Lua Cheia



Que há de novo com a lua cheia
Trazendo na mão o bouquet da florida dor
Amar é tantas vezes deixar ir
De novo e de novo e de novo
na roda gigante de saia rodando.

Amarelo redondo queijo guardado no céu
Uma nocturna via rápida pelo mar dentro
Estrada de luz atravessando o calor.
O coração despido deitado no chão
Sobre a areia molhada apenas estavam
Corpos paralelos em silêncio prateado.

Aqueles que ao longe julgavam ver
Uma pedra rolando na onda brilhante
Era o peito de ave ferida que aí ficara
Tão dorido se fez sólido, pedrinha de charco
Embatendo nos cascos dos navios-fantasma.
--
Ju

Campanha - um poema de Tiago Nené















CAMPANHA


o candidato não deve preocupar-se
com certas questões,
são quinze dias terríveis,
e isto não é uma equipa de futebol.
aqui não há artistas e ainda temos
uma lacuna no terreno: não conhecemos
nem a ti maria, nem o zé bois,
nem boa parte da população
de risco ao h1n1
e possivelmente resistente ao tamiflu.
precisamos de mais gente,
e o voluntariado está difícil nos dias de hoje.
aqui todos têm opiniões,
[o mandatário projecta-se
dentro de si mesmo,
por entre o silêncio que antes
lhe esculpiu as feições]

há uma técnica de comando e controlo,
um yin e um yang,
e temos uma auto-estima muito prodigiosa,
fortemente disciplinados quanto
à delegação de competências
e dinâmica de grupo.
por isso não entendo
como é possível
passar-se à noite
de carro pelo concelho

e ver-se o candidato a colar os cartazes.

Tiago Nené
in
Comédia

(a sair em 2012)

Fantasma.



Espreito por entre
Um rio vermelho
Que é sangue
E tristeza e choro.
Um quente que adorna,
Escorrendo pela incerteza
De um fantasma de escárnio
Escondido…

E espreito, olhando
Toda essa mágoa ao espelho,
Onde encontro pedaços
De um conhecido
Que ainda sorri ao longe
Uma lembrança
Do ser que foi,
Ao mesmo tempo
Que soluça um e num
Presente doentio,
Como o gesto
Que o pintou.

Na berma da cama
Pingam cores numa
Só, que é a que cobre
O chão do mesmo.
E no metal, que é
Da faca, ficam
As breves memórias,
Na história
De um momento
Que se irá, quando
O fantasma se perder
Do conhecido
E ficar apenas fantasma…

Ausência, poema para ler devagar


















Os gatos dormem,
etéreos como borboletas em almofadas;
ervas que nascem no céu e
pendem,
tocam-nos na testa como chuva
de fogo
que arde
quando arrefece na pele
da consciência

Quando morrem pessoas
as ervas crepusculares nascem
da sua memória,
descem até nós,
roubam-nos água dos olhos e

A pessoa torna-se telúrica -
e todos os rios, todo o chão,
são ela
e são dela
todos os risos e choros e olhos
porque,
quando nos morre uma pessoa
ela desce e cai em nós

Adriano Narciso

Um gato
















Gato na foto: Abacaxi

Asas

Olhas-me serenamente, no mais profundo de ti existe a palavra. A única palavra, talvez a mais verdadeira. Dizes-me,
- É complicada a língua portuguesa,
E de súbito desvias o olhar para qualquer outra coisa que momentaneamente te faça esquecer o motivo que te trouxe aqui.
Sorris-me. Durante instantes penso se te deveria sorrir também,
- (é complicado entender o coração),
Apetece-me dizer-te.
Pronuncias apenas mais um par de palavras às quais não dou nem saberei como dar o devido destino. O meu olhar perde-se no semáforo da avenida.
Há anos que a tua intermitência me recorda um semáforo continuamente avariado. Há anos que finjo poder consertá-lo, há anos que evito colisões frontais.
Dizes,
- Desculpa.
E a palavra a cair cá no fundo. Tão oca, tão breve, tão só. A única, talvez a mais verdadeira…
É complicada a língua portuguesa.
Como dizer-te sem usar palavras que não posso e não quero perdoar-te? Como dizer-te sem ferir-te os sentidos que sou apenas mais um animal feroz a quem foram roubadas as garras?
- Sim, tudo bem.
Depois beijo-te, levanto-me e vou para onde me guiarem os pés, que são, por vezes, apenas asas comandadas à velocidade furiosa de um coração inundado pela dor.

pena capital

hoje vou passear em Lisboa

[tn]

Os Nossos Dias, de Miguel Godinho

Já fazia falta alguma produção poética made in algarve. Parabéns.





















Os Nossos Dias, de Miguel Godinho.
Editora: 4 Águas

Louco


Tenho coisas na cabeça,
Tenho a cabeça vazia.
Milhares de cópias que se
Propagam, demolindo
Minha razão.
Num plágio inocente
E culpado,
Desejado e repulsivo,
Consciente e involuntário.
E de entre o que está
E que eu sei que não sei
Ao certo que seja,
Está um louco que sou eu
Ou uma cópia de um
Outro louco parecido
Que não se assume.
Conversa sozinho.
Não sei o que diz ou,
Finjo não saber.
Afinal o que ele fala
Pode ser igual ao que eu digo
E, o louco, já não seria
Algo mais do que um
Ser sem sentido.
Tenho coisas na cabeça,
Tenho a cabeça vazia.
E enquanto caminho confuso
Sou um ser que não eu
Nem louco, nem outra
Coisa senão esta coisa vazia…

Taxonomia - um poema de Tiago Nené




















TAXONOMIA

a verdadeira taxonomia dos géneros
remete-me para a obra de ilmar laaban,
rumores claros ao arquivar o som.
e eu escrevo,
os vizinhos queixam-se da minha autonomia
e independência sonora,
do modo como bato os ovos
e concebo uma omelete de som e cassandra.
algumas pessoas circulam em mim
descalças com os pés na água índigo,
preocupadas com a estética
de um discurso ilógico sobre os bunkers
de uma identidade ocidental,
pessoas experimentais
que discutem a feminilidade em silêncio,
não entendendo nunca o papel
da tecnologia na poesia, o seu mestrado
sobre a memória contemporânea
dos meros corpos, e o elo perdido dos
vanguardistas sem contextofobias
porque os seus diplomas arderam
noutros obstáculos biográficos.
i must be free now i must be free now
and should not hesitate

i should go now but instead
instead
instead there's i mean
há um século xxi por ensaiar
e um futuro neo-determinista
a colocar de costas
para a minha performance pletórax.
e eu bato, continuo a bater os ovos
até ver uma gueixa a tocar shamisen
e eu mato, uso-me comparativamente,
doo-me como um revólver quente,
e eu morro, e eu escrevo, e eu sinto.

Tiago Nené
inédito

Profecias




















No dia 20 de Março tive este pensamento. Estava certo. Mas falta o resto. Assinalarei assim que se verificar.

[tn]

Demanda

Usaste poucas palavras. Ensinaste-me desde sempre que não precisamos utilizar muitas se o fizermos com o coração, se o fizermos como se nos amássemos em cada letra, como se nos abraçássemos em cada verbo.
- sou a mulher mais triste do mundo,
Disseste.
Sem deter-me nos pormenores, sorri ao papel que se estendia diante dos meus olhos. Confesso que, de certa forma sempre me fascinou essa tua atracção pelo dramatismo, esse misto de ligeireza e leviandade.
Gostava de poder-te tê-lo dito um dia. Um dia em que os corações se calassem para ouvir apenas a voz que, de quando em vez, ecoa no seu interior, que, de quando em vez, se une na batida descompassada de um amor a quem nunca poderão ser impostos limites.
- sou o homem mais triste do mundo,
(Acredito que a fragilidade é, de certa forma, contagiosa.)
Continuo a escrever-te. Nada me pode deter. Prometi dizer-te tudo apenas numa carta, prometi poupar-te à tristeza das minhas metáforas e à inabilidade dos meus oximoros.
Afinal tu bem sabes, não há nada mais aborrecido do que casar com um escritor.
Pediste-me para ficar só. Sorri-te. Afinal, o que é o amor senão solidão?
Não tenhas medo. Não te pedirei para ficar. Não há cartões de embarque com passaportes caducados.
Nunca poderás perdoar-me, eu sei. Nunca poderás entender que é na dor que encontramos o mais perfeito miradouro para o coração, o mais completo caminho rumo ao sentimento.
Disseste,
- sou a mulher mais triste do mundo,
Não tenho coragem de ler o final da frase. Dói-me a inevitabilidade do verbo que se segue.
Talvez tenhas razão, talvez eu seja apenas mais um daqueles a quem falta arte e sobeja hipocrisia.

Notícia

Isa Mestre juntou-se ao Texto-al.

Maioria Absoluta, um poema de Tiago Nené















Maioria Absoluta

reciclar-te é teres

a maioria absoluta da minha incompletude,
comoveres-me é teres
a maioria absoluta da minha beleza,
inventares-me é teres
a maioria absoluta da minha ironia,
amar-te é teres
a maioria absoluta do meu resumo,
morrer-te é teres
a maioria absoluta da minha vida,
sobreviver-te é teres
a maioria absoluta da minha arte.

Tiago Nené
inédito

Notícia

Pedro Rodrigues juntou-se ao Texto-al.

Metafísica


As flores batiam-lhe na cara
e o pólen,
colado,
parecia sangue seco.

A natureza fere-nos
com sentimentos pendulares
que ascendem e descendem como vidas,
pessoas em elevadores,
mulheres que caem,
crianças corrompem úteros como ervas daninhas
corrompem o asfalto

Apareciam carros
desapareciam pessoas.
Ascendiam homens
e a mulher desaparecia
com eles.
A flor violenta na cara rigorosa
era raiz de pensamentos severos.
Deixava feridas que não fluíam como água em leitos.
Eram água seca, pele seca.

Não era natural,
morria sempre que a natureza actuava.
sempre que ela respirava.

E não sabia da existência da morte.

Adriano Narciso

Estação de Inverno, um programa de João Blake

O nosso amigo João Blake deu férias ao programa. Espero que regresse depressa para a terceira série. Deixo o link do último da segunda season.

[tiago nené]

Um poema de Tiago Nené




















POEMA DE BOAS-VINDAS AOS MOTARDS NA 28.º CONCENTRAÇÃO INTERNACIONAL DE MOTOS - CIDADE DE FARO


vêm em duas rodas, as vísceras sincronizadas
com a mão direita, pensam que o futuro
é tudo o que se esquiva ao passado.
desmentem verdades absolutas,
instalam fantasias no lugar de medos,
transgridem regras
em prol de uma verdade indecisa,
picoteiam suavidades como dúvidas remotas,
redefinem caminhos, nem sempre
cientes do risco.
a sua ilusão é redundante por opção,
não precisam de falsificar a urgência
porque a sua gravidade se perde por si só.
pulverizam a cidade de faro pelo verão,
o seu barulho incendeia um próximo regresso,
enquanto o seu amor vem em pequenos monopólios.
e selam abraços de cerveja multicolor
com os seus olhos invisíveis, desaparecem
tão rápidos quão ubíquos como um tiro de luz.

Tiago Nené
inédito

Assim não

Uma autêntica chachada o documentário que ontem vi no Pátio de Letras, um tal de Jus ou a Solidão da Justiça. Incomodou-me, a mim e a algumas pessoas que vinham a sair, ter visto a Câmara de Faro a financiar aquilo e imagino que deve ter custado uma fortuna.

Questiono a importância de ouvir uns quantos presidiários a dizerem o que tinham feito, quantos anos de prisão apanharam e o que para eles era o sistema, sem a mínimo enquadramento ou preocupação pedagógica... Mais escandaloso é apresentarem aquilo como um trabalho sociológico, filosófico e antropológico. Era a gozar, certo?

Um desafio: experimentem ir pedir apoios para a literatura, evitar que se perca a continuidade de uma verdadeira tradição de poetas da cidade (e há novos nomes a despontar) e vejam o que acontece...

É chato o facto de reconhecerem (e veja-se a propósito a entrevista de Hugo Milhanas Machado sobre esse ponto) que o Algarve é um dos lugares do país onde a actividade literária é maior (especialmente em Faro) e depois que acontece? há menor materialização porque o dinheiro vai parar sempre aos mesmos sítios... E valerá a pena este texto? Se calhar não. Mas pelo menos chateia um bocadinho.

[tn]

Granada de mão

Voltaste da guerra pelas escadas rolantes
exangue, corpo de silvas e balas perdidas
Que fazer com a essência, identidade, as perguntas
Que fazer com as feridas abertas senão lambê-las.
Prisão, um corredor antigo, saltar o pesadelo.
Suando atiraste a almofada, abriste a janela...
ela ainda dormia, serena como um forte.
Que fazer com a memória desvendada,
Que fazer com o pássaro moribundo,
para sempre guardião do seu segredo.
Aquela brisa fresca de manhã nova
entrando pela janela cantando baixinho....
e o sono ficando mais leve como folhas soltas
como recados de infância, como beijos.
Depois da língua, da fúria, dos abraços
deitei-me ao seu lado e assim estivemos
mil e uma fantasias e nada na bagagem
a medo, muito a medo, recomeçámos.
--
Ju

Imagem:Goya,3 de Maio

Dança

Os ponteiros corriam breves.
as horas passavam,
eram aranhas que teciam teias
e enredavam o tempo
em matéria contável.

Os relógios diluem a vida,
solventes atirados a um quadro realista
(depois temos Mondrian)

as pessoas dançam,
o tique-taque pauta elipses de tango.
As saias rodaram, rodam
[tique-taque]
rodarão.
a música mecânica paira no ar ditoso.

Rodam as saias e as raparigas rodam-nas.
Titeriteiras, mexem em fios de algodão,
controlam o tempo das saias.
Nas costas das raparigas
fios invisíveis movem-se ao som da música.

Tudo é dança quando em cima estão ponteiros,
a vida é um trecho de tango
quando ouvimos por detrás do violino,
do piano,
do bandonéon,
o tiquetaquear do metrónomo absoluto.

Os dançarinos moviam-se presos ao chão.
livres naquele espaço
eram pêndulos sincronizados ao segundo,
que os destruía.

Adriano Narciso

Um poema de Tiago Nené - Corações de Plenilúnio




















Corações de Plenilúnio


[ao Frederico]

a entrada secreta é breve como
a abertura dos lábios meramente à PALAVRA.
a necessidade de uma necessidade gera
a incompletude que produz o néctar
no coração feminino de plenilúnio.
as folhas no ar conduzem borboletas inatmosféricas,
o vento conduz o ódio que a criação retém
num fio de silêncio atravessando
a transparência oculta da matéria.
a entrada da espera é breve
e emancipa um segredo que ainda se funde
nas membranas de uma tentativa
assertiva e ovípara de coerência.
esperar por ti é esperar que o primeiro final
da história que ainda corre num só cateto
te desiluda como um relógio que pára,
um gato subitamente fusco, ou
um verso mau do nosso poeta preferido.

Tiago Nené
inédito

Teoria do Fim - um poema de Tiago Nené




















TEORIA DO FIM


[a Graciela Perosio]


não sabemos o caminho de regresso / ao nosso começo.
talvez nos tenhamos perdido / no infinito caótico da criação,
o infinito no rosto que muda / noutro infinito que fica
no sorriso que intui. / tirámos todo o silêncio / das
entranhas da terra para saber que a nossa estadia mútua /
é uma marioneta nos reflexos de um e de outro, /sendo que
aqueles, os reflexos, estão condicionados pelos espíritos, signos,
ou pela maneira peculiar e inata / de se comer uma laranja azul
[mas isto, claro, é uma mera suposição].
não sabemos o caminho de regresso ao nosso começo, /
é esta a questão. / talvez porque não seja o mesmo, o caminho, /
talvez porque este não esteja exactamente no mesmo lugar
e se tenha transformado num verso [num verso em linha recta],
talvez porque o começo esteja noutro lugar ou tenha havido dois
que se cruzaram, enlearam e perturbaram,
ou talvez porque o fim tenha simplesmente mudado de lugar.
[e tudo isto, claro, são meras suposições]

Tiago Nené
in
Teorias para um Mundo Melhor

(edição de autor, para amigos ou para quem prove que tem um interesse legítimo na aquisição da obra)

Poema e Poeta são o mesmo













um poema
é dedos que já não são dedos.
osso apenas
mãos que escreveram poemas lidos
quando o poeta era poema
em potência

Há no poeta do poema
poemas de poetas distantes
mas ubíquos no corpo, dedos como deuses.
Há músicas que não se conhecem sequer
[são de outros poemas
ou de outros poetas]

Há um fosso
entre o poeta e o poema
uma construção vertiginosa do acaso
que se transpõe com um passo
porque o poema,
na sua essência, é o poeta.

Adriano Narciso

Pintura: Depois da orgia, de Cagnaccio di San Pietro

Um poema do poeta chileno Alvaro Ruiz - De um homem só numa casa só















De um homem só numa casa só


a Jorge Teillier

Não fomos capazes de incendiar a casa
Reduzi-la a cinzas
E partir para os bosques
Sem medo
Trauteando velhas canções irlandesas
Como aquela do marinheiro bêbedo
Shanties extraídos de velhos cancioneiros celtas
Pelos caminhos poeirentos do estio
Por alamedas que iam dar à praça do povo
Onde as raparigas pretendiam o teu coração de cotovia
Agora coberto por um bolso frio e depositário
De estampas angelicais e medalhas protectoras
Num bar de madeira na baixa de Santiago
Com a mesma canção - aquela no ouvido
Que vamos fazer com o marinheiro bêbedo!?
Cruzando os braços sobre a mesa de um outono à janela
Com toda a obliquidade da luz no rosto.

Alvaro Ruiz
Tradução de Tiago Nené

O Estrangulador de Bonecos de Neve - o novo livro de Carlos Vaz



















O cuidado, essa derivação não científica de outras categorias como a de rigor, parece-me ser uma das vertentes fundamentais da escrita de Carlos Vaz; tipo de depuração que nem sempre se nos apresenta do mesmo modo: rondando a musicalidade onde a estrutura narrativa é secundarizada ante o fulgor do dito, como em Gabriela Llansol, em “Capricho 43”; o burilar da linguagem que, sem perder uma certa poeticidade, opta agora por uma mensagem directa bem ao jeito de escritores como Mário Henrique Leiria, em “O Estrangulador dos Bonecos de Neve”.


Este cuidado, ou melhor, este medir forças com a palavra recusando todo o tipo de estatismo sintáctico – que também pode ser encontrado na poesia de Carlos Vaz – faz-nos ver a escrita deste autor como um organismo que incessantemente se reformula e (re)enuncia nessa procura que a si própria se impõe: a de um persuasivo resplendor que, armadilhando o leitor num jogo de encantamento e sentidos vários, nunca cede na construção de novos paradigmas do dizer, que, contudo, jamais se afastam do real concreto nem de múltiplas inquietações de cariz existencial e histórico-social.

Victor Oliveira Mateus


A sua escrita desperta-nos do sono amotinado onde a raiz do sonho se liberta, na sua mansão de sendas puras e se revela em indómitos fulgores, depurados dos escolhos do banal e do supérfluo.


Os monstros do silêncio e da vigília pontuam os seus textos. As suas fronteiras abertas, fundadas na matriz ontológica que a sua marca transporta, fixam a matéria do mundo, no seio da verdade e do lume, velada pela clarividência fluida dos afectos.

Maria do Sameiro Barroso


Carlos Vaz ata os seus próprios nós no fio que escolhe, dialoga com as “cabeças” convocadas para a sua viagem textual, longe e perto do mundo, unindo razão e sonho, “arquitectando ilhas” com pontes de sentido entre si. A busca é textual, mas o mundo fica enriquecido.


Maria Teresa Dias Furtado

O Estrangulador de Bonecos de Neve
Editora: Labirinto
Blogue do autor: Textualino

[tn]

Clube Literário do Porto





Gostei do novo aspecto do blogue do Clube Literário do Porto. É uma das minhas prioridades assim que visitar a invicta. Quem sabe um dia não possamos fazer algo em conjunto.

[tn]

Matéria















Quartos escuros,
cores opacas e disformes,
ecos suspirados aos ouvidos de virgens alarmadas
penetradas por luzes vagas,
vagões austeros de cores inebriantes.

Cheiros metamorfoseados
nascem sons doces
degustados.
Salpicos céleres de seres,
sombras que são:
Fotossíntese numa câmara escura;
fotografia natural, meta-verde,
pálida,
florida graças à mão do Homem-Deus.

Adriano Narciso

A Densidade dos Sistemas - um poema de Tiago Nené




















a densidade dos sistemas


[aos perfeccionistas]

o onde é demasiado denso para o quando,
o quando é demasiado denso para o quem,
o quem é demasiado denso para o o quê,
o o quê é demasiado denso para o porquê.
rejeitar as coisas que não tens
é acender o rastilho do tempo que resta,
a densidade comparativa dos sistemas
destruí-los-á um por um:
primeiro o espaço, depois o tempo, depois
o facto consumado, depois as dúvidas
e finalmente as explicações infundadas.
- e nós?
- nós acabaremos por subsistir no território
da alma, sem densidade alguma.

Tiago Nené
inédito

imagem de Evgeniya Kashina

Manta de Retalhos

Rodada, comprida, tingida de rosas
deixando na manhã um rasto de nevoeiro.
Um óbvio constrangimento tudo trespassa
como se todos soubessem onde nos escondemos.
A história repetida ao contrário,
revelada em pequenos soluços
segredos e palmas e dor e luzes
e uma vida deformada
para caber num molde estranho.
--
Quando o projector iluminar as minhas mãos,
(a minha deixa), entenderei a tua mensagem.
A minha fala é esta: o silêncio
--
despindo cuidadosamente
--
a tua manta de retalhos.
--

Ju


imagem:Mondrian