Aung San Suu Kyi - um poema de Tiago Nené














AUNG SAN SUU KYI
.

montemos o circo. façamos

de conta. deixemos

que o sonho acorde e confesse.

sintamos todo o impacto

de ver as palavras de pele

tomarem forma

e rédea de coisas lúcidas

presas no desejo de um pequeno erro.

o nosso coração

é a nossa cabeça, e para sermos felizes,

ou temos sorte,

ou somos brilhantes.

somos romeu e julieta,

reféns perfeitos

de todos os sonhos.


Tiago Nené

inédito


Búzios


um novelo de braços flutuantes que súbito rasga o ar
não consigo sentir o cheiro da tua pele
existe entre nós uma bola oca de diálogo
a máscara do dia, sob as palavras.
Os olhos procuram.
Tacteando a conversa procuro caminhar
sem ver o nosso chão, posso apenas senti-lo
primeiro procuro senti-lo com as pontas dos pés.
--
Imagino-me o réptil rastejante
todo o meu corpo no nosso chão aceso
por trás do pano preto dos fantoches

--
onde as tuas formas existam
corpo de gengibre e hortelã
como os raios de uma roda de bicicleta
por baixo do sol, o teu vestido às riscas.
LadyBird
Ju

No Café


Chego e entro.
O café e a empregada jazem no mesmo sítio.
Mudos,
Suplicam por mim,
enchem as pupilas nauseabundas de luz
ao verem-me ser cliente.

Sento-me no lugar da cadeira.
não se incomoda e dá-me as boas vindas
de quatro.

Cheiro o ar e sou pulmão
do café, respiro por ele.
depuro

Chega a mulher, arrasta-se, exaspera,
reza pelo pedido com olhos moles
que parecem beatas no chão.
Consumida.
:
-um café e um pastel (s.f.f.)

(traz-me tudo aquilo como se traz uma hóstia,
como quem crê na salvação através da comida)

Bebo, como, leio Dostoievski
e a mulher arrota por mim. Alegra-se por ser miserável.
Se lhe pedisse, vomitava.
:
-A conta se faz favor.
Pago, saio. sou
metástase

Adriano Narciso

Licitação - um poema de Tiago Nené



















LICITAÇÃO

não sei o que esconde
o silêncio
nunca o entendi
talvez sirva
para leiloar sentimentos

sim, deve ser
exactamente isso
que acontece -
e a licitação mais baixa
sempre vence.

Tiago Nené
in
Os Poemas Frios
(em preparação)

banda sonora: Sweet Talk - The Killers

Um poema da poetisa espanhola Nuria Mezquita de Haro - Sou Estrangeira













SOU ESTRANGEIRA

Jamila:

Nasci no sul,
mas quando era pequena transferiram o meu pai para o norte,

ali vivemos pelo menos dez anos, e depois

transferiram o meu pai para oeste e

ali estivemos pelo menos dois anos.
Depois transferiram o meu pai de novo para o norte

e no norte vivemos uns cinco anos,
e então transferiram-no para este
e ali, a este, foi onde o meu pai morreu.
Então voltámos ao sul para enterrá-lo,

mas aqui não havia terra
e por isso fomos ao norte
pedir terra,
e lá nos deram um pouco.
De oeste nos mandaram vários sacos

e de este também nos enviaram uns quantos.
E assim pudemos enterrar o meu pai,
com a terra de alguns,
na terra de todos,
na terra de ninguém.

Nuria Mezquita de Haro

Tradução de Tiago Nené

Hugo Milhanas Machado em entrevista

Hugo Milhanas Machado, poeta que muito admiramos, respondeu a algumas questões colocadas por mim no blogue Casa dos Poetas. Nessa pequena entrevista o autor faz uma breve referência ao Texto-al.

[tn]

Amor Vermelho - um poema de Tiago Nené



















AMOR VERMELHO


que não seja imortal, posto que é chama. mas que seja infinito enquanto dure
Vinicius de Moraes

.
[a uma pessoa proibida]
.
tenhamos talvez começado
para acabarmos, para voltarmos
ligeiramente ao mesmo ponto
de partida rápido e móvel
connosco prévios,
connosco olhando um para o outro
como um tempo que regressa
de um futuro vermelho
e infactuável.
tenhamos talvez começado
pela experiência e pela ciência,
para conhecermos mais uma saída,
para nela nos equilibrarmos,
escrevermos este poema
onde ambos somos
eterna e separadamente iguais.

Tiago Nené
in Proibições
(em preparação)

Poemáti



Punctuns fora dos limites da película;
Antologias fugazes de mim. São
Terras azuis, flores plantadas no crepúsculo:
Retina prisioneira de ti. A
Inteligência é ignóbil, acessória no
centro da cena, sem pano, sem guião. Só corpos
Incendiados
Audazes. Actuando.

Aspergido o ar
Morre o espaço envolvente;
O espaço confinado a um corpo (sucedâneo do meu)
-
Tempo, a
envolver-nos.

Adriano Narciso

Um poema do poeta uruguaio Mario Benedetti - Transgressões


















Com muita pena vimos partir há dias um dos melhores poetas de sempre. Já em 2008 tinha colocado aqui uma tradução minha do seu poema Vice-versa. Por agora, achei que este Transgressões se adequava à pequena homenagem que lhe pretendo fazer. O que é viver bem senão um estado de improvisação e inspiração permanente?


TRANSGRESSÕES


todo o comando é minucioso e cruel

eu gosto das frugais transgressões

por exemplo inventar o amor saudável

aprender com os corpos e no teu corpo

ouvir a noite e não dizer ámen

e traçar cada um de nós o mapa da sua audácia

e ainda que nos esqueçamos de esquecer

é certo que a recordação nos esquece

obedecer às cegas deixa cego

crescemos somente na ousadia

apenas quando transgrido alguma regra

o futuro regressa respirável

todo o comando é minucioso e cruel

eu gosto das frugais transgressões.


Mario Benedetti

Tradução inédita de Tiago Nené

Reserva Dunar



Abundante fruto da estação, em cachos maduros
negros, rebeldes, sobre um rosto macio-dúbio
pontuado pelo evento dos seus lábios: carnívoro
carnudo cacto tropical, metade água metade deserto
Mãos invisíveis como se fosse só boca.

Hoje o som da terra estremeceu os condimentos
Todas as formas apontavam à ternura, ao centro
Um corpo rolava sobre o chão castanho claro nítido
Olhei devagar como os camaleões me ensinaram,
caudas enroladas e pendurados nos ramos altos,
aproveitando o esconderijo das folhagens densas,
da mutação cromática sobrando apenas o escarlate:
restos de beijos na fronha de alfazema,
a areia húmida e seu cheiro transparente
na dobra mal passada do lençol.

Ju
{gratas saudações a todos os Textu-(Ais)}

A Hora Implícita - um poema de Tiago Nené















A HORA IMPLÍCITA


a uma pessoa que vive na direcção da sua vontade, em horas implícitas

todos os acasos são subterfúgios, por exemplo
este silêncio é mais lento que
a cabeça que o absorve, fendendo em mim uma página em branco.
[e chove] foi preciso
transformar-me em chuva para que as minhas lágrimas
adquirissem a velocidade que condissesse
com a condição antológica do meu estado.
[e dá-se uma transfusão de estações do ano por detrás
do branco da página]
- um ajuste de contas é circundante,
um abraço cheio comove os nervos dos braços vazios,
através de mim passa o meu corpo, eu vejo-o,
a carne é um gueto escuro, a sua sombra um centro falso
sem gravidade,
o equilíbrio deu à luz o intervalo
que desliga a luz das palavras íntimas - espalho-me por cada
sua raiz que me trouxe até aqui.
[e começo de novo, e alimento-me de mim mesmo]
ainda confundo poesia com amor
e um amor nato e frio com um sorriso radioactivo e dolente
[só os ecos das palavras absolvem]
e um sorriso radioactivo e dolente com a certeza absoluta
e magnífica das coisas que dançam com submarinos no sangue
[a morte ainda nos espera longe:
dará uma vida poeticamente configurada uma morte lírica?]
e no meio de tudo, [retomo], desse silêncio mais lento que o coração que o absorve,
a ideia de que um homem inteligente
jamais colocaria as coisas do seu ponto de vista.
[e limpamo-nos um no outro]
e regressamos na ficção da boleia do pensamento
certeiro de alguém que passa no momento em que nos ocorre
que seria suficiente fazer uso do potencial pandémico deste amor
para acabar com tudo e impedir o regresso e o progresso.
[e a nossa lembrança conjunta, no tempo justo e diurno,
é a única que ainda cresce no jardim da memória.
e a chuva cessa, o sol espreguiça, são seis em ponto,
o frio de palavras inaudíveis
escuta por entre a respiração ofegante de um corpo
que rasteja devagar até mim]

Tiago Nené

in
Cartel

(a publicar um dia)

Um poema da poetisa espanhola Miriam Reyes - Voltei Demasiado Sensata
















VOLTEI DEMASIADO SENSATA


Voltei demasiado sensata,
compreensiva, abnegada,
perfeita até à náusea.
Deixo que te passeies com o teu ar de semental
ao banho, à cozinha por um copo de água.
Se me perguntas
respondo que sim para não entrar em detalhes,
para que durmas tranquilo e rendas na oficina.
É que a mentira é amiúde mais fácil e espontânea,
assim como estarmos juntos.
E o meu corpo é muito confortável,
com esquinas arredondadas
e formas ergonómicas
(sem falar do muito que alberga
e do pouco que pesa).
Não pede nada, não faz perguntas
e prefere desconhecer.
Acolchoado de amor,
há muito que não sente a cabeça.

Miriam Reyes
in
Bella Durmiente

Tradução inédita de Tiago Nené

A Naifa - Todo o Amor do Mundo

Novo Membro do Texto-al

É com enorme alegria que anuncio que Joana Dias Antunes, natural de Loulé, se juntou ao Texto-al. A autora tem-se destacado com a excelência da sua poesia inédita nos blogues em que participa.

[tn]

Um poema da poetisa espanhola Ana Pérez Cañamares - Intimidade















Tenho a sorte de receber muitos livros e, como tal, a honra de me quererem como seu leitor. Desta vez ando a ler o livro que gentilmente me foi oferecido por Ana Pérez Cañamares, que acompanho desde sempre no blogue El Alma Disponible, e que tive o prazer de conhecer em Espanha. O livro em questão intitula-se La Alambrada de Mi Boca. Traduzi este Intimidade.

INTIMIDADE

a minha alma veste roupa interior:
cuecas brancas e soutien negro.

dispo-me na intimidade de um quarto
que é meu.
guardo as chaves no buraco
do meu umbigo. com a escrita
fiz chuva de confetti
sobre o meu coração despido.

há muito tempo
que terminei de pagar a hipoteca.

Ana Pérez Cañamares
in La Alambrada de Mi Boca
(ed. Baile del Sol)
Tradução inédita de Tiago Nené

Um poema do poeta sul-africano John Mateer - O Turista














O TURISTA


têm as mãos nos seus bolsos, à volta do seu pescoço,
espetaram-no no muro.
(nas casas-de-banho públicas não há câmaras de vigilância).

o turista, acabado de sair do avião, não vislumbra testemunhas,
ninguém, excepto ele mesmo, para testemunhar a sua calma e eloquência,
e como ele diz a si mesmo, Eu podia ser um deles,
desfeiteado pela Revolução...

o muro persiste, abrasivo, contra a sua face carnuda,
e de repente é mordido no ombro nesta terra de Sida.


John Mateer
Tradução de Tiago Nené

O último poema de Saddam Hussein














Desata a tua alma. É a minha alma gémea e tu és a adorada da minha.
Nenhuma casa refugiaria o meu coração como tu.

Os inimigos imprimiram estranhos para o nosso mar
E aquele que os serve será feito para chorar.
Aqui revelamos o nosso peito aos lobos
E jamais tremeremos diante da besta.

E sacrifico a minha alma por ti e p'la nação,
O sangue é barato em tempos difíceis.

Nunca nos ajoelhamos ou curvamos quando atacados,
Nós que tratamos o nosso inimigo com honra.

Saddam Hussein
Tradução possível de Tiago Nené

Conceito - um poema de Tiago Nené













[conceito]

para viveres, lembra-te, só precisas

de um conceito.
e depois sabê-lo, sem contudo o decorar,
e constatar que é
impossível
guardá-lo,
porque digamos
que é impossível
guardar
o que deve ser maior,

bem maior do que o que somos.

é isso a vida, podes ir,
tudo o resto é
meramente
científico e teórico.

um dia encontrar-te-ás
num tempo com o teu rosto velho,
desaparecendo
sobre todo o alimento
do espaço que ainda cresce.

Tiago Nené
in
Setembro é um bom mês para nascer
(a publicar quando o autor receber proposta tentadora)

A poesia portuguesa actual, a partir de uma leitura de Disrupção, do poeta Jorge Melícias

I.

A propósito da leitura muito atenta que tenho feito da poesia reunida de Jorge Melícias, com o título Disrupção [Cosmorama], e que gentilmente me foi oferecida pelo próprio, tenho pensado sobre o panorama geral da poesia portuguesa. Jorge Melícias é dos poucos poetas portugueses, mormente entre os jovens, a assumir-se com a sua voz, com um mundo novo e coerente, próximo daquilo que sempre defendi: o artista, em qualquer área, como criador de mundos.

II.

Tenho tido a sorte de ao longo do tempo ter conhecido e privado com alguns poetas portugueses, com os quais muito tenho aprendido. Na realidade todos apontam o dedo à actual crise na poesia portuguesa, ao clubismo da sua novíssima poesia, mas faria falta alguém [e falo dos consagrados] colocar o dedo na ferida, alguém que dissesse de viva voz: como é? vocês vão continuar todos a escrever de forma igual e superficial, apostados numa repetição de algo de há sessenta anos, numa poesia, que afinal é prosa, de casualidades e banalidades, na constante negação do poético? Há um grande autor português, com quem estive recentemente, que me disse que num exercício de escrita criativa, num pequeno curso que ministrou, mandou os formandos lerem alguns poemas de vários autores [desses que aparecem como sendo da nova vaga] tendo-lhes retirado os nomes, sendo que o exercício seria o de os formandos tentarem saber que poemas pertenciam a quem. Escusado será dizer que a esmagadora maioria disse que todos aqueles poemas eram de autoria do mesmo autor.

III.

Sempre que aparece alguém único, há uma certa tendência para o abater, como se a poesia não tivesse a ver com unicidade, com especialidade, com novas formas, mundos e estilos. Há poucos poetas portugueses actualmente, há que dizê-lo, e os novos estão deslumbrados por dois ou três autores que seguem e imitam [o exercício que refiro no ponto II nem seria preciso para o constatar]. Qual o prazer de os ler? Qual o sentido de a poesia ser um trabalho de equipa? Lembrar-se-ão deles daqui a cem anos quando o clube abrir falência e fechar?

IV.

Talvez eu seja um idealista. Talvez peça o que não me podem dar, por incapacidade ou outra razão qualquer. Ou talvez goste muito de poesia. Por hoje vou continuar a ler o meu exemplar de Disrupção e pensar num mundo melhor. Muito melhor.

Tiago Nené

Apresentações de livros em Lisboa e no Porto


















Apresentações de livros


Crematório Sentimental – Golgona Anghel (Palavra Ibérica, bilingue com tradução espanhola de Uberto Stabile)

Os Animais da Cabeça – Rui Dias Simão (4 Águas)

Uma Ânfora no Horizonte – Maria do Sameiro Barroso (Palavra Ibérica, obra vencedora do Prémio Palavra Ibérica, bilingue com tradução espanhola de Uberto Stabile)

O Pequeno-almoço de Carla Bruni – Rui Costa (Palavra Ibérica, bilingue com tradução espanhola de Uberto Stabile)

Agência do medo – Santiago Aguaded Landero (Palavra Ibérica, obra vencedora do Prémio Palavra Ibérica, bilingue com tradução portuguesa de Tiago Nené)

Privado – Fernando Esteves Pinto (Canto Escuro)


Lisboa: dia 15 Maio na Livraria Pó dos Livros, às 18:30

Porto: dia 16 Maio na Fnac NorteShopping às 18:00

A morte de um 'homem-gato' - de Adriano Narciso


A morte de um 'homem-gato'

[os corpos movem-se elipticamente, pintando o crepúsculo de um azul-baço. seguem-me o fio do olhar e queimam-no, sopram-no friamente. são corpos quentes.]

-Nasci outra vez, conheci novamente a morte do gato. Tem duas horas de vida e não sabe. Chego a casa. Está a beber água. os lábios mordem-se, entrelaçando-se. a água mistura-se com os silvos secos do sangue.

Deita-se e dorme, inconsciente do sofrimento que nos move. dez minutos e noite.
sento-me ao lado. durmo e acordo.


Adriano Narciso

Três notas com a sua relevância















1. O facto de este blogue ter ultrapassado os 100 seguidores é motivo de vaidade (minha vaidade, note-se).

2. Hoje vi um ex-professor meu que não via há 20 anos. Conduzia o mesmo carro, um seat ibiza vermelho. Que mais não terá mudado nele? - pensei.

3. Para um novo ciclo na nossa vida há que ter a banda sonora perfeita. Escolho claramente o piano do nosso amigo Fernando Dinis.

[tn]

Poema aos Amantes - um poema de Tiago Nené













POEMA AOS AMANTES


[aos amantes]

tão vazia a cidade mas tão próxima
de nós,
veios respiráveis dentro do ar que se fixa à nossa volta,
janelas contra janelas
da vida do silêncio ferido, cenático, errático,
e depois o branco, o mesmo
branco das
ocorrências que esfriam o sangue.

tão vazia a cidade, tão fria em nós,
tão leitura contínua sobre
a viagem de uma narrativa em que somos
personagens
para trás, atrasadas ao nosso final.

Tiago Nené
in Geração Wicca
(a publicar em 2055)

Nota do autor: depois de escrever este poema, lembrei-me de uma música que não ouvia há muito. Apetece-me partilhar.

Da Inveja - Tiago Nené















DA INVEJA

[aos anónimos de si mesmos]

A maneira mais sincera de um autor sentir um elogio é sabendo que é invejado. A expressão dessa inveja traduzirá sempre um juízo de admiração sobre a obra, sendo que ainda mais sincero porquanto involuntário e produto de um estado de consciência alterada. O que está implícito é mais inalcançável ao emitente, muitas vezes distraído com as possíveis direcções da sua raiva. O autor, perante tais factos, estará sempre numa situação confortável e feliz, lisonjeado com o interesse despertado, facto que atrai sempre outros leitores.

Por isso, o autor invejado é sempre aquela que vai mais longe. Por estar mais motivado e pela polémica em torno do seu nome. Os invejantes, por vezes ocultos e anónimos dentro de si mesmos, procuram, no exercício da sua inveja, a compensação para o esquecimento que o mundo lhes guardou.
.
Tiago Nené
in Micro-Ensaios
(a publicar em 2060)

A Palavra «Gongo» - um poema de Tiago Nené














A PALAVRA «GONGO»

[aos meus amigos, até àqueles que não sabem voar]

a palavra «gongo» não faz bem
a este poema, nem a palavra «carvão» ou «permanecer» ou «noite». é que o que voa não precisa de uma base, e afinal este poema não precisa de quaisquer palavras.

Tiago Nené
inédito

Fotografia de Nuno Miheiro

O semblante de um homem angustiado - de Adriano Narciso




O semblante de um homem angustiado é uma sala vazia com uma natureza morta no meio, em cima de um cavalete (as tintas ainda escorrem sobre a tela). O tecido dos sofás, de tão puído, cede a sua consistência ao próximo que se sentar. Mesas são tripés; as pernas soltas são lanças enfiadas em frigoríficos que expelem pelos poros improvisados tetrafluoroetano, que inunda a sala e a transforma num Alasca tóxico de emoções.

Adriano Narciso

Um poema da poetisa espanhola Carmen Camacho - Definitivamente Vermelho

















DEFINITIVAMENTE VERMELHO


LEVOU TEMPO A DESFAZER-SE das canções
que falavam do azul,
dos amores seus que tudo viam azul, do azul das moscas,
do sabão, dos lençóis às bolinhas e de cortesia,
de toda a poesia que sugere o azul. Do azul. Sonhava
melhor o ciano, mas também não.

Quando ela, que haviam proclamado marina
e celeste, da cor da pupila encravada do insuportável gato
triste, finalmente decidiu
pronunciar vermelho, um vermelho menta e avecrem,
e viu - já o sabia-
que nada nem dentro nem fora nem entretanto era
da cor plástica dos cavalos expressionistas,
disse:

Há coisas absolutas, esta o é decerto.
Definitivamente Vermelho.
Não mais concedo. E concluiu: quem não está comigo
contra mim está.

Foi então que ele se atreveu a falar-me, pela
primeira vez, da voracidade habitual, terapêutica e desequilibrante,
das minhas palavras vermelho escuro.


Carmen Camacho

Tradução de Tiago Nené

Foto: Tiago Nené e Carmen Camacho
(Punta Umbría, 2 de Maio de 2009 - Edita/Palavra Ibérica)

Edita/Palavra Ibérica '09

Uberto Stabile faz, no seu blogue, uma boa cobertura do que foi o Edita/Palavra Ibérica '09, onde estive. Pessoalmente destaco as conversas com Maria do Sameiro Barroso, valter hugo mãe, Jorge Melícias, Pedro Gil-Pedro, Carmen Camacho e Ana Pérez Cañamares.

[tn]

Amália Hoje - A Gaivota

A vida de um 'homem-gato' - de Adriano Narciso

O gato expele as mandíbulas com a força de toda a sua matéria. O todo não é o absoluto e o gato leva dias nisto, nesta luta incessante entre um ser que é tudo e um parasita que nem respirar ou dormir permite.
E nós morremos por isto. Morremos todos os dias milhões de vezes quando resvalamos no abismo do nada e o nosso todo é impotente.
Há bichos-nada piores que tudo, que todo o nosso ser.

Vejo-o ainda espernear, vagabundeando por entre as divisões com a estranheza de quem conhece mas vê tudo com novos olhos.

Adriano Narciso