Um poema de Tiago Nené - Corações de Plenilúnio




















Corações de Plenilúnio


[ao Frederico]

a entrada secreta é breve como
a abertura dos lábios meramente à PALAVRA.
a necessidade de uma necessidade gera
a incompletude que produz o néctar
no coração feminino de plenilúnio.
as folhas no ar conduzem borboletas inatmosféricas,
o vento conduz o ódio que a criação retém
num fio de silêncio atravessando
a transparência oculta da matéria.
a entrada da espera é breve
e emancipa um segredo que ainda se funde
nas membranas de uma tentativa
assertiva e ovípara de coerência.
esperar por ti é esperar que o primeiro final
da história que ainda corre num só cateto
te desiluda como um relógio que pára,
um gato subitamente fusco, ou
um verso mau do nosso poeta preferido.

Tiago Nené
inédito

Teoria do Fim - um poema de Tiago Nené




















TEORIA DO FIM


[a Graciela Perosio]


não sabemos o caminho de regresso / ao nosso começo.
talvez nos tenhamos perdido / no infinito caótico da criação,
o infinito no rosto que muda / noutro infinito que fica
no sorriso que intui. / tirámos todo o silêncio / das
entranhas da terra para saber que a nossa estadia mútua /
é uma marioneta nos reflexos de um e de outro, /sendo que
aqueles, os reflexos, estão condicionados pelos espíritos, signos,
ou pela maneira peculiar e inata / de se comer uma laranja azul
[mas isto, claro, é uma mera suposição].
não sabemos o caminho de regresso ao nosso começo, /
é esta a questão. / talvez porque não seja o mesmo, o caminho, /
talvez porque este não esteja exactamente no mesmo lugar
e se tenha transformado num verso [num verso em linha recta],
talvez porque o começo esteja noutro lugar ou tenha havido dois
que se cruzaram, enlearam e perturbaram,
ou talvez porque o fim tenha simplesmente mudado de lugar.
[e tudo isto, claro, são meras suposições]

Tiago Nené
in
Teorias para um Mundo Melhor

(edição de autor, para amigos ou para quem prove que tem um interesse legítimo na aquisição da obra)

Poema e Poeta são o mesmo













um poema
é dedos que já não são dedos.
osso apenas
mãos que escreveram poemas lidos
quando o poeta era poema
em potência

Há no poeta do poema
poemas de poetas distantes
mas ubíquos no corpo, dedos como deuses.
Há músicas que não se conhecem sequer
[são de outros poemas
ou de outros poetas]

Há um fosso
entre o poeta e o poema
uma construção vertiginosa do acaso
que se transpõe com um passo
porque o poema,
na sua essência, é o poeta.

Adriano Narciso

Pintura: Depois da orgia, de Cagnaccio di San Pietro

Um poema do poeta chileno Alvaro Ruiz - De um homem só numa casa só















De um homem só numa casa só


a Jorge Teillier

Não fomos capazes de incendiar a casa
Reduzi-la a cinzas
E partir para os bosques
Sem medo
Trauteando velhas canções irlandesas
Como aquela do marinheiro bêbedo
Shanties extraídos de velhos cancioneiros celtas
Pelos caminhos poeirentos do estio
Por alamedas que iam dar à praça do povo
Onde as raparigas pretendiam o teu coração de cotovia
Agora coberto por um bolso frio e depositário
De estampas angelicais e medalhas protectoras
Num bar de madeira na baixa de Santiago
Com a mesma canção - aquela no ouvido
Que vamos fazer com o marinheiro bêbedo!?
Cruzando os braços sobre a mesa de um outono à janela
Com toda a obliquidade da luz no rosto.

Alvaro Ruiz
Tradução de Tiago Nené

O Estrangulador de Bonecos de Neve - o novo livro de Carlos Vaz



















O cuidado, essa derivação não científica de outras categorias como a de rigor, parece-me ser uma das vertentes fundamentais da escrita de Carlos Vaz; tipo de depuração que nem sempre se nos apresenta do mesmo modo: rondando a musicalidade onde a estrutura narrativa é secundarizada ante o fulgor do dito, como em Gabriela Llansol, em “Capricho 43”; o burilar da linguagem que, sem perder uma certa poeticidade, opta agora por uma mensagem directa bem ao jeito de escritores como Mário Henrique Leiria, em “O Estrangulador dos Bonecos de Neve”.


Este cuidado, ou melhor, este medir forças com a palavra recusando todo o tipo de estatismo sintáctico – que também pode ser encontrado na poesia de Carlos Vaz – faz-nos ver a escrita deste autor como um organismo que incessantemente se reformula e (re)enuncia nessa procura que a si própria se impõe: a de um persuasivo resplendor que, armadilhando o leitor num jogo de encantamento e sentidos vários, nunca cede na construção de novos paradigmas do dizer, que, contudo, jamais se afastam do real concreto nem de múltiplas inquietações de cariz existencial e histórico-social.

Victor Oliveira Mateus


A sua escrita desperta-nos do sono amotinado onde a raiz do sonho se liberta, na sua mansão de sendas puras e se revela em indómitos fulgores, depurados dos escolhos do banal e do supérfluo.


Os monstros do silêncio e da vigília pontuam os seus textos. As suas fronteiras abertas, fundadas na matriz ontológica que a sua marca transporta, fixam a matéria do mundo, no seio da verdade e do lume, velada pela clarividência fluida dos afectos.

Maria do Sameiro Barroso


Carlos Vaz ata os seus próprios nós no fio que escolhe, dialoga com as “cabeças” convocadas para a sua viagem textual, longe e perto do mundo, unindo razão e sonho, “arquitectando ilhas” com pontes de sentido entre si. A busca é textual, mas o mundo fica enriquecido.


Maria Teresa Dias Furtado

O Estrangulador de Bonecos de Neve
Editora: Labirinto
Blogue do autor: Textualino

[tn]

Clube Literário do Porto





Gostei do novo aspecto do blogue do Clube Literário do Porto. É uma das minhas prioridades assim que visitar a invicta. Quem sabe um dia não possamos fazer algo em conjunto.

[tn]

Matéria















Quartos escuros,
cores opacas e disformes,
ecos suspirados aos ouvidos de virgens alarmadas
penetradas por luzes vagas,
vagões austeros de cores inebriantes.

Cheiros metamorfoseados
nascem sons doces
degustados.
Salpicos céleres de seres,
sombras que são:
Fotossíntese numa câmara escura;
fotografia natural, meta-verde,
pálida,
florida graças à mão do Homem-Deus.

Adriano Narciso

A Densidade dos Sistemas - um poema de Tiago Nené




















a densidade dos sistemas


[aos perfeccionistas]

o onde é demasiado denso para o quando,
o quando é demasiado denso para o quem,
o quem é demasiado denso para o o quê,
o o quê é demasiado denso para o porquê.
rejeitar as coisas que não tens
é acender o rastilho do tempo que resta,
a densidade comparativa dos sistemas
destruí-los-á um por um:
primeiro o espaço, depois o tempo, depois
o facto consumado, depois as dúvidas
e finalmente as explicações infundadas.
- e nós?
- nós acabaremos por subsistir no território
da alma, sem densidade alguma.

Tiago Nené
inédito

imagem de Evgeniya Kashina

Manta de Retalhos

Rodada, comprida, tingida de rosas
deixando na manhã um rasto de nevoeiro.
Um óbvio constrangimento tudo trespassa
como se todos soubessem onde nos escondemos.
A história repetida ao contrário,
revelada em pequenos soluços
segredos e palmas e dor e luzes
e uma vida deformada
para caber num molde estranho.
--
Quando o projector iluminar as minhas mãos,
(a minha deixa), entenderei a tua mensagem.
A minha fala é esta: o silêncio
--
despindo cuidadosamente
--
a tua manta de retalhos.
--

Ju


imagem:Mondrian

Hipocondria

Ar sem garganta.
Nariz inerte deserto.

Dissolvemos o açúcar em água quente como o
crematório dissolve corpos.
Pessoas-vapor voam pela chaminé
sem asas voam sem serem anjos (porque dos anjos nada se sabe;
eunucos não falam).

A inércia é detida pelo acto da ebulição,
pelo osso que agora é pó, pela boca que é tudo menos palavra,
que é ar,
que é breu,
que é chaminé,
que é voo. Que não é material humano.
Porque homem não voa senão na morte.
E já não sendo homem é natural,
sem roupa,
sem boca,
sem nada senão o pó de uma sala que se limpa
e se esquece.

somos
matéria com validade para a lembrança.
Souvenir que começa no falo e acaba na chaminé fálica.
Somos sacos que carregam tumores como quem carrega frutas em sacos.
Tísicos seres plásticos que crescem e se transformam em ar
de chaminé.

Adriano Narciso

Festival Med 2009 - Loulé - Algarve

Saídas nocturnas














Saio de casa e são sempre noites que
encontro.
tocam-me na fronte,
disparam morcegos e almofadas.
são ovelhas na tosquia, secas,
(sem o romantismo inglês da
lã.)
almofadas sem lã disparadas sobre mim.

Ruas graves, pintadas de crime,
e os candeeiros são testemunhas:
apontam com os dedos
luminosos para lá.
Os meus pés presenciam um genocídio de
formigas, de sémen que é dispensado
sempre que piso o chão.

E a rua enche-se de breu.
caem os candeeiros
e as estrelas presas aos candeeiros,
e as mãos
e as roldanas que as movem caem também.
Os pés, esses, continuam.
São breu,
sou eu.

Adriano Narciso

Agência do Medo, de Santiago Aguaded Landero



















Livro e Autor: Agência do Medo, de Santiago Aguaded Landero (Prémio Internacional Palavra Ibérica 2009)
Leituras de Cidália de Brito
Apresentação de Tiago Nené

Dia 26 de Junho às 21h
Local: Bar Cyti_0 – Largo Pé da Cruz – Faro

Dia 27 de Junho às 21h
Local: Recreativa Olhanense - Olhão

Organização: AAPA / Sulscrito com a participação do Texto-al.

O degrau

A pele entra em ebulição, os olhos gelam, o corpo é um completo paradoxo.

- Sento-me numa escada e vejo outros subirem, descerem. Os objectivos de vida sobem e descem com eles. Eu, estático, fico-me naquele mesmo degrau. Os objectivos desistiram de mim e desceram. Saíram porta fora e comprimiram-se no vento gelado da rua.

Adriano Narciso

Governo - Meio Bicho e Fogo

GOVERNO - Meio Bicho e Fogo from 8 e Meio on Vimeo.

um grande abraço ao nosso amigo valter hugo mãe por este enorme projecto.

Tiago Nené

Circuito de Manutenção

O vértice de ver e lábios como ameixas
pernas de garças varrendo os sapais
é o tempo dos caracóis em cachos
trepando paredes claras e quentes
ou desarmando num rosto redondo.
--
Corriam as telas pintadas sobre os trilhos
brilhantes como lâminas; afundei no assento
-quantos quilómetros faltarão ainda percorrer-
suspiro -para pousar a mala à porta da resposta.
Subindo e descendo a estreita faixa atlântica,
desencontro-me da figura invisível.
--
Agora dançamos com a verdade nos olhos.
--
Ju

O Terramoto - um poema de Tiago Nené
















O TERRAMOTO


[a uma pessoa intemporal]

querida joana,
o terramoto apanhou pessoas que faziam amor,
pessoas que morriam de uma causa lenta e dolorosa,

pessoas que celebravam contratos com apertos de mão,

pessoas com instrumentos na terra fértil,

pessoas que faziam de conta,
pessoas sem relógio.
os que faziam amor perpetuaram-no,
os que morriam
viram a sua morte impedida
por uma colectiva e mais bem aceite,
os que celebravam contratos perderam as mãos coladas,

os que trabalhavam na terra fértil foram soterrados,
os que faziam de conta procuraram cumprir uma promessa,

os que não tinham relógio escaparam ao tempo.
meu amor, sermos egoístas é tentar impedir que as coisas mudem,
sermos intensos é não respeitar causas e efeitos,

espero-te no meu futuro, ainda que ele
não seja
o efeito directo de um presente que ainda treme muito.

Tiago Nené
in Polishop

(em preparação)

Punctum
















Céus trespassados por lâminas
incautos cérebros azuis, escarlates,
são crianças que choram
ao sabor da espada aérea,
que desce e enviesa na terra fértil.

Significados aleatórios
rolando por toda a parte.
Barthes chora por isto,
por não poder assistir incrédulo
a tudo isto.
pontos ministeriais que captam a retina
movem-na até esse ponto central,
focal.
focam-na!

Crepúsculo esvaído em sangue
que no acto do corte
se afoga no vermelho lânguido
que flui
descendente.

As lâminas retomam o trabalho sensorial,
sensuais sabres ordenados padres
trazem o Apocalipse.

Céu, arranha-céus, prédio, casa, campo, flor.
A verticalidade desemboca no oceano
e o sangue funde-se ao azul-marinho das sereias.

Adriano Narciso

Fotografia de Roland Barthes

Faz de Conta - um poema de Tiago Nené














FAZ DE CONTA


[a uma mulher bonita]

faz de conta: que
a festa acabou, a felicidade continua,
e nós ainda escolhemos
o vocabulário
para nos cravarmos os dedos
na pele móbil
como o tempo que nos esquece
sem fazer de conta, sem
germinar ou colocar a nossa beleza
conjunta na ambiguidade de uma boca
maternal,
sem umas mãos que nos exonerem
da linguagem indiscutível,
veneno azul,
que nos aproxima os silêncios
que hão-de vir
e as artes materiais dos fármacos.

Tiago Nené

in Designações da Beleza
(a publicar)

foto: Ana Mokarzel

Religião


















Prendo-te as mãos ao p
eito,
Elas caíam de outra forma.

Há muito tempo deixou de fluir sangue,
divino vinho do corpo,
por esse corpo árido, sem uvas.

Prendo-as e elas insistem em cair.
rebolarem pelo teu corpo
(passarem pelo ventre originário, precursor: éden)
e caírem num chão que,
de tão fecundo as destrua,
tornando-as úteis, funcionais.

Por enquanto são só crentes,
mãos em concha, juntas.
São ligação Deus – músculo sagrado
(coração, fibra primeira)
só te servem de consolo, não escavam a terra,
inúteis na criação.
Na vivência desmesurada.

Adriano Narciso

Um poema da poetisa algarvia Inês Severino




















O céu tem cor de sangue
está sobre mim
a luz envolve-me
como se estivesse numa câmara escura
A minha pele é cor de sangue
Ou será que é o sangue que escorre pela minha pele?

Premonição

O sangue escorre na pele branca
“é quente” diz ele
Os seus olhos brilham
O sorriso toma conta dos seus lábios
Uma gargalhada sai da sua boca
“tenho o poder de tirar uma vida”
A ânsia toma conta do seu corpo
Quer mais…e mais
Um não chega…precisa de matar outra vez
Não o satisfiz

Inês Severino

O beijo


A bomba caía,
Leve.
[Asas dúbias,
Ícaro de pólvora com asas de metal que derretem no sol
o]

Risca o céu;
enviesa,
cruza pórticos transcendentes que clamam a deus,
pórticos que sopram em vão os rastilhos
acesos como sóis em quartos escuros
que se esmorecem sobre a terra e
atingem a matéria das flores.

os campos aninham-se.
jazem juntos. Amontoam-se corpos nus.
[as explosões são tão eficazes a unir pessoas
que as destroem]

Antes da morte há segundos em que se ama o mundo
como é
ama-se tudo de todas as formas,
formas saudosas,
imagem exangue de
lírios a baterem com as pétalas noutros lírios.

explosões influem e o amor é tanto
que somos todos os dois amantes do desenho de klimt.
no fim
a cegueira é imagens de lírios.

Adriano Narciso

Anasarca

No rebordo dos justos, onde o vazio envelhece para lugares maiores, já ninguém vela o soro dos que sobram. Despidos aos pedaços, desligam-se do tempo para remissão dos espectros que lhes saboreiam a miséria. Como dédalos. São os (in)voluntários da memória, ilegíveis, ao encontro do estro entre as paredes do limbo. Do berço compulsivo que é a ilusão de um ventre.

Escrevem e reescrevem a cronologia das metades. Um diário de drenos onde comem as datas que com impudor infectámos. E impudicos somos, como soturnas fraquezas em fila de espera, distribuindo cicatrizes pelas orações dos outros.

Há os que tingem a noite quando gritam. Arrastam restos de amor e outros objectos cortantes e sonham que os esfaqueiam. As mãos vãs, flagelando-se, não emendam o romantismo lutuoso de um jantar à luz das ambulâncias.

E os dias tornam-se punhados mortos. Abruptos. Pecados fulcrais, bem mais do que sete, lentas orlas em ruínas nos subúrbios do medo.

Escurece.

A dor demora-se. Deixa-se ficar, táctil, fervendo em canções de seda e sangue e fezes. Carece de corpos emendados de frente para a noite. Que não lhes falhe o epicentro de todos os fundos. Os vocábulos uterinos. A coragem.

(para nova tentativa de suicídio)

Amor de tarde - um poema do poeta uruguaio Mario Benedetti




















Com mais atenção tenho relido a obra de Mario Benedetti, um dos meus poetas de eleição. Há algo de muito especial na escrita aparentemente muito simples, uma mágoa e nostalgia que percorrem todos os poemas, uma sensação de lamento, a criação de um ambiente. Talvez um bom poema não dependa directamente das palavras, talvez as melhores palavras e ideias não formem o melhor poema, talvez as sensações estejam noutro campo, quem sabe bem perto dos outros, mas só ao alcance de uma sensibilidade bem apurada. Lendo este poema, lembrei-me do poeta português José Carlos Barros [Prémio Sebastião da Gama 2009], único poeta português contemporâneo em cuja obra vejo este tipo de características.
.
AMOR DE TARDE
.
É uma lástima que não estejas comigo
quando vejo no relógio que já são quatro
e termino a planilha e penso dez minutos
e estico as pernas como todas as tardes
e faço assim com os ombros para descontrair as costas
e estalo os dedos e arranco mentiras.
.
É uma lástima que não estejas comigo
quando vejo que no relógio já são cinco
e eu sou uma manivela calculando juros
ou duas mãos que pulam sobre quarenta teclas
ou um ouvido que escuta como ladra o telefone
ou um tipo que faz contas e lhes saca verdades.
.
É uma lástima que não estejas comigo
quando vejo que no relógio já são seis.
Podias chegar de repente
e dizer "então?" e ficaríamos
eu com a mancha vermelha dos teus lábios
e tu com o risco azul do meu carbono.
.
Mario Benedetti
tradução de Tiago Nené

[tn]

Reflexo psicanalítico de um Édipo




As mulheres correm plenas de ar
por entre vácuos recém-nascidos
que as respiram,
consomem-nas carnalmente
como cigarros durante a guerra

Da cópula sai terra,
fogo,
Rebentam-se as águas
e o lume que saía
escorreito
extingue-se como o sexo pueril
na sociedade pré-freudiana.

Saem bebés das lúgubres mulheres.
Munem-se das facas bronquiais, dos laços umbilicais.
são causa primeira dos rasgos na polpa maternal,
que expele CO2 e H2O com corante vermelho-carmesim.

Há lápides pintadas de consaguinidade no fim

Adriano Narciso

Submersão - um poema de Tiago Nené
















SUBMERSÃO

[a uma pessoa demasiado especial para ser compreensível]


sem desatar o nó de cegueira
ou deixar cair o pano,
direi que a submersão
chegou ao ponto de nos acharmos
dois estranhos sem tacto
num dos milhares de pontos.de.vista
do fim, esperando a esperança
de um próximo começo.

Tiago Nené

inédito

Banda Sonora:
Beck - Everybody's Gotta Learn Sometimes

Um Pote de Ouro



entretanto escrevo, com o bico das minhas penas gasto
a minha tinta é o barro do meu terreno, no sopé do Caldeirão
sublinho arrancando rosas velhas, sublimo a tua ausência.
Vi os frutos das videiras num cabelo muito escuro
Regava com carinho ao sol posto as sobras de Maio.

Sempre procurando respirar perante as mãos estendidas
majestosos troncos cheios de seiva e sábia compaixão
profundo na serra, junto dos cactos selvagens, de uma velha ruína
depois da vigésima curva atravessando um silvado emaranhado
encontrei um antigo pomar de romãzeiras agora livres dos homens
cheias de bicho suas flores vermelhas prometendo
matar a sede a quem nunca as encontrar.
Lá posso ser eu apenas eu, despir-me do cansaço
sentir as mãos da terra firme segurando o peso de minha cabeça.

Ju

fotografia de Carlos César Pacheco


Aung San Suu Kyi - um poema de Tiago Nené














AUNG SAN SUU KYI
.

montemos o circo. façamos

de conta. deixemos

que o sonho acorde e confesse.

sintamos todo o impacto

de ver as palavras de pele

tomarem forma

e rédea de coisas lúcidas

presas no desejo de um pequeno erro.

o nosso coração

é a nossa cabeça, e para sermos felizes,

ou temos sorte,

ou somos brilhantes.

somos romeu e julieta,

reféns perfeitos

de todos os sonhos.


Tiago Nené

inédito


Búzios


um novelo de braços flutuantes que súbito rasga o ar
não consigo sentir o cheiro da tua pele
existe entre nós uma bola oca de diálogo
a máscara do dia, sob as palavras.
Os olhos procuram.
Tacteando a conversa procuro caminhar
sem ver o nosso chão, posso apenas senti-lo
primeiro procuro senti-lo com as pontas dos pés.
--
Imagino-me o réptil rastejante
todo o meu corpo no nosso chão aceso
por trás do pano preto dos fantoches

--
onde as tuas formas existam
corpo de gengibre e hortelã
como os raios de uma roda de bicicleta
por baixo do sol, o teu vestido às riscas.
LadyBird
Ju

No Café


Chego e entro.
O café e a empregada jazem no mesmo sítio.
Mudos,
Suplicam por mim,
enchem as pupilas nauseabundas de luz
ao verem-me ser cliente.

Sento-me no lugar da cadeira.
não se incomoda e dá-me as boas vindas
de quatro.

Cheiro o ar e sou pulmão
do café, respiro por ele.
depuro

Chega a mulher, arrasta-se, exaspera,
reza pelo pedido com olhos moles
que parecem beatas no chão.
Consumida.
:
-um café e um pastel (s.f.f.)

(traz-me tudo aquilo como se traz uma hóstia,
como quem crê na salvação através da comida)

Bebo, como, leio Dostoievski
e a mulher arrota por mim. Alegra-se por ser miserável.
Se lhe pedisse, vomitava.
:
-A conta se faz favor.
Pago, saio. sou
metástase

Adriano Narciso