Poema aos Amantes - um poema de Tiago Nené













POEMA AOS AMANTES


[aos amantes]

tão vazia a cidade mas tão próxima
de nós,
veios respiráveis dentro do ar que se fixa à nossa volta,
janelas contra janelas
da vida do silêncio ferido, cenático, errático,
e depois o branco, o mesmo
branco das
ocorrências que esfriam o sangue.

tão vazia a cidade, tão fria em nós,
tão leitura contínua sobre
a viagem de uma narrativa em que somos
personagens
para trás, atrasadas ao nosso final.

Tiago Nené
in Geração Wicca
(a publicar em 2055)

Nota do autor: depois de escrever este poema, lembrei-me de uma música que não ouvia há muito. Apetece-me partilhar.

Da Inveja - Tiago Nené















DA INVEJA

[aos anónimos de si mesmos]

A maneira mais sincera de um autor sentir um elogio é sabendo que é invejado. A expressão dessa inveja traduzirá sempre um juízo de admiração sobre a obra, sendo que ainda mais sincero porquanto involuntário e produto de um estado de consciência alterada. O que está implícito é mais inalcançável ao emitente, muitas vezes distraído com as possíveis direcções da sua raiva. O autor, perante tais factos, estará sempre numa situação confortável e feliz, lisonjeado com o interesse despertado, facto que atrai sempre outros leitores.

Por isso, o autor invejado é sempre aquela que vai mais longe. Por estar mais motivado e pela polémica em torno do seu nome. Os invejantes, por vezes ocultos e anónimos dentro de si mesmos, procuram, no exercício da sua inveja, a compensação para o esquecimento que o mundo lhes guardou.
.
Tiago Nené
in Micro-Ensaios
(a publicar em 2060)

A Palavra «Gongo» - um poema de Tiago Nené














A PALAVRA «GONGO»

[aos meus amigos, até àqueles que não sabem voar]

a palavra «gongo» não faz bem
a este poema, nem a palavra «carvão» ou «permanecer» ou «noite». é que o que voa não precisa de uma base, e afinal este poema não precisa de quaisquer palavras.

Tiago Nené
inédito

Fotografia de Nuno Miheiro

O semblante de um homem angustiado - de Adriano Narciso




O semblante de um homem angustiado é uma sala vazia com uma natureza morta no meio, em cima de um cavalete (as tintas ainda escorrem sobre a tela). O tecido dos sofás, de tão puído, cede a sua consistência ao próximo que se sentar. Mesas são tripés; as pernas soltas são lanças enfiadas em frigoríficos que expelem pelos poros improvisados tetrafluoroetano, que inunda a sala e a transforma num Alasca tóxico de emoções.

Adriano Narciso

Um poema da poetisa espanhola Carmen Camacho - Definitivamente Vermelho

















DEFINITIVAMENTE VERMELHO


LEVOU TEMPO A DESFAZER-SE das canções
que falavam do azul,
dos amores seus que tudo viam azul, do azul das moscas,
do sabão, dos lençóis às bolinhas e de cortesia,
de toda a poesia que sugere o azul. Do azul. Sonhava
melhor o ciano, mas também não.

Quando ela, que haviam proclamado marina
e celeste, da cor da pupila encravada do insuportável gato
triste, finalmente decidiu
pronunciar vermelho, um vermelho menta e avecrem,
e viu - já o sabia-
que nada nem dentro nem fora nem entretanto era
da cor plástica dos cavalos expressionistas,
disse:

Há coisas absolutas, esta o é decerto.
Definitivamente Vermelho.
Não mais concedo. E concluiu: quem não está comigo
contra mim está.

Foi então que ele se atreveu a falar-me, pela
primeira vez, da voracidade habitual, terapêutica e desequilibrante,
das minhas palavras vermelho escuro.


Carmen Camacho

Tradução de Tiago Nené

Foto: Tiago Nené e Carmen Camacho
(Punta Umbría, 2 de Maio de 2009 - Edita/Palavra Ibérica)

Edita/Palavra Ibérica '09

Uberto Stabile faz, no seu blogue, uma boa cobertura do que foi o Edita/Palavra Ibérica '09, onde estive. Pessoalmente destaco as conversas com Maria do Sameiro Barroso, valter hugo mãe, Jorge Melícias, Pedro Gil-Pedro, Carmen Camacho e Ana Pérez Cañamares.

[tn]

Amália Hoje - A Gaivota

A vida de um 'homem-gato' - de Adriano Narciso

O gato expele as mandíbulas com a força de toda a sua matéria. O todo não é o absoluto e o gato leva dias nisto, nesta luta incessante entre um ser que é tudo e um parasita que nem respirar ou dormir permite.
E nós morremos por isto. Morremos todos os dias milhões de vezes quando resvalamos no abismo do nada e o nosso todo é impotente.
Há bichos-nada piores que tudo, que todo o nosso ser.

Vejo-o ainda espernear, vagabundeando por entre as divisões com a estranheza de quem conhece mas vê tudo com novos olhos.

Adriano Narciso

Um poema de Tiago Nené - Éramos tão novos













ÉRAMOS TÃO NOVOS


[a uma pessoa perfeita]

éramos tão novos,
explodíamos por tudo e por nada,
lembrávamo-nos de existir
em cada pequena coisa,
atendíamos telefones públicos,
incendiávamos o silêncio com um grito,
adorávamos que nos invejassem,
bebíamos veneno para dormir.

a memória era costeira e mecânica,
havia búzios em nós, o som perfeito, esculpido
de uma cidade esvaída
da tímida perspectiva do mar.

e só o não saber nos marcava as horas, cada minuto
desprendia os corpos mútuos,
o repetido fim interrompido ia bebendo o resto do tempo.

Tiago Nené
in
Medidas para o Fim da Crise

(a publicar em 2056)

Um poema de Tiago Nené - Cotovelos sobre a mesa



















COTOVELOS SOBRE A MESA

[a uma pessoa muito especial]


invisíveis luzes estão acesas.
vejo o andré, o
fundador, desintegrando as direcções
do tempo sujo
passível de ser reciclado em boa arte.
o mário, o
de vasconcelos, enfia a rosto na cabeça
e engole as sombras disponíveis
dos alimentos citadinos mas rugosos.
o antónio, o de maria e o de lisboa, sorri como
aparece na capa
de um livro póstumo (consultem-no)
e crê retirar aos poucos
o ar aos insectos que circulam.
do outro lado o
alexandre, o de o'neill,
ergue-se em direcção a uma das
casas-de-banho de que o mundo, con-
tiguamente, é feito.

mas vendo bem as coisas,
talvez segundo
um intervalo quadrangular,
este meu trabalho do olhar
dirá apenas respeito
ao meu poema. o que lhes interessará a eles
é que uma vez chegados
ao surrealismo reflexo do seu público anonimato
cada um escreverá o seu.


Tiago Nené
inédito

Poema de Adriano Narciso - Fotografia de Jan Saudek




Fotografia de Jan Saudek

Corpos deitados são quadros que
não foram pintados, gatos que ágeis
interrompem a vigília e saltam para o sono.
São pinceladas de vácuo numa câmara escura,
linhas de uma fotografia desbotada.
Corpos que irrompem e atentam em ancas decididas,
movimentos em elipse que extasiam.
Explosões,
Implosões que engasgam e tiram ar,
retribuem com o sangue pulmonar aéreo,
que sai pelo nariz e evita a queda,
levita.

E o ar é encarnado como rosas,
encarnado como os caules agressivos das rosas.

Olho os corpos e vejo ancas e elipses e gatos
que de tão puídos vivem outra vez.
Vejo mesas com frutas,
árvores que nascem da madeira da mesa e rezam a Deus
enquanto as ancas e as pernas e os gatos choram
pelas vidas futuras.
E todos são corpos,
todos entidades que cheiram a terra, e a ar,
e a sangue.

Adriano Narciso

Hímen do Tempo - um poema de Tiago Nené

Hímen do Tempo

impossível,
e nesse impossível uma forte sensação de possível, os poetas que morrem dentro de aves, os sons que se ouvem no ar, transformações de palavras, palavras de palavras. impossível, e nesse impossível uma última sensação de possibilidade, todo o tempo em simultâneo suspenso, consumido o espaço com a mesma aleatoriedade do sangue que narra.


Tiago Nené
(in Confissão de Sangue
-
a publicar em 2035)

Um poema de Adriano Narciso - Monólogo de um deus solitário




A carne exala credos:
É todo um rosário de madrepérolas vermelhas,
úteros em ebulição.
Carne que é extensão da libido quando ouve orações a virgens
fecundadas

Sentado na Mesa,
doze lugares vagos. Ecos da minha voz.
Eu, a minha Carne e a Roupa somos Espírito santo;
a Santíssima Trindade pedindo um café!

Não queremos pão!,
gritam.

'Não há fome,
Não há palavra,
não há ressurreição!’
brado a paredes surdas, altares sem hóstias,
vinho, não há batinas,
as velas apagam-se.

riem-se.
São cordeiros que assistem, hereges,
à derradeira missa.
uma paisagem idílica ao fundo:
lírios, magnólias, espinhos cravados em cabeças suadas.
éden sentiria inveja deste horizonte
mas os risos torrentes
violentam pulmões de cordeiros.

Por isso nego anjos, trombetas e anunciações.
Gabriel em decadência!

Adriano Narciso

Um poema de Paul Auster













FRAGMENTO DE FRIO


Porque cegamos
No dia que sai connosco,
E porque vimos a nossa nuvem
De respiração
Espelhar o ar,
O seu olho abrir-se-á
Para nada que não a palavra
À qual renunciamos: o inverno
Terá sido um lugar de
Crescimento.

Nós que nos tornamos os mortos
De uma outra vida que não esta.

Paul Auster
Tradução de Tiago Nené

Um poema de Adriano Narciso



Mães navegantes em luas filiais
são terras, planetas,
orações subordinadas a luas enfermas.

Progenitoras expectantes
pelo eclipse lunar.
Lobas abruptas sem força,
sem luz (sem cio)
lunáticas
alunares

Mães sem etimologia
são mulheres sem género,
são homens, crianças,
sem género,
sem número, sem filhos.

Adriano Narciso

Um poema de Tiago Nené - 03032007



















03032007

no livro que me foi emprestado -
uma edição de poesia de novalis -
vinha uma nota
muito ténue a lápis tremendo. dizia
procuro o último livro de
ruy duarte
[de] carvalho - de que nunca li coisa alguma -
e encontro
este, que procurei
há dias
sem encontrar.
vinha datado
e escrito assim: 03032007.
não vinha assinado, nem a caligrafia
pertence a quem mo emprestou.
e estes factos, lentamente suspensos
na superfície móvel da memória mais imediata,
impuseram
no mapa sem rios da minha leitura
um sentido extremo de ficção real.

Tiago Nené
in Polishop
(em preparação)

imagem de Lunatik

Prémio Sebastião da Gama 2009 vem para o Algarve: José Carlos Barros














O Júri deste Prémio, reunido no passado dia 17 de Abril, e composto por Joaquim Cardoso Dias, João Candeiras e Ruy Ventura, deliberou por unanimidade atribuí-lo a José Carlos Barros pela obra Os Sete Epígonos de Tebas.

Menções honrosas: Firmino Mendes e Rui Costa.

Um poema de Tiago Nené - Um poema com forma estranha



















UM POEMA COM FORMA ESTRANHA


alargar [anota aí]
a imobilidade depois de ver a rapidez das sombras,
uma [filma, filma isto]
existência não expressa
é mais
verdadeira. só ele [tira a máquina da chuva]
saberia como
fazer passar o seu corpo por cima de si mesmo,
por fora da música, do [que música é esta?]
karma, sobre as nuvens [um, dois e terês] fixas
de cor profunda [ele é
o poeta dos íssimos, mas shiuuu]
tudo o que lhe odeiam [ele tem
trinta
e nove de febre e toda a genialética]
é tudo
o que eles gostariam de ter,
ele que sabe como resumir um silêncio a só um começo.
[corta. repete]

Tiago Nené
in
Polishop

(em preparação)

Um poema do poeta Rui Costa do seu novíssimo livro O pequeno-almoço de Carla Bruni

















O Rui Costa é dos poetas portugueses que mais admiro. Tive a sorte de há pouquíssimo tempo ter podido conhecê-lo e trocarmos algumas ideias. Trouxe comigo um exemplar assinado de O Pequeno-almoço de Carla Bruni (vide aqui a crítica ao livro pelo nosso amigo Fernando Esteves Pinto). Não resisti a colocar este poema aqui. Espero que gostem.


Senhora de Londres escolhendo Limões

Não, nem todo o limão é amarelo quando
A mão de alguém o toca e humaniza, pequeno deus
Aos tombos do céu de um pensamento manual e
Exigente. Às vezes, quando a sede não é muita,
Um do fundo é erguido à altura do olhar e então,
Por mágica rotação da sorte que nos astros se reflecte,
Encontra uma outra luz na mão que o recebe e deposita
Em morada assaz prosaica e de plástico. Na vida,
A caminho do futuro que ele nunca saberá onde fica,
O limão continuará a ser inteiro
E o seu sumo continuará a ser sumo,
Pela mesma sábia razão por que a história dos homens
É sempre muito maior do que eles.

Rui Costa
in O Pequeno-Almoço de Carla Bruni
Punta Umbría, 2009

Colecção Palavra Ibérica

[tn]

Efeitos Micro-Estéticos II

Ler poesia de que não se gosta é uma forma de masoquismo.

[tn]

What's the weather like?

















Está a chover tanto aqui que tive de cancelar o meu encontro para esta noite. Talvez escreva um livro para não editar.

[tn]

Efeitos Micro-Estéticos
















Se um mau poeta declara que todos os poemas de outro são maus, tal declaração pode e deve ser interpretada, a contrario sensu, como um elogio.

[tn]

Huelva e Punta Umbría XVI Encontro Internacional de Editores Independentes EDITA’09 / Palavra Ibérica








29 de Abril a 2 de Maio 2009

Huelva e Punta Umbría
XVI Encontro Internacional de Editores Independentes EDITA’09

Estarão presentes:

Alfons Cervera (Valencia)
Adolfo Morales (Huelva)
Agustín Calvo Galán (Castelfollit del Boix, Barcelona)
Aida Monteón (Guadalajara, México),
Alejandra Peart (Saltillo, México)
Alicia e Vanesa Martínez (Valencia)
Amadeu Baptista (Viseu, Portugal)
Ana Pérez Cañamares (Madrid)
Andrés González (Madrid)
Angel Sanz (Granada)
Antonio G. Villarán (Sevilha)
Antonio Gómez (Mérida)
Antonio Muñoz Quinta (Málaga)
Antonio Orihuela (Béjar, Salamanca)
Antonio Reseco (Huelva)
Arturo Borra (Argentina)
Bárbara Zagora Cumpián (Málaga)
Ben Clark (Madrid)
Berna Díaz (Valencia)
Bruno Vilão (Cascais, Portugal)
Carlos Salem (Madrid)
Carmen Camacho (Jaén)
Carmen Palacios (Albacete)
Catalina Rivera (Mérida)
Cisco Bellavista (Badajoz)
Daniel Orviz (Madrid)
Dante Medina (Guadalajara, México)
Diego Ortiz (Madrid)
Eddie J. Bermúdez (Valencia)
Eduardo Almiñana (Valencia)
Eladio Orta (Ayamonte, Huelva)
Enrique Falcón (Valencia)
Esteban Gutierrez (Madrid)
Esther Hernández (Guadalajara, México),
Esther Ramón (Madrid)
Eugenio Arnao (Zaragoza)
Félix Menkar (Valencia)
Fernando Bazán (Sevilha)
Fernando Bono (Aracena, Huelva)
Fernando Esteves Pinto (Olhão, Portugal)
Ferrán Fernández (Málaga)
Filomena Marona Beja (Sintra, Portugal)
Francis Vaz (Huelva)
Francisco Aliseda (Peñarroya-Pueblonuevo, Córdoba)
Francisco Cumpián (Málaga)
Gabriela Juárez (Guadalajara México)
Golgona Anghel (Lisboa, Portugal)
Gonzalo Escarpa (Madrid)
Gsús Bonilla (Madrid)
Gustavo García (Guadalajara México)
Gustavo López (Bahía Blanca, Argentina)
Hilario Alvarez (Madrid)
Hipólito G. Navarro (Huelva)
Inés Matute (Palma de Mallorca)
Inma Luna (Madrid)
Isabel Bono (Málaga)
Isabel García Mellado (Madrid)
Isabel Huete (Madrid)
Javier Gato (Sevilha)
Javier Seco (Granada)
Jesús GE (Valencia)
Jesús Vega (Sevilha)
Jesús Zomeño (Elche, Alicante)
Joan Casellas (Barcelona)
Joana Brabo (Barcelona)
Joaquín Llorens (Palma de Mallorca)
Jon Andoni Goikoetxea (Barakaldo, Bizkaia)
Jorge Melícias (Porto, Portugal)
Jorge Ramírez (Guadalajara México)
José Blanco (Barakaldo, Bizkaia)
José Bru (Guadalajara, México)
José Carlos Barros (Vila Real de Santo António, Portugal)
José Luis Campal (Oviedo, Asturias)
José María Cumbreño (Huelva)
Juan Jesús Sanz (Sestao, Bizkaia)
Juan Pardo Vidal (Almería)
Juan Vicente Ruiz (Elche, Alicante)
Julio Alvarez (Tijuana, México)
Karla L. Martínez Alvarado (Tijuana, México)
Koke Vega (Don Alvaro, Badajoz)
Laura Giorani (Argentina)
Lucas Rodríguez (Vallekas)
Luciano Alberto Murrugarra (Lima, Perú)
Luis Felipe Comendador (Béjar, Salamanca)
Luis Filipe Cristóvão (Torres Vedras, Portugal)
Luis Pons (Huelva)
Lupe García Araya (Huelva)
M. Lucas González del Toro (Escacena del Campo, Huelva)
Mª Jesús Fuentes (Ceuta)
Mada Alderete (Madrid)
Manuel Almeida (Cascais, Portugal)
Manuel Arana (Huelva)
Manuel Maciá (Elche, Alicante)
Manuel Moya (Fuenteheridos)
Manuela de los Angeles (Medellín, Colombia)
Manuela Martínez (Albacete)
Marcos Gualda (Huelva)
Marcus Versus (Madrid)
Maria do Sameiro Barroso (Braga, Portugal)
Mario Marin (Huelva)
Matías Escalera (Madrid)
Mireia Calafell (Barcelona)
Nacho Fernández (Madrid)
Nacho Montoto (Córdoba)
Nati de la Puerta (Bilbao, Bizkaia)
Noni Benegas (Argentina)
Nuria Mezquita (Sevilha)
Oscar Aguado (Madrid)
Paco Huelva (Huelva)
Patricia Medina (Guadalajara, México)
Paula Orellana (Granada)
Pedro Gil-Pedro (Sesimbra, Portugal)
Pedro J. Martín Pedrós (Huelva)
Pedro Montealegre (Valencia)
Pepa Giraldez (Huelva)
Pepe Murciego (Madrid)
Pepe Varós (Huelva)
Pere Sousa (Barcelona)
Pilar González España (Ocaña)
Rafa Máiz (Sevilha)
Rey Fernández (Aracena, Huelva)
Roberto Guillen (Monterrey, México)
Rodolfo Franco (São Paulo, Brasil)
Román Piña (Esporles, Mallorca)
Román Porras (Valencia)
Rui Costa (Porto, Portugal)
Salvador Reyes (Valencia)
Santiago Aguaded Landero (Lepe)
Sara Herculano (Badajoz)
Sergio Cuateco (Guadalajara, México)
Silvia Oviedo (Madrid)
Siracusa Bravo Guerrero (Sevilha)
Sylvia Georgina Estrada (Saltillo, México)
Tiago Gomes (Lisboa, Portugal)
Tiago Nené (Faro, Portugal)
valter hugo mãe (Porto, Portugal)
Víctor Gómez (Valencia)
Yolanda Pérez Herreras (Madrid)

... e ainda, Manuela Ribeiro (Correntes d'Escritas),
Adão Contreiras (reportagem vídeo), e Inês Ramos (Porosidade Etérea)

Nota: links em construção

Sugestão: O Criador de Letras, de Pedro Foyos

Um novo membro no Texto-al

É um poeta e dos bons. O nome dele é Adriano Narciso, é de Faro, e tem-se distinguido no blogue O Banqueiro Anarquista.

Evaporação do poeta na pequena sociedade do poema - um poema de Tiago Nené


















[ao poeta Victor Oliveira Mateus, com amizade]


para chegar a este poema
entrei em mim pelos pulmões.
neles tinha algumas palavras
que sempre esconderia
na literalidade final do que escrevo.
assim não aconteceu:
costurei a velocidade da paisagem
que antes seguia respirante
sobre o contorno dos olhos,
e em vez de aqui me afirmar
com o marcador somático,
protótipo imperfeito de palavras
cujo pulso e desordem ordenada
não se perderia tão cedo
e lançou outrora muitos poetas
de vísceras nos dedos cegos,
resolvi evaporar-me para sempre
no sangue vertiginoso, cheio e frio
que levemente ainda me corre fluido.
não para que me recordem,
mas para que me esqueçam.

Tiago Nené
in Polishop
(pré-publicação)

Post Scriptum: fiquei a saber que um dos poetas que mais aprecio vai lançar, ainda este mês, um novo livro de poesia. Não deixo de aconselhar o próximo livro de João Luís Barreto Guimarães, A Parte pelo Todo (Quasi).

Importanticidade de palavras














depois de ter lido alguns poemas de um jovem poeta, ocorreu-me a minha não preferência por aqueles poetas que colocam as palavras em bicos de pés, como que se a sua forma estivesse, por isso mesmo, mais longe do seu conteúdo.

[tn]

Roberto Bolaño - um poema do escritor chileno Roberto Bolaño

Passei parte da Páscoa a ler alguns poemas do chileno Roberto Bolaño. Traduzi dois desses poemas. Mandei um para a Casa dos Poetas, onde colaboro com frequência (deve aparecer num post ainda esta semana, creio eu), e hoje publico aqui o meu preferido desses dois.

Meio off-topic, aproveito para agradecer os comentários aos posts, bem como os livros que me foram oferecidos nos últimos dias. Agradeço pois ao Fernando Esteves Pinto (pelos livros que me faltavam da colecção Palavra Ibérica), Joana (Ofício Cantante, de Herberto Helder, Cão como Nós, de Manuel Alegre, O Medo, de Al Berto), Vânia (pela Antologia de poetas tirsenses), Margarida (pelos 21 Poetas - com imagens de Avelino Leite), Golgona Anghel (pelo seu notável Crematório Sentimental), Santiago Aguaded Landero (pelos autógrafos nos meus exemplares de Agencia del Miedo/Agência do Medo e pelo El Libro de Los Perfumes), Francis Vaz (pela sua Antologia de Drink River, livro que apresentei na Trama ), Uberto Stabile (pela sua antologia La Línea de Fuego, de que tenho uma tradução aqui), Rafael Camarasa (pelo seu Feos), Rui Costa (pelo seu O pequeno-almoço de Carla Bruni), Rui Dias Simão (pelo seu Os Animais da Cabeça) e ao Victor Oliveira Mateus (pelo seu A Irresistível Voz de Ionatos, pela antologia de poesia Cerejas - poemas de amor de autores contemporâneos, e Cândido, de Voltaire)

(se me esqueci de alguém, não é por mal - faça o favor de avisar).
.
OS DETECTIVES GELADOS

.
Sonhei com detectives gelados, detectives latino-americanos
que tentavam manter os olhos abertos
a meio do sonho.
Sonhei com crimes horríveis
e com tipos cuidadosos
que procuravam não pisar os charcos de sangue
e ao mesmo tempo abarcar com um só olhar
o cenário do crime.
Sonhei com detectives perdidos
no espelho convexo dos Arnolfini:
a nossa época, as nossas perspectivas,
os nossos modelos de Espanto.
.
Roberto Bolaño
(Chile, 1953 - Espanha, 2003)
Poema com tradução de Tiago Nené

O papel do leitor na construção do poema






















tenho um novo leitor, é alto, moreno, calvo, olhos vermelho-esverdeados, tem os começos de leitura cercados por um amadurecimento pálido, batendo descontrolado sobre os anos mal vividos. vocês deviam vê-lo, os seus primeiros minutos a sós com o poema são semi-estátuas debruçadas sobre ilusão paciente. dizia-me ele, no outro dia, a propósito já não sei do quê, que acreditava em tudo o que escrevia, excepto na definitividade das coisas ambíguas, falsas tentativas de equilíbrio em poemas que muito devem à verdade. efectivamente reconheço que a poesia nada tem, ou melhor, deve ter, de definitivo, e que ainda há leitores que exigem dos versos, e com toda a legitimidade do mundo, alguma poesia verdadeira. são estes leitores que, no fundo, escrevem, condicionando, limitando, exigindo, extirpando os lados montanhosos do caminho certo, deixando o poeta inspirar(-se) (n)o que resta. todo o aspirante a poeta devia conhecer esta figura que hoje me escreve e profundiza só pelo simples acto de me esculpir o silêncio mais viril, ou tê-la dentro de si.

.

Tiago Nené

Um poema do poeta espanhol Uberto Stabile















Interroguemos o silêncio
questionemos a linguagem,
neste absurdo código
os actos carecem de moral.
A loucura quer ser religião e espírito
vocação pura do destino.
Mas não há lugar no cenário
onde os actores encontrem o seu descanso,
não prescreve a função
enquanto o público aplaude.
Todo o fim requer um princípio.
E se todo o princípio obedece a uma causa,
que causa é a de aqueles
que carecem de princípios?

Uberto Stabile em El Estado de las Cosas (1981)
Tradução portuguesa de Tiago Nené