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Um poema de Sylvia Beirute - O Beijo de Rodin
O BEIJO DE RODIN
não quero fazer filhos
sobre desejos adicionais
e tardios, desejos sobre a tela tardia da tarde,
desejos sobre o azul infindável
de boas razões indesejáveis.
não quero desejos de desejos,
desejos que retiram desejo a desejos de
tempo raso
e de feitio de auto-pertença e
leves contradições sem alarme e gafanhotos.
não é em vão que
o beijo de rodin é de pedra.
Sylvia Beirute
inédito
Um poema de Sylvia Beirute - Poemoterapia
POEMOTERAPIA
este poema não é este poema.
este poema é sobre os efeitos secundários
deste poema.
assim, saberás guardar um segredo
se souberes guardar um silêncio,
andarás pela matriz
como se fosse a inteireza
do epílogo.
um outro sujeito poético
evocaria o arranjo
e a sombra.
a mim só me permito alertar
para o lustro do arranjo
e o uso da sombra,
e mandar todos os neuropoemas
para poemoterapia.
inédito
Um poema de Sylvia Beirute - Açúcar-matéria
AÇÚCAR-MATÉRIA
já ter acontecido:
à falta de um vício, ser-me proposto um exemplo
de não exemplo,
o projecto de ser uma mulher de açúcar,
e reverberar a personagem no meu rosto.
e nos anticorpos da pré-exibição
ver um piazzolla, um piazzolla também de açúcar
e uma composição instantânea, o tango
de uma escalada em condição de cristal.
sim, já ter acontecido, já ter acontecido muitas vezes:
sermos feitos de açúcar, porque
assim que a dança começa, piazzolla,
sempre os corpos desabam.
inédito
Música: Gotan Project
Um poema de Sylvia Beirute - Conoscenza
CONOSCENZA
{o teu reconhecimento é a tua dependência},
não o deixes passar da fase da costura.
surge. insurge. inespera.
adquire expressões através do
eco difuso dos vegetais, coloca-te
nas ranhuras da madeira.
há uma vida imprópria algures.
pode não ser como aquela que espera
na plumagem de uma memória
por antecipação, mas protege o silêncio
e não deixa coagular o sangue.
{o teu reconhecimento é a tua dependência},
e quanto mais o memorizares
mais afastado estarás
dos lados obtusos de quem te deseja habitar
e da semântica temporal
das pessoas que te pedirão um
poema bonito,
e nada pior do que escrever
um poema bonito.
inédito
Também postado [aqui]
Um poema de Sylvia Beirute - Desejo Infinitesimal
DESEJO INFINITESIMAL
{que horas eram quando o tempo acabou?}
{que horas eram quando deixaste de
poder reproduzir clandestinamente a explicação
da conclusão do desejo infinitesimal?}
{que horas eram quando a razão de espírito
substituiu a de ciência na ocupação do abraço?}
{que horas eram quando te adiantaste à felicidade
no dia que dilui
na percepção multiforme da multidão?}
{que horas eram quando a boca simulou
o silêncio com princípios aleatórios?}
{que horas eram quando deixaste que a alma
somasse corpos e subtraísse outros?}
{que horas eram quando viver era deixar morrer
e a solidão incomunicável?}
{que horas eram quando o tempo acabou?
que horas eram?}
inédito
Um poema de Sylvia Beirute - Exercícios Para os Olhos
EXERCÍCIOS PARA OS OLHOS
quem manda aqui é a biologia,
mas o sentimento incontrolável é aquele que se masturba.
eu apenas comecei o palco, síntese da arte, um
contra}actor contra o corpo.
cada corpo tem um deus, a sua estrutura de exibição
não encontra muita importância no texto inevitável.
{quem escreveu este texto? quem escreveu este texto
sem seios, ânus ou um pudor que os cubra?}
a estética de tal esconderijo, vejamos, é, eu diria, circunstancial,
circunstancial, aliás,como o esconderijo dos
olhos circuncidados do público atento aos
actores que tapam os espaços mas sobretudo aos
que tapam os tempos com os es}paços de partes
inexibidas e por isso, imaginadamente, universais.
{a lágrima final é uma morte fetal}, poderia {eu} per-
feitamente dizer nesta fala depois de uma deixa redundante,
mas fugiria ao texto e nunca devemos fugir ao texto, a menos
que tenhamos um outro. { } mas, de repente penso: {se tivesse
um bisturi e me matasse, quem duvidaria
de que tal não viesse no texto?}
inédito
Correspondência - um poema de Sylvia Beirute
CORRESPONDÊNCIA
{aos poetas contemporâneos do algarve}
para dizer {intemporal} digo {o infinito do tempo} ,
para dizer que {existe espaço} digo {vazio} ,
para dizer {passado} digo {o esqueleto do presente} ou
uso a sinédoque, estranhamente
mais exacta e rigorosa, {os seus ossos frágeis} ,
para dizer {cegueira} digo {a mera visão interior
com passos de tigre ao escuro} ,
para dizer {sacar verdades} digo {emitir um
certificado de existência poética}
para dizer que {sou} digo que {estou, ou estou por vezes},
para sentir {o anonimato contemporâneo dos outros poetas
que no jardim da alagoa passeiam os cães e fingem
não me ver} faço {assim com os ombros}.
para permanecer preciso de {usar as mãos}
e {estender todo o corpo nos lábios, ou entre sinónimos
e correspondências}.
Um poema de Sylvia Beirute - Premissa de Tempo
PREMISSA DE TEMPO
começo onde acabas, ou onde estás quase a terminar, ou ainda
onde já acabaste mas tens uma palavra a dizer.
começo onde acabas e acabo onde acabas ou numa
das outras hipóteses. } sou exígua e o meu tamanho
varia consoante as tuas premissas de tempo.
neste lugar a respiração é imaginada e assim queimada
pelo sol, o meu corpo assim apaziguado ouve uma
sombra exaustiva e perpétua como o outono caótico
dentro de um sonho infinito. um dia, quando atingirmos
o ponto zero, começaremos de novo a existir, sem que ninguém
comece ou acabe onde o outro comece ou acabe,
e, sobretudo, sem que haja palavras que falem.
inédito
Ilusões Conclusivas - um poema de Sylvia Beirute
ILUSÕES CONCLUSIVAS
talvez se descubra que aquilo
a que chamo "a miúda da paragem de autocarro, es-
perando o próximo, e que a levará
do jardim da alagoa até à praia" é
afinal a sinédoque de um passado que
do jardim da alagoa até à praia" é
afinal a sinédoque de um passado que
presentifica, na alma de outrem, um
sonho que recua. }
sonho que recua. }
não tarda e este objecto complexo
entrará num autocarro
entrará num autocarro
cheio de conclusões, ou melhor, de {ilusões
conclusivas}, e, assim que chegar à praia, fá-lo-á
conclusivas}, e, assim que chegar à praia, fá-lo-á
regressar realizado, volúvel e vazio. }
aí, a sua forma interior, tão escura quanto
a inconsciência miúda de um grito passivo,
assemelhar-se-á, tanto quanto possível e ressalvando
diferenças formais que só à Poesia dizem respeito,
ao seu conteúdo prévio.
aí, a sua forma interior, tão escura quanto
a inconsciência miúda de um grito passivo,
assemelhar-se-á, tanto quanto possível e ressalvando
diferenças formais que só à Poesia dizem respeito,
ao seu conteúdo prévio.
Página em Branco - um poema de Sylvia Beirute
PÁGINA EM BRANCO
{poema-resposta a um autor bloqueado}
saber existir uma página em branco,
e que a mesma já contém poesia,
é absolutamente necessário para se escrever
um poema.
escrever pode ser pura abstenção,
e o ponto supremo de se escrever bem pode ser,
e segundo a minha viciada experiência,
uma abstenção parcial.
{mas cuidado,
muito cuidado com as formigas que passam sobre a folha.}
inédito
Definições - um poema de Sylvia Beirute
DEFINIÇÕES
{então que é verdade que a definição se esgota no rosto
que é o seu rasto} e quanto maior o rasto, maior a /probabilidade/
de se esgotar, em maior número as escolhas {e dentro delas
as pessoas,} as pessoas que mudam, que ainda não sabem,
diferenciam, prescindem, imprescindem}. {eu} realmente
gostaria de dizer algo agora, {mas os dias são transfusões de dias},
de plasmar definições e, dentro delas, significados profundos, ousar
escrever as palavras {completidão} e {perfeitude}, tocar
no fulgor abstracto das histórias futuras, das radiações de um
abraço nas repetições tumefactas da espessa mudez, reconhecer
a transversalidade de todo o tempo. {e então que este princípio
de poema me diz que devo parar aqui, aqui onde um rasto não
começa, onde um significado não acaba, todas as definições estão
ainda encarceradas no seu primeiro infinito, onde uma bruma passa
no exacto momento em que os corpos abrem.}
inédito
Poema de aquecimento para uma longa noite de prosa - um poema de Sylvia Beirute
POEMA DE AQUECIMENTO PARA UMA LONGA NOITE DE PROSA
abraças-me e há naquele abraço o alívio de vinte anos sem saber sorrir
isa mestre
{a primeira hipótese é entre duas pessoas, tu e eu, haver um intervalo, e ser esse intervalo a única coisa que nos define, crescerem estradas que não começam, despir-se o tímpano de igualdades, ter-se perdido o efeito inverso do cansaço, sermos nós sem uma raiz.}
{a outra hipótese é instaurarem-me um processo poético, tablado de improvisos, irmos a vénus num ovni, por ser a minha consensualidade um rebanho de qualidades, e na tua perspectiva de poeta ser o céu uma folha de papel branca, a claridade esconder a escuridão, e estabelecer-se uma insaciabilidade do impossível.}
inédito
Um poema de Sylvia Beirute - Passageiro Frequente
PASSAGEIRO FREQUENTE
a vida precisa de justificar o sonho belo }
os sentidos são transmissíveis,
e apenas na simulação directa a estética é exterior.
quem quiser dobrar ao meio uma subtileza }
encontra uma sombra muito rígida,
um passageiro frequente no infinito de um nome }
regando esta abundância tão rente
com o caule desde a dialéctica do poema sem seios
ao instinto que respira pela aura dos pulmões,
{respiração que blinda a aura da alma azul-índigo}
inédito
Um poema de Sylvia Beirute - Paisagem
PAISAGEM
Escuto sem margens a melodia do rio. /
Na noite existe um canto líquido /
sementes que ardem nas línguas dos rouxinóis.
Catarina Nunes de Almeida
de desabrochamentos mutuamente interceptados:
a repercussão deste abraço não é tão intensa como
espremer uma laranja até à última gota, assim como
um beijo apenas despede um rosto de uma boca
ou uma boca de outra boca.
{bebo as cápsulas do tempo, o perfume está morno,
e estas palavras nascem da rouquidão do silêncio,
os olhos chicoteiam paisagens pálidas
e aqui discutimos como confiar no instinto
do que acabámos de inventar.
voz baixa: {e espreitando pela mentira vejo a verdade:
os lugares existem repetidamente
e consultam os mapas actualizados antes de acontecerem
uma e outra vez.}
voz alta (de novo, como principiou o poema):
{os poemas não são livres enquanto as suas palavras
o não forem.}
FALTAREI AO POEMA
A INDIVIDUALIDADE NUNCA É AUTÓNOMA
e tu podes, na mesma, escrever um poema, (é claro),
voz baixa de novo: {cuidado porque há mulheres dentro
de acepções ambíguas, e o sítio justo do significado
está-lhes na coxas escaladas
com os passos dos músculos do seu sorriso,
e as saídas estão justapostas a soluções, ainda
que sejam, claro está, coisas distintas}
voz alta (de novo e retoma a voz alta anterior, daí
a vírgula depois dos dois pontos) : , um poema
sobre a escuridão parda na vertigem dos anos,
um poema autenticado porque tu tens o dom de ter um nome,
um poema cuja tristeza entreversos
está {envolta em tristezura contra mundum.}
e então estará cada vez mais escuro
porque o avançar dos anos, sobre o
medo inadequado, é fundo e às vezes profundo,
e haverá sempre {um lugar instantâneo em cada destino
porque há uma consciência intrínseca e mínima
nos lugares que chegam
e uma terra onde plantar o rosto.}
Amor a Longa Distância - um poema de Sylvia Beirute
AMOR A LONGA DISTÂNCIA
{a alguém longe}
os contornos da lágrima {são} de água doce
e neles talvez tenham ficado vestígios de outros vestígios
{e a ideia, vã e estática, de que para amar
é necessária a perfeita capacidade de síntese}
e a solenidade geométrica de uma abstracção ficcional.
{ } haverá ainda nos contornos rígidos da lágrima
uma filosofia que gira com a luz profunda da compreensão
{formando} um ligeiro decote de sombra.
{um revólver espontâneo mas um tiro pouco lesto:
isto do amor a longa distância.}
Sylvia Beirute
inédito
Beirute - Um poema de Sylvia Beirute
BEIRUTE
levou tempo a desfazer-se das canções / que falavam do azul,
dos amores seus que tudo viam azul, do azul das moscas,
do sabão, dos lençóis às bolinhas e de cortesia,
de toda a poesia que sugere o azul.
Carmen Camacho
apenas verde. {há um leve azul escuro}. vermelho.
estilhaços de cor. {perspectiva}. perspectivadamente:
apenas uma manhã solitária em beirute. solitariamente
{quatro fragmentos de um caminho desfeito
despem as hastes do vento velho.}
o rosto é formado por: {pequenos círculos},
alguém o diz, assim que o outono indeciso
clama nas folhas dobradas { e no vapor longínquo
das nuvens demasiado rugosas { para os pensamentos
que correm nos dias de hoje. / apenas verde,
{um verde autêntico}. apenas vermelho, {estilhaços de}.
inédito
Um poema de Sylvia Beirute - Ars Poetica
ARS POETICA
já não temos de: expor janelas, deitar
a língua de fora, beber o vinho, dividir a morte pelos benefícios
de mundos íntimos impessoais}
chegámos a uma arte nova - {tantas experiências, tantos
fernandos pessoas, al bertos, tantas palavras
que querem dizer outra coisa}
escrevemos apenas o gosto, o oposto semi-assimétrico
do que pensamos}
{e o que pensamos é semi-assimétrico do que sentimos}
se pensamos na metafísica da poesia, escrevemos
que é a sua absoluta não edição e acrescentamos que os
sentimentos mais humanos carecem de saneamento básico.}
se pensamos numa flor arrancada } escrevemos que
sermos conhecidos é premir publicamente o gatilho;}
se pensamos no peso exterior da alma,} escrevemos
as saudades com ligeiros vales } e uns búzios para cima }
e um dilúvio que estanca no caroço
que é afinal um continente
de recordações não interligadas por uma emoção} .
depois deitamos um rugoso manto silenciador,
{na poesia praticamente tudo é silêncio}
esperamos a chuva } e alguém se lembrará de expor janelas,
{forçá-las} deitar a língua de fora {a colheita de saliva},
beber o vinho {sentir o pisar da uva no lagar}.
nesse momento perdemos a carne com a sua privação}
e um poema cresce avulso a partir da planta dos pés}
e atravessa a beira-mar do vulto, perdendo a sua proporção,
a energia fragmentária de uma visão de vida
fiel ao cilício gradual de um tempo
esteticamente passando } semi-ininterrupto de infinitos.
inédito
Um poema de Sylvia Beirute - O indirecto sentido de prestidigitação
O INDIRECTO SENTIDO DE PRESTIDIGITAÇÃO
todo o dia chove porque o todo o dia vive,
todo o esforço sofre porque vence }
vencer é uma forma futura de frustração
e talvez eu { hoje } me desate toda
até ao indirecto sentido de prestidigitação.
{ }
na sala de espera dos olhos baixos
acontece {um inverno estóico} e um deva-
neio tarda em atingir-{me} o organismo fundamental.
todo o dia chove e diz que a história sempre
nos livrou do presente que erra de bibe azul.
{ }
quando envaidecem {as palavras fecham}
e com elas o significado por extenso de parte
de um ideal sub-humano:
perda, esquecimento, anonimato fortuito.
Infra-realismo - um poema de Sylvia Beirute
INFRA-REALISMO
vou ao café somente para recordar o amor},[neste momento despossuo
vanguardas ou retaguardas]
um amor infra-realista,
amor até à última das consequências,
um amor que desconhece
que o que importa de facto
não é a última das consequências
mas a última das causas}
com as escoriações dos seus ecos
ainda na voz } os nervos das mãos
museificados sobre a boca inaugurada
de um cadáver estreante, peço trémula, de-
vagar e docemente:
uma água e um café,
Sylvia Beirute
inédito
Spaciba - um poema da poetisa algarvia Sylvia Beirute
SPACIBA
plantar de novo } o que ainda cresce,
nada divido } que tenha fome.
o que tem fome é auto-curativo,
o que é auto-curativo } cresce.
o que cresce é a divisão do tempo
pelo espaço } crescer em espaço
é uma boa ideia } crescer em tempo
é morrer }. plantar de novo
o que ainda cresce } é preferir um início
a um outro, hipotético, ameno, pouco
ameno, violento, auspicioso, de fidúcia }.
alguém me pisa as estrelas temporárias }
e nas algibeiras os dedos
parecem um veleiro sem segurança }.
planto-me de novo e a esta poesia
que urra sem olhos }. nada divido } não divido
a primavera como um todo
por onze jardins imaginários }.
vivo, afinal de contas vivo }. e uma navalha
corta fatias de sono e envia para as estrelas }.
o todo-sono assemelha-se a uma barra
de sésamo e mel rica em fibras,
cada bocado cortado corresponde a um sonho,
e as estrelas são os seus dormitórios póstumos.
depois morro por ser poético e adormece o dia }
e spaciba, spaciba, alguém diz,
sem noção de que {para continuar a crescer
sempre é preciso plantar-se de novo.}
inédito
fotografia de Miguel Apolinário
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