BOM ESCRITOR, MAU ESCRITOR: UM EXERCÍCIO DE RETÓRICA NARRATIVA

[ao Carlos Campaniço, com sincera admiração]

1
Uns dizem que ele foi um mau escritor que escreveu bons livros, outros dizem exactamente o contrário, que foi um bom escritor que escreveu maus livros. Eu acho, muito sinceramente, que uns e outros têm razão.

2
Não há bons e maus escritores, há bons e maus livros, porque, verdade seja dita, um bom escritor pode escrever um mau livro e um mau escritor pode escrever um bom livro.

3
Um bom e um mau escritor escreveram um livro a meias, um livro mais ou menos, como não podia deixar de ser, se pensarmos bem nisso.

4
Um bom escritor descobriu um dia que era mau escritor; foi então que caiu em si e se tornou finalmente um bom escritor. Não deixou no entanto de escrever maus livros, que uma coisa são os livros e outra coisa os escritores.

5
Um bom escritor deu com um mau livro na cabeça de um mau escritor, fazendo-o gritar de dor e de espanto. Tivesse-lhe dado com um bom livro na cabeça e o resultado não teria sido diferente.

6
Um bom escritor só lia maus livros ao passo que um mau escritor só lia bons livros, o que era estranho, mas depois que morreram percebeu-se tudo: o bom escritor era um afinal um mau escritor e o mau escritor era afinal um bom escritor.

7
Um escritor era mau e outro era bom, mas enquanto o primeiro era um bom escritor, ainda que mau, o segundo era um mau escritor, ainda que bom.

2 comentários:

Anónimo disse...

às 19.38 de dia 3 de abril de 2008 és o melhor micronarrador português.

mais logo veremos:)

ta genial.

TN

Fernando Pessoa disse...

muito bom o exercício que acaba por resumir a dúvida sempiterna.