menarca

entre as ancas de um livro,
cem mãos sem dedos escrevem a vermelho mênstruo
a venérea ausência de cristo.
a ferida exacta.
o acto de rasgar,
tão perfeitamente desesperado,
é o sustento de um guião vascular para os lúcidos.
a criação suicida.
há quem não entenda as vocações terminais.
as ruínas fundadoras de homens.
a beleza incompleta,
em procissão de vinho pelas pernas,
invade-me a boca como forma de (a)deus.
só então me venho,
ali,
no cúmulo dos tecidos transactos
e estradas tolhidas,
celebrando a ilegal distribuição de vivos
por talvegues maternos atados ao parto
(para nem sempre respirar).
há quem não entenda as vocações terminais.
como infectar de amor a cadência líquida
da tua ascensão a árvore.
(imagem: pintura de Hieronymus Bosch)
Voz - um poema de Isa Mestre
Dói-me a tua ausência.
Queria dizer-te que quando o Outono acabar, saberei já como amar-te,
Saberei já como abraçar-te e dizer-te que tive saudades do teu sorriso,
Saberei já como apertar-te contra o peito e olhar-te sem demora.
Porém, hoje, não poderia escrever-te para que voltasses,
Os poetas não escrevem,
Sussurram.
Os poetas não suplicam,
Amam.
Os poetas nunca partem, e talvez nunca deixem partir.
Os poetas não são poetas, na verdade.
São vozes.
E é com a tua voz que te escrevo. A tua voz que grita dentro de mim.
(-Fica. Sinto-me só).
E eu fico, sentado a escrever. Então, ficamos os dois.
Sentados a escrever.
Isa Mestre
Queria dizer-te que quando o Outono acabar, saberei já como amar-te,
Saberei já como abraçar-te e dizer-te que tive saudades do teu sorriso,
Saberei já como apertar-te contra o peito e olhar-te sem demora.
Porém, hoje, não poderia escrever-te para que voltasses,
Os poetas não escrevem,
Sussurram.
Os poetas não suplicam,
Amam.
Os poetas nunca partem, e talvez nunca deixem partir.
Os poetas não são poetas, na verdade.
São vozes.
E é com a tua voz que te escrevo. A tua voz que grita dentro de mim.
(-Fica. Sinto-me só).
E eu fico, sentado a escrever. Então, ficamos os dois.
Sentados a escrever.
Isa Mestre
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Isa Mestre; Poesia
Infra-realismo - um poema de Sylvia Beirute
INFRA-REALISMO
vou ao café somente para recordar o amor},[neste momento despossuo
vanguardas ou retaguardas]
um amor infra-realista,
amor até à última das consequências,
um amor que desconhece
que o que importa de facto
não é a última das consequências
mas a última das causas}
com as escoriações dos seus ecos
ainda na voz } os nervos das mãos
museificados sobre a boca inaugurada
de um cadáver estreante, peço trémula, de-
vagar e docemente:
uma água e um café,
Sylvia Beirute
inédito
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poema,
sylvia beirute
Spaciba - um poema da poetisa algarvia Sylvia Beirute
SPACIBA
plantar de novo } o que ainda cresce,
nada divido } que tenha fome.
o que tem fome é auto-curativo,
o que é auto-curativo } cresce.
o que cresce é a divisão do tempo
pelo espaço } crescer em espaço
é uma boa ideia } crescer em tempo
é morrer }. plantar de novo
o que ainda cresce } é preferir um início
a um outro, hipotético, ameno, pouco
ameno, violento, auspicioso, de fidúcia }.
alguém me pisa as estrelas temporárias }
e nas algibeiras os dedos
parecem um veleiro sem segurança }.
planto-me de novo e a esta poesia
que urra sem olhos }. nada divido } não divido
a primavera como um todo
por onze jardins imaginários }.
vivo, afinal de contas vivo }. e uma navalha
corta fatias de sono e envia para as estrelas }.
o todo-sono assemelha-se a uma barra
de sésamo e mel rica em fibras,
cada bocado cortado corresponde a um sonho,
e as estrelas são os seus dormitórios póstumos.
depois morro por ser poético e adormece o dia }
e spaciba, spaciba, alguém diz,
sem noção de que {para continuar a crescer
sempre é preciso plantar-se de novo.}
inédito
fotografia de Miguel Apolinário
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poema,
sylvia beirute
Excerto da vida de um poeta 'standard', aquele que se farta de sofrer quando escreve alguma coisa
"Leio um poema e quero parar de escrever. É tudo uma grande farsa. É tudo um mito sofrer como se sofre num poema, num coração. Fôssemos todos santos e continuava a ler poemas. Mas não. Poemas já não leio. E depois estão bem escritos!
Por isso desisti de ser poeta. Desisti de falar de ti. Ou da outra. Ou de alguém que não conheço sequer. Desisti de estar a pensar em rimas internas, em aliterações que acentuem uma ideia. Desisti do poema. Já não quero ser poeta. Já não quero acordar e ter de apontar num bloco sujo do dia-a-dia o meu primeiro pensamento. De me deitar e apontar uma última frase que inicie uma estrofe. Desisti disso tudo, desse nada que é a poesia."
É como se eu mentisse de uma forma bonita/ e o lesado aplaudisse/chocado, lacrimejante,/ depois de me ouvir. Há na poesia um tanto de rebeldia/ por só se usar parte de uma página/ e um muito de egocentrismo/ por se pensar que os outros se preocupam com o estado do nosso coração,/pelos nossos sentimentos.
Por isso desisti de ser poeta. Desisti de falar de ti. Ou da outra. Ou de alguém que não conheço sequer. Desisti de estar a pensar em rimas internas, em aliterações que acentuem uma ideia. Desisti do poema. Já não quero ser poeta. Já não quero acordar e ter de apontar num bloco sujo do dia-a-dia o meu primeiro pensamento. De me deitar e apontar uma última frase que inicie uma estrofe. Desisti disso tudo, desse nada que é a poesia."
A poesia-cebola está démodé
Adriano Narciso
Acto II - um poema de Sylvia Beirute
ACTO II
{ao Adriano Narciso porque}
Quando morrem pessoas / as ervas crepusculares nascem
Quando morrem pessoas / as ervas crepusculares nascem
da sua memória, / descem até nós,
roubam-nos água dos olhos
roubam-nos água dos olhos
só depois do corpo todos os actos são livres}
alguns eternamente livres}
outros sempre o foram} alguns não inteiramente}
outros, nascituros, nascem}
alguns, concepturos, regressam}
talvez um outro corpo nasça através
da prisão-corpórea do acto}
talvez um acto iniciado e não consumado {e depois exaurido}
ajude à continuação de um início paralelo.
mas talvez só o último acto seja livre e ainda caminhe magro
num caminho infinito e itinerante} depois da
respiração mordida } da hélice do coração -
{depois do corpo
como todos os actos intensamente livres.}
inédito
fotografia de Paulo César
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poema,
sylvia beirute
Pretérito Imperfeito
Lembras-me as velas
que ardem e
deixam cera de licor na pele:
um mar rúbeo de
tochas submersas como
sereias
Lembro-me
das vezes em que éramos
génese de romance de cordel
e os dias eram peça de teatro sem actos
E lembro-me
de o amor ser dogma
e o sol a encher e vazar
como onda ininterrupta entre duas praias.
Agora há só um quarto azul-baço
uma cadeira caída, cama desfeita.
as palavras são
perenes monólogos néscios
sem a metafísica das palavras que jurámos
E o poema sem sereias é apenas matéria.
Adriano Narciso
que ardem e
deixam cera de licor na pele:
um mar rúbeo de
tochas submersas como
sereias
Lembro-me
das vezes em que éramos
génese de romance de cordel
e os dias eram peça de teatro sem actos
E lembro-me
de o amor ser dogma
e o sol a encher e vazar
como onda ininterrupta entre duas praias.
Agora há só um quarto azul-baço
uma cadeira caída, cama desfeita.
as palavras são
perenes monólogos néscios
sem a metafísica das palavras que jurámos
E o poema sem sereias é apenas matéria.
Adriano Narciso
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adriano narciso,
poema
Um poema de Leonard Cohen - Soube de um Homem
Soube de um Homem
soube de um homem
que pronunciava as palavras de forma tão bela
que se ele dissesse os seus nomes,
as mulheres se lhe entregariam.
e se não faço sentido ao lado do teu corpo
enquanto o silêncio floresce como um tumor nos teus lábios,
é porque ouvi um homem subir as escadas
e limpar a sua garganta do lado de fora.
Leonard Cohen
em Let Us Compare Mythologiestradução inédita de Tiago Nené
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poema
Momento - um poema de Isa Mestre
foto de: Nuno BaptistaEla sorri, ele pergunta-lhe o preço.
Por momentos faz-se silêncio.
O frio, o medo, a solidão.
O mesmo frio, o mesmo medo, a mesma solidão.
O dela que tão nua e tão breve se esconde por detrás das palavras banais,
E o dele que perdido de si julga poder encontrar-se no corpo inócuo de uma mulher.
Há naquele silêncio o espaço de duas vidas entrecortadas:
os amores perdidos, as palavras soltas, os sonhos ancorados.
Há todas as coisas que eles quiseram amar e não puderam,
Todos os verbos que eles quiseram escrever e não conseguiram.
Depois das palavras ditas,
Ele olha-a com ternura,
Não lhe interessa com que corpo vai dormir,
Pensa apenas em aconchegar-lhe a alma,
Chegar-lhe ao coração.
Isa Mestre
Por momentos faz-se silêncio.
O frio, o medo, a solidão.
O mesmo frio, o mesmo medo, a mesma solidão.
O dela que tão nua e tão breve se esconde por detrás das palavras banais,
E o dele que perdido de si julga poder encontrar-se no corpo inócuo de uma mulher.
Há naquele silêncio o espaço de duas vidas entrecortadas:
os amores perdidos, as palavras soltas, os sonhos ancorados.
Há todas as coisas que eles quiseram amar e não puderam,
Todos os verbos que eles quiseram escrever e não conseguiram.
Depois das palavras ditas,
Ele olha-a com ternura,
Não lhe interessa com que corpo vai dormir,
Pensa apenas em aconchegar-lhe a alma,
Chegar-lhe ao coração.
Isa Mestre
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Isa Mestre; Poesia
Homem-relógio
As horas passando
giram os ponteiros do relógio com
força magnânima de deus sobre um mundo.
Passamos pelas horas como um autista pela vida
com a semi-consciência de que temos poder para viver.
O tempo é uma
facada
global
na carne;
tira-nos da pele a puerilidade
exangue dos baloiços fugazes,
beijos corados entre aulas.
E tudo são memórias, e somos elefantes que as concentram na barriga.
Adriano Narciso
giram os ponteiros do relógio com
força magnânima de deus sobre um mundo.
Passamos pelas horas como um autista pela vida
com a semi-consciência de que temos poder para viver.
O tempo é uma
facada
global
na carne;
tira-nos da pele a puerilidade
exangue dos baloiços fugazes,
beijos corados entre aulas.
E tudo são memórias, e somos elefantes que as concentram na barriga.
Adriano Narciso
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adriano narciso,
poema
Uivos de Zoo

quando és o insecto com o ventre para o céu
quando estás farto de espernear e desistes
quando vês enfim a terra girar à tua volta
e só tu estás parado no momento único
--quando vês nos teus pés uma correia
quando bates as asas e não voas
quando estás exposto num poleiro
quando a tua natureza está agrilhoada
e ouves dizer que nasceste em cativeiro
--e sabes da memória dos tempos do brilho da liberdade
duma época sem fronteiras onde se batem as asas
onde cada um é cada um e cada um é deus
valoroso e admirável ser único
--algo que apenas intuis
vem de noite, por favor
e corta-lhe as correntes
prefere morrer na natureza viva
a viver na jaula de sua neurose.
--
Ju
Arrivederci
O silêncio tem destas coisas,
Lembra-nos a morte.
Olhamo-nos ainda sem saber que podemos dizer,
Sem saber ao certo que palavras escaparam à censura do coração.
Dizes-me,
- Vou ter saudades tuas.
Sorrio-te.
Abraçamo-nos.
Nunca nos abraçáramos antes.
Queria dizer-te que me fará falta a tua voz,
A tua teimosia,
A tua ternura e o teu altruísmo.
Não digo nada.
Perco-me na multidão,
Esbato-me nos rostos dos passageiros apressados,
Nos sorrisos a disfarçar lágrimas profundas,
Nos acenos de mão que quiseram tantas vezes ser abraços.
Esbato-me na multidão e esqueço-me que existes,
Que existimos,
Que podemos ainda vir a existir.
Isa Mestre
Lembra-nos a morte.
Olhamo-nos ainda sem saber que podemos dizer,
Sem saber ao certo que palavras escaparam à censura do coração.
Dizes-me,
- Vou ter saudades tuas.
Sorrio-te.
Abraçamo-nos.
Nunca nos abraçáramos antes.
Queria dizer-te que me fará falta a tua voz,
A tua teimosia,
A tua ternura e o teu altruísmo.
Não digo nada.
Perco-me na multidão,
Esbato-me nos rostos dos passageiros apressados,
Nos sorrisos a disfarçar lágrimas profundas,
Nos acenos de mão que quiseram tantas vezes ser abraços.
Esbato-me na multidão e esqueço-me que existes,
Que existimos,
Que podemos ainda vir a existir.
Isa Mestre
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Isa Mestre; Poesia
Salmo 32 - um poema de Sylvia Beirute

SALMO 32
na perspectiva do poema
o poeta não é mais
do que uma barriga de aluguer.
Sylvia Beirute
imagem de José Ferreira
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poema,
sylvia beirute
Soldado
Creio na incredulidade com que me olhas.
Acredito ainda que não sabes o fim,
Que não o adivinhas por detrás dos olhos baços e do sorriso que em tempos acreditaste ser tudo o que existia.
Esperas a palavra,
O momento,
Esperas a crueldade de um conjunto de actos que te permita ser quem realmente és,
Que te permita soltar todos os verbos amarrados por esperas inúteis e sonhos ancorados.
Fazes uma pausa.
Deixas-me respirar.
Esperas o recomeço de um final há muito adiado.
O pano abre-se,
A cena recomeça.
Novamente actor principal,
Perco-me das palavras,
Desisto dos sonhos,
Alisto-me no exército da coragem e sorrindo digo-te,
- Algum dia chegaria o fim.
Abraças-me e há naquele abraço o alívio de vinte anos sem saber sorrir.
Isa Mestre
Acredito ainda que não sabes o fim,
Que não o adivinhas por detrás dos olhos baços e do sorriso que em tempos acreditaste ser tudo o que existia.
Esperas a palavra,
O momento,
Esperas a crueldade de um conjunto de actos que te permita ser quem realmente és,
Que te permita soltar todos os verbos amarrados por esperas inúteis e sonhos ancorados.
Fazes uma pausa.
Deixas-me respirar.
Esperas o recomeço de um final há muito adiado.
O pano abre-se,
A cena recomeça.
Novamente actor principal,
Perco-me das palavras,
Desisto dos sonhos,
Alisto-me no exército da coragem e sorrindo digo-te,
- Algum dia chegaria o fim.
Abraças-me e há naquele abraço o alívio de vinte anos sem saber sorrir.
Isa Mestre
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Isa Mestre; Poesia
Monarquia Interina - um poema de Sylvia Beirute

MONARQUIA INTERINA
/ lembrei-me de lembrar-te às quatro / lembrei-me que haverá todo o material humano para que o resto / suplante o todo, /
para que não haja palavras fora de erros, para que me saiba escrever.
/ autenticamente as coisas acontecem, lembrei-me de lembrar-te às quatro,
e a minha apólice não o cobre - { o silêncio das ruas dói no ouvido}.
{/ as coincidências são abrigos de cansaço, uma confissão inadvertida rompe o fio condutor,
as perguntas custam dinheiro}
/ lembrei-me de lembrar-te às quatro, fugi e, nas saudades irreconciliadas com o corpo,
ficou todo o rasto do esquecimento.
/ e dentro do medo as mão suam, / e hoje às quatro / lembrei-me de lembrar-te.
Sylvia Beirute
inédito
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poema,
sylvia beirute
O último encontro.

Sinto-me frágil. Não é fácil escrevermos quando estamos frágeis. Apenas o eco das tuas palavras na minha cabeça. Apenas a ressonância que te neguei naquele cerrado mês de Agosto, quando pensando que já te tinha esquecido, me fizeste perder novamente de mim com as tuas dúvidas ternas e a tua confiança acutilante.
Estavas sentada numa cadeira, olhando-me nos olhos e te distanciando deles. Num estar de corpo presente, num estar de querer somente confirmar quem de nós dois era o mais confiante. Talvez fosses tu. Talvez sejas sempre. Sempre pequei por pensar em demasia...
«Ouvi dizer que os escritores passam por um período difícil quando sofrem por amor», disseste, em tons do que me pareceu ser orgulho.
«Não sei… Mentiria se não te dissesse que tive um pequeno bloqueio após nos separarmos, mas foi efémero e saudável pois catapultou-me para outra realidade, ajudando-me a construir coisas novas e diferentes.» Respondi, completamente ciente de que nada daquilo era verdade, uma verdade que só era tangível na profundidade de mim mesmo, onde a mente perde o controlo dos sentidos e a apatia nos engole a alma.
Sim, os escritores ficam paralisados quando sofrem por amor. E ficam amedrontados pelo futuro enquanto aguardam sem vontade por ele, escondidos num lugar onde o mundo se esvai em cinzas antes do fogo ter mostrado a sua ira. Sim, os escritores revivem o passado, dentro de si próprios, de hora a hora, cronometrados por um relógio cruel chamado de saudade. Sim, eles sofrem e choram o seu sofrimento. Eles camuflam-se na escuridão da noite, fiéis à convicção de que desse modo, a sua tristeza não será vista.
Eles passam por aquilo a que tu chamaste de "período difícil" e que eu, como escritor do meu próprio destino, não tive a bravura necessária para o admitir…
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Pedro Rodrigues,
Prosa
Salmo 33 - um poema de Sylvia Beirute

SALMO 33
morrer, principalmente de amor, é
uma compendiosa tarefa doméstica
Miguel-Manso
uma compendiosa tarefa doméstica
Miguel-Manso
{mo/
rrerei com o parentesco em falta,
com um poema de virgílio marinando
na orla das pupilas, no sol estendido na memória. mo/
rrerei com uma pálpebra convulsiva no descansar
vivo de uma distância entrelaçada
sob o incêndio de uma continuação que estica.}
{há sempre um bouvard e um pécuchet
nas nossas vidas, porque há sempre
um flaubert pronto a criá-los / para odiá-los.}
{morrerei no lugar de outros porque
a sua morte rica me enriquece a amnésia
que se recorda do pânico exausto de
uma distribuição aleatória de ossos após o facto.}
{mo/rrerei com a tristeza contente, as repetições
erectas e frias, a beleza tingida pelas notas
do piano.}
Sylvia Beirute
inédito
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poema,
sylvia beirute
Ad eternum
Queria que este poema fosse para ti.
Mesmo que não o ouvisses,
Mesmo que não pudesses lê-lo,
Mesmo que a escuridão e o medo te fizessem esquecer quem sou.
[Queria que este poema fosse para ti.]
Mesmo que as palavras estivessem gastas e que os gestos se cansassem de sorrir,
Mesmo que fizesse frio e a solidão te gelasse os sentidos.
[Queria que este poema fosse para ti.]
Mesmo que eu já não estivesse.
Mesmo que te escrevesse de qualquer outro lugar. Mesmo que te sorrisse. Mesmo que te amasse sem nunca te poder amar.
Isa Mestre
Mesmo que não o ouvisses,
Mesmo que não pudesses lê-lo,
Mesmo que a escuridão e o medo te fizessem esquecer quem sou.
[Queria que este poema fosse para ti.]
Mesmo que as palavras estivessem gastas e que os gestos se cansassem de sorrir,
Mesmo que fizesse frio e a solidão te gelasse os sentidos.
[Queria que este poema fosse para ti.]
Mesmo que eu já não estivesse.
Mesmo que te escrevesse de qualquer outro lugar. Mesmo que te sorrisse. Mesmo que te amasse sem nunca te poder amar.
Isa Mestre
Categorias:
Isa Mestre; Poesia
da ausência (III)
Como pérolas enterradas;
garfos presos por fios inextinguíveis à garganta;
nós em mesas lascivas / naturezas mortas que resfolegam;
tecnocratas a lápis e papel.
Cego
passeio à beira-rio
primavera húmida em flor:
lírios escamados de guelra, rio-manta que os afoga;
o negro sensorial dos
olhos turvos
tacteia a água-filha
que escorre pelos dedos
como areia na ampulheta
O rio passa.
E as mãos recolhem ao leito
desmesurado e eterno
das sombras
Adriano Narciso
garfos presos por fios inextinguíveis à garganta;
nós em mesas lascivas / naturezas mortas que resfolegam;
tecnocratas a lápis e papel.
Cego
passeio à beira-rio
primavera húmida em flor:
lírios escamados de guelra, rio-manta que os afoga;
o negro sensorial dos
olhos turvos
tacteia a água-filha
que escorre pelos dedos
como areia na ampulheta
O rio passa.
E as mãos recolhem ao leito
desmesurado e eterno
das sombras
Adriano Narciso
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adriano narciso,
poema
Nouvelle Cuisine - um poema de Sylvia Beirute

NOUVELLE CUISINE
{nada tenho a oferecer-te. /
permanecer hoje intacta
é a unidade de medida
do meu braço cortando a cebola. /
a vida real é darwiniana, sabes,
e é impossível regressar-se
à mesma felicidade.
por outro lado, os alimentos parecem
também eles regressar:
a carne ao javali, o arroz - oryza glaberrima -
aos campos de áfrica,
o molho desfez-se, /e o seu vazio e cheiro
inundaram os músculos
que certificavam a distância.
restou uma cebola / e estas palavras.
por favor, pôe a mesa.}
Sylvia Beirute
inédito
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poema,
sylvia beirute
Correio de guerra
Com o fumo adocicado, travo a uma dor velha
todos os peões ao centro do tabuleiro.
Cada um carrega nos ombros o pesado ego:
deixai-o cair no chão de pedra como lastro...
--
e soltando a mão dos duros ossos
moldar em argila um ventre suave
lugar seguro, nunca mais.
--
talvez se desatem todos os nós duma só vez
e o laço da forca se torne uma suave carícia
cicatriz no caminho de terra, visto de longe.
--
ou então acordas e ainda chovem lágrimas
o vento do norte transporta a tempestade.
--
Ju
Epicentro
Perguntaste-me,
- Há quanto tempo não escreves?
Sorri.
Por dentro: o frio, o medo, a dor, talvez a tristeza.
Não sei.
Um incêndio a deflagrar em pleno inverno,
Uma borboleta presa nas mãos de uma criança,
Um terramoto com epicentro aqui, mesmo aqui.
Aqui onde nasço e morro todos os dias.
Aqui onde me disfarço sem que percebas,
Onde choro com lágrimas invisíveis e sorrio com palavras breves.
O sismógrafo cada vez mais agitado,
O coração a querer morrer, lentamente, nessa valsa de amor e ódio,
E depois disto, só as palavras, apenas as palavras.
(- Sinto-me vazia.)
E o ar a encher-se novamente de parágrafos sem que consiga agarrar nenhum deles.
Isa Mestre
- Há quanto tempo não escreves?
Sorri.
Por dentro: o frio, o medo, a dor, talvez a tristeza.
Não sei.
Um incêndio a deflagrar em pleno inverno,
Uma borboleta presa nas mãos de uma criança,
Um terramoto com epicentro aqui, mesmo aqui.
Aqui onde nasço e morro todos os dias.
Aqui onde me disfarço sem que percebas,
Onde choro com lágrimas invisíveis e sorrio com palavras breves.
O sismógrafo cada vez mais agitado,
O coração a querer morrer, lentamente, nessa valsa de amor e ódio,
E depois disto, só as palavras, apenas as palavras.
(- Sinto-me vazia.)
E o ar a encher-se novamente de parágrafos sem que consiga agarrar nenhum deles.
Isa Mestre
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Isa Mestre; Poesia
Um poema de Sylvia Beirute - é só um filtro o amor ou rápidas cancelas

É SÓ UM FILTRO O AMOR OU RÁPIDAS CANCELAS
é só um filtro o amor ou rápidas cancelas
é só a sede ou incapacidade de unir pingos de chuva
é só um rosto ou uma face que derrama rostos
é só um sonho ou resistência à realidade
é só uma relação ou mútua obediência
é só um jantar ou um tempo que coze ao lume
é só uma distância ou chopin ao fundo
é só um azul escuro ou um inverno verde
é só um abraço ou um braço à volta do maple
é só uma ideia ou consciência livre
é só um amigo ou um bicho de estimação
é só o suor ou precipício de um nervo andrógino
é só uma variável ou um tempo inoportuno
é só a morte ou algo que mata para fora
é só um eco ou já não caibo no meu nascimento
é só uma estrada ou o resto de uma vida.
Sylvia Beirute
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sylvia beirute
Da tradução da Poesia - Tiago Nené
a função de traduzir é como que tocar no esqueleto do poema.
Tiago Nené
Tiago Nené
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tiago nené
A ausência planta-nos ciprestes

A ausência
planta-nos ciprestes
em torno dos
prados renascentistas vetustos
que eram presença verosímil de alguém
em volta tudo é negro fúnebre.
Tudo se resume à constância extasiada de
lápides cinzentas granitadas sem
epitáfios de memórias salvadoras;
e corvos enchem o céu e cobrem o
sol morto de penas pretas cintilantes como
espelhos.
E um dia de ausência é um ano,
século de ermita em gruta,
Zaratustra sem filosofia que console,
sem sol que seque lágrimas descendentes
rios que percorrem olhos lacustres e desaguam em bocas oceânicas
O sonho voa alto
morre e renasce como fénixes
mas no fim há chama e pó. E os
olhos,
obstinados como religiões no século XXI,
buscam na ausência do corpo
o paraíso da carne.
Adriano Narciso
Pintura: Absence de Rod McRae
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adriano narciso,
poema
Um poema de Sylvia Beirute - Sophia Loren, Beleza de Ferro

SOPHIA LOREN, BELEZA DE FERRO
afinal isto é um clássico / eu sou a sophia loren
de vestido branco, alta mas ténue ao espaço.
hoje, sinto-me rude face ao tempo,
o tempo é uma casa de horas
que, com os inquilinos no interior, ainda se constrói.
- e faz barulho / muito barulho,
há pedreiros e carpinteiros dentro da minha beleza de ferro,
pessoas suando - ninguém poderia imaginar.
{e o tempo rápido é o único que homenageia}.
ocorre-me que se não acreditar no meu passado,
o meu futuro não acreditará neste momento.
e decido deixar todos os filmes paralelos à vida,
africa sotto i mari, la ciociara, etc etc.
retiro camadas de infinito do corpo,
o ferro funde-se, e sou humana de novo.
Sylvia Beirute
inédito
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poema,
sylvia beirute
Um poema de Sylvia Beirute - Sinédoque

SINÉDOQUE
é sempre a pequena parte que ama /ama um todo.
nesse todo é a sua pequena parte
que ama / ama um todo.
dois todos não se amam mutuamente,
excepto com as suas pequenas partes.
contudo, as pequenas partes
amam sem se amarem,
cada uma ama um todo, sem distinguir
quaisquer pequenas partes.
a parte que ama nunca é
expressamente amada.
amar um todo é amar / nada.
Sylvia Beirute
inédito
imagem de Sérgio Guerra
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sylvia beirute
Apatia

Apatia.
O sangue não flui,
Os músculos não ondeiam,
Os ossos não colidem
Na verdade dos conceitos.
Apatia.
De dentro,
Apenas o também silêncio
Da seiva coagulada.
Apenas as cãibras esboçando
Um esforço freneticamente ingrato.
Apenas o cálcio esbranquiçado e desgastado,
Lutando bravamente para
Se separar da carne.
Apatia.
Os sons ornam-se a si mesmos.
Afiguram pirâmides de ecos
Que triangulam sem sentido
Algum, senão o seu próprio sentido.
Os cheiros…
Meros desconhecidos
Que pelo anonimato perdem
A vaidade do que são.
Apenas o tacto subsiste,
Teimando em querer comprovar
Que o que a mão eleva
À boca é uma maçã.
O sangue não flui,
Os músculos não ondeiam,
Os ossos não colidem
Na verdade dos conceitos.
Apatia.
De dentro,
Apenas o também silêncio
Da seiva coagulada.
Apenas as cãibras esboçando
Um esforço freneticamente ingrato.
Apenas o cálcio esbranquiçado e desgastado,
Lutando bravamente para
Se separar da carne.
Apatia.
Os sons ornam-se a si mesmos.
Afiguram pirâmides de ecos
Que triangulam sem sentido
Algum, senão o seu próprio sentido.
Os cheiros…
Meros desconhecidos
Que pelo anonimato perdem
A vaidade do que são.
Apenas o tacto subsiste,
Teimando em querer comprovar
Que o que a mão eleva
À boca é uma maçã.
Porque os olhos enganados
Crêem ver uma 9 mm
Destravadamente pronta
A disparar.
Bum!
Tic-Tac...
Tic-Tac…
Tic-tac…
E os ecos volvem
Crêem ver uma 9 mm
Destravadamente pronta
A disparar.
Bum!
Tic-Tac...
Tic-Tac…
Tic-tac…
E os ecos volvem
Solitários na direcção
Dos ponteiros,
Onde estagnam,
Até se soltarem
Novamente, cheios do seu sentido...
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Pedro Rodrigues,
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Onze Palavras - um poema de Sylvia Beirute

ONZE PALAVRAS
quisera
crer o amor escondido no porta-malas do cérebro, uma res-
posta que ainda pergunta /diminuem as sombras com as palavras/ e lá uma re-
tribuição para além do recebido:
os sentidos são o correio do corpo.
quisera crer que ligaria, claro, mais tarde, às onze e meia,
às onze e meia em ponto, com onze,
onze palavras mornas e a síntese do não - convergências,
e a antítese do sim - divergências,
frias como um cartão de crédito
entre os dedos de um homem que procura um útero
onde possa derrotar-se.
Sylvia Beirute
Sylvia Beirute nasceu em Faro, no ano de 1984, e nunca publicou. Este poema é um exclusivo do Texto-al, que aqui publicamos com a devida autorização.
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