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Efeitos Micro-Estéticos II

Ler poesia de que não se gosta é uma forma de masoquismo.

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What's the weather like?

















Está a chover tanto aqui que tive de cancelar o meu encontro para esta noite. Talvez escreva um livro para não editar.

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Efeitos Micro-Estéticos
















Se um mau poeta declara que todos os poemas de outro são maus, tal declaração pode e deve ser interpretada, a contrario sensu, como um elogio.

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Importanticidade de palavras














depois de ter lido alguns poemas de um jovem poeta, ocorreu-me a minha não preferência por aqueles poetas que colocam as palavras em bicos de pés, como que se a sua forma estivesse, por isso mesmo, mais longe do seu conteúdo.

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Comparações

Mais ninguém escreve poesia na minha rua. Desse modo, nunca poderei dizer que sou o melhor.

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Pensamento

Partiram aqueles que precisam de regressar.

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A felicidade dos meus amigos

Este mundo é pequeno. E a net extinguiu distâncias. Perguntam-me quando sai o meu livro Instalação, a que fiz referência aqui. Eu respondo que não tem data de lançamento prevista mas que gostava que saísse em 2009. Mas se não sair, creio que não haverá problema algum. Afinal, para quê lançar livros? Será que o meu fará realmente alguma diferença no panorama literário português? Não creio, mas sei que alguns amigos meus (poucos) ficariam felizes. Agora que falo nisso, talvez fosse boa ideia mandar fazer apenas oito exemplares da obra: um para cada amigo (sendo que tenho sete amigos) e um extra para o depósito legal.

PS: nunca mais soube nada de F.

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Defeitos e Qualidades



















Creio ser a insegurança a principal característica de um artista. Bem pelo contrário, F. é muito seguro de si mesmo.

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Declaração de Interesses

Invejo todos aqueles autores que, com os olhos gordos de orgulho lacrimejando um passado que os uniu, dizem: "eu também passei pelo DN Jovem".

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The Truth

Para além disto, o que frustrava F. era o facto de, não tendo eu os mesmos objectivos do que ele, ele ver em mim o talento que precisava para atingir os seus.


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Rectificação - continuação da novela em micronarrativas "a vida e obra de F."

















[baseado numa história verídica
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Menti um pouco. O que realmente frustrou F., levando-o a sair da sala, foi a nossa diferença de ambição e de objectivos na literatura. Ele não suportou o facto de eu buscar na escrita uma felicidade momentânea e, mais ainda, de o assumir. Nos dias seguintes os grandes elogios de F. em relação à minha poesia tinham o claro e firme propósito de me erguer enquanto seu rival.

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Polaroid




















F. saiu da sala parcialmente morto.

Nada o frustrou mais do que o facto de eu não ter aceite os seus elogios.

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Perspectivas no meu quarto azul













Um bom poeta tem direito a escrever alguns poemas maus.

Um mau poeta devia ter vergonha.


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últimas palavras



Não escreverei nem mais uma linha, desta vez é mesmo a sério, não voltarei atrás, escreveu ele, mas já ia na segunda linha, a caminho da terceira.

caras de poucos amigos

Diziam-lhe frequentemente que tinha cara de poucos amigos. Nada de mais errado. Na realidade, o seu rosto era uma mistura de todos os seus amigos, porque sempre pensara neles. A questão é que estes nem se podiam ver.


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fado

Quando o homem-bomba encontrou a mulher-relógio, soube que tinha chegado a hora.

crime perfeito

Matou a mulher com uma martelada certeira na cabeça mas nunca foi condenado. Explicou no inquérito que falhara o prego que a mulher segurava para o ajudar.

[pois é, não existem crimes perfeitos, mas sim investigações imperfeitas]

da validação de um golo que não existiu













A bola bateu no poste, percorreu toda a linha de baliza, creio ter entrado um bocadinho.

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O guarda-redes ainda está a meio do seu voo, mal sabe ele que esta bola não vai entrar, como exigem as regras, totalmente na baliza que há cinco anos protege.

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Mas ainda é cedo, ainda é muito cedo, ainda a bola não bateu no poste e já o árbitro olha para o árbitro auxiliar.

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E repito: ainda é cedo para os árbitros se olharem mutuamente. Se o árbitro olha para o árbitro auxiliar não vê o lance, e mais: corre o risco de distrair, com o seu olhar, o árbitro auxiliar mais próximo do acontecimento.

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O guarda-redes enfim se lança. Tsubasamente está no ar, e os olhares dos dois árbitros - o auxiliar e o principal, o juiz da partida, lamentavelmente se cruzam. Nenhnum deles vê correctamente o lance, nenhum deles sabe se a bola transpôs, ou não, na totalidade a linha de golo.

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Perante os festejos/protestos da equipa que ataca, olham os dois para o árbitro-auxiliar-mais -distante, que os ignora e deixa sozinhos. Já o quarto árbitro, ocupado com uma substituição da equipa que naquele momento atacava e que agora reclama o golo, qual último cartucho de um técnico psicologicamente em vias de ser chicoteado, não se mete ou meteria num assunto tão delicado quanto este, nem para formar quórum em sede de deliberação entre todos.

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O árbitro e o árbitro-auxiliar-mais-próximo-do-lance vão ter de decidir e, de preferência, em segundos. Pedem aos jogadores de ambas as equipas para que se afastem. Passa mais tempo do que o previsto – um minuto, dois minutos (sem contar com as interrupções dos dois capitães). É tempo a mais. O público exaspera, e assim milhares de telespectadores que pela TV acompanham o jogo (escuso de revelar o que vi da repetição repetida ao extremo).

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O juiz da partida aponta para o centro do terreno. Nada mais importa. É golo.



Tiago Nené, inédito