Anasarca

No rebordo dos justos, onde o vazio envelhece para lugares maiores, já ninguém vela o soro dos que sobram. Despidos aos pedaços, desligam-se do tempo para remissão dos espectros que lhes saboreiam a miséria. Como dédalos. São os (in)voluntários da memória, ilegíveis, ao encontro do estro entre as paredes do limbo. Do berço compulsivo que é a ilusão de um ventre.

Escrevem e reescrevem a cronologia das metades. Um diário de drenos onde comem as datas que com impudor infectámos. E impudicos somos, como soturnas fraquezas em fila de espera, distribuindo cicatrizes pelas orações dos outros.

Há os que tingem a noite quando gritam. Arrastam restos de amor e outros objectos cortantes e sonham que os esfaqueiam. As mãos vãs, flagelando-se, não emendam o romantismo lutuoso de um jantar à luz das ambulâncias.

E os dias tornam-se punhados mortos. Abruptos. Pecados fulcrais, bem mais do que sete, lentas orlas em ruínas nos subúrbios do medo.

Escurece.

A dor demora-se. Deixa-se ficar, táctil, fervendo em canções de seda e sangue e fezes. Carece de corpos emendados de frente para a noite. Que não lhes falhe o epicentro de todos os fundos. Os vocábulos uterinos. A coragem.

(para nova tentativa de suicídio)

3 comentários:

Mikas disse...

Boa semana, cheia de poesia levada pelo vento.s

Teresa Queiroz disse...

adoro passar po aqui... :)
muitas vezes calada

Ana disse...

Vim em busca das tuas palavras que já não lia há muito. Anos? Talvez...
Mas a prosa mantém a mesma força (ou será mesmo poesia?)
Bj.