Um poema de Sylvia Beirute - Desejo Infinitesimal

















DESEJO INFINITESIMAL

{que horas eram quando o tempo acabou?}
      {que horas eram quando deixaste de
poder reproduzir clandestinamente a explicação
            da conclusão do desejo infinitesimal?}
{que horas eram quando a razão de espírito
  substituiu a de ciência na ocupação do abraço?}
{que horas eram quando te adiantaste à felicidade
                    no dia que dilui
         na percepção multiforme da multidão?} 
{que horas eram quando a boca simulou
              o silêncio com princípios aleatórios?}
{que horas eram quando deixaste que a alma
         somasse corpos e subtraísse outros?}
{que horas eram quando viver era deixar morrer
         e a solidão incomunicável?}
{que horas eram quando o tempo acabou?
                          que horas eram?}

inédito

Trinta do seis

Tenho saudades tuas.
As frases de três palavras são quase sempre as mais difíceis de dizer. Como se ficassem presas na garganta, como se o coração, de repente, fosse apenas uma rua. Não uma estrada, como tantas vezes pensáramos. Uma rua. Sim. Uma rua.
Uma rua onde nem sempre cabem todas as tuas dúvidas somadas aos meus medos, divididas pelas nossas ansiedades, elevadas à nossa hipocrisia ao quadrado.
Não me recordo da tua voz. É talvez o que mais me dói.
Lembro o teu beijo, o teu cheiro, os teus braços fortes a acolher-me os medos, a acalmar-me as ansiedades. Mas a tua voz…a tua voz não. E depois o medo. A recordação. Sim, é exactamente isso. A recordação. Aquela noite repetida na minha memória, aquela noite tantas e tantas vezes. A camisola vermelha, as mãos trémulas e a minha boca a querer dizer-te,
- Adoro-te,
E o coração a chamar-me ridícula. O coração de uma rua. O coração, esse bicho de um só sentido.
Depois, o corpo assustado, hesitante, o olhar nervoso. As mãos a dizer,
- fica.
E tu a partir. Tu a partir sem que me deixasses sequer dizer-te adeus.
As minhas mãos,
fica,
E tu a deixares-te ir pouco a pouco, a levares um pouco de mim. Minto. A levares tudo de mim.
E o médico,
- Fizemos tudo o que podíamos.
E eu a saber que nós nunca podemos nada. Que nós nunca somos nada.
Eu a saber que as palavras são apenas palavras. E que as que não te disse são exactamente iguais aquelas que todos deixamos por dizer.
E o meu olhar, e o meu medo. E todas as coisas que sendo minhas, naquele dia deixaram de me pertencer.
E a tua voz já perdida no tempo,
- a miúda tem jeito para a coisa.
E é por ti. É por ti que estou aqui. É por ti que nasço e morro todos os dias na folha de papel. É por ti que escrevo e são para ti todas as palavras que um dia nunca soube ou pude dizer-te. É para ti o que ainda resta depois da partida.

Isa Mestre

Exercício de memória depois da queda

Quando nos vamos embora,
descemos pelas margens da água
e sorvemos o céu molhado com palhinhas.
A nata que desce dos rios connosco
tem o branco diamantino
das pérolas oceânicas.
As sereias nadam entre sinapses

[ouvem-se os aplausos]

Quando saímos da cena
O pano cai
(pano, caí!
o pano assiste à vida toda e só cai)
e somos bastidores
a melancolia do terceiro acto,
a vida em espelhos de maquilhagem, lágrimas privadas
que correm e abrem afluentes
Ramais.

E nós caímos,
O pano cai e caímos
como planetas presos às paredes de um quarto de um miúdo
como os planetas são tão pequenos aí! O universo num quarto.
E os rios seguem-nos,
E o branco, a nata, as sereias caem,

O mundo cai quando caímos.


Adriano Narciso

Os monólogos insurrectos - XV



Não te levantes do que escrevo. Às vezes basta um lugar aprendido no escuro como forma de enlouquecer até à exaustão. Um lugar incurável, muito morto, habituado a estar onde és. Um esmero maiúsculo, se assim o quisermos. Poucas vezes. Uma doença à procura de casa. Onde se fica em flor (ou vertigem), ou em atalho para ser escombro.

Julgo ser eu, só. O rosto recalcado ao mínimo revólver. Coleccionando balas alojadas nos lábios de onde cais em erosão genital. Fabulosamente falecida de memórias e de corpos; outrora a graciosa implosão de nomes.

Trouxe metade dos teus demónios. Uma dor muito forte, abastecida de vultos e distúrbios afectivos, de tal modo inseparáveis que por cada órfão cresce um fóssil para longe. Fizeram-te íntima de homens doentes. Nómada cardíaca. Recolhendo estranhos durante o sono e concedendo-lhes uma floresta de lares. Tão depressa envelhecendo para cônjuge para que ninguém te reconheça o fundo da diuturna deficiência dos anjos.

Ajoelha-te quando chegares ao fim. A tua boca é um covil de línguas nas embocaduras dos falos. Matriarca dos bálanos cheios de água, minimamente venosos, coando a idade dos aromas (e do desmembramento). Engole-me com o teu ânus permanente, vertiginoso por dentro (onde passei a última depressão). Um sítio onde sejamos a fundação de um desastre, de noite e de novo, pela força de um desfecho arável: o ofício de terminar pessoas em fluidos. Um armazém de gente viável e glandes e vulvas e rectos. Fezes. Criaturas anseriformes rasgando à escuta.

Entraste em defunto. Deus quis-te (f)ilha de um beijo negro, espectro por baixo, esquartejada pela fetal tessitura dos alísios. A lavoura dos ventos, como animalidade tácita, onde acabaríamos por tremer de escrita. Assim é o metabolismo dos casais. Um diagnóstico anódino, talvez, em socorro da pontuação que te veio acabar.

Li todos os livros onde poderia abandonar-te. Dupliquei de medo por tamanhos abismos e deixei-me comover. Masturbei-me à janela do teu retrato, onde carregas o esquife paradisíaco de uma criança improvisada.

Vim-me na tua consciência.

Duarte Temtem

(Foto da autoria de Deep)

Pragmática do Silêncio

[Para ti, que existes nos meus vazios. tantas e tantas vezes.]

Para escrever-te não preciso de quase nada.
Basta-me entender que és essencialmente o vazio.
Entender que, tal como as casas,
Também nós nos vamos construindo.

E os tijolos pesados, tantas vezes.

Os tijolos a ferir-nos as mãos,
Os tijolos a cair nos pés como grilhetas,
Os tijolos como palavras atiradas para o meio do caminho,

Os tijolos. Pesados.
Como as palavras.
Tantas vezes dispensáveis, tantas vezes inúteis.
Como quando apareceste.
As palavras a fugir-me por entre os dedos das mãos,
A deambular na inocência de um olhar que se perde, que se perde sempre.

E da vida, ficam apenas os vazios.
Os espaços onde nenhuma palavra consegue entrar.
Os espaço onde nenhuma palavra poderia entrar.

- Mesmo que quisesse?
- Mesmo que quisesse.

Isa Mestre

Um poema de Sylvia Beirute - Exercícios Para os Olhos
























EXERCÍCIOS PARA OS OLHOS

quem manda aqui é a biologia,
mas o sentimento incontrolável é aquele que se masturba.
eu apenas comecei o palco, síntese da arte, um
contra}actor contra o corpo.
cada corpo tem um deus, a sua estrutura de exibição
não encontra muita importância no texto inevitável.
{quem escreveu este texto? quem escreveu este texto 
sem seios, ânus ou um pudor que os cubra?}
a estética de tal esconderijo, vejamos, é, eu diria, circunstancial,
circunstancial, aliás,como o esconderijo dos
olhos circuncidados do público atento aos
actores que tapam os espaços mas sobretudo aos
que tapam os tempos com os es}paços de partes
inexibidas e por isso, imaginadamente, universais.
{a lágrima final é uma morte fetal}, poderia {eu} per-
feitamente dizer nesta fala depois de uma deixa redundante,
mas fugiria ao texto e nunca devemos fugir ao texto, a menos
que tenhamos um outro. { } mas, de repente penso: {se tivesse
um bisturi e me matasse, quem duvidaria
de que tal não viesse no texto?}

inédito

Os campos parecem mais vívidos quando nos vamos embora

{para a Sara,
porque os comboios acabam por parar onde queremos}


Os comboios andam sempre,
mas vagarosos,-
ténues como fumo de crematório,
fugazes-
quando há saudade.

Porque,
a saudade interfere como meteorito
na mecânica.
Oxida,
tolda-nos o pensamento como vendas nos olhos.

Toda a ciência,
sobretudo a Física,
devia estudar os efeitos da saudade.
Devia analisar a saudade como analisa átomos
(que são tudo, um espaço de matéria) porque
a saudade interfere na própria concepção do átomo.
(Um comboio que chega a horas atrasa-se,
quando há saudade);

Os comboios param sempre (a horas, atrasados ou descarrilados)
vivem na obrigação marcial do tempo e da Física –
chegam-nos, vemo-los.
A saudade anda sempre em nós, nunca chega e está lá,
É o tempo, a obrigação marcial do tempo.


Adriano Narciso

Correspondência - um poema de Sylvia Beirute

















CORRESPONDÊNCIA

{aos poetas contemporâneos do algarve}

para dizer {intemporal} digo {o infinito do tempo} ,
para dizer que {existe espaço} digo {vazio} ,
para dizer {passado} digo {o esqueleto do presente} ou
uso a sinédoque, estranhamente
mais exacta e rigorosa, {os seus ossos frágeis} ,
para dizer {cegueira} digo {a mera visão interior
com passos de tigre ao escuro} ,
para dizer {sacar verdades} digo {emitir um
certificado de existência poética}
para dizer que {sou} digo que {estou, ou estou por vezes},
para sentir {o anonimato contemporâneo dos outros poetas
que no jardim da alagoa passeiam os cães e fingem
não me ver} faço {assim com os ombros}.
para permanecer preciso de {usar as mãos}
e {estender todo o corpo nos lábios, ou entre sinónimos
e correspondências}.

inédito

Apresentação do livro Tamujal, de Ivo Machado, e considerações sobre o Prémio Literário António Ramos Rosa
























A apresentação de Tamujal, o mais recente poemário de Ivo Machado, integrado na semana dos Açores da Biblioteca Municipal de Faro, correu muito bem. Houve ainda tempo e oportunidade para se falar um pouco dos apoios que são necessários na nossa região de modo a acompanharem a excelência de alguma literatura que por cá se faz. Foi nesse sentido que propus à Directora da Biblioteca a alteração do regulamento do Prémio Literário António Ramos Rosa. Pouco sentido faz atribuir-se, de dois em dois anos, € 5000.00 a um autor já publicado, sendo que muitos poetas passam por enormes dificuldades para conseguirem uma publicação. Como tal, propus que o Prémio fosse atribuído anualmente, alternando-se o âmbito do mesmo: nos anos com número ímpar, este destinar-se-ia a obras inéditas em língua portuguesa, com garantia de publicação com uma editora com que deveria ser feito um protocolo ; nos anos com número par, o Prémio seria entregue nos moldes actuais. O valor de € 5000.00 seria repartido em duas metades, de modo a subsidiar as duas modalidades do Prémio. A proposta mereceu consenso. Veremos na prática.   


Tiago Nené

Um poema de Sylvia Beirute - Premissa de Tempo














PREMISSA DE TEMPO

começo onde acabas, ou onde estás quase a terminar, ou ainda
onde já acabaste mas tens uma palavra a dizer.
começo onde acabas e acabo onde acabas ou numa
das outras hipóteses. } sou exígua e o meu tamanho
varia consoante as tuas premissas de tempo.
neste lugar a respiração é imaginada e assim queimada
pelo sol, o meu corpo assim apaziguado ouve uma
sombra exaustiva e perpétua como o outono caótico
dentro de um sonho infinito. um dia, quando atingirmos
o ponto zero, começaremos de novo a existir, sem que ninguém
comece ou acabe onde o outro comece ou acabe,
e, sobretudo, sem que haja palavras que falem.

inédito

Semana dos Açores na Biblioteca António Ramos Rosa (Faro)





































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Ilusões Conclusivas - um poema de Sylvia Beirute

















ILUSÕES CONCLUSIVAS

talvez se descubra que aquilo
a que chamo "a miúda da paragem de autocarro, es-
perando o próximo, e que a levará 
do jardim da alagoa  até à praia"  é
afinal a sinédoque de um passado que
presentifica, na alma de outrem, um
sonho que recua. }
não tarda e este objecto complexo
entrará num autocarro
cheio de conclusões, ou melhor, de {ilusões
conclusivas}, e, assim que chegar à praia, fá-lo-á
regressar realizado, volúvel e vazio. }
aí, a sua forma interior, tão escura quanto
a inconsciência miúda de um grito passivo,
assemelhar-se-á, tanto quanto possível e ressalvando
diferenças formais que só à Poesia dizem respeito,
ao seu conteúdo prévio.


inédito