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Um produto consagrado é melhor do que um anónimo.


Sinto-me cada vez mais um produto. Um daqueles, não muito diferente de uma lata de soja enlatada, vinda directamente da china, e que repousa, cheia de pó, no canto mais recôndito de uma prateleira de supermercado. Nos dias mais ensolarados sinto-me superior, como um espadarte cheio de químicos invisíveis, vaidosamente erguido por cima de um iceberg de gelo, artificialmente construído para ajudar à festa do faz de conta que se é giro. Se é giro vende! Sinto-me vendido, pois então…

Bocejo. Passo as mãos pela cara e aceno um não com a cabeça. Talvez devesse esbofetear a cara em vez de acarinhar a sua posição acomodada.

Não tenho vergonha. Os anos domesticam quaisquer sinais de liberdade que por caturrice, ainda teimem em ocupar a mente. Vergonha é coisa de sem abrigo que dorme na rua. De toxicodependente, fugaz à vida. De alcoólico. Aquele «ai Jesus» [adoro esta expressão] que comete o hediondo crime de ambicionar a todo o instante, esgotar com o narcótico oficial da comunidade. De prostituta. Aquela tipa que por sinceridade maior que a de muitas mulheres sustentadas por matrimónios manifestamente cristãos, continua, repetidamente, a ser ultrajada em hasta pública na actualidade, por vozes que no passado foram como cruzes queimando com orgulho todos os corpos moribundos.

Eu não posso ter vergonha. Eu tenho um trabalho. Eu visto-me bem. Como bem. Ouço, leio, vejo, sinto, penso e falo bem. Eu tenho uma televisão em casa. [às vezes faço zapping] …

Sinto-me cada vez mais um produto. Um daqueles que só tem qualidades. Acham que estou à altura de ser uma lata de coca-cola? Ao menos não criava bolhas nos pés, enquanto tinha de esperar ansiosamente que alguém me decidisse levar…


Arde um beijo.

Arde um beijo. Os labirintos das nossas línguas são o fogo. E as bocas, o único oxigénio que controla o que resta de consciente nesse gesto. E Arde… Arde… Arde.

[Existem incêndios que jamais haveriam de se extinguir…] Os nossos corpos respondem, e, por entre os resquícios de mais um dia penosamente igual aos outros, o perigo interrompido desse acto socialmente proibido, desnuda-nos as almas e torna-nos mais humanos.



O último encontro.


Sinto-me frágil. Não é fácil escrevermos quando estamos frágeis. Apenas o eco das tuas palavras na minha cabeça. Apenas a ressonância que te neguei naquele cerrado mês de Agosto, quando pensando que já te tinha esquecido, me fizeste perder novamente de mim com as tuas dúvidas ternas e a tua confiança acutilante.

Estavas sentada numa cadeira, olhando-me nos olhos e te distanciando deles. Num estar de corpo presente, num estar de querer somente confirmar quem de nós dois era o mais confiante. Talvez fosses tu. Talvez sejas sempre. Sempre pequei por pensar em demasia...

«Ouvi dizer que os escritores passam por um período difícil quando sofrem por amor», disseste, em tons do que me pareceu ser orgulho.

«Não sei… Mentiria se não te dissesse que tive um pequeno bloqueio após nos separarmos, mas foi efémero e saudável pois catapultou-me para outra realidade, ajudando-me a construir coisas novas e diferentes.» Respondi, completamente ciente de que nada daquilo era verdade, uma verdade que só era tangível na profundidade de mim mesmo, onde a mente perde o controlo dos sentidos e a apatia nos engole a alma.

Sim, os escritores ficam paralisados quando sofrem por amor. E ficam amedrontados pelo futuro enquanto aguardam sem vontade por ele, escondidos num lugar onde o mundo se esvai em cinzas antes do fogo ter mostrado a sua ira. Sim, os escritores revivem o passado, dentro de si próprios, de hora a hora, cronometrados por um relógio cruel chamado de saudade. Sim, eles sofrem e choram o seu sofrimento. Eles camuflam-se na escuridão da noite, fiéis à convicção de que desse modo, a sua tristeza não será vista.

Eles passam por aquilo a que tu chamaste de "período difícil" e que eu, como escritor do meu próprio destino, não tive a bravura necessária para o admitir…

O degrau

A pele entra em ebulição, os olhos gelam, o corpo é um completo paradoxo.

- Sento-me numa escada e vejo outros subirem, descerem. Os objectivos de vida sobem e descem com eles. Eu, estático, fico-me naquele mesmo degrau. Os objectivos desistiram de mim e desceram. Saíram porta fora e comprimiram-se no vento gelado da rua.

Adriano Narciso

Anasarca

No rebordo dos justos, onde o vazio envelhece para lugares maiores, já ninguém vela o soro dos que sobram. Despidos aos pedaços, desligam-se do tempo para remissão dos espectros que lhes saboreiam a miséria. Como dédalos. São os (in)voluntários da memória, ilegíveis, ao encontro do estro entre as paredes do limbo. Do berço compulsivo que é a ilusão de um ventre.

Escrevem e reescrevem a cronologia das metades. Um diário de drenos onde comem as datas que com impudor infectámos. E impudicos somos, como soturnas fraquezas em fila de espera, distribuindo cicatrizes pelas orações dos outros.

Há os que tingem a noite quando gritam. Arrastam restos de amor e outros objectos cortantes e sonham que os esfaqueiam. As mãos vãs, flagelando-se, não emendam o romantismo lutuoso de um jantar à luz das ambulâncias.

E os dias tornam-se punhados mortos. Abruptos. Pecados fulcrais, bem mais do que sete, lentas orlas em ruínas nos subúrbios do medo.

Escurece.

A dor demora-se. Deixa-se ficar, táctil, fervendo em canções de seda e sangue e fezes. Carece de corpos emendados de frente para a noite. Que não lhes falhe o epicentro de todos os fundos. Os vocábulos uterinos. A coragem.

(para nova tentativa de suicídio)