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da validação de um golo que não existiu













A bola bateu no poste, percorreu toda a linha de baliza, creio ter entrado um bocadinho.

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O guarda-redes ainda está a meio do seu voo, mal sabe ele que esta bola não vai entrar, como exigem as regras, totalmente na baliza que há cinco anos protege.

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Mas ainda é cedo, ainda é muito cedo, ainda a bola não bateu no poste e já o árbitro olha para o árbitro auxiliar.

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E repito: ainda é cedo para os árbitros se olharem mutuamente. Se o árbitro olha para o árbitro auxiliar não vê o lance, e mais: corre o risco de distrair, com o seu olhar, o árbitro auxiliar mais próximo do acontecimento.

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O guarda-redes enfim se lança. Tsubasamente está no ar, e os olhares dos dois árbitros - o auxiliar e o principal, o juiz da partida, lamentavelmente se cruzam. Nenhnum deles vê correctamente o lance, nenhum deles sabe se a bola transpôs, ou não, na totalidade a linha de golo.

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Perante os festejos/protestos da equipa que ataca, olham os dois para o árbitro-auxiliar-mais -distante, que os ignora e deixa sozinhos. Já o quarto árbitro, ocupado com uma substituição da equipa que naquele momento atacava e que agora reclama o golo, qual último cartucho de um técnico psicologicamente em vias de ser chicoteado, não se mete ou meteria num assunto tão delicado quanto este, nem para formar quórum em sede de deliberação entre todos.

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O árbitro e o árbitro-auxiliar-mais-próximo-do-lance vão ter de decidir e, de preferência, em segundos. Pedem aos jogadores de ambas as equipas para que se afastem. Passa mais tempo do que o previsto – um minuto, dois minutos (sem contar com as interrupções dos dois capitães). É tempo a mais. O público exaspera, e assim milhares de telespectadores que pela TV acompanham o jogo (escuso de revelar o que vi da repetição repetida ao extremo).

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O juiz da partida aponta para o centro do terreno. Nada mais importa. É golo.



Tiago Nené, inédito

a impaciência dos peugeuts

[uma crónica daquele que um dia foi apelidado de jovem poeta de faro, mas que entretanto deixou de escrever - a evitar]











Hoje ia a conduzir e eram cinco da tarde. Ou melhor, hoje eram cinco da tarde, é justo o tempo vir antes pois se não conduzisse seriam na mesma cinco da tarde, e resolvi fazer a experiência de conduzir entre os 5 e os 10 kms/h, naquelas ruas com uma só via e sentido, e em que é imperioso seguir o carro da frente , não havendo pois espaço para a manobra de ultrapassagem. Comecei então a contar os minutos que o automóvel de trás levaria até começar a buzinar perante a marcha lenta que eu impunha. Registei que os condutores de carrros de alta cilindrada, tais como os Mercedes e os Bmws aguentam 40 segundos e logo apitam (tempo médio, como todos os tempos que indicarei), os fiats, designadamente os puntos, levam dois minutos, o citroen C3 aguenta três minutos se for uma rapariga a conduzir, dois minutos e meio se for rapaz. Registei também que os pequenos carros comerciais (renault clios, opeis corsa e companhia lda) apitam volvidos trinta segundos e os seus condutores fazem gestos obscenos dentro do veículo. Os peugeuts, 206 e afins, carros da mesma marca que o meu, não toleravam a minha lentidão e depressa, em cerca de 10 segundos, a buzina soava. O que é verdadeiramente importante dizer é que, se odiamos ver os nossos defeitos nos outros, muito menos queremos ficar com os defeitos dos outros, principalmente se as condições são as mesmas e tudo o resto é propício. Creio que só isso explica a impaciência dos peugeuts.



[tn]

um conto

Em destaque:

O Atraso, de Fernando Dinis

sem título


Ao correr do tempo

Ao correr da pena

Ao correr atrás da vida que tenho e que não queria ter

Por momentos

Por uns estranhos

Estranhíssimos

Momentos

E num inútil absurdo inconsequente esforço de resistência

Pensei parar um pouco o tempo, o tal de tempo que outrora julguei meu

(Talvez sonhar, querer outra vida...)

Mas

Apanhei o autocarro a correr

Entrei no emprego a correr

Esqueci a vida que queria ter

Estranhamente e apesar de tudo

Depois

Num inútil absurdo inconsequente esforço de resistência

Não corri

Parei

Por isso a máquina determinou eloquentemente o meu destino

Morri

Apesar disso no dia seguinte voltei de novo ao emprego e ninguém deu por isso passaram todos a correr atrás das vidas que não queriam ter e que nem essas tiveram tempo para viver ou sequer notar que eu estava morto continuaram a correr só quando morressem se aperceberiam que estavam parados continuaram a correr eu apesar de morto no exacto fim do expediente voltei para casa no dia seguinte no exacto início do expediente voltei para o emprego ninguém deu pela diferença pelo que aqui continuo morto e mais uns dias e até eu próprio julgo que estou vivo de novo tanto mais que nesta puta desta vida que eu não escolhi entre a vida e a morte não há nada nem um momento de diferença e vivendo nesta indiferença nem alguém nos empresta sequer uma vírgula caramba

- Não tenho uma vírgula mas toma lá um ponto dás-me o troco depois – disse o Zé da contabilidade

- Obrigado - respondi

Ponto

(- Para Ágrafo! – ordenei eu ao motorista da minha nave enquanto acenava ao mundo pela escotilha do meu quarto privativo com uma suprema vista para as 53 luas que orbitam os meus desejos inconsequentes)

a mesma história de sempre

[Há tempos, alguém que me conhecia como autor de micronarrativas perguntou-me, não sem ironia, quando é que eu escrevia um romance. Respondi-lhe, com um sorriso, que não só já tinha escrito um romance, como até o tinha publicado. Na verdade foi o primeiro texto literário que escrevi, e que vi publicado. O que só vem ao caso para dizer que se escrevo contos é porque gosto de o fazer, não porque não consiga escrever romances. E mesmo se não conseguisse... ]


A MESMA HISTÓRIA DE SEMPRE
[O quê, quem, onde, quando e como.]


Olha o que fizeste!

Não tem importância.

Não tem importância?

Deixa, eu trato disso.

Contigo é sempre a mesma história. Por que o fizeste?

Porque me apeteceu.

O problema é esse, fazes sempre o que te apetece.

Tens razão, é sempre a mesma história, não vale a pena falar sobre isso. Olha, vou tomar banho e trocar de roupa.

Saiu da sala e entrou num dos quartos, o único que tinha casa de banho privativa. A mulher seguiu-o, sentou-se na cama e ficou a vê-lo despir-se. O homem foi colocando cada peça que despia numa cadeira, até ficar completamente nu. Depois tirou do armário a roupa que ia vestir e estendeu-a em cima da cama, ao lado da mulher.

Não te compreendo.

Nem eu me compreendo.

És sempre tão metódico, tão organizado, quase fanático, e ao mesmo tempo és tão impulsivo, tão… nem sei.

O homem olhou-a sem responder e dirigiu-se nu para a casa de banho, onde entrou deixando a porta aberta atrás de si. Pôs a água a correr e veio até à porta.

Não me compreendes, não me compreendes, e depois? É sempre a mesma história, para tudo precisas de um porquê. A mim não me interessam os porquês, pensei que já tinhas percebido. Faço o que tenho de fazer e depois não penso mais nisso. O que está feito está feito.

A mulher ficou a olhar para ele, para o seu corpo nu, até que ele lhe voltou as costas e entrou na casa de banho. Agora tinham de ir embora, haviam alugado aquela casa isolada junto ao mar e planeado ficar ali um mês, mas nem sequer tinha passado ainda uma semana.

Levantou-se, foi até à porta da casa de banho e gritou lá para dentro:

Agora vamos ter de ir embora!

E como ele não respondesse, gritou de novo:

Estás a ouvir-me?

Estou a ouvir, disse o homem, fazendo-se ouvir com nitidez por cima do barulho do duche.

Então por que não me respondes?

O homem fechou o duche, correu a cortina, esfregou-se vigorosamente com uma enorme toalha amarela e colocou-se à frente dele, olhando-a nos olhos.

Estou a ouvir.

Ela aguentou o olhar dele e ficaram assim algum tempo, imóveis, silenciosos, um à frente do outro, a olharem-se.

É sempre a mesma história. É sempre a mesma história, repetiu a mulher, e tocou-lhe o peito com as pontas dos dedos e, sem deixar de o olhar nos olhos, cravou-lhe fundo as unhas, sentindo-o contrair-se. O homem enlaçou-a e puxou-a para si, mas a mulher libertou-se e soltou uma gargalhada forte.

Isto não é como tu queres.

O homem olhou-a sem dizer nada e dirigiu-se para cama, começando a vestir-se, primeiro as cuecas, depois as meias e finalmente a camisa e as calças.

Vamos embora daqui?

Podemos ir e podemos ficar.

Tanto faz?

Podemos fazer uma coisa ou outra.

A mulher estava à porta do quarto. Virou a cabeça para ele sem sair do sítio.

O que queres fazer?

Não sei, acho que tanto me faz. O que queres tu fazer?

A mulher riu-se.

É sempre a mesma história. Fazes sempre o que te apetece, mas de vez em quando perguntas-me o que quero.

O homem sorriu pela primeira vez, e a mulher pensou que ele tinha um sorriso bonito.

É muito mais fácil irmos embora. E acho que já não faz sentido ficar aqui.

A mulher sorriu também.

Tens razão. Vou arrumar as minhas coisas. Em meia hora estou despachada. Que dizes?

Sim, vou fazer o mesmo. Encontramo-nos no carro daqui a meia hora.

E ele?

O que tem?

Vamos deixá-lo aqui?

É o mais fácil. A casa foi alugada através de uma agência, com um nome falso. Só daqui a mais de um mês encontrarão o morto. Nada nos liga a ele. Seja como for já estaremos longe.

Olharam-se em silêncio até que a mulher, de forma brusca, beijou o homem de leve nos lábios e saiu do quarto, passando pela sala sem olhar para o lugar onde o morto jazia no chão.

Mais tarde, quando saíram, fizeram os dois o mesmo, pois nem por um momento olharam para trás.

É sempre a mesma história. O que está feito está feito.

a sua melhor obra

[Explicar o que escrevo é algo que evito fazer, pois não sei explicá-lo, por isso é que escrevo, mas posso aqui e ali falar de como surgiu a ideia para escrever ou do que tentei fazer. A ideia deste conto, o seu ponto de partida, é-me facilmente identificável, e penso que o será também para aqueles que estiveram presentes no último encontro do texto-al, com Paulo Serra. Nos últimos dias tenho feito pequenas alterações ao texto, sobretudo cortes, mas a forma é já a final, e pouco falta para o dar por terminado. Como este pretende ser um espaço de partilha e discussão, deixo-o aqui, para quem quiser dizer o que lhe apetecer. Se alguém o quiser escrever de outra forma, que de certeza há muitas outras formas de o escrever, esteja à vontade.]


A SUA MELHOR OBRA

[ao Paulo Serra]



Está excelente. É a tua melhor obra.
Achas?
Nunca fizeste nada assim. É o melhor que já fizeste, e um dos melhores quadros que já vi.
Mas ainda não está acabado.
Para mim está mais que acabado.
Não, falta qualquer coisa.

A tela estava deitada no chão e o pintor ajoelhado a seu lado, como se rezasse, a cabeça baixa. O amigo, o único verdadeiro amigo que tinha, estava em pé à sua frente, e ambos olhavam o quadro.

Estás no pleno domínio da tua arte, este quadro diz isso. Conseguiste finalmente encontrar o equilíbrio que procuravas.
Equilíbrio?
Nota-se também no que dizes, na forma como falas da tua arte. Estás diferente. Estás melhor.
Organizei-me. Precisava fazê-lo.
Sim, e isso nota-se. Há um equilíbrio quase perfeito entre o que és e a tua arte.
Equilíbrio?

O pintor olhou para cima para o amigo e os seus olhares encontraram-se. Conheciam-se há muito tempo. Tinham aprendido a escutar-se um ao outro.

Estou mais sereno mas dificilmente chamaria equilíbrio a este meu novo estado.
Estás mais seguro.
Mais seguro?
Sim, mais seguro.
Talvez.

O pintor levantou-se e recuou dois ou três passos, sempre a olhar para a tela no chão.

É sempre tão difícil acabar um quadro.
Como é que sabes quando está acabado?
Quando está acabado eu sei! O difícil é chegar lá.
Mas não sabes o que queres fazer?
Não exactamente.
Não antecipas o quadro acabado?
Não. Não propriamente.

O amigo colocou-se ao lado do pintor e ficaram os dois durante algum tempo em silêncio, a olhar a tela. O dia estava a terminar e a luz entrava já a custo no atelier. O pintor continuava a olhar a tela.

Vamos beber uma cerveja?
Mais tarde.
Tens a certeza?
Tenho de acabar o quadro.
Pensei que concordavas comigo.
Como?
Pensei que tinhas concordado que estava terminado.
Não.
O quê?
Não está terminado.
Não?
Não, ainda não.

O pintor continuou a olhar o quadro, silencioso, imóvel. A tela no chão oferecia-se ao seu olhar, submissa, mas ele olhava-a como que assustado, desconfiado. O amigo olhou para o pintor, de uma forma não muito diferente daquela que o pintor olhava para a sua obra.

Olha que não te morde.
O quê?
Olhas para o quadro como se fosse um animal perigoso.

E sorriu, soltou mesmo uma pequena risada, mas o pintor manteve o mesmo semblante inquieto e não desviou nem por um instante o olhar do quadro. O amigo foi até à porta, acendeu a luz, e ficou a olhar o pintor.

É a tua melhor obra, disse finalmente, e saiu sem esperar resposta. Sabia que quando ele estava assim o melhor era deixá-lo sozinho. Ou terminaria o quadro ou abandoná-lo-ia, mas ia demorar. Já tinha estado noites inteiras à espera que ele acabasse um quadro. Mas quando ele conseguia acabá-lo, podia ser uma pequena pincelada, uma mancha de cor, ou até uma frase, o quadro ganhava subitamente sentido e brilhava como uma estrela recém-nascida. Mas daquela vez o quadro parecia-lhe acabado, e o mais certo é que o amigo acabasse por desistir.

Dobrou a primeira esquina a seguir ao largo e entrou no café onde iam muitas vezes os dois beber uma cerveja. Numa das mesas estava um amigo que morava ali perto, também escritor, companheiro de copos e de tertúlias.

Vieste visitar o teu amigo pintor?
Sim, saí mesmo agora do atelier.
Como é que ele está?
Está bem, as coisas estão a correr-lhe melhor. Está a começar a ser reconhecido.
Gosto do que ele faz.
Está cada vez mais no domínio da sua arte.
Os quadros dele são bastante obsessivos, não são? E ele então, é melhor nem falar.

Estavam os dois a beber cerveja e davam longos golos pelas garrafas, como que pontuando cada frase com um silêncio líquido.

A ligação entre a vida e a obra é nele muita íntima e intensa. Como em todos os grandes artistas! Não concordas?
Claro. A técnica por si só pode produzir boas obras, mas para uma obra excelente é preciso algo mais.
Havias de ver o quadro que acabou de pintar. Excelente. A sua melhor obra.

E pediram mais duas cervejas, e falaram de literatura, e mudaram de sítio, e continuaram a beber cerveja e a falar de literatura. Só muito mais tarde o escritor voltou a lembrar-se do seu amigo pintor.

Teria acabado o quadro?

No exacto momento em que o amigo se interrogou, que a realidade ultrapassa muitas vezes a ficção, o pintor levantou-se decidido, sacudindo a sua imobilidade, e dirigiu-se a uma bancada perto da janela, de onde retirou uma navalha que usava habitualmente, sempre que era necessário raspar ou cortar qualquer coisa. Trouxe-a fechada na mão até ao pé da tela e voltou a ajoelhar-se.

Olhou ainda mais uma vez a tela e mais uma vez percebeu que sabia como acabá-la. Sabia o que faltava. Seria sem dúvida a sua melhor obra.

Abriu a navalha, cortou os pulsos sem hesitação e suspendeu-os à sua frente, à altura do peito, o sangue a derramar-se sobre a tela.

contar o conto

Seria fácil dizer que peguei numa faca, retalhei com ela o meu peito até o abrir, extraí o coração e atirei-o fora. Não que eu, como qualquer outra pessoa, não sentisse muitas vezes vontade de fazer isso. Não, tudo aconteceu de uma maneira diferente, contrária ao que eu esperava que viesse a acontecer.

Assim começa o conto de Doris Lessing, Como me livrei finalmente do meu coração, incluído numa antologia publicada pela Ulisseia com o título genérico de Um homem e duas mulheres, título de um dos contos incluídos. Mas o que me leva a escrever não é comentar o livro mas apenas este início, necessário para o desenrolar do conto, mas que não deixa de ser um falso início, e ainda mais necessário por isso mesmo, para despertar, desviar e de novo despertar a atenção do leitor. E lembrei-me de Júlio Cortazar quando dizia que se olhássemos para a primeira página de um conto, de um conto excelente, veríamos que nada aí estaria a mais. É o caso, e não será, penso eu, uma questão de pura técnica literária, mas a melhor forma que a autora encontrou para contar a sua história e nos manter presos a ela, porque, como dizia certo escritor amante do boxe, um romance ganha sempre aos pontos enquanto o conto tem de ganhar por knock out, e até os primeiros golpes, como este início que parece inofensivo, são já o preparar da derrota.