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A Casa do Esquecimento, de Fernando Dinis























Já está à venda o livro do nosso amigo e colega do Texto-al Fernando Dinis. O romance A Casa do Esquecimento foi o vencedor do Prémio Fnac/Teorema.

[tn]

Cinco

Pressentes o cálido gesto do chamamento,
habituado à dança movediça dos ombros
desnudos. Chegou a hora. Inclinas o rosto
na senda de pele, fechas os olhos como se
repetisses novamente o teu primeiro beijo.
Nas aulas de Balthus, ombros assim terminariam
o estudo de solfejo. A aluna mostraria os seios
como uma flor intacta. A professora delineando
o secreto distanciamento, levaria uma mão às
coxas suadas, talvez um beijo na curva do lábio,
embaraçoso, falhando a língua da rapariga.
Somos assim no duelo do apelo, na agitação
iniciática, animais ferozes no asfalto lançados, (animais)
que não encontram nunca o seu alimento.
Sombras estilhaçadas pelo estertor da noite.
O coração lateja quando o corpo decide em
que hemisfério se dilui, é ele que projecta
a periferia da lucidez. Clandestinos ultrapassamos
a barreira. As mãos presas pelos nós dos dedos.
Saltamos ao abismo. O abismo é um lugar
fechado em que respiramos um no outro,
onde o cheiro se funde e derrete em fadiga.
Volátil a voz distende-se no sussurro desprevenido.
A voz chega ao abismo e morre no oco do nosso
nome. O nosso nome é um corpo esponjoso
que se esfrega na fúria luminescente de desejo.

(Fernando Dinis)

Convite

No próximo Sábado, dia 27 de Setembro, pelas 21:30, é lançado o livro do poeta Jorge Vicente, Ascenção do Fogo, na Livraria Trama, em Lisboa. Estarei presente a tocar algumas músicas. Haverá declamação aberta de poemas. Apareçam.

(Fernando Dinis)

Quatro

Eu entendo algo no teu corpo como se a noite
ainda não tivesse nome. A ignorância impele-me
sou um todo no meu querer que te atinge
e que precisa fugaz do retorno, qualquer
movimento de aproximação

(eu entendo como se por engano dissesse)

Um de nós habita a soleira luminosa do adeus
regressa vago de rosto consumido por outros olhos
outras mãos que naufragaram onde teimávamos existir
todo o cheiro entranhado como águas nas terras profícuas

Alto se levantaria um sol de Julho, algumas letras
do poema disperso nos livros que também seguiram viagem
e ficaríamos quietos durante muito tempo
a entendermos ambos que nome teria a nossa própria noite

(Ouve-me, não venceremos os anos, não faremos do tempo
nada nele faremos se um de nós quiser ultrapassar a soleira)

Eu poderia morrer agora e deixar-te escrito que te preciso

(Fernando Dinis)

Cinco Anos

A cidade é a mesma. A cidade sempre fora a mesma. Mas a seus olhos, a perdição era cortante. Só quando estavas prestes a desmaiar novamente, é que entendeu que podia voar, sendo esta a única forma do meu encontro. Percorreu sete céus assim como eu raptei sete mulheres, em busca de um cheiro.

Percorreu-os como se fosse a última coisa que fizesse enquanto vivia, até que se sentiu exausta. Desceu e voltou ao seu quarto. Quis vomitar o que bebera. Pressionou o vómito e fui obrigado a sair. Só então entendera que eu era a própria estrela e que todo este tempo estava dentro dela.

«Porque nunca me sentiste dentro de ti? Não notaste a tua pele macia como veludo e os teus cabelos com um brilho incandescente? Em que outros dias da tua vida tiveste a liberdade de voar?» Rita debruçou-se no chão e sorveu novamente o que expelira. Entrei nela. Fechou os olhos para ver melhor e abriu os braços preparando o voo. Antes de saltar pela janela ainda disse «Pois agora estarás comigo no mergulho pelos céus, e na eternidade embarcaremos. Não levarei objectos nem jóias. Ferve-me o ventre e será este fogo a minha herança, que agora também te pertence. Voarás comigo, e quando me sentir exausta, desceremos ao cume de todas as cinzas, e iremos adormecer suavemente.»

Três

Estou finalmente curado de ti.
Só agora poderia amar-te.

(Fernando Dinis)

Dois

Por momentos, a luz sitiou o teu corpo. Era manhã.
Eu criminoso olhava-te fingindo-me adormecido.
Ousei ainda pensar que te amava, e que os meus dedos
não eram só os meus dedos no teu cabelo.
Eram vozes altas e ruidosas trepidando em paredes despidas
animais acossados pelo incêndio surpreso,
ou ainda e simplesmente
todo eu num gesto indefinido de sabedoria,
pronto a errar.
Era manhã. E a luz incidia o teu nome dentro da minha
própria cabeça. Ousei ainda nomear objectos, martirizar
a linguística até estar inapto a chamar-te, a procurar-te,
até não te saber dizer.
Apropriar-me da ruína imensa de te perder, e fazer dessa dor
uma simples canção de choro e cegueira.
Por momentos era manhã. Ou o teu corpo a minha luz sitiada.

(Fernando Dinis)

Um

Os corpos têm a liquidez das palavras
combinamo-los
até ganharem sentido.

(Fernando Dinis)

novo reforço

Fernando Dinis é o mais recente reforço do Texto-Al, apresentado há minutos na sede do Club Farense. Visivelmente emocionado, o grande pianista e escritor português alegou ser "do texto-al desde pequenino" e que se cortássemos uma veia sua o seu sangue seria preto e branco, precisamente as cores do grupo literário do Algarve. Também Luís Ene falou à imprensa dizendo estar muito feliz com o plantel de jovens escritores à disposição, augurando grandes eventos para a época 2008/2009. Os trabalhos de pré-época começam no dia 2 de Setembro, pelas 21.30, na sede do Texto-Al.

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