Relance



Encontrei a velha, no espelho
costas curvadas, rosto enrugado.
Quando me viu,
ensombrou os seus olhos
uma espécie de censura:
"aí estás, finalmente"
fiquei surpreendida.
Foi no final de um longo dia.
A velha parecia ainda mais velha.
Não temo mais as sombras
que dançam nas minhas costas,
mas essa velha que habita no espelho
que aparece, transparente e nítida,
implacável reflectindo,
com a pancada certeira da verdade
nessa superfície lisa, mortal e afiada,
essa sim...
temi-a como a Mãe dos golpes.

joana dias antunes

Persona


{para a Sofia, que tem no nome a essência}

É fácil viver
sem máscara,
mas não a tiramos.
Nunca.
(A máscara sai tão bem)

Sem a máscara
somos nós,
e sendo nós não nos conhecemos como
nos conhecem.

Somos corvos brancos
sem máscara.
Pétalas de uma flor em fogo;
Uma cadeira em lágrimas por não ter pernas
Tão fugazes
Tão distantes.
Rosas num canteiro que é todo água.

Sem máscara somos pessoa, génese.
O palco extingue-se
E o pano cai, sem máscara.
Somos nós e ninguém.


Adriano Narciso

Um poema de Sylvia Beirute - Poemoterapia















POEMOTERAPIA

este poema não é este poema.
este poema é sobre os efeitos secundários
deste poema.
assim, saberás guardar um segredo
se souberes guardar um silêncio,
andarás pela matriz
como se fosse a inteireza
do epílogo.
um outro sujeito poético
evocaria o arranjo
e a sombra.
a mim só me permito alertar
para o lustro do arranjo
e o uso da sombra,

e mandar todos os neuropoemas
para poemoterapia.

inédito

Exercício III, poema de Adriano Narciso (que deseja um bom Natal a todos)
















Sempre espero
que um dia nasça sol
em vez de terra, e o
sol cresça livre
nas mãos de uma
mulher convicta de que luz é tudo

os peixes cantavam em riachos,
livres dançarinos nos
lençóis molhados
que enchiam a foz. As barbatanas
inchavam-se
-os peixes como um rio num rio,
carne num copo de água,
carne feita de agua, impermeável.

O sol de bigode, nasce e morre
e todos os dias é déspota
e nós choramos
rimos
e estamos em gaiolas.
o sol
nunca vai nascer terra.


Adriano Narciso

Um poema de Sylvia Beirute - Açúcar-matéria




AÇÚCAR-MATÉRIA

já ter acontecido:
à falta de um vício, ser-me proposto um exemplo
de não exemplo,
o projecto de ser uma mulher de açúcar,
e reverberar a personagem no meu rosto.
e nos anticorpos da pré-exibição
ver um piazzolla, um piazzolla também de açúcar
e uma composição instantânea, o tango
de uma escalada em condição de cristal.

sim, já ter acontecido, já ter acontecido muitas vezes:
sermos feitos de açúcar, porque
assim que a dança começa, piazzolla,
sempre os corpos desabam.

inédito

Música: Gotan Project

O amor é um exercício de esforço - um poema de Adriano Narciso




















Na cara,
no rosto
estão as cores francas da verdade:
as palavras que são facas de
pele
que cortam a carne das sinapses.

Quando nos enredamos
e o outro não é senão
e Outro
choramos por não sermos todos iguais
e o coração bate,
arde, bate, arde
sincopado
E tudo é coração.
Tudo é
um só
coração.
O músculo
em esforço
infinito.

Adriano Narciso

A segundos de ti - um poema de Isa Mestre

[para ti, que me acalmas a dor por pareceres tão perto quando te escrevo]

O rosto terno, as palavras breves,
A doçura daquele Natal.
O teu último.

E nós tão felizes,
tão ridículos,
nós sem saber,
[porque ninguém sabe],
[porque ainda ninguém pode saber],
que aquele seria o último,
o teu último.

E tu com o cabelo por pintar a pedir-me que não tirasse fotografias,
E eu sorria,
Num flash que era ao mesmo tempo toda a luz e todo o amor que sentia por ti.
Num flash que hoje me devolve o medo,
A solidão.
A certeza de que somos tão incertos, tão voláteis.
A certeza de que nunca saberei quando será último.
O meu último.

Isa Mestre

Aida Monteón vence Prémio Palavra Ibérica

A poetisa mexicana Aida Monteón é, segundo a imprensa espanhola, a vencedora do Prémio Internacional Palavra Ibérica de 2010, sucedendo assim a Rafael Camarasa e Santiago Aguaded Landero, vencedores, respectivamente, em 2008 e 2009.
Ao que julgamos saber, a obra intitulada Decantación será lançada em Março do próximo ano. A tradução estará, à semelhança dos anos anteriores, a meu cargo.

[tiago nené]

Perdut, um poema de Isa Mestre

[ a todos os que perderam o que jamais se pode encontrar]

É isto o que existe entre mim e a morte.
Essencialmente nada.
Uma sombra. Uma solidão triste e vadia, às vezes feroz.

Gosto de acreditar que me vês.
Nesta solidão. Triste. Vadia. Às vezes feroz.
Nesta solidão que é o medo, que é a fome,
que é a luta de todos aqueles que não sabem por que lutar.

Gosto de acreditar que um dia todos saberemos por que lutar.

Existirás entre mim e a morte?
Entre mim e as coisas que amo?
Entre mim e o medo?
Ou simplesmente entre mim e o frio desta madrugada escura em que me pergunto:
Porque não estás?
Enquanto os punhos se cerram de raiva por uma perda que, por momentos, deixa de ser só minha para ser tua também. Do mundo inteiro.

Isa Mestre

Um poema de Sylvia Beirute - Conoscenza
























CONOSCENZA

{o teu reconhecimento é a tua dependência},
não o deixes passar da fase da costura.
surge. insurge. inespera.
adquire expressões através do
eco difuso dos vegetais, coloca-te
nas ranhuras da madeira.
há uma vida imprópria algures.
pode não ser como aquela que espera
na plumagem de uma memória
por antecipação, mas protege o silêncio
e não deixa coagular o sangue.
{o teu reconhecimento é a tua dependência},
e quanto mais o memorizares
mais afastado estarás
dos lados obtusos de quem te deseja habitar
e da semântica temporal
das pessoas que te pedirão um
poema bonito,
e nada pior do que escrever
um poema bonito.

inédito


Também postado [aqui]

Carlos Campaniço lança o romance "A Ilha das Duas Primaveras"





Clicar na imagem para ver o convite para a apresentação do segundo livro do autor de Molinos.

Fugidios

Os dedos fogem-me do teclado,
Chamam-me ridícula,
Atrapalham-se trôpegos na tarefa de chegar a ti.

Os dedos outrora inertes,
Agora vivos, agora meus,
Nossos.
De toda a gente.

Os dedos que não escrevem,
Mas é como se escrevessem.
Os dedos que não amam,
Mas são sempre tão naturais como quem ama.

Os dedos gastos de mentiras e cinismos profundos,
Os dedos fartos de sorrisos de plástico e corações de esferovite,
Os dedos a dizer,
- Gosto de ti.

Estes mesmos dedos que quiseram ligar-te agora mesmo para dizer:
- Tenho saudades tuas.
(Os dedos ridículos da segunda frase).

Isa Mestre

Um poema de José Emilio Pacheco: Memória



















MEMÓRIA

não leves muito a peito
o que diz a memória.

possivelmente não a houve esta tarde.
talvez tudo seja um auto-engano.
a grande paixão
somente existiu no teu desejo.

quem te disse que não te estaria contando ficções
para alargar o prorrogar do fim
e sugerir que tudo isto, tudo isto
teve ao menos um sentido.

José Emilio Pacheco
Tradução de Tiago Nené