
delírios minúsculos,
seguir a linha dos pássaros,
feridas dissemelhantes,
ruas emparedadas no interior
dos teus canais,
aproximações da inocência,
distância entre sangues marítimos,
respiração húmida do beijo frondoso,
óculos de um gandhi-flipper
ficcionado num olhar
que ainda caminha,
cintila numa cor oca
de clarividência irresponsável,
evidencia a árvore íntegra
por cima do teu lábio
fazendo o mar ciciar
nos pulmões de ferro,
na tua cabeça livre,
no teu suave azul solúvel
gotejando isenção,
libertando substância subtil e dúctil
das coisas meramente ténues,
essas coisas, esse hábito volúvel,
esse protocolo
fragilmente feroz, fictício, nu,
flora no interior
do teu corpo ausente e frio.

Tiago Nené
(inédito - talvez apareça em Instalação, a publicar em 2009)

Facetas



















Agradecendo os comentários e e-mails recebidos relativos ao poema que coloquei no post infra, deixo a pergunta: e se tivesse sido futebolista?

[tn]

Microscópio (um poema de Tiago Nené)




















[aos cientistas da poesia]


há um problema. este poema não começou assim,
assim desta forma,
não, não. o poema começou antes,
minutos antes de o escrever,
e o primeiro verso está muito longe
daquele que agora expendi.
também a cor do poema era outra, uma
cor difusa, definida por olhos azulões,
que o expiavam e viam através,
que suspiravam no seu sangue castanho,
que sondavam o seu insignificante-aos-olhos-de-muitos
significado mais arterial,
uma cor fundida e por outro lado fundente,
oblíqua, verticalizante, material.
quando aqui cheguei, um ou dois sonhos depois,
tudo era diferente e diferenciado,
e nem uma palavra se manteve quieta e justa.
e este exemplo, creio,
negro e incerto, inundado de um transparente opaco,
talvez possamos reter e demorar na sombra patológica das sílabas,
tal bastando para concluirmos:
1. que hoje não podemos decretar a liberdade
da lágrima no rosto preso
(concebemo-nos, recordo, dentro de um animal adolescente)
2. que a poesia não poderia ser, nunca,
como alegam esses homens de palavra de veios pulsados
e microscopizada, uma ciência exacta.

Tiago Nené
inédito

Um poema da poeta argentina Fanny Jaretón





















Rebelião

.

Não vou usar a palavra estertor

nem insónia, nem labirinto

como fazem todos os poetas

quando procuram explicar o limite das coisas.

Preciso encontrar uma palavra

que como o verijero nos abra dos dois lados,

uma palavra, somente uma palavra

que crave e sepulte

toda a solidão do mundo.

.

Fanny Jaretón

tradução de Tiago Nené

Dia da Mulher - um poema de Tiago Nené
























QUARENTA DE FEBRE


Não vendo razões válidas para excepcionarmos qualquer mulher no dia da mulher, este poema é para todas elas. Afinal, como tenta mostrar o poema, todas têm o seu lado belo.

.

TALVEZ QUARENTA DE FEBRE

NOS POROS SUICIDAS

O QUE MOVEU LEILA DEEN,

E SÃO AINDA DESCONHECIDAS

AS RAZÕES

NOS OLHOS AZUIS-METÁLICOS

DE AMANDA KNOX.

TALVEZ UM MAL COM ESTÉTICA

ATRAIA O MUNDO

E OS ARTISTAS.

E QUE DIZER DA CORAGEM VOLÁTIL

DE SAHAR VARDI

QUE PORÉM NÃO ENCLAUSURA DESEJOS,

APESAR DOS OLHOS BEM ILUMINADOS

COM IRREPREENSÃO?

.

Tiago Nené



Dois poemas do poeta catalão Joan Brossa

















A B C D

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A. Se queres conhecer um homem,

dá-lhe poder.

.

B. Se me queres bem, as tuas obras

me lo dirão.

.

C. Tampouco existe o amor,

somente poderás dar provas dele.

.

D. Gritar é digno.

.

.

FIM DE CICLO

.

As folhas caídas obstruem o caminho.

Imagino que sou aquilo que não sou.

Aqui estou muito quieto.

Procuro não me mexer

Ocupando assim o mínimo espaço.

Como se já não estivesse ali.

O silêncio é o original,

as palavras são a cópia.

.

Joan Brossa

tradução de Tiago Nené