Absurdos. abstractos e mudos
Atrozes tubos, conectados por surdos muros, de estranhos juízos.
Tomo banho num chuveiro,
Que me escorre sentimentos deturpados,
Pelo percorrer do meu corpo masculino.
Enxaguo minha pele com espuma de pensamentos
Revolucionários, que nunca chegam a ser.
Seco-me na toalha de meditações,
Que cobre as minhas intimidades.
Tenho em mãos o secador
De cabelos não brancos,
Mas cansados de apanhar ventos, pós e chuvas.
Calco meus sapatos, procurando possíveis pedras
Que me assustem os pés.
Minha refeição, saudável ou não,
Serve apenas para acomodar minhas digestões,
Durante curtos tiquetaques de uma ampulheta, demasiado veloz.
O denominador comum do equilíbrio
Passa pela conjugação correcta
Das safiras vitais elementares.
Empatia. Anos.
Mania. Dias.
Folia. Milésimos lacónicos de segundo.
As coisas que me fascinam
São as que não têm por vezes interpretação,
Para os outros.
Mensagem, um poema de Isa Mestre
[para c., com a minha mão sobre a tua]
Hipoteticamente coloco a minha mão sobre a tua.
Quero dizer-te que estou contigo.
Quero dizer-te que te amo e que vou estar sempre aqui.
Mas não quero que sintas a minha presença,
Não quero sequer que saibas que posso tocar-te.
Não quero recordar-te. Não quero ferir-te.
Não me perguntes nada.
Simplesmente não quero.
Deixa-me ficar por aqui a olhar para ti na certeza de que Ele olha por nós.
Isa Mestre
Hipoteticamente coloco a minha mão sobre a tua.
Quero dizer-te que estou contigo.
Quero dizer-te que te amo e que vou estar sempre aqui.
Mas não quero que sintas a minha presença,
Não quero sequer que saibas que posso tocar-te.
Não quero recordar-te. Não quero ferir-te.
Não me perguntes nada.
Simplesmente não quero.
Deixa-me ficar por aqui a olhar para ti na certeza de que Ele olha por nós.
Isa Mestre
Saber que voltas
Nada me entretém. Quis distrair-me de ti e acabei por distrair-me de mim.
Telefonaste e não atendi. Partira. Para qualquer um outro lugar. Não perguntaste se voltava. Não interessa.
E eu estava mesmo ali. Mas apesar de tudo partira. O meu lado B, a minha cassete estragada, aquilo a que odiosamente chamavas o meu outro eu.
Ser capaz de partir é maior e mais forte do que ter vontade de voltar. Mas tu não entendes. Ainda não podes entender.
Quero-te bem. E por isso não te ralho. Seria incapaz de ralhar-te.
Não sei ainda se posso duvidar da certeza, se posso adormecer sóbrio e confiante nos lençóis da tua ausência. Não sei.
Ligo a televisão. Quero distrair-me com qualquer porcaria que me atirem para os olhos. Por momentos peço ao ecrã que me cegue, que me cegue para não mais poder ver o vazio, que me cegue para não mais saber dessa cama vazia, dessa poltrona desocupada, desse candeeiro desligado. Cega-me. Cega-me de uma vez para que a luz da tua ausência não volte a ferir-me os olhos.
E se puderes telefona. Quero perguntar-te se voltas.
Telefonaste e não atendi. Partira. Para qualquer um outro lugar. Não perguntaste se voltava. Não interessa.
E eu estava mesmo ali. Mas apesar de tudo partira. O meu lado B, a minha cassete estragada, aquilo a que odiosamente chamavas o meu outro eu.
Ser capaz de partir é maior e mais forte do que ter vontade de voltar. Mas tu não entendes. Ainda não podes entender.
Quero-te bem. E por isso não te ralho. Seria incapaz de ralhar-te.
Não sei ainda se posso duvidar da certeza, se posso adormecer sóbrio e confiante nos lençóis da tua ausência. Não sei.
Ligo a televisão. Quero distrair-me com qualquer porcaria que me atirem para os olhos. Por momentos peço ao ecrã que me cegue, que me cegue para não mais poder ver o vazio, que me cegue para não mais saber dessa cama vazia, dessa poltrona desocupada, desse candeeiro desligado. Cega-me. Cega-me de uma vez para que a luz da tua ausência não volte a ferir-me os olhos.
E se puderes telefona. Quero perguntar-te se voltas.
Angústia
Tudo me lembra de ti. É nesse momento que tenho a absoluta certeza que querer esquecer é a maior garantia de recordar. Recordar para sempre. E eu que queria adormecer por uns tempos, de repente, aqui, perdida, inerte, novamente imbuída em pensamentos. Tão inútil como todos nós.
E as minhas mãos, meu amor, são apenas as minhas mãos. Não servem para salvar vidas nem para acolher esperanças. As minhas mãos, meu amor, às vezes são apenas dois becos rumo ao medo, de encontro à solidão.
Mas tu nunca me perguntas se tenho medo.
E eu tenho. Tenho tantas vezes.
Olhas-me apenas. Queres dizer-me que posso chorar, que não devo envergonhar-me. Mas não dizes. Não dizes nada.
Sentas-te e colocas as mãos sobre a face. Choras.
Pergunto-te se podemos chorar os dois.
Acenas afirmativamente e em segundos lá estamos os dois abraçados no nada.
Isa Mestre
E as minhas mãos, meu amor, são apenas as minhas mãos. Não servem para salvar vidas nem para acolher esperanças. As minhas mãos, meu amor, às vezes são apenas dois becos rumo ao medo, de encontro à solidão.
Mas tu nunca me perguntas se tenho medo.
E eu tenho. Tenho tantas vezes.
Olhas-me apenas. Queres dizer-me que posso chorar, que não devo envergonhar-me. Mas não dizes. Não dizes nada.
Sentas-te e colocas as mãos sobre a face. Choras.
Pergunto-te se podemos chorar os dois.
Acenas afirmativamente e em segundos lá estamos os dois abraçados no nada.
Isa Mestre
ouve-me
[ao único que pode realmente ouvir-me]
Sei que estás aí. Não me deixes fugir. Quero acreditar que te posso ainda segurar a mão. Quero acreditar que o medo que agora sinto dentro do peito seja extinto por qualquer um abraço apertado no calor da noite, por um beijo quente enquanto durmo, por uma palavra sussurrada ao ouvido. Sei que estás aí. Não me deixes acreditar que estou sozinha.
Estou assustada. Cuida de mim. Fá-lo para que possa cuidar daqueles que mais amo.
Falo-te. Mas a tua voz quase sempre inaudível traz o medo de que a distância seja demasiado grande, de que a vida seja apenas um cruzamento de sentimentos e eu não saiba realmente estar em nenhum lugar.
Sei que estás aí. Mas perdoa-me, é maior o medo. É maior o amor, que afinal é a única coisa que nos faz ter medo.
Ouve-me. Não me deixes fugir. Não me deixes acreditar-me sozinha. Quero estar contigo.
Ou melhor, preciso que estejas comigo.
Perdoa-me o egoísmo das minhas palavras, mas preciso de ti.
Preciso que olhes por ele, que olhes por nós.
Isa Mestre
Sei que estás aí. Não me deixes fugir. Quero acreditar que te posso ainda segurar a mão. Quero acreditar que o medo que agora sinto dentro do peito seja extinto por qualquer um abraço apertado no calor da noite, por um beijo quente enquanto durmo, por uma palavra sussurrada ao ouvido. Sei que estás aí. Não me deixes acreditar que estou sozinha.
Estou assustada. Cuida de mim. Fá-lo para que possa cuidar daqueles que mais amo.
Falo-te. Mas a tua voz quase sempre inaudível traz o medo de que a distância seja demasiado grande, de que a vida seja apenas um cruzamento de sentimentos e eu não saiba realmente estar em nenhum lugar.
Sei que estás aí. Mas perdoa-me, é maior o medo. É maior o amor, que afinal é a única coisa que nos faz ter medo.
Ouve-me. Não me deixes fugir. Não me deixes acreditar-me sozinha. Quero estar contigo.
Ou melhor, preciso que estejas comigo.
Perdoa-me o egoísmo das minhas palavras, mas preciso de ti.
Preciso que olhes por ele, que olhes por nós.
Isa Mestre
Diálogo da tua ausência (2)
[para o meu outro eu]
Se ficares não me deixes só.
O medo sou apenas eu a olhar-me ao espelho,
o medo, reflexo de todas as palavras,
o medo, desenho cruel de todos os eus que me habitam.
Podes ir, mas por favor, se ficares não me deixes só.
Isa Mestre
Se ficares não me deixes só.
O medo sou apenas eu a olhar-me ao espelho,
o medo, reflexo de todas as palavras,
o medo, desenho cruel de todos os eus que me habitam.
Podes ir, mas por favor, se ficares não me deixes só.
Isa Mestre
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