tenho um novo leitor, é alto, moreno, calvo, olhos vermelho-esverdeados, tem os começos de leitura cercados por um amadurecimento pálido, batendo descontrolado sobre os anos mal vividos. vocês deviam vê-lo, os seus primeiros minutos a sós com o poema são semi-estátuas debruçadas sobre ilusão paciente. dizia-me ele, no outro dia, a propósito já não sei do quê, que acreditava em tudo o que escrevia, excepto na definitividade das coisas ambíguas, falsas tentativas de equilíbrio em poemas que muito devem à verdade. efectivamente reconheço que a poesia nada tem, ou melhor, deve ter, de definitivo, e que ainda há leitores que exigem dos versos, e com toda a legitimidade do mundo, alguma poesia verdadeira. são estes leitores que, no fundo, escrevem, condicionando, limitando, exigindo, extirpando os lados montanhosos do caminho certo, deixando o poeta inspirar(-se) (n)o que resta. todo o aspirante a poeta devia conhecer esta figura que hoje me escreve e profundiza só pelo simples acto de me esculpir o silêncio mais viril, ou tê-la dentro de si.
.
Tiago Nené













