
DEFINITIVAMENTE VERMELHOLEVOU TEMPO A DESFAZER-SE das canções
que falavam do azul,
dos amores seus que tudo viam azul, do azul das moscas,
do sabão, dos lençóis às bolinhas e de cortesia,
de toda a poesia que sugere o azul. Do azul. Sonhava
melhor o ciano, mas também não.
Quando ela, que haviam proclamado marina
e celeste, da cor da pupila encravada do insuportável gato
triste, finalmente decidiu
pronunciar vermelho, um vermelho menta e avecrem,
e viu - já o sabia-
que nada nem dentro nem fora nem entretanto era
da cor plástica dos cavalos expressionistas,
disse:
Há coisas absolutas, esta o é decerto.
Definitivamente Vermelho.
Não mais concedo. E concluiu: quem não está comigo
contra mim está.
Foi então que ele se atreveu a falar-me, pela
primeira vez, da voracidade habitual, terapêutica e desequilibrante,
das minhas palavras vermelho escuro.
Carmen CamachoTradução de Tiago Nené
Foto: Tiago Nené e Carmen Camacho
(Punta Umbría, 2 de Maio de 2009 - Edita/Palavra Ibérica)