Um poema de Tiago Nené - Poetria




















POETRIA


[aos que ainda acreditam nas palavras]

e chegar
a duas conclusões precipitadas e antagónicas,
simetricamente válidas e
inválidas, equidistantes em corrida para os lados.

no meio as palavras que já partiram,
uma frase,
a dramédia de um sorriso casto.

talvez alguém goste de poesia
e o interprete como um verso adolescente.

Tiago Nené
inédito

Um poema do poeta espanhol Manuel Arana


















INVESTIGAÇÃO FILOLÓGICA


Um dia destes chamo-te
E gastamos um momento para fazer amor.
A ver se é verdade isso que dizia Cernuda
De que os corpos fazem um ruído muito triste
Quando se amam.

Manuel Arana
in Adolescencia dos poemas hormonados
Tradução de Tiago Nené

Um poema de Tiago Nené - Soon in Tokyo













soon in tokyo


todo este momento é equívoco.
soon in tokyo - desculpa.
todos fazem os seus limites,
simplificam - simplificar
é uma forma de erro.
condicionam,
destinam espaços a tempos,
tempos a espaços.
e eu diria que prenunciam
destinos perfeitos
p/ coisa imperfeitas.
soon in tokyo - eu leio,
tu lês, ele lê,
assemelhados à alma,
trémulos de gritos,
alegres de tristeza.
soon in tokyo - este
momento é um equívoco,
os invisíveis ainda tentam
desaparecer.

Tiago Nené
inédito

O Fim da Revista Minguante





É pena este fim da Revista Minguante. Tive a honra e o privilégio de ter participado duas ou três vezes, e vai certamente deixar saudades. Registo a transparência e honestidade intelectual dos seus autores ao deixarem a janela aberta relativamente ao futuro, e não houve daqueles textos lamechas de despedida em que se invoca a mulher e os filhos relativamente ao tempo despedido. Não creio que esta gente tenha partido porque precisa de regressar, que precisem de se fazer notar ao forçar um adeus. Mas talvez regressem um dia. Oxalá isso aconteça. Por agora, deixo o meu muito obrigado por tudo.

Mais [aqui]

[tn]

Chevalier de Pas - Um poema de Tiago Nené




















CHEVALIER DE PAS


surpreende-me que o digas,
que a eternidade apaga o tempo,
que eu seja um segredo de mim mesmo
[pas de tout]
que esperas uma só palavra na frase
e me peças que desenhe
agora o tempo num zepellin de chuva.
[je vous emprie]
talvez desenhe o tempo num zepellin sim,
ou nas tisanas da ana ou
no fim de um mundo de beleza íntima,
preciosa, e não livre.
[je vais trop vite]
talvez faça nascer o que ainda não morreu,
talvez sim, talvez ainda me surpreenda
o que dizes - tens um corpo exterior público -
talvez me mude
para uma cidade com o teu nome,
talvez te ligue, me deite fogo, cante,
talvez a surpresa seja a maior verdade,
talvez, sim, a eternidade apague todo o tempo.
[merci, j'espere, merci bien]

Tiago Nené

inédito

Um poema de Emily Dickson - Seja Quem For
















seja quem for


sem quem for que desaponte
uma só alma humana
por fracasso ou falta de respeito
é culpado de tudo.

tão sem malícia quanto um pássaro
tão gráfico quanto uma estrela
até ao sugestivo sinistro
as coisas não são o que são.

Emily Dickinson
(tradução de Tiago Nené)

imagem: Sara Holt

Psicose no metro.



Inalo parado,
Restos do perfume
Que deixaste.
Fermento-o na minha
Consciência doentia,
Lembro-me de ti.
Por vezes sinto-o,
O meu corpo,
Deslocando-se por
Entre uma espiral
Sem fim e que me
Nauseia os sentidos.

Tomo o café,
Visto o terno,
Saio à rua.

Apático.
Confuso.
Pontual…
Aguardo preso
Numa inquietude
De espaço comum,
Pelo metro que não chega.

Consumo
Cigarros de ideias
Enterradas e mergulho
Calado num plano
De realidade virtual.

Ânsia,
Desespero,
Saudade…

Sentado num banco
De agonia, procuro
Impaciente por ti.
Investigando nas dezenas,
Talvez milhares, de faces
Femininas que se estendem
Pelo corredor depressivo
Do metro.
Procuro sinais de ti.

Olhos,
Bocas,
Testas,
Corpos,
Tiques…

Tons,
Nas vozes de anónimas
Que, desconhecendo o real
Valor da tonalidade, a desvalorizam,
Gastando-a em clichés de
Diálogos sem sabor…

Nada.
O metro chega.
O silêncio ganha forma.
Os corpos perdem-se
E todas as faces se vão,
Levando consigo o
Aglomerado de esperança
Arquitectada na minha
Cabeça.

Levanto-me
E, num compasso
De lentidão, entrego-me
Ubíquo e
Doente,
A uma carruagem
De recordações.

E é numa cadeira
Vandalizada que encontro
Alguma paz,
Partilhando com ela
A carência de um
Fragmento que nos
Afasta de quem somos.

E nas janelas,
Interrompendo a escuridão
Dos túneis,
Emerges…
Expeles sarcasmo,
Sorrindo para mim.
Talvez por,
Nem no âmago
Da minha loucura,
Te ter conseguido encontrar
Quando queria…

Marcas

Ensinaste-me aquilo que mais amo na vida.
Devo-te isso.
Devo-te a primeira palavra a beijar suavemente o papel,
O primeiro verbo a fazer cócegas na barriga da vida,
O primeiro sorriso e o primeiro verbo em que pude ser eu.
Devo-te todas as coisas que me chegaram ao coração sem destino nem destinatário.
Devo-te um sorriso. Um dia repleto de sorrisos.

Isa Mestre

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O Guarda- Costas do Presidente

Guardava-lhe a vida,
diziam.
Desafiaria os limites pela figura breve e séria,
pelo rosto sisudo e olhar nobre.

Guardava-lhe o corpo repleto de cicatrizes que ninguém via,
que ninguém poderia ver.
Testemunhos de uma dor silenciosa,
de um punhado de lágrimas furiosamente enterradas no sepulcro do tempo.

Guardava-lhe a seriedade e as decisões sóbrias,
os erros e os fracassos.

Guardava-lhe a vida,
diziam.

O que eles não sabiam é que na verdade o que ele melhor lhe guardava era a alma.
A alma que sorria quando chorava e chorava quando sorria.


Isa Mestre

Metropolitano - um poema de Tiago Nené














METROPOLITANO


[aos que sabem ouvir]

no metropolitano do ouvido
o ritmo da minha inconsciência:
os subúrbios do poema que são mais seguros,
o desperdiçar de sentimentos
nas complicações de uma velha
identidade, um método ludovico,
o centro de uma cidade que anda
sobre o seu congestionamento.
[uma nova carruagem chega
com destino ao braço esquerdo

e a uma acção simples].
creio que ouvir pode ser falar com o ouvido,
e falar com o ouvido pode ser devolver
totalmente esse sentido.
finalmente oiço o grito de munch,
é encorpado, com textura de sílex,
eternamente velho num ventre de silêncio,
e não enterra quaisquer lamentos.
[uma nova carruagem chega, sem destino].
fecho os meus olhos.

Tiago Nené
inédito

Letal

photo by: Maria Negreiros



Perguntaste-me se queria morrer.
- Não sei.
Respondi-te.

Há forma de saber se queremos morrer?
Perguntei-te.

Sorriste.
-Podia levar-te,
Retorquiste.
- Mas a tua inocência dá-me vontade de rir.


Isa Mestre

Bosques a arder















Levo flores desfeitas.
Dou-tas.

O acto de receber activa
explosões de cor,
vivas divergências cromáticas que
acentuam o caos tumoral
que se ramifica e nos sorve.

Somos duas maçãs presas
a árvores lancinantes de pressa,
construídas ao acaso
pelo livre arbítrio do homem.

(acto contínuo, choras
lágrimas calcificadas,
pareces uma estátua zangada com os pombos)

Sem medidas,
somos todos os dias flores,
agrestes sentimentos calvos.
Velhos que se redundam,
que coxeiam e são agraciados
pela nossa comiseração
(máscara da denúncia à inutilidade)

Adriano Narciso

Essencial

photo by: thiagovga

Olhas-me.
Jamais poderás entender que não sou o que escrevo nem escrevo o que sou.
Procuras-me os sentidos,
Anseias desvendar-me uma alma repleta de sonhos perdidos e amores ancorados.

Concentra-te.
Olha-me uma vez mais:
Feita do mesmo material que tu,
Da mesma matéria que sorri e chora,
Que fere e sabe ferir.

Nada mais que isso,
Tão ridícula e tão só como tu,
Afinal, como todos nós.

Campanha - um poema de Tiago Nené















CAMPANHA


o candidato não deve preocupar-se
com certas questões,
são quinze dias terríveis,
e isto não é uma equipa de futebol.
aqui não há artistas e ainda temos
uma lacuna no terreno: não conhecemos
nem a ti maria, nem o zé bois,
nem boa parte da população
de risco ao h1n1
e possivelmente resistente ao tamiflu.
precisamos de mais gente,
e o voluntariado está difícil nos dias de hoje.
aqui todos têm opiniões,
[o mandatário projecta-se
dentro de si mesmo,
por entre o silêncio que antes
lhe esculpiu as feições]

há uma técnica de comando e controlo,
um yin e um yang,
e temos uma auto-estima muito prodigiosa,
fortemente disciplinados quanto
à delegação de competências
e dinâmica de grupo.
por isso não entendo
como é possível
passar-se à noite
de carro pelo concelho

e ver-se o candidato a colar os cartazes.

Tiago Nené
in
Comédia

(a sair em 2012)

Fantasma.



Espreito por entre
Um rio vermelho
Que é sangue
E tristeza e choro.
Um quente que adorna,
Escorrendo pela incerteza
De um fantasma de escárnio
Escondido…

E espreito, olhando
Toda essa mágoa ao espelho,
Onde encontro pedaços
De um conhecido
Que ainda sorri ao longe
Uma lembrança
Do ser que foi,
Ao mesmo tempo
Que soluça um e num
Presente doentio,
Como o gesto
Que o pintou.

Na berma da cama
Pingam cores numa
Só, que é a que cobre
O chão do mesmo.
E no metal, que é
Da faca, ficam
As breves memórias,
Na história
De um momento
Que se irá, quando
O fantasma se perder
Do conhecido
E ficar apenas fantasma…

Ausência, poema para ler devagar


















Os gatos dormem,
etéreos como borboletas em almofadas;
ervas que nascem no céu e
pendem,
tocam-nos na testa como chuva
de fogo
que arde
quando arrefece na pele
da consciência

Quando morrem pessoas
as ervas crepusculares nascem
da sua memória,
descem até nós,
roubam-nos água dos olhos e

A pessoa torna-se telúrica -
e todos os rios, todo o chão,
são ela
e são dela
todos os risos e choros e olhos
porque,
quando nos morre uma pessoa
ela desce e cai em nós

Adriano Narciso

Um gato
















Gato na foto: Abacaxi

Asas

Olhas-me serenamente, no mais profundo de ti existe a palavra. A única palavra, talvez a mais verdadeira. Dizes-me,
- É complicada a língua portuguesa,
E de súbito desvias o olhar para qualquer outra coisa que momentaneamente te faça esquecer o motivo que te trouxe aqui.
Sorris-me. Durante instantes penso se te deveria sorrir também,
- (é complicado entender o coração),
Apetece-me dizer-te.
Pronuncias apenas mais um par de palavras às quais não dou nem saberei como dar o devido destino. O meu olhar perde-se no semáforo da avenida.
Há anos que a tua intermitência me recorda um semáforo continuamente avariado. Há anos que finjo poder consertá-lo, há anos que evito colisões frontais.
Dizes,
- Desculpa.
E a palavra a cair cá no fundo. Tão oca, tão breve, tão só. A única, talvez a mais verdadeira…
É complicada a língua portuguesa.
Como dizer-te sem usar palavras que não posso e não quero perdoar-te? Como dizer-te sem ferir-te os sentidos que sou apenas mais um animal feroz a quem foram roubadas as garras?
- Sim, tudo bem.
Depois beijo-te, levanto-me e vou para onde me guiarem os pés, que são, por vezes, apenas asas comandadas à velocidade furiosa de um coração inundado pela dor.