[Para ti, que existes nos meus vazios. tantas e tantas vezes.]
Para escrever-te não preciso de quase nada.
Basta-me entender que és essencialmente o vazio.
Entender que, tal como as casas,
Também nós nos vamos construindo.
E os tijolos pesados, tantas vezes.
Os tijolos a ferir-nos as mãos,
Os tijolos a cair nos pés como grilhetas,
Os tijolos como palavras atiradas para o meio do caminho,
Os tijolos. Pesados.
Como as palavras.
Tantas vezes dispensáveis, tantas vezes inúteis.
Como quando apareceste.
As palavras a fugir-me por entre os dedos das mãos,
A deambular na inocência de um olhar que se perde, que se perde sempre.
E da vida, ficam apenas os vazios.
Os espaços onde nenhuma palavra consegue entrar.
Os espaço onde nenhuma palavra poderia entrar.
- Mesmo que quisesse?
- Mesmo que quisesse.
Isa Mestre
Pragmática do Silêncio
Publicado por Isa Mestre at 18.11.09 1 comments
Um poema de Sylvia Beirute - Exercícios Para os Olhos
EXERCÍCIOS PARA OS OLHOS
quem manda aqui é a biologia,
mas o sentimento incontrolável é aquele que se masturba.
eu apenas comecei o palco, síntese da arte, um
contra}actor contra o corpo.
cada corpo tem um deus, a sua estrutura de exibição
não encontra muita importância no texto inevitável.
{quem escreveu este texto? quem escreveu este texto
sem seios, ânus ou um pudor que os cubra?}
a estética de tal esconderijo, vejamos, é, eu diria, circunstancial,
circunstancial, aliás,como o esconderijo dos
olhos circuncidados do público atento aos
actores que tapam os espaços mas sobretudo aos
que tapam os tempos com os es}paços de partes
inexibidas e por isso, imaginadamente, universais.
{a lágrima final é uma morte fetal}, poderia {eu} per-
feitamente dizer nesta fala depois de uma deixa redundante,
mas fugiria ao texto e nunca devemos fugir ao texto, a menos
que tenhamos um outro. { } mas, de repente penso: {se tivesse
um bisturi e me matasse, quem duvidaria
de que tal não viesse no texto?}
inédito
Publicado por Texto-Al at 18.11.09 0 comments
Categorias: poema, sylvia beirute
Os campos parecem mais vívidos quando nos vamos embora
{para a Sara,
porque os comboios acabam por parar onde queremos}
Os comboios andam sempre,
mas vagarosos,-
ténues como fumo de crematório,
fugazes-
quando há saudade.
Porque,
a saudade interfere como meteorito
na mecânica.
Oxida,
tolda-nos o pensamento como vendas nos olhos.
Toda a ciência,
sobretudo a Física,
devia estudar os efeitos da saudade.
Devia analisar a saudade como analisa átomos
(que são tudo, um espaço de matéria) porque
a saudade interfere na própria concepção do átomo.
(Um comboio que chega a horas atrasa-se,
quando há saudade);
Os comboios param sempre (a horas, atrasados ou descarrilados)
vivem na obrigação marcial do tempo e da Física –
chegam-nos, vemo-los.
A saudade anda sempre em nós, nunca chega e está lá,
É o tempo, a obrigação marcial do tempo.
Adriano Narciso
Publicado por Adriano Narciso at 13.11.09 6 comments
Categorias: adriano narciso, poema
Correspondência - um poema de Sylvia Beirute
CORRESPONDÊNCIA
para dizer {intemporal} digo {o infinito do tempo} ,
para dizer que {existe espaço} digo {vazio} ,
para dizer {passado} digo {o esqueleto do presente} ou
uso a sinédoque, estranhamente
mais exacta e rigorosa, {os seus ossos frágeis} ,
para dizer {cegueira} digo {a mera visão interior
com passos de tigre ao escuro} ,
para dizer {sacar verdades} digo {emitir um
certificado de existência poética}
para dizer que {sou} digo que {estou, ou estou por vezes},
para sentir {o anonimato contemporâneo dos outros poetas
que no jardim da alagoa passeiam os cães e fingem
não me ver} faço {assim com os ombros}.
para permanecer preciso de {usar as mãos}
e {estender todo o corpo nos lábios, ou entre sinónimos
e correspondências}.
Publicado por Texto-Al at 10.11.09 3 comments
Categorias: poema, sylvia beirute
Apresentação do livro Tamujal, de Ivo Machado, e considerações sobre o Prémio Literário António Ramos Rosa
Publicado por Texto-Al at 5.11.09 3 comments
Categorias: diversos
Um poema de Sylvia Beirute - Premissa de Tempo
PREMISSA DE TEMPO
começo onde acabas, ou onde estás quase a terminar, ou ainda
onde já acabaste mas tens uma palavra a dizer.
começo onde acabas e acabo onde acabas ou numa
das outras hipóteses. } sou exígua e o meu tamanho
varia consoante as tuas premissas de tempo.
neste lugar a respiração é imaginada e assim queimada
pelo sol, o meu corpo assim apaziguado ouve uma
sombra exaustiva e perpétua como o outono caótico
dentro de um sonho infinito. um dia, quando atingirmos
o ponto zero, começaremos de novo a existir, sem que ninguém
comece ou acabe onde o outro comece ou acabe,
e, sobretudo, sem que haja palavras que falem.
inédito
Publicado por Texto-Al at 4.11.09 2 comments
Categorias: poema, sylvia beirute
Semana dos Açores na Biblioteca António Ramos Rosa (Faro)
Publicado por Texto-Al at 3.11.09 0 comments
Categorias: divulgação
Ilusões Conclusivas - um poema de Sylvia Beirute
do jardim da alagoa até à praia" é
afinal a sinédoque de um passado que
sonho que recua. }
entrará num autocarro
conclusivas}, e, assim que chegar à praia, fá-lo-á
aí, a sua forma interior, tão escura quanto
a inconsciência miúda de um grito passivo,
assemelhar-se-á, tanto quanto possível e ressalvando
diferenças formais que só à Poesia dizem respeito,
ao seu conteúdo prévio.
Publicado por Texto-Al at 1.11.09 3 comments
Categorias: poema, sylvia beirute
Esclarecimento número um, um poema de Isa Mestre
Pergunto-te:
Quem são eles?
E os teus olhos vidrados, perdidos, às vezes baços.
Algumas vezes falo-te de amor,
Outras de medo.
Perguntaste-me um dia se eram sinónimos,
E eu na minha linguística de desordem não soube que dizer-te.
Escrevo-te para esclarecer-te,
Para esclarecer-me.
Antes de ti, eu pensava que amor era apenas o amor,
A palavra,
O sentido que nos ensinam na escola e que demoramos toda uma vida a entender,
Depois, entendi que o amor eram todas as coisas,
que o amor era perder-me de tudo e encontrar-me apenas em ti,
perder-me do que sou e vir até aqui simplesmente para dizer-te :
Sim, o amor é também o medo.
O amor é sobretudo o medo.
Isa Mestre
Publicado por Isa Mestre at 29.10.09 3 comments
Categorias: Isa Mestre; Poesia
Página em Branco - um poema de Sylvia Beirute
PÁGINA EM BRANCO
{poema-resposta a um autor bloqueado}
saber existir uma página em branco,
e que a mesma já contém poesia,
é absolutamente necessário para se escrever
um poema.
escrever pode ser pura abstenção,
e o ponto supremo de se escrever bem pode ser,
e segundo a minha viciada experiência,
uma abstenção parcial.
{mas cuidado,
muito cuidado com as formigas que passam sobre a folha.}
inédito
Publicado por Texto-Al at 28.10.09 2 comments
Categorias: poema, sylvia beirute
Definições - um poema de Sylvia Beirute
DEFINIÇÕES
{então que é verdade que a definição se esgota no rosto
que é o seu rasto} e quanto maior o rasto, maior a /probabilidade/
de se esgotar, em maior número as escolhas {e dentro delas
as pessoas,} as pessoas que mudam, que ainda não sabem,
diferenciam, prescindem, imprescindem}. {eu} realmente
gostaria de dizer algo agora, {mas os dias são transfusões de dias},
de plasmar definições e, dentro delas, significados profundos, ousar
escrever as palavras {completidão} e {perfeitude}, tocar
no fulgor abstracto das histórias futuras, das radiações de um
abraço nas repetições tumefactas da espessa mudez, reconhecer
a transversalidade de todo o tempo. {e então que este princípio
de poema me diz que devo parar aqui, aqui onde um rasto não
começa, onde um significado não acaba, todas as definições estão
ainda encarceradas no seu primeiro infinito, onde uma bruma passa
no exacto momento em que os corpos abrem.}
inédito
Publicado por Texto-Al at 28.10.09 1 comments
Categorias: poema, sylvia beirute
Última Chamada
Publicado por Texto-Al at 23.10.09 0 comments
Categorias: divulgação
Poema de aquecimento para uma longa noite de prosa - um poema de Sylvia Beirute
POEMA DE AQUECIMENTO PARA UMA LONGA NOITE DE PROSA
{a primeira hipótese é entre duas pessoas, tu e eu, haver um intervalo, e ser esse intervalo a única coisa que nos define, crescerem estradas que não começam, despir-se o tímpano de igualdades, ter-se perdido o efeito inverso do cansaço, sermos nós sem uma raiz.}
{a outra hipótese é instaurarem-me um processo poético, tablado de improvisos, irmos a vénus num ovni, por ser a minha consensualidade um rebanho de qualidades, e na tua perspectiva de poeta ser o céu uma folha de papel branca, a claridade esconder a escuridão, e estabelecer-se uma insaciabilidade do impossível.}
inédito
Publicado por Texto-Al at 23.10.09 1 comments
Categorias: poema, sylvia beirute
O Princípio da Distância - um poema de Tiago Nené
O PRINCÍPIO DA DISTÂNCIA
[a Sylvia Beirute]
poesia é a arte, metafísica, de escavar as palavras
e encontrar outras palavras
e escavar estas palavras e encontrar outras
palavras.
foi assim que escrevi o teu corpo
e escavando as suas palavras encontrei outras
palavras
que diziam ser a outra metade da solidão a esperança
e os nossos corpos
o princípio da distância.
inédito
Publicado por Texto-Al at 19.10.09 4 comments
Categorias: poema, tiago nené
Um poema de Sylvia Beirute - Passageiro Frequente
PASSAGEIRO FREQUENTE
a vida precisa de justificar o sonho belo }
os sentidos são transmissíveis,
e apenas na simulação directa a estética é exterior.
quem quiser dobrar ao meio uma subtileza }
encontra uma sombra muito rígida,
um passageiro frequente no infinito de um nome }
regando esta abundância tão rente
com o caule desde a dialéctica do poema sem seios
ao instinto que respira pela aura dos pulmões,
{respiração que blinda a aura da alma azul-índigo}
inédito
Publicado por Texto-Al at 17.10.09 0 comments
Categorias: poema, sylvia beirute
Sortilégio de Silêncio, novo livro de Santiago Landero, apresentado em Faro
Publicado por Texto-Al at 16.10.09 0 comments
Categorias: divulgação
Um poema de Sylvia Beirute - Paisagem
PAISAGEM
de desabrochamentos mutuamente interceptados:
a repercussão deste abraço não é tão intensa como
espremer uma laranja até à última gota, assim como
um beijo apenas despede um rosto de uma boca
ou uma boca de outra boca.
{bebo as cápsulas do tempo, o perfume está morno,
e estas palavras nascem da rouquidão do silêncio,
os olhos chicoteiam paisagens pálidas
e aqui discutimos como confiar no instinto
do que acabámos de inventar.
voz baixa: {e espreitando pela mentira vejo a verdade:
os lugares existem repetidamente
e consultam os mapas actualizados antes de acontecerem
uma e outra vez.}
voz alta (de novo, como principiou o poema):
{os poemas não são livres enquanto as suas palavras
o não forem.}
FALTAREI AO POEMA
A INDIVIDUALIDADE NUNCA É AUTÓNOMA
e tu podes, na mesma, escrever um poema, (é claro),
voz baixa de novo: {cuidado porque há mulheres dentro
de acepções ambíguas, e o sítio justo do significado
está-lhes na coxas escaladas
com os passos dos músculos do seu sorriso,
e as saídas estão justapostas a soluções, ainda
que sejam, claro está, coisas distintas}
voz alta (de novo e retoma a voz alta anterior, daí
a vírgula depois dos dois pontos) : , um poema
sobre a escuridão parda na vertigem dos anos,
um poema autenticado porque tu tens o dom de ter um nome,
um poema cuja tristeza entreversos
está {envolta em tristezura contra mundum.}
e então estará cada vez mais escuro
porque o avançar dos anos, sobre o
medo inadequado, é fundo e às vezes profundo,
e haverá sempre {um lugar instantâneo em cada destino
porque há uma consciência intrínseca e mínima
nos lugares que chegam
e uma terra onde plantar o rosto.}
Publicado por Texto-Al at 14.10.09 2 comments
Categorias: poema, sylvia beirute
Amor a Longa Distância - um poema de Sylvia Beirute
AMOR A LONGA DISTÂNCIA
{a alguém longe}
os contornos da lágrima {são} de água doce
e neles talvez tenham ficado vestígios de outros vestígios
{e a ideia, vã e estática, de que para amar
é necessária a perfeita capacidade de síntese}
e a solenidade geométrica de uma abstracção ficcional.
{ } haverá ainda nos contornos rígidos da lágrima
uma filosofia que gira com a luz profunda da compreensão
{formando} um ligeiro decote de sombra.
{um revólver espontâneo mas um tiro pouco lesto:
isto do amor a longa distância.}
Sylvia Beirute
inédito
Publicado por Texto-Al at 13.10.09 2 comments
Categorias: poema, sylvia beirute
Beirute - Um poema de Sylvia Beirute
BEIRUTE
apenas verde. {há um leve azul escuro}. vermelho.
estilhaços de cor. {perspectiva}. perspectivadamente:
apenas uma manhã solitária em beirute. solitariamente
{quatro fragmentos de um caminho desfeito
despem as hastes do vento velho.}
o rosto é formado por: {pequenos círculos},
alguém o diz, assim que o outono indeciso
clama nas folhas dobradas { e no vapor longínquo
das nuvens demasiado rugosas { para os pensamentos
que correm nos dias de hoje. / apenas verde,
{um verde autêntico}. apenas vermelho, {estilhaços de}.
inédito
Publicado por Texto-Al at 12.10.09 1 comments
Categorias: poema, sylvia beirute
Um café com Sylvia Beirute
Publicado por Texto-Al at 9.10.09 1 comments
Um poema de Sylvia Beirute - Ars Poetica
ARS POETICA
já não temos de: expor janelas, deitar
a língua de fora, beber o vinho, dividir a morte pelos benefícios
de mundos íntimos impessoais}
chegámos a uma arte nova - {tantas experiências, tantos
fernandos pessoas, al bertos, tantas palavras
que querem dizer outra coisa}
escrevemos apenas o gosto, o oposto semi-assimétrico
do que pensamos}
{e o que pensamos é semi-assimétrico do que sentimos}
se pensamos na metafísica da poesia, escrevemos
que é a sua absoluta não edição e acrescentamos que os
sentimentos mais humanos carecem de saneamento básico.}
se pensamos numa flor arrancada } escrevemos que
sermos conhecidos é premir publicamente o gatilho;}
se pensamos no peso exterior da alma,} escrevemos
as saudades com ligeiros vales } e uns búzios para cima }
e um dilúvio que estanca no caroço
que é afinal um continente
de recordações não interligadas por uma emoção} .
depois deitamos um rugoso manto silenciador,
{na poesia praticamente tudo é silêncio}
esperamos a chuva } e alguém se lembrará de expor janelas,
{forçá-las} deitar a língua de fora {a colheita de saliva},
beber o vinho {sentir o pisar da uva no lagar}.
nesse momento perdemos a carne com a sua privação}
e um poema cresce avulso a partir da planta dos pés}
e atravessa a beira-mar do vulto, perdendo a sua proporção,
a energia fragmentária de uma visão de vida
fiel ao cilício gradual de um tempo
esteticamente passando } semi-ininterrupto de infinitos.
inédito
Publicado por Texto-Al at 9.10.09 0 comments
Categorias: poema, sylvia beirute
Um poema de Sylvia Beirute - O indirecto sentido de prestidigitação
O INDIRECTO SENTIDO DE PRESTIDIGITAÇÃO
todo o dia chove porque o todo o dia vive,
todo o esforço sofre porque vence }
vencer é uma forma futura de frustração
e talvez eu { hoje } me desate toda
até ao indirecto sentido de prestidigitação.
{ }
na sala de espera dos olhos baixos
acontece {um inverno estóico} e um deva-
neio tarda em atingir-{me} o organismo fundamental.
todo o dia chove e diz que a história sempre
nos livrou do presente que erra de bibe azul.
{ }
quando envaidecem {as palavras fecham}
e com elas o significado por extenso de parte
de um ideal sub-humano:
perda, esquecimento, anonimato fortuito.
Publicado por Texto-Al at 7.10.09 2 comments
Categorias: poema, sylvia beirute
Sobre a sessão de poesia Texto}al de Sexta
Publicado por Texto-Al at 4.10.09 5 comments
Chuva de Verão.
Cai uma combativa
Chuva, num verão
De morte nos céus
E de sombras nuas
Nas ruas.
Estão mudas.
Vestem a razão
Das horas,
Perdendo-se
Na sua ausência.
Corro pelos
Labirintos cilíndricos
Das tabernas,
Rolando na incerteza
De um palpite,
Ou vários.
E com o aroma
Do vinho ou, do
Que a minha ignorância
Não me deixa dizer que seja,
Camuflo o cheiro
Que de ti ainda
Me resta.
Vagueio como
Um cretino sem nome,
Queimando vingança
Nas palavras de quem
As diz como quero ouvi-las.
Em análogos encontros
Onde estranhos se cruzam
Inconscientes de si mesmos
E partilham a sua única crença:
- A vida não presta.
Bebo,
Saio,
Entro,
Bebo
E volto a sair.
E toda a beleza das coisas
Se encontra nas sábias mãos
Dos velhos que jogam
Cartas como se o mundo
Acabasse amanhã.
Os seus cabelos brancos
São afinal mais claros
Do que a minha alma
E, num dia vestido
De um cinzento que se mexe,
Em quem mais poderia acreditar?...
Publicado por Pedro Rodrigues at 2.10.09 3 comments
Categorias: Pedro Rodrigues, poema
menarca
entre as ancas de um livro,
cem mãos sem dedos escrevem a vermelho mênstruo
a venérea ausência de cristo.
a ferida exacta.
o acto de rasgar,
tão perfeitamente desesperado,
é o sustento de um guião vascular para os lúcidos.
a criação suicida.
há quem não entenda as vocações terminais.
as ruínas fundadoras de homens.
a beleza incompleta,
em procissão de vinho pelas pernas,
invade-me a boca como forma de (a)deus.
só então me venho,
ali,
no cúmulo dos tecidos transactos
e estradas tolhidas,
celebrando a ilegal distribuição de vivos
por talvegues maternos atados ao parto
(para nem sempre respirar).
há quem não entenda as vocações terminais.
como infectar de amor a cadência líquida
da tua ascensão a árvore.
(imagem: pintura de Hieronymus Bosch)
Publicado por Duarte Temtem at 30.9.09 4 comments
Voz - um poema de Isa Mestre
Dói-me a tua ausência.
Queria dizer-te que quando o Outono acabar, saberei já como amar-te,
Saberei já como abraçar-te e dizer-te que tive saudades do teu sorriso,
Saberei já como apertar-te contra o peito e olhar-te sem demora.
Porém, hoje, não poderia escrever-te para que voltasses,
Os poetas não escrevem,
Sussurram.
Os poetas não suplicam,
Amam.
Os poetas nunca partem, e talvez nunca deixem partir.
Os poetas não são poetas, na verdade.
São vozes.
E é com a tua voz que te escrevo. A tua voz que grita dentro de mim.
(-Fica. Sinto-me só).
E eu fico, sentado a escrever. Então, ficamos os dois.
Sentados a escrever.
Isa Mestre
Publicado por Isa Mestre at 28.9.09 3 comments
Categorias: Isa Mestre; Poesia
Infrarrealismo - um poema de Sylvia Beirute
INFRARREALISMO
vou ao café somente para recordar o amor},
[neste momento despossuo
vanguardas ou retaguardas]
um amor infrarrealista,
amor até à última das consequências,
um amor que desconhece
que o que importa de facto
não é a última das consequências
mas a última das causas}
com as escoriações dos seus ecos
ainda na voz } os nervos das mãos
museificados sobre a boca inaugurada
de um cadáver estreante, peço trémula, de-
vagar e docemente:
uma água e um café,
Sylvia Beirute
inédito
Publicado por Texto-Al at 27.9.09 1 comments
Categorias: poema, sylvia beirute
Spaciba - um poema da poetisa algarvia Sylvia Beirute
SPACIBA
plantar de novo } o que ainda cresce,
nada divido } que tenha fome.
o que tem fome é auto-curativo,
o que é auto-curativo } cresce.
o que cresce é a divisão do tempo
pelo espaço } crescer em espaço
é uma boa ideia } crescer em tempo
é morrer }. plantar de novo
o que ainda cresce } é preferir um início
a um outro, hipotético, ameno, pouco
ameno, violento, auspicioso, de fidúcia }.
alguém me pisa as estrelas temporárias }
e nas algibeiras os dedos
parecem um veleiro sem segurança }.
planto-me de novo e a esta poesia
que urra sem olhos }. nada divido } não divido
a primavera como um todo
por onze jardins imaginários }.
vivo, afinal de contas vivo }. e uma navalha
corta fatias de sono e envia para as estrelas }.
o todo-sono assemelha-se a uma barra
de sésamo e mel rica em fibras,
cada bocado cortado corresponde a um sonho,
e as estrelas são os seus dormitórios póstumos.
depois morro por ser poético e adormece o dia }
e spaciba, spaciba, alguém diz,
sem noção de que {para continuar a crescer
sempre é preciso plantar-se de novo.}
inédito
fotografia de Miguel Apolinário
Publicado por Texto-Al at 24.9.09 5 comments
Categorias: poema, sylvia beirute






















