Lá vai a pobre moça,
De pé descalço sobre a poça
Buscando água a uma distante fonte
Cozinhando muito nova, se não, é posta a monte.
Ali ia a moça,
Casada muito cedo, mãe ainda mais
De filhos que tais,
Valor não lhe dão, num interesse mais que burlão.
Aqui está a mulher,
Velha, viúva, turva, com pouco ângulo de curva
Disfarçando-se sentada na calçada
Comendo o peixe de dois dias ou cortando pão em pequenas fatias
Nas apatias com que ela vive o tique-taque dos dias.
Veste-se num vestido de nome estagnação
Colorido sobre uma pele onde o cigarro é segurado por sua mão
Corpo idoso a preto e branco mascarado por uma relaxada e vulgar, socialização.
Vai mulher, vai e fuma
Fuma esse teu cigarro deitada nesse fechar de olhos de pensamento
À sintonia com que os teus cabelos negros envelhecem pelo vento
Fuma, um dia falecerás sabendo que ao menos foste mulher.