Polishop por Uberto Stabile













Têm sido tão boas as críticas ao meu livro que até me sinto no direito de inchar um bocadinho. Agora é o poeta espanhol Uberto Stabile que me dedica umas palavras nos seus Dias Contados, a quem naturalmente agradeço.

[tiago nené]

Luís Ene sobre Polishop























O escritor Luís Ene promete ir postando excertos de uma conversa que com ele mantive. Para já mostra-se surpreendido com o meu novo livro de poesia: Polishop.

[tiago nené]

Polishop
























Hoje estarei na Casa de Cultura de Punta Umbría, Espanha, para uma apresentação do meu novo livro Polishop. Será às 20H00.



O TRIÂNGULO DE SANGUE


As palavras / não dizem o mundo / dizem o desejo / de dizer o mundo
                                                                    Luís Ene


não fiques lento perante o imóvel,
instala num triângulo de sangue
uma pequena rua.
deixa essa rua açoitar o sangue que corre
parado no seu asfalto.
não isoles os teus sentidos, não os atires
como pedras.
ninguém suspeita se apenas viveres
segundo o rigor da tua arte.
sê perpendicular às tuas fugas,
corre e apaixona o mundo.




SINFONIA DAS NUVENS

eu acho que te amo, disse.
como se o amor,
o verdadeiro amor,
admitisse
algum tipo de dúvida.



Tiago Nené
in Polishop
Colecção Palavra Ibérica, 2010
Edição Ayuntamiento de Punta Umbría
Tradução de Santiago Aguaded Landero
Prefácio de José Carlos Barros

[tn]

Na morte de Ruy Duarte de Carvalho




















03032007

no livro que me foi emprestado -
uma edição de poesia de novalis -
vinha uma nota
muito ténue a lápis tremendo. dizia
procuro o último livro de
ruy duarte
[de] carvalho - de que nunca li coisa alguma -
e encontro
este, que procurei
há dias
sem encontrar.
vinha datado
e escrito assim: 03032007.
não vinha assinado, nem a caligrafia
pertence a quem mo emprestou.
e estes factos, lentamente suspensos
na superfície móvel da memória mais imediata,
impuseram
no mapa sem rios da minha leitura
um sentido extremo de ficção real.

Tiago Nené
in Polishop
Edição Punta Umbría, 2010, bilingue
Tradução Santiago Aguaded Landero
Prefácio de José Carlos Barros

Mulher e moça. Poema inédito de Gavine Rubro

Lá vai a pobre moça,
De pé descalço sobre a poça
Buscando água a uma distante fonte
Cozinhando muito nova, se não, é posta a monte.

Ali ia a moça,
Casada muito cedo, mãe ainda mais
De filhos que tais,
Valor não lhe dão, num interesse mais que burlão.

Aqui está a mulher,
Velha, viúva, turva, com pouco ângulo de curva
Disfarçando-se sentada na calçada
Comendo o peixe de dois dias ou cortando pão em pequenas fatias
Nas apatias com que ela vive o tique-taque dos dias.
Veste-se num vestido de nome estagnação
Colorido sobre uma pele onde o cigarro é segurado por sua mão
Corpo idoso a preto e branco mascarado por uma relaxada e vulgar, socialização.

Vai mulher, vai e fuma
Fuma esse teu cigarro deitada nesse fechar de olhos de pensamento
À sintonia com que os teus cabelos negros envelhecem pelo vento
Fuma, um dia falecerás sabendo que ao menos foste mulher.