Freud e Pavlov

Era um sonho e havia neve.
Podia ser Moscovo ou Faro ou Nairóbi, não importa,
neste sonho a neve é uma constante.

A paisagem era frio baço
jaziam crianças roxas e gatos voláteis
todos recostados no chão,
Altivos como os mortos conseguem ser.

As pessoas dançavam muito
Tango ou bolero, dançavam para não morrer de frio.
uns até eram péssimos dançarinos
mas ninguém se ria deles
(houve até quem chorasse perante a efemeridade do
rubor das caras)

na cidade, difusas
as ruas esvaziavam-se de sentido.
Os cães que pairavam de poste em poste uivavam
mijavam-se com saudades da cegueira de bebé
do tempo em que sugavam tetas e batiam com os focinhos nas paredes.
A lua lutava por dentro e em cima das cabeças de todos,
exercia sobre nós uma força titânica
resvalava como terra num ruído metálico e
esquecíamo-nos dela
e do frio
quando lhes virávamos a cara.


Adriano Narciso

Terças-feiras: Noites de poesia no Draculea Café Bar, recomenda-se vivamente.



        Desde já partilho a todos os leitores que por aqui passam, em Faro, todas as terças-feiras a poesia ganha voz e todos mais sentidos num espaço peculiar convidativo à arte, amizade e cultura. Falo do Draculea Café Bar e das suas noites já duradouras e longas de poesia. Todas as Terças a partir das 22h:30, convido todos os apaixonados e interessados em literatura a arriscar. Atrever é tão bom. Eu frequentei (bastante) e recomendo. Pela partilha, convívio e aprendizagem: Longa vida à poesia!

Aqui fica o "mapa", para possíveis distraídos:

Poesia na Rua em Cacela Velha

















Programação:


17 de Setembro (sexta-feira)


10h00-15h00: Actividades infantis e jogos poético-populares; experiências de escrita criativa para crianças; animação de rua; caça ao poema; estendal de poesia; poesia ao desafio; barcos de papel com poemas
11h30: Leituras de histórias e poemas Luís Filipe Cristóvão e Teresa Patrício
15h00: Apresentação Walking Poetry – Percurso em Cacela Velha
16h30: Aula de poesia com Teresa Rita Lopes
17h30: As folhas volantes – poetas populares de Vila Real de Santo António
19h00: Poetas do Guadiana – Conversa e leitura de poemas por Teresa Rita Lopes e Carlos Brito
22h00: Recital de poesia, voz e piano com Carlos Mota de Oliveira, Janita Salomé e Filipe Raposo
23h30: Concerto com B Fachada


18 de Setembro (sábado)


10h00-15h00: Actividades infantis e jogos poético-populares; experiências de escrita criativa para crianças; animação de rua; caça ao poema; estendal de poesia; poesia ao desafio; lançamento ao mar de barcos de papel com poemas
11h30: Leituras de histórias e poemas valter hugo mãe e José Carlos Barros
15h00: Aula de poesia com Teresa Rita Lopes
16h00: A poesia no Gharb al-Andaluz – com António Baeta e Ahmed Tahiri Membros, da Fundação al-Idrisi Hispano Marroquina
17h00: Apresentação do livro A Escrava de Córdova, de Alberto S. Santos
18h00: A poesia como deslocamento – À conversa com valter hugo mãe, Juan Andrés Garcia Román, José Mário Silva e José Carlos Barros
20h00: Cantares do pôr-do-sol – Zainab Afailal (voz) e Fahd Ben Kiran (alaúde), membros da Orquestra Med. El Arbi Temsamani do Conservatório de Música de Tetuan, Marrocos
21h30: Festa da Poesia – Poemas ao Ritual da Igrejinha, com a presença de poetas populares e da Banda Filarmónica de Vila Real de Santo António. Leitura de poemas com valter hugo mãe, Juan Andrés Garcia Román, José Carlos Barros, Teresa Rita Lopes, José Mário Silva, Carlos Mota de Oliveira, Luís Filipe Cristóvão, Angél Nunez, António Baeta, José Vela Hernandez (guitarra), Fernando Esteves Pinto, Tiago Nené, Pedro Afonso e Dinis Nunes
23h00: Concerto de Jazz, com Miguel Martins Trio


A organização é da Câmara Municipal de Vila Real de Santo António e do Centro de Investigação e Informação do Património de Cacela, com a colaboração da Fundação Al Idrissi Hispano Marroquina, Livrododia Editores e Livreiros.

Um produto consagrado é melhor do que um anónimo.


Sinto-me cada vez mais um produto. Um daqueles, não muito diferente de uma lata de soja enlatada, vinda directamente da china, e que repousa, cheia de pó, no canto mais recôndito de uma prateleira de supermercado. Nos dias mais ensolarados sinto-me superior, como um espadarte cheio de químicos invisíveis, vaidosamente erguido por cima de um iceberg de gelo, artificialmente construído para ajudar à festa do faz de conta que se é giro. Se é giro vende! Sinto-me vendido, pois então…

Bocejo. Passo as mãos pela cara e aceno um não com a cabeça. Talvez devesse esbofetear a cara em vez de acarinhar a sua posição acomodada.

Não tenho vergonha. Os anos domesticam quaisquer sinais de liberdade que por caturrice, ainda teimem em ocupar a mente. Vergonha é coisa de sem abrigo que dorme na rua. De toxicodependente, fugaz à vida. De alcoólico. Aquele «ai Jesus» [adoro esta expressão] que comete o hediondo crime de ambicionar a todo o instante, esgotar com o narcótico oficial da comunidade. De prostituta. Aquela tipa que por sinceridade maior que a de muitas mulheres sustentadas por matrimónios manifestamente cristãos, continua, repetidamente, a ser ultrajada em hasta pública na actualidade, por vozes que no passado foram como cruzes queimando com orgulho todos os corpos moribundos.

Eu não posso ter vergonha. Eu tenho um trabalho. Eu visto-me bem. Como bem. Ouço, leio, vejo, sinto, penso e falo bem. Eu tenho uma televisão em casa. [às vezes faço zapping] …

Sinto-me cada vez mais um produto. Um daqueles que só tem qualidades. Acham que estou à altura de ser uma lata de coca-cola? Ao menos não criava bolhas nos pés, enquanto tinha de esperar ansiosamente que alguém me decidisse levar…