auto-comiseração, um poema de Isa Mestre

Tu aí. Pára.
Não ouses escrever mais uma palavra.
Magoa-me o teu sentir, dói-me a tua dor.

E eu que não pedi para pensar,
de repente, aqui,
perdido, estático, inerte,
de repente tão vagabundo do meu ser.

Tu aí. Pára.
Entende que as palavras são balas e eu tenho o coração ferido.

Por isso, peço-te,
- Não me mates mais.

Isa Mestre

Apresentação de Polishop (Tiago Nené)























Perdoem-me a ausência, em razão da sobrecarga de trabalho. 
Saiu em Espanha, há umas semanas, o meu novo livro de poesia, intitulado Polishop (ed. bilingue, trad: Santiago Aguaded Landero). 
José Carlos Barros (autor do prefácio) apresentá-lo-á em Faro, com leituras de Ana Manjua, no Pátio de Letras como mostra o cartaz, e o Pedro Teixeira Neves, dia 19 de Junho pelas 18h00, fará o mesmo em Lisboa na livraria Trama.

A Inês Ramos publicou [aqui] um dos poemas do livro.

[tiago nené]

Poema ready-made

Aspergi um poema com uma colher de café
com leite
E o poema (sem
qualquer tipo de pretensiosismo) ficou imaculado
um acto tão mecânico como um espirro deu-lhe uma aura.
Um Néon num fundo branco no século XVIII (que novidade, que intransigência
quase como igrejas antes de haver casas)
Tudo no poema eram imagens seculares,
Um poema com café
Matéria em matéria em matéria
Repetição, como uma obra de arte é, repetida
sempre com conotação beatífica.
um poema com acessório é um poemacessório
Um poema com um brinco é nicho. Os nichos ajudam à
Metafísica. Quem lê agradece, quem escreve esquece.


Adriano Narciso

Elevador da Glória

Olho-te.

Olho-te e percebo que nem sempre os olhos servem para nos vermos.

Hoje, apenas escuridão.

Hoje, silêncio no lugar das palavras.
Hoje, o medo absoluto de sentir, de ser, de sorrir.

De sorrir-te.

Não me perguntas se me sinto só.

Queres perguntar outras coisas, mas as palavras ficam-te presas na garganta.
Embora não te veja a ti, vejo-as, sinto-as, agarro-as.

Em segredo. Sempre em segredo para que ninguém saiba o que dizem de mim.