um novo género literário

Pode um texto literário caber no espaço de uma página? Claro que sim. Até uma linha pode ser mais do que suficiente. E existem mesmo aqueles que acreditam firmemente que a minificção (designemos assim este novo género) é a escrita deste milénio, por ser a mais próxima da escrita própria dos novos meios electrónicos.

Neste blogue, como noutros, proliferam textos breves que podem cair nessa classificação, mesmo quando os autores assim não os designam. Eu próprio tenho contribuído com alguns, o último dos quais tinha o título de Sobre o Amor e a Morte, o mesmo título de um livro que me foi emprestado e que me pôs a pensar no Amor e na Morte, aliás dois dos meus temas preferidos. Por isso escrevi esse pequeno texto e, como faço muitas vezes, fui escrevendo outros textos, à volta do mesmo assunto, acentuando dessa forma o carácter fragmentário e fractal de cada um dos textos, afinal características próprias deste tipo de escrita. Para não ocupar mais espaço aqui, deixarei na caixa de comentários a série de textos que escrevi sobre amor e morte .

4 comentários:

luís ene disse...

Sobre Amor e Morte

1
Matou-a, por amor, e matou-se de seguida, também por amor, o mesmo amor que ela invocou para que ele não a matasse afinal.

2
Ele gostava dela, gostava muito, mesmo muito, mas gostava mais de si, muito mais, bastante mais, pelo que não admira que o amor que os uniu tenha morrido quase à nascença.

3
Morria de amores por ela, e morria tanto que um dia morreu de vez.

4
Ai que eu morro, Ai que eu morro, gritava ela sempre que tinha um orgasmo, e ele tanto vezes a ouviu que se fartou e deixou-a. Não conseguia viver assim.

5
Quando ela morreu ele não aguentou e foi atrás dela. Felizmente apanhou-a a meio do caminho e puderam afinal voltar os dois a amar-se.

6
O amor é uma embriaguez, deixa-nos estúpidos, disse ele ao seu jovem amante, e um sorriso bailava-lhe no rosto sábio.

7
Amava a humanidade com um amor tão grande que nenhum lhe sobrava, e foi assim que morreu sem nunca ter amado alguém.

8
Tanto fez para ser amado que passou a odiar-se a si mesmo. Morreu de mal com os outros e consigo mesmo.

9.
A morte ama a beleza, lamentou-se a mãe perante o cadáver do seu jovem filho, mas a morte, ali presente, zangou-se e quase a levou também consigo. É que a morte, acima de tudo, inveja a vida.

van disse...

O livro chegou a incomodar-me. Li-o e passei logo ao seguinte.

Cerejinha disse...

Eu li-o de um só fôlego, numa viagem entre Lisboa e Faro.
Incomodou-me, também. Não sei se o repetirei.

Anónimo disse...

morreu no sofá à espera dela. ela morreu ao volante indo ao seu encontro.

*

não morria de amores por ele, até que morreu.

Alfredo Dias