Pergunto-te:
Quem são eles?
E os teus olhos vidrados, perdidos, às vezes baços.
Algumas vezes falo-te de amor,
Outras de medo.
Perguntaste-me um dia se eram sinónimos,
E eu na minha linguística de desordem não soube que dizer-te.
Escrevo-te para esclarecer-te,
Para esclarecer-me.
Antes de ti, eu pensava que amor era apenas o amor,
A palavra,
O sentido que nos ensinam na escola e que demoramos toda uma vida a entender,
Depois, entendi que o amor eram todas as coisas,
que o amor era perder-me de tudo e encontrar-me apenas em ti,
perder-me do que sou e vir até aqui simplesmente para dizer-te :
Sim, o amor é também o medo.
O amor é sobretudo o medo.
Isa Mestre
Página em Branco - um poema de Sylvia Beirute
PÁGINA EM BRANCO
{poema-resposta a um autor bloqueado}
saber existir uma página em branco,
e que a mesma já contém poesia,
é absolutamente necessário para se escrever
um poema.
escrever pode ser pura abstenção,
e o ponto supremo de se escrever bem pode ser,
e segundo a minha viciada experiência,
uma abstenção parcial.
{mas cuidado,
muito cuidado com as formigas que passam sobre a folha.}
inédito
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Definições - um poema de Sylvia Beirute
DEFINIÇÕES
{então que é verdade que a definição se esgota no rosto
que é o seu rasto} e quanto maior o rasto, maior a /probabilidade/
de se esgotar, em maior número as escolhas {e dentro delas
as pessoas,} as pessoas que mudam, que ainda não sabem,
diferenciam, prescindem, imprescindem}. {eu} realmente
gostaria de dizer algo agora, {mas os dias são transfusões de dias},
de plasmar definições e, dentro delas, significados profundos, ousar
escrever as palavras {completidão} e {perfeitude}, tocar
no fulgor abstracto das histórias futuras, das radiações de um
abraço nas repetições tumefactas da espessa mudez, reconhecer
a transversalidade de todo o tempo. {e então que este princípio
de poema me diz que devo parar aqui, aqui onde um rasto não
começa, onde um significado não acaba, todas as definições estão
ainda encarceradas no seu primeiro infinito, onde uma bruma passa
no exacto momento em que os corpos abrem.}
inédito
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Última Chamada
Recordo que hoje vou estar no Pátio de Letras para apresentar o último livro editado em Portugal do poeta espanhol Santiago Aguaded Landero, Sortilégio de Silêncio.
Mais tarde, no dia 4 de Novembro, na Biblioteca António Ramos Rosa, em Faro, apresentarei Tamujal, o último livro do poeta Ivo Machado.
Tiago Nené
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Poema de aquecimento para uma longa noite de prosa - um poema de Sylvia Beirute
POEMA DE AQUECIMENTO PARA UMA LONGA NOITE DE PROSA
abraças-me e há naquele abraço o alívio de vinte anos sem saber sorrir
isa mestre
{a primeira hipótese é entre duas pessoas, tu e eu, haver um intervalo, e ser esse intervalo a única coisa que nos define, crescerem estradas que não começam, despir-se o tímpano de igualdades, ter-se perdido o efeito inverso do cansaço, sermos nós sem uma raiz.}
{a outra hipótese é instaurarem-me um processo poético, tablado de improvisos, irmos a vénus num ovni, por ser a minha consensualidade um rebanho de qualidades, e na tua perspectiva de poeta ser o céu uma folha de papel branca, a claridade esconder a escuridão, e estabelecer-se uma insaciabilidade do impossível.}
inédito
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O Princípio da Distância - um poema de Tiago Nené
O PRINCÍPIO DA DISTÂNCIA
[a Sylvia Beirute]
poesia é a arte, metafísica, de escavar as palavras
e encontrar outras palavras
e escavar estas palavras e encontrar outras
palavras.
foi assim que escrevi o teu corpo
e escavando as suas palavras encontrei outras
palavras
que diziam ser a outra metade da solidão a esperança
e os nossos corpos
o princípio da distância.
inédito
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Um poema de Sylvia Beirute - Passageiro Frequente
PASSAGEIRO FREQUENTE
a vida precisa de justificar o sonho belo }
os sentidos são transmissíveis,
e apenas na simulação directa a estética é exterior.
quem quiser dobrar ao meio uma subtileza }
encontra uma sombra muito rígida,
um passageiro frequente no infinito de um nome }
regando esta abundância tão rente
com o caule desde a dialéctica do poema sem seios
ao instinto que respira pela aura dos pulmões,
{respiração que blinda a aura da alma azul-índigo}
inédito
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Um poema de Sylvia Beirute - Paisagem
PAISAGEM
Escuto sem margens a melodia do rio. /
Na noite existe um canto líquido /
sementes que ardem nas línguas dos rouxinóis.
Catarina Nunes de Almeida
de desabrochamentos mutuamente interceptados:
a repercussão deste abraço não é tão intensa como
espremer uma laranja até à última gota, assim como
um beijo apenas despede um rosto de uma boca
ou uma boca de outra boca.
{bebo as cápsulas do tempo, o perfume está morno,
e estas palavras nascem da rouquidão do silêncio,
os olhos chicoteiam paisagens pálidas
e aqui discutimos como confiar no instinto
do que acabámos de inventar.
voz baixa: {e espreitando pela mentira vejo a verdade:
os lugares existem repetidamente
e consultam os mapas actualizados antes de acontecerem
uma e outra vez.}
voz alta (de novo, como principiou o poema):
{os poemas não são livres enquanto as suas palavras
o não forem.}
FALTAREI AO POEMA
A INDIVIDUALIDADE NUNCA É AUTÓNOMA
e tu podes, na mesma, escrever um poema, (é claro),
voz baixa de novo: {cuidado porque há mulheres dentro
de acepções ambíguas, e o sítio justo do significado
está-lhes na coxas escaladas
com os passos dos músculos do seu sorriso,
e as saídas estão justapostas a soluções, ainda
que sejam, claro está, coisas distintas}
voz alta (de novo e retoma a voz alta anterior, daí
a vírgula depois dos dois pontos) : , um poema
sobre a escuridão parda na vertigem dos anos,
um poema autenticado porque tu tens o dom de ter um nome,
um poema cuja tristeza entreversos
está {envolta em tristezura contra mundum.}
e então estará cada vez mais escuro
porque o avançar dos anos, sobre o
medo inadequado, é fundo e às vezes profundo,
e haverá sempre {um lugar instantâneo em cada destino
porque há uma consciência intrínseca e mínima
nos lugares que chegam
e uma terra onde plantar o rosto.}
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sylvia beirute
Amor a Longa Distância - um poema de Sylvia Beirute
AMOR A LONGA DISTÂNCIA
{a alguém longe}
os contornos da lágrima {são} de água doce
e neles talvez tenham ficado vestígios de outros vestígios
{e a ideia, vã e estática, de que para amar
é necessária a perfeita capacidade de síntese}
e a solenidade geométrica de uma abstracção ficcional.
{ } haverá ainda nos contornos rígidos da lágrima
uma filosofia que gira com a luz profunda da compreensão
{formando} um ligeiro decote de sombra.
{um revólver espontâneo mas um tiro pouco lesto:
isto do amor a longa distância.}
Sylvia Beirute
inédito
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Beirute - Um poema de Sylvia Beirute
BEIRUTE
levou tempo a desfazer-se das canções / que falavam do azul,
dos amores seus que tudo viam azul, do azul das moscas,
do sabão, dos lençóis às bolinhas e de cortesia,
de toda a poesia que sugere o azul.
Carmen Camacho
apenas verde. {há um leve azul escuro}. vermelho.
estilhaços de cor. {perspectiva}. perspectivadamente:
apenas uma manhã solitária em beirute. solitariamente
{quatro fragmentos de um caminho desfeito
despem as hastes do vento velho.}
o rosto é formado por: {pequenos círculos},
alguém o diz, assim que o outono indeciso
clama nas folhas dobradas { e no vapor longínquo
das nuvens demasiado rugosas { para os pensamentos
que correm nos dias de hoje. / apenas verde,
{um verde autêntico}. apenas vermelho, {estilhaços de}.
inédito
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Um poema de Sylvia Beirute - Ars Poetica
ARS POETICA
já não temos de: expor janelas, deitar
a língua de fora, beber o vinho, dividir a morte pelos benefícios
de mundos íntimos impessoais}
chegámos a uma arte nova - {tantas experiências, tantos
fernandos pessoas, al bertos, tantas palavras
que querem dizer outra coisa}
escrevemos apenas o gosto, o oposto semi-assimétrico
do que pensamos}
{e o que pensamos é semi-assimétrico do que sentimos}
se pensamos na metafísica da poesia, escrevemos
que é a sua absoluta não edição e acrescentamos que os
sentimentos mais humanos carecem de saneamento básico.}
se pensamos numa flor arrancada } escrevemos que
sermos conhecidos é premir publicamente o gatilho;}
se pensamos no peso exterior da alma,} escrevemos
as saudades com ligeiros vales } e uns búzios para cima }
e um dilúvio que estanca no caroço
que é afinal um continente
de recordações não interligadas por uma emoção} .
depois deitamos um rugoso manto silenciador,
{na poesia praticamente tudo é silêncio}
esperamos a chuva } e alguém se lembrará de expor janelas,
{forçá-las} deitar a língua de fora {a colheita de saliva},
beber o vinho {sentir o pisar da uva no lagar}.
nesse momento perdemos a carne com a sua privação}
e um poema cresce avulso a partir da planta dos pés}
e atravessa a beira-mar do vulto, perdendo a sua proporção,
a energia fragmentária de uma visão de vida
fiel ao cilício gradual de um tempo
esteticamente passando } semi-ininterrupto de infinitos.
inédito
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sylvia beirute
Um poema de Sylvia Beirute - O indirecto sentido de prestidigitação
O INDIRECTO SENTIDO DE PRESTIDIGITAÇÃO
todo o dia chove porque o todo o dia vive,
todo o esforço sofre porque vence }
vencer é uma forma futura de frustração
e talvez eu { hoje } me desate toda
até ao indirecto sentido de prestidigitação.
{ }
na sala de espera dos olhos baixos
acontece {um inverno estóico} e um deva-
neio tarda em atingir-{me} o organismo fundamental.
todo o dia chove e diz que a história sempre
nos livrou do presente que erra de bibe azul.
{ }
quando envaidecem {as palavras fecham}
e com elas o significado por extenso de parte
de um ideal sub-humano:
perda, esquecimento, anonimato fortuito.
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sylvia beirute
Sobre a sessão de poesia Texto}al de Sexta
Foi muito interessante a sessão de poesia no Draculea, organizada por este bar e pelo Texto}al. Cedo a organização deu lugar à improvisação e os autores, eu, Tiago Nené, a Isa Mestre e o Adriano Narciso viram-se à volta de uma mesa central (com a guitarra de José Banza), à luz de velas, copos na mão (caipirinhas, martinis e algumas bebidas não alcoólicas), recitando poemas a duas ou três vozes, com sobreposição de versos, e saídas do texto original. A sala esteve composta, apesar de não inicialmente, houve alguma resistência por parte do público, até percebermos que dedicar alguns poemas a pessoas que o integravam seria uma estratégia interessante para as conquistarmos. Gostei muito da experiência e será repetida muito em breve, espero.
Na sessão foram lidos poemas de: Adriano Narciso, Duarte Temtem, Isa Mestre, Tiago Nené, Sylvia Beirute e Joana Dias Antunes.
O texto}al agradece ao Valter Ego e à Úrsula, do Draculea Bar, o convite que nos foi endereçado.
[tn]
Chuva de Verão.
Cai uma combativa
Chuva, num verão
De morte nos céus
E de sombras nuas
Nas ruas.
Estão mudas.
Vestem a razão
Das horas,
Perdendo-se
Na sua ausência.
Corro pelos
Labirintos cilíndricos
Das tabernas,
Rolando na incerteza
De um palpite,
Ou vários.
E com o aroma
Do vinho ou, do
Que a minha ignorância
Não me deixa dizer que seja,
Camuflo o cheiro
Que de ti ainda
Me resta.
Vagueio como
Um cretino sem nome,
Queimando vingança
Nas palavras de quem
As diz como quero ouvi-las.
Em análogos encontros
Onde estranhos se cruzam
Inconscientes de si mesmos
E partilham a sua única crença:
- A vida não presta.
Bebo,
Saio,
Entro,
Bebo
E volto a sair.
E toda a beleza das coisas
Se encontra nas sábias mãos
Dos velhos que jogam
Cartas como se o mundo
Acabasse amanhã.
Os seus cabelos brancos
São afinal mais claros
Do que a minha alma
E, num dia vestido
De um cinzento que se mexe,
Em quem mais poderia acreditar?...
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Pedro Rodrigues,
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